Como
a imaginação radical pode nos salvar das estruturas de opressão
Em um
continente marcado pelas cicatrizes da espoliação colonial e pelas constantes
tentativas de coerção imperialista, a disputa pela memória e pela narrativa é
uma trincheira política fundamental. Se o mainstream cultural e as
plataformas globais frequentemente capturam as potências estéticas do Sul
Global para transformá-las em mercadoria pasteurizada, a riqueza da imaginação
latino-americana resiste nas margens. É nessa interseção entre o resgate das
lutas históricas e a invenção de novas formas de linguagem que a literatura
independente reafirma sua vocação radical: a de não apenas denunciar as
estruturas de opressão, mas de imaginar outros mundos possíveis.
LEIA A
ENTREVISTA:
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Existe um fio invisível que une as inquietações sociais,
políticas e estéticas dos países da América Latina — das pautas de gênero e
direitos humanos às memórias coloniais até as novas formas de fazer quadrinhos
e literatura. Ao colocar o Brasil no centro dessa conversa, qual é o retrato do
nosso continente que a Kipuka está ajudando a desenhar através dos seus livros?
Livia
Almendary - O desejo de criar uma editora surgiu justamente quando morei em
Buenos Aires, lá pelos idos de 2008. Na época, cursava o Mestrado em Literatura
e Cultura Latino-americanas na UBA. Fui ficar uns meses por conta dessa pós, e
acabei ficando quatro anos, mas abandonei a academia e mergulhei nas traduções,
na militância nos chamados bachilleratos populares, nas tertúlias e
outras cenas culturais ligadas principalmente à literatura. O mercado
editorial brasileiro naquele momento era bem diferente e fiquei muito
impressionada com o que rolava ali no vizinho: as feiras de livros em praças e
parques, a quantidade de editoras pequenas de muitos tipos, as livrarias de rua
que são também editoras e espaços culturais, os saraus, a profusão de pessoas
de outros países da América Latina trabalhando e estudando. Um caldeirão
cultural de pessoas vindas de países falantes de espanhol do qual, não só pelo
idioma, mas também por outras questões políticas, o Brasil não fazia tão parte,
pelo menos no âmbito da cultura. E naquele momento me perguntei: por que não há
tanto intercâmbio de música, cinema e literatura entre o Brasil e os outros
países da América Latina?
É uma
pergunta retórica, claro, e a resposta não é simples. No campo da literatura,
por exemplo, a produção latino-americana que tinha maior visibilidade por aqui
ainda era muito associada aos grandes autores do boom. Na música,
artistas que circulavam enormemente e com shows massivos em outros países da
região tinham uma presença muito pequena no Brasil – como a banda
porto-riquenha Calle 13, ou mesmo o Cerati e sua Soda Stereo, que representavam
algo muito distinto para a América de língua espanhola e para nós; um baile de
cumbia estava longe de ter o apelo que tem hoje em certos circuitos culturais
brasileiros. Isso mudou bastante nos últimos dez, quinze anos. O Brasil vem se
aproximando mais desses circuitos, na verdade tem iniciativas políticas mais
institucionais como o Mercosul Cultural na década de 90, mas tem outras coisas…
a criação de uma universidade federal como a Unila, mais intercâmbios
universitários, festivais de cinema e literatura que dialogam entre nossas
fronteiras, traduções e editoras interessadas em fazer os livros circularem
dentro da própria região. Também estamos mais presentes em feiras de livros
importantes, como as de Guadalajara, Buenos Aires, Bogotá. Acho que hoje
participamos desse ecossistema de maneira mais orgânica, embora ainda muito
aquém do que poderíamos; sabemos que ainda há inúmeras barreiras, a língua bem
ou mal ainda é uma delas, assim como os custos e a logística, a descontinuidade
das políticas de integração e uma tradição cultural ainda muito mediada pela
Europa e pelos Estados Unidos. Tudo isso para contextualizar que, hoje, nosso
cenário editorial é bastante diferente de quando comecei a pensar na Kipuka, e
nossa relação cultural com outros países da América Latina também vem se
transformando. Fala-se, por exemplo, em um “novo boom” de autoras
hispano-americanas, cuja circulação no Brasil tem sido impulsionada por
projetos editoriais dedicados à tradução e à descoberta de outras vozes da
região. Esse interesse não se restringe à literatura, está, por exemplo, na projeção
global de artistas como Bad Bunny e Shakira, na expansão do reggaeton e da
cumbia e na transformação de obras como Cem anos de solidão e O
eternauta em grandes produções audiovisuais.
