sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Samuel Kilsztajn: Segundo Turno

Eu estava no Rio, hospedado na casa de uma amiga que queria que a neta dela, pré-adolescente, viesse visitá-la. Mãe e filha moravam em Nova Friburgo e a relação da minha amiga com a ex-nora não era das melhores. Minha amiga rascunhou uma mensagem para a mãe no WhatsApp e leu para mim. Aí eu disse que, com esse texto, a neta não viria. “Mas a mãe dela não colabora em nada, mais isso, mais aquilo…”

Perguntei, “Você quer brigar com sua ex-nora ou quer que a menina venha ao Rio?” “É, mas ela…” E eu falei, “Você quer que eu repita a pergunta?” Ela respondeu, “Não precisa, quero que minha neta venha ao Rio.” Ótimo, disse eu, e ela corrigiu o texto. A nova versão ficou melhor que a anterior, mas continuava irascível. Perguntei de novo, “Você quer brigar com sua ex-nora ou quer que a menina venha ao Rio?” Em resumo, minha amiga só conseguiu escrever um texto não beligerante em sua quinta versão – e a menina veio visitá-la.

Escrevi uma crítica à China e alguns amigos disseram que eu estava marcando gol contra, estava favorecendo o Trump e o Bolsonaro. “Quem dera a direita lesse nossos artigos – a gente só escreve para nos fortalecer uns aos outros.”

No sábado, 3 de outubro de 2026, eu não fui à Paulista, mas o Lula veio a mim. Entrou na minha rua em cima de uma caminhonete, junto ao Haddad e companhia. Ao redor do Lula rolava uma energia contagiante. O povo estava eufórico, senti a vibração que sinto em manifestações religiosas, mesmo sendo agnóstico. As pessoas clamavam “Primeiro Turno! Primeiro Turno!” – a CNT/MDA havia acabado de publicar que o Lula estava com 48% dos votos e o Flávio com 42%.

Chamou minha atenção que a maior parte da galera estava vestindo camiseta vermelha – um “mar de comunistas”. Pensei, “não tem conversa”. A direita acha que somos todos comunistas, leia-se stalinistas; e nós nos orgulhamos muito de sermos comunistas, apesar da grande maioria ser crítica a Stalin. Na campanha para a prefeitura de Nova York, quando as pessoas chamavam o Mamdani de comunista, ele, sorrindo, respondia “Já me chamaram de coisa pior”.

O Lula e a comitiva desceram da caminhonete em frente ao meu prédio, cumprimentaram e falaram com o público que estava na área de segurