Bet
Blaze funcionou em endereço de empresas ligadas a Willer Tomaz, advogado amigo
de Flávio e investigado pela PF
Um
relatório de análise da nuvem associada ao celular do advogado Willer Tomaz de
Souza, produzido pela Polícia Federal (PF), revela que a Foggo Entertainment
Ltda, empresa responsável pelas operações da plataforma de apostas Blaze no
Brasil, utilizou o mesmo endereço comercial que já havia sido registrado
anteriormente por empresas ligadas a Willer Tomaz e a seus ex-sócios. Tomaz
ganhou manchetes de todo o país em agosto devido a seu processo contra a
própria Blaze, tentando reaver R$ 163 milhões que teria apostado na plataforma,
o que chamou a atenção da PF e do Ministério da Fazenda por suspeita de lavagem
de dinheiro.
O
imóvel localizado na Alameda Prudente de Moraes, nº 86, no bairro Mercês em
Curitiba, consta nos registros cadastrais da Foggo Entertainment — CNPJ que
recebeu transferências milionárias enviadas por Willer — e já havia sido sede
da RioPag S/A, processadora de pagamentos de apostas da Loterj, além de outras
sociedades vinculadas a um ex-sócio de Willer.
A
análise do iCloud do aparelho celular de Willer Tomaz foi possível a partir de
quebra de sigilo autorizada pela Justiça após operação de busca e apreensão
contra o advogado e empresário no âmbito da operação Sem Desconto, que
investiga as fraudes no INSS. A apuração da PF aponta que o advogado realizou
diversas transferências bancárias fracionadas e sistemáticas de R$ 100 mil para
a conta da Foggo Entertainment. Ao rastrear a estrutura societária e
operacional da empresa de apostas, os investigadores identificaram a
sobreposição de endereços entre a operadora da Blaze e a Riopag S.A.
Para os
investigadores, a coincidência de endereços “reduz a força de uma leitura
puramente casual e justifica aprofundar a investigação sobre eventuais vínculos
societários, comerciais ou operacionais entre o investigado, antigos parceiros
e a estrutura responsável pela atividade de apostas”.
Uma das
suspeitas da PF é que a plataforma de apostas não fosse utilizada apenas para
apostas recreativas, mas como meio de circulação intensiva, pulverização do
dinheiro e eventual retorno de capital. A análise dos extratos de Willer Tomaz
revelou movimentações diárias na plataforma que chegaram a superar R$ 35
milhões em dias específicos, acumulando registros contábeis de perdas na ordem
de R$ 40,83 milhões entre junho e outubro de 2025.
Com o
cruzamento do endereço em Curitiba e a identificação de saques em cassinos no
exterior, as autoridades buscam determinar se as perdas registradas na conta de
apostas eram efetivas ou se retornavam ao patrimônio do grupo por meio de
estruturas empresariais interpostas.
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Dinheiro que circula em várias etapas/empresas
Até o
momento, o “amigo advogado” de Flávio Bolsonaro (PL) tem negado ser sócio ou
acionista de várias empresas, inclusive as ligadas à operação de bets que
funcionavam legalmente no estado do Rio de Janeiro até a primeira semana de
outubro. No entanto, um email extraído do iCloud do aparelho celular do
empresário, enviado pelo próprio Willer Tomaz para a instituição Magnum Bank,
indicam, segundo a PF, “o controle ou vínculo de fato” de Tomaz sobre uma longa
lista de empreendimentos, incluindo a RioPag S/A, que opera o meio de pagamento
de prêmios da Loterj desde 2023.
Na
mensagem em questão, Willer “declara ser sócio ou acionista” de uma lista de
companhias, incluindo Rio Pag S/A e Embrasis. “Inclusive daquelas em que seu
nome não consta formalmente do quadro societário”, escreve a PF.
Materiais
obtidos pela Agência Pública e o relatório da PF ajudam a desenhar a estrutura
entre as companhias ligadas à RioPag até chegar a Tomaz, um arranjo que envolve
empresas atualmente registradas no Distrito Federal e no Rio de Janeiro.
Certidões
emitidas pelas Juntas Comerciais do Distrito Federal e do Rio de Janeiro
mostram que a RioPag tem uma única acionista, uma empresa atualmente chamada
Capital Pretium S/A (antes chamada de Pixs Holding SA). Por sua vez, a Capital
Pretium também possui apenas uma sócia, a Empresa Brasileira de Sistemas de
Computação (Embrasis S/A). Até 6 de outubro de 2026, quando houve alteração de
diretoria e do estatuto social da empresa, os dois únicos acionistas da
Embrasis S/A eram Willer Tomaz (82,5%) e sua irmã, Christine Tomaz de Souza
(17,5%).