Claro
que essas mudanças também estão relacionadas às lutas que se dão aqui, de povos
historicamente marginalizados a racializados que vêm conquistando visibilidade,
direitos, apesar das idas e vindas políticas do continente. E isso acaba
configurando uma tensão: em que medida essa crescente valorização da cultura
latino-americana no cenário mais mainstream fortalece os ecossistemas culturais
da própria região e em que medida extrai deles autores, repertórios e estéticas
para alimentar plataformas e grandes conglomerados globais? A Kipuka
chega nesse terreno mais fértil, construído por iniciativas que há algum tempo
reconhecem essa ambivalência, trabalham para ampliar e fortalecer a diversidade
do campo editorial com essa perspectiva crítica latino-americana, e de Sul
Global. É a partir desse legado de quem veio antes, e ainda movida por aquela
inquietação inicial, embora com questões um pouco diferentes, que estamos
construindo o caminho da Kipuka. E é por isso que buscamos, na curadoria,
não simplesmente “aproximar o Brasil” desse contexto – quantas vezes nos
referimos à América Latina sem incluir o Brasil, como se a gente estivesse
fora? – mas disputar a própria imagem que temos do continente. E os livros do
catálogo (poucos ainda, mas virão outros nessa toada!) fortalecem a perspectiva
de que essa imagem é plural, contemporânea, atravessada por deslocamentos e
conflitos, e também por muita invenção estética.
·
O ineditismo das obras publicadas pela Kipuka, abordando
temas contemporâneos, é um dos pontos altos da editora. O catálogo também
promove um diálogo constante entre a literatura, as artes visuais e a
performance. De que forma se dá essa curadoria tão atenta aos atravessamentos
entre diferentes linguagens e temas?
LA -Acho
que a curadoria na Kipuka acontece menos por uma lista prévia de temas (apesar
de termos uma lista! rs) e mais por perguntas como: o que este livro poderia
trazer de diferente nesse assunto, e qual o trabalho de linguagem para que isso
aconteça? Nos interessa muito quando forma e conteúdo são inseparáveis, quando
um livro encontra uma maneira própria de narrar aquilo que quer colocar no
mundo.
Projeto
Desandar,
da Beatriz Cruz, nosso primeiro título, nasceu exatamente nesse lugar. É uma
obra que vem da intervenção urbana e da performance e que, ao se tornar livro,
vai além de documentar uma experiência anterior, e encontra uma forma editorial
para continuá-la. A publicação ganhou um formato de coleção, reunida em um box,
cujos volumes propõem diferentes formas de interação e leitura. E por ter
várias facetas – fotografias e propostas de derivas urbanas, registros sonoros
acessíveis por QR Code, diário, relatos eróticos –, oferece diferentes portas
de entrada e acaba chegando a leitores muito distintos, seja do campo das artes
ou não. Isso foi bastante fundador para a Kipuka, inclusive porque nos colocou
desde o começo diante da pergunta sobre o que um livro pode ser. O segundo
título, “Quadrinhos, diversidade e insurgência”, é um projeto original da
editora em parceria com o projeto Mina de HQ, e propõe um mergulho na cena dos
quadrinhos do ponto de vista da diversidade. Ensaios, memória, entrevistas,
indicações de leitura e uma antologia de quadrinhos convivem em uma mesma
publicação, permitindo múltiplos percursos de leitura. Esse livro inclui ainda
tirinhas inéditas no formato impresso (originalmente publicados nas redes da
Mina) e um pôster encartado com a ilustra da capa. Ver e não ver a
Palestina, de Ana Gebrim e Marie-Caroline Saglio-Yatzimirsky, nosso título
mais recente, aborda um tema urgente e sobre o qual não faltam livros no
mercado. Mas o que ele tem de diferente? Parte, sobretudo, da psicanálise e se
constrói no encontro com a antropologia, a história, o cinema, a literatura, o
teatro, as artes visuais e uma multiplicidade de referências que ajudam a
pensar aquilo que, muitas vezes, parece escapar à possibilidade de
representação. E essa perspectiva, de múltiplas referências (que chamamos de
“biblioteca de aliados” no fim do livro, com as referências comentadas),
determina também a própria forma desse texto.
Não há
uma narrativa linear nem a pretensão de oferecer uma explicação totalizante
sobre a Palestina, ainda que o posicionamento contra o genocídio e a
perspectiva antisionista sejam explícitos.
A
escrita avança por cenas, imagens, memórias, conceitos, obras e associações.
Daí a ideia de “ensaio em fragmentação” e o diálogo com a palavra árabe ashlâ’,
que significa fragmentos, restos, pedaços, inclusive restos de corpos. A
fragmentação, portanto, não é um recurso estético aplicado posteriormente ao
texto; ela nasce do próprio problema que o livro enfrenta, que é a dificuldade
de narrar uma realidade estilhaçada pela violência sem reconstruí-la
artificialmente como narrativa totalizante ou fechada. Há, ainda, outra
dimensão da curadoria, ligada à construção de um catálogo de perspectiva
latino-americana. Tentamos encontrar autoras e autores que permitam estabelecer
relações mais diretas entre diferentes contextos da região.
Não
volte,
por exemplo, traz, pela primeira vez ao Brasil, a obra do argentino Leonardo
Tarifeño, radicado no México. É uma crônica jornalística construída a partir da
experiência de pessoas deportadas dos Estados Unidos para Tijuana; combina
escuta, investigação, documentação histórica e reflexão sobre migração,
fronteiras e direitos. Não cabe muito bem na prateleira de livro-reportagem,
nem em nenhuma outra. Ler esse livro é se aproximar de histórias de vida que
muitas vezes são mencionadas como estatísticas. Abominamos a postura política
de Trump em relação à imigração e a abominamos ainda mais quando nos
aproximamos de quem vive na pele as consequências dela.
Queima, por sua vez,
apresenta ao público brasileiro Ariadna Castellarnau, escritora catalã que
viveu durante anos em Buenos Aires. Foi lá que seu primeiro romance foi
publicado, em 2015, e depois reconhecido com o prêmio internacional Las
Américas. Seu segundo livro, publicado na Espanha, receberia anos mais tarde o
Grand Prix de l’Imaginaire, na França. É uma trajetória interessante porque
embaralha um pouco aquela ideia de um fluxo de legitimação mais
tradicional. Para o ano que vem, temos no forninho uma coedição com uma
editora chilena, com essa vontade de fortalecer vínculos na região por projetos
conjuntos. Esse trânsito entre fronteiras também pode gerar intercâmbio e
colaboração com outras editoras, de forma mais direta. Já temos alguns exemplos
muito legais por aqui nesse sentido, esperamos contribuir para que se
multipliquem. Agora pensando nisso que acabei de dizer e olhando para o
futuro que desejo para a Kipuka, talvez o fio da curadoria esteja aí: buscar
livros que unem forma e conteúdo e, ao mesmo tempo, pensar o catálogo como uma
rede de relações entre linguagens, territórios, autores, artistas, tradutores,
editoras e leitores.
·
Aproveitando o gancho: como nasceu o projeto original do
livro em celebração aos 10 anos da Mina de HQ, concebido e encabeçado pela
editora?
LA - Esse
projeto, nosso segundo título, é muito significativo na trajetória da editora.
Nasceu de uma conversa com a Gabriela Borges sobre os dez anos da Mina de HQ,
plataforma da qual Gabi é fundadora e coordenadora. A Mina construiu, ao longo
da última década, um trabalho muito importante de pesquisa, crítica, divulgação
e formação em torno da produção de quadrinhos feitos por mulheres e pessoas
trans no Brasil. E nos pareceu que o aniversário de 10 anos da iniciativa, em
2025, era uma oportunidade de celebrar essa trajetória e ao mesmo tempo
produzir uma reflexão sobre o que mudou na cena em relação à diversidade, na
última década.
A ideia
do livro veio daí. Mas, desde o início, não queríamos fazer simplesmente algo
comemorativo ou uma retrospectiva dos dez anos. A proposta foi pensar a Mina
como uma espécie de ponto de partida para olhar para transformações mais amplas
no campo dos quadrinhos: quem produz, quem publica, quem faz curadoria,
crítica, quais histórias passam a ser contadas, que debates surgiram e que
redes foram construídas nesse período. Foi um projeto encabeçado editorialmente
pela Kipuka, mas construído de forma muito coletiva com a Gabriela Borges e a
Dani Marino, que assinam a organização e a autoria da maioria dos textos, além
da curadoria da antologia de quadrinhos que o livro traz. O pré-lançamento foi
na CCXP de 2025, edição em que Gabriela também foi homenageada pela trajetória
da Mina.