Oficialmente,
o advogado amigo de Flávio Bolsonaro não exerceu papel de gestão ou direção em
nenhuma delas. A PF conseguiu estimar o fluxo financeiro entre a teia de
empresas até que o dinheiro chegasse a Willer Tomaz. Segundo a investigação, a
RioPag repassava aproximadamente 15% de seus recursos à atual Capital Pretium.
A Pretium passava à Embrasis cerca de 90%, enquanto a Embrasis, dos irmãos
Christine e Willer Tomaz, fazia o repasse “quase integral”, segundo a PF, de
seus volumes financeiros.
Segundo
relatórios mensais apresentados pela RioPag ao governo do Rio de Janeiro
obtidos pela Pública, entre março de 2024 (quando assumiu o controle da
operação) e agosto de 2026, a RioPag registrou mais de R$ 185 milhões em
receitas. O valor dizia respeito a serviços como o pagamento de prêmios de
produtos lotéricos, de bilhetes de ‘raspadinha’ a apostas esportivas (bets). A
PF identificou ainda que Willer teria recebido ao menos R$ 67,7 milhões da
Embrasis ao longo de 2024, conforme declaração de Imposto de Renda Pessoa
Física reproduzida no relatório da operação.
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Para SPA, Blaze não cumpriu requisitos para o combate à lavagem de dinheiro
Willer
Tomaz de Souza foi a pessoa com o “maior volume total de depósitos” em bets no
país em 2025, segundo uma nota técnica assinada em 1º de outubro de 2026 pelo
subsecretário de Monitoramento e Fiscalização da Secretaria de Prêmios e
Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda. Ainda assim, WTS, como é citado no
documento, teria sido enquadrado pela Blaze como um cliente de risco “médio” ao
invés de risco “crítico”. O exemplo é utilizado para ilustrar uma série de
“indícios de infrações administrativas” por parte da bet – entre as quais
constam “ausência de seleção e análise de operações suspeitas” de lavagem de
dinheiro.
“Uma
rápida pesquisa em fontes abertas na internet mostra que o cliente já esteve
detido sob suspeita de corrupção”, aponta a pasta, que alega que Willer Tomaz
deveria ter sido avaliado como um cliente de risco “crítico” para que fossem
tomadas “medidas especiais importantes” como “comunicações ao Coaf” em relação
às movimentações do advogado.
Segundo
a nota técnica, o amigo de Flávio Bolsonaro “girou cerca de R$ 5 bilhões em
apostas no período, e somou quase R$ 200 milhões acumulados em saques” na Blaze
somente naquele ano. Para a SPA, tais valores “deveriam ao menos haver passado
por seleção e análise, ainda que a análise concluísse pela ausência de
indícios” de lavagem de dinheiro.
Para a
Fazenda, “operações do mesmo cliente [Willer] também chamam a atenção” pelo
volume de dinheiro movimentado, pela frequência da movimentação e também pela
multiplicidade de operações simultâneas. De acordo com a nota técnica assinada
pelo subsecretário Carlos Renato Xavier de Resende, as operações poderiam ser
enquadradas em práticas proibidas pela legislação que regulamentou a atividade
das bets no país – tais como “possível uso de ferramenta automatizada” e
“depósitos ou saques em curto espaço de tempo, sugerindo fracionamento ou
dissimulação”.
Houve
diversas situações em que múltiplos depósitos ou saques ocorreram num
curtíssimo espaço de tempo, como, por exemplo, um mesmo dia (30/10/2025) em que
foram realizados cinco depósitos de R$ 500 mil em uma mesma hora da manhã,
outros cinco do mesmo valor em uma mesma hora da tarde, e outros quatro do
mesmo valor em uma mesma hora da noite, totalizando R$ 7 milhões em depósitos
em um único dia”, segundo a SPA. A pasta aponta ainda que, no dia seguinte,
houve “doze saques de R$ 500 mil realizados em um espaço de 18 minutos” somando
R$ 6 milhões.
A nota
técnica destaca ainda que a Blaze “falhou em evidenciar uma devida avaliação do
perfil econômico desse cliente [Willer Tomaz]” e que “a observação do extrato
de operações dele (em especial os vários depósitos e saques em períodos
curtíssimos descritos anteriormente) levantam a possibilidade – sujeita a
análise, naturalmente – de operações estruturadas (aquelas em que as
movimentações financeiras são divididas em várias partes menores, visando-se a
não disparar gatilhos de alerta e/ou chamar a atenção dos responsáveis pelo
monitoramento, fiscalização ou persecução criminal)”.
Para
basear seus argumentos, a SPA afirma que a Blaze comunicou ao Coaf a existência
de apenas sete operações suspeitas na plataforma em 2025 e outras nove em 2026,
e nenhuma delas envolvia valores acima de R$ 15 mil.