A capa
do livro é algo à parte, adoramos: é uma ilustração original da Helô D’Angelo
pensada exclusivamente para o projeto, que reúne quadrinistas brasileiras de
todos os cantos do país, suas personagens e seus livros (se olhar de perto,
você verá que as capas dos livrinhos existem mesmo), na lombada estão as
autoras. O pôster encartado é essa ilustração. Nessa mesma toada, no fim do
livro tem um listão inédito com mais de 250 quadrinistas mulheres e trans para
conhecer. Não é uma lista exaustiva, se propõe a ser um ponto de partida para
quem quer ampliar esse repertório. Então, acho que isso conversa bastante com o
que eu dizia antes sobre a editora. Interessa à Kipuka fazer livros que sejam
também espaços de encontro e circulação de pensamento. No caso deste livro,
buscamos reunir num mesmo objeto memória, produção artística, pesquisa e
reflexão crítica sobre uma experiência que nasceu no Brasil, mas que dialoga
com uma transformação mais ampla dos quadrinhos na América Latina. E essa
dimensão também aparece no livro, que conta com um texto de Mariela Acevedo,
grande pesquisadora argentina de quadrinhos e gênero, que faleceu em 2025 e é
homenageada na publicação.
·
Quando a possibilidade de criar uma editora começou a
despontar no seu horizonte e quais foram os maiores desafios enfrentados ao
ingressar no mercado editorial independente?
LA - A
vontade de criar uma editora vem de muito tempo, desde a experiência em Buenos
Aires de que falei antes, mas a possibilidade concreta começou a aparecer muito
mais tarde. Desde o início dos anos 2000, trabalhei com edição, tradução,
comunicação e projetos culturais, cofundei e fui, por mais de dez anos,
codiretora da Taturana, uma organização de cinema e impacto social que
desenvolveu formas de distribuição e circulação de filmes voltadas à formação
de público, ampliação de redes de exibição para além dos cinemas e que fomenta
o diálogo entre cinema e lutas sociais na América Latina. Então, de alguma
maneira, fui acumulando repertório, relações e também uma ideia mais clara do
tipo de editora que gostaria de criar. A Kipuka nasce em 2025, quando senti que
havia chegado o momento e estavam dadas as condições de transformar esse desejo
em um projeto editorial propriamente dito. E aí você descobre rapidamente
que publicar bons livros é só uma parte do trabalho. Talvez o maior desafio
seja justamente compreender e conseguir existir dentro de todo um ecossistema:
autores, tradutores, revisores, designers, gráficas, distribuidoras, livrarias,
feiras, bibliotecas, imprensa, políticas públicas e, óbvio, leitores. Uma
editora pequena depende muito da vitalidade de todos esses elos.
Isso
pauta inclusive a maneira como penso a “concorrência”. Para uma editora como a
Kipuka, interessa que existam muitas outras editoras independentes (ou
interdependentes, como prefiro dizer), muitas livrarias de rua, feiras, clubes
de leitura, bons distribuidores que atendam a diversidade do mercado. Quanto
mais diverso e saudável for esse ambiente, maiores são as possibilidades de
circulação dos nossos próprios livros. Fortalecer o ecossistema é também
fortalecer a editora.
A
precificação talvez seja um dos lugares em que essa questão fique mais
evidente. O preço de um livro precisa remunerar uma cadeia bastante extensa e,
ao mesmo tempo, continuar acessível ao leitor. Quando uma grande plataforma
digital consegue oferecer descontos arrebatadores, por exemplo, parece ótimo
para o consumidor no curto prazo, mas existe uma discussão importante sobre o
que isso pode produzir no longo prazo: concentração do mercado, desaparecimento
de pontos de venda que não pertencem a grandes grupos, e redução da
bibliodiversidade. É justamente uma das discussões por trás da Lei Cortez, e de
tantos outros debates que acontecem no mercado editorial e ainda são pouco
apropriados por quem está fora. É possível e desejável que a gente qualifique e
discuta o senso comum de que “o livro está caro”. E está mesmo, sentimos na
pele: nosso livro mais vendido é também nosso livro mais acessível em termos de
valor, por uma engenharia pouco usual de precificação. Mas responder a essa
provocação não pode se reduzir a uma suposta “má vontade” dos editores, ou
culpar os descontos praticados em feiras universitárias, para citar polêmicas
recentes. Há uma cadeia muito mais complexa por trás do preço, e é sobre
ela que precisamos falar. E ela envolve necessariamente diálogo com políticas
públicas.
Então,
acho que um dos maiores aprendizados desse primeiro ano foi perceber que fazer
uma editora in(ter)dependente é pensar o livro para muito além do objeto. É
pensar nas condições que permitem que livros diferentes existam e encontrem
seus leitores. Claro que há desafios muito concretos de capital, distribuição,
escala e visibilidade, sobretudo para uma editora que está começando. Mas há
também uma dimensão coletiva: não me interessa construir uma Kipuka forte num
ecossistema frágil. Interessa que a editora cresça junto com uma rede diversa
de editoras, livrarias, profissionais e espaços culturais. Porque é essa
diversidade que permite que livros menos óbvios, experimentais ou de circulação
mais difícil continuem sendo publicados e encontrem um público cada vez mais
interessado. Então, para concluir, recorro a um exercício de memória histórica,
algo que fazemos pouco como sociedade no Brasil [risos nervosos em tempos de
eleição]. Da primeira ideia da Kipuka até 2025, quando finalmente tomamos
forma, muita água rolou debaixo dessa ponte. É fundamental reconhecer que
chegamos a um cenário muito mais favorável do que aquele que eu encontraria se
tivesse criado a editora quando comecei a imaginá-la, lá no fim dos anos 2000.
Não necessariamente porque o mercado editorial brasileiro tenha se tornado mais
fácil ou crescido em vendas – muito pelo contrário, ele atravessou crises muito
profundas nesse período –, mas porque, sobretudo nos últimos 15 anos, se
consolidou um ecossistema de pequenas e médias editoras comprometidas com a
bibliodiversidade, acompanhado pelo surgimento de feiras, livrarias,
distribuidoras, clubes de leitura e outros espaços fora dos grandes
conglomerados do setor. Tudo ainda bastante concentrado no Sudeste, é fato, mas
para que isso mude, o problema precisa ser nomeado, como tem sido nas últimas
pesquisas e nos diálogos setoriais. Então, é um privilégio nascer depois de uma
geração de colegas que, lá por 2010, 2012, começaram a abrir picadas na base do
facão, trazendo outras preocupações e modos de fazer, inventando modelos,
criando circuitos próprios, formando leitores, contribuindo para a
multiplicação das livrarias de rua e, sobretudo, mostrando que outros projetos
editoriais são possíveis.
Aprendi
e continuo aprendendo muito com essas experiências, que acompanho com enorme
admiração. Se hoje a Kipuka encontra algum terreno para florescer, é também
porque muita gente veio antes, plantou, experimentou, errou, insistiu e tornou
esse ecossistema mais fértil. E porque muitos colegas e amigos desse campo me
dão a mão. Os desafios são enormes, mas a criatividade para lidar com eles
também.
·
Qual o possível cenário para o ecossistema das editoras
independentes a partir de um avanço da extrema direita no Brasil após essas
eleições?
LA - É
uma pergunta difícil… tento refletir aqui como trabalhadora e pesquisadora da
cultura, e agora à frente de uma editora pequena. Abraçar o fascismo pela via
institucional como o Brasil está fazendo nesta eleição pode ter consequências
drásticas e retrocessos brutais em todos os âmbitos da vida, do cotidiano, das
relações. Mas para manter o foco aqui na nossa conversa, acho que talvez o
maior campo de batalha dessa guerra ideológica da extrema direita seja,
justamente, a cultura. A gente já vê no Congresso propostas que tentam mudar os
critérios da Lei Rouanet e de outras políticas de fomento, inclusive
privilegiando determinadas manifestações entendidas como “cultura nacional”.
Com esse avanço da extrema direita, esse tipo de disputa se acirra em torno de
temas como gênero, direitos LGBTQIAPN+, questões raciais, direitos humanos e
perspectivas anticoloniais — que são justamente questões muito presentes na
produção artística independente, e nos temas editoriais de muitas editoras e
outros atores independentes do ecossistema a que me refiro, de forma mais ou
menos explícita. Haverá perseguição, e a experiência de 2019 a 2022 no governo
Bolsonaro já mostrou que isso chega facilmente aos livros, com tentativas de
censura, retirada de circulação, constrangimento de determinadas obras. Se os
discursos forem colocados em prática (e serão, temos lastro histórico) qualquer
livro pode estar na mira, não precisa sequer ter alguma tese política
explícita. A revista Quatro cinco um pode se tornar uma espécie de
profecia de ficção científica à brasileira rs. Brincadeiras à parte, chegamos a
ficar sem MinC, lembram?