“Chama
a atenção o fato de uma empresa identificar, selecionar, analisar e comunicar
ao Coaf atividade atípica em operações de valores comparativamente irrisórios,
enquanto a atividade de um cliente que fez 629 apostas individuais de valor
igual ou superior a R$ 500 mil (cada uma) ao longo de um ano (sendo quatro
delas de R$ 1 milhão, e 394 delas de exatos R$ 500 mil) – o cliente sobre cuja
atividade se discorreu anteriormente – sequer tenha sido objeto de análise pela
mesma empresa”, segundo a nota técnica da Fazenda.
Procurado
pela Pública, a assessoria de imprensa de Willer Tomaz informa que “todos os
pontos levantados repetem informações já divulgadas e reiteradamente
esclarecidas nas últimas semanas”: “Requentá-los às vésperas do segundo turno,
a partir de dados sigilosos vazados, tem o evidente propósito de interferir no
processo eleitoral. O advogado Willer Tomaz não cometeu nenhuma irregularidade.
Nunca dividiu conta bancária com o senador Flávio Bolsonaro, tema que já
motivou queixa-crime por difamação; as viagens foram convites entre famílias,
sem contrapartida; e as questões de natureza pessoal estão sob análise dos
tribunais.”
Procurada,
a operadora da Blaze no Brasil, a Foggo Entertinment, ainda não respondeu aos
questionamentos da Pública. Anteriormente neste mês, ao UOL, a empresa informou
que nunca manteve relação societária com Willer Tomaz, Edson Antônio Lenzi
Filho ou empresas a eles vinculadas e que nenhum deles teria participação,
direta ou indireta, no capital ou controle da companhia. Assim que houver
manifestação oficial sobre o assunto à reportagem, este espaço será atualizado.
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Flávio Bolsonaro e a conta de holding
Ainda
no âmbito da operação Sem Desconto, a PF mapeou uma rede de relações
operacionais, financeiras e pessoais entre o presidenciável Flávio Bolsonaro
(PL) e o advogado Willer Tomaz. Os apontamentos
apresentados no relatório mostram desde a inclusão do senador como
usuário com plenos poderes em conta bancária empresarial até o custeio de
viagens familiares em aeronaves privadas por uma offshore vinculada a negócios
de apostas esportivas.
De
acordo com o relatório, Flávio Bolsonaro esteve cadastrado com perfil de
usuário master na conta bancária da Alcazar Holding mantida junto ao Banco
Santander. A condição permitia o gerenciamento da conta até 22 de maio de 2025,
quando uma secretária do escritório de Willer Tomaz encaminhou e-mail à
instituição financeira solicitando expressamente a remoção do acesso do
parlamentar e do próprio advogado.
A
Alcazar Holding detinha, inclusive, 33,33% do capital social da Fraction 024
Administração de Bem Próprio S.A., sociedade proprietária de um jato executivo
Legacy 650. A Fraction ganhou projeção pública por ter sido utilizada como
pagadora em operações de cessão de ativos vinculadas a investigações sobre o
Banco Master e o grupo Viking Participações, ambos de Daniel Vorcaro.
Os
arquivos examinados pela PF expõem, ainda, um histórico de deslocamentos
internacionais realizados em conjunto por integrantes das famílias de Willer
Tomaz e de Flávio Bolsonaro. Os relatórios de voos em jatos executivos para
destinos como Cascais (Portugal) e Nice (França), apontam que a aquisição de
passagens e a logística de transporte foram intermediadas pela Cathedral
Holding.
Segundo
a PF, a Cathedral Holding não atuava apenas na esfera patrimonial ou no custeio
de despesas pessoais do grupo. A empresa figura no organograma do grupo de
Willer Tomaz como sócia da Rede Loto Ltda – primeira operadora a obter
credenciamento junto à Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para
explorar apostas esportivas no estado por meio do domínio BestBet.
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Conversas secretas e limpeza na Googlesfera
O
relatório da PF com base no iCloud do aparelho celular do advogado Willer Tomaz
registra ainda que Flávio Bolsonaro era um dos contatos favoritados pelo
advogado no aplicativo Confide. A plataforma é um aplicativo que oferece troca
de mensagens privadas de vida curta, que desaparecem após pouco tempo, sem
histórico aparente no aparelho.
Os
peritos identificaram ainda planilhas e comprovantes de pagamentos efetuados
por Willer Tomaz a prestadores de serviços encarregados de remover reportagens
e desindexar links do buscador Google. A ideia era tentar controlar o que a
plataforma apresentava entre os resultados ao público que buscasse os nomes de
Willer Tomaz ou do amigo Flávio Bolsonaro, evitando conteúdos negativos ou
indesejados pelo empresário.
Entre
os conteúdos que deveriam ser excluídos estava uma reportagem que abordava a
atuação política de Flávio Bolsonaro em relação ao projeto de lei dos jogos de
azar e sua presença em reuniões com operadoras de cassinos em Las Vegas.
Fonte:
Por Jéssica Ribeiro, Caio de Freitas, Ed Wanderley, em Agência Pública

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