E sem
falar no tanto de deputados eleitos no primeiro turno que em suas campanhas
falaram em “acabar com a doutrinação nas universidades”, desqualificando os
ambientes de ensino superior, as políticas afirmativas… Em última instância,
estão atacando a produção de conhecimento científico em todas as áreas, humanas
e exatas. Já vimos isso também de 2019 a 2022, certo? E agora está sendo
anunciado novamente, em alto e bom tom, nesses discursos de ódio que temos
escutado todos os dias, antes e depois de ter ido às urnas. Ao mesmo tempo,
quanto mais esse espaço institucional se fecha (e não podemos esquecer que
votamos por isso enquanto sociedade, pela segunda vez, mas que ainda dá tempo
de reverter um pouco nesse segundo turno!), mais importantes podem se
tornar pequenas editoras, livrarias, feiras, universidades, coletivos e redes
latino-americanas. Nesse ecossistema, acabam se formando outros circuitos por
onde determinadas experiências e formas de conhecimento circulam e somam forças
para disputar outros espaços (e corações e mentes rs). Então, com esse cenário
eleitoral e com os próximos anos que se desenham, a questão deixa de ser só
como sobreviver comercialmente, e passa a ser também como manter e construir
mais autonomia e garantir diversidade. Talvez a resposta coletiva mais importante
entre os que prezam pela democracia seja fortalecer essas nossas redes e a luta
por políticas públicas de bibliodiversidade; trabalhar com mais formação de
público; diversificar fontes de receita; ampliar circuitos de circulação que
não dependam exclusivamente nem do Estado nem das grandes plataformas;
intensificar práticas como se reunir, ler juntos, lembrar, se organizar. E acho
que isso vale para qualquer campo ou instância da vida nesse momento.
·
Como a imaginação radical pode nos salvar?
LA -Ela
pode?! Não sei. Talvez a imaginação radical possa nos ajudar justamente porque
ela permite imaginar que as coisas não precisam ser necessariamente como são.
Quando falo em imaginação radical para a jornada da Kipuka, muito inspirada por
Saidiya Hartman, não estou falando de fantasia ou de fuga da realidade. Pelo
contrário: é uma forma de olhar para nossos contextos e perceber que aquilo que
parece dado – as relações de poder, as desigualdades, as fronteiras, as
maneiras de produzir, trabalhar, amar, viver – foi historicamente construído e,
portanto, também pode ser transformado. Acho que a arte e a literatura têm uma
força enorme nesse sentido. Um livro não precisa necessariamente apresentar um
programa político ou oferecer respostas. Às vezes sua força está simplesmente
em deslocar nosso olhar, tornar visível uma experiência que não víamos,
produzir uma linguagem para alguma coisa que ainda não sabíamos nomear, nos
permitir imaginar uma relação diferente com o mundo ou com qualquer detalhe do
nosso cotidiano. “Salvar” muitas vezes pode ter uma conotação messiânica,
esse recurso que pode ser apelativo ao nos propor uma saída pronta e simples…
mas salvar pela imaginação pode ser impedir que a gente aceite o presente como
o único mundo possível. Tem uma dimensão disso que me interessa muito na Kipuka,
porque criar uma editora também é um exercício de imaginação radical: pensar em
quais livros e vozes publicar, que é possível criar outros caminhos entre
países, autores, tradutores, livrarias, leitores. E fazer isso tentando
desfrutar o caminho enquanto ele está sendo trilhado. A imaginação, nesse
sentido, deixa de ser apenas uma capacidade de pensar outros mundos, passa a
ser uma maneira de construí-los. Gosto muito de aproximar a ideia de imaginação
radical à de política prefigurativa: quando tentamos construir e vivenciar,
aqui e agora, no presente, relações e valores que desejamos para o futuro, sem
esperar, justamente, uma “salvação”.
Fonte:
Entrevista com Lívia Almendary para Maruscka Grassano, em Jacobin Brasil

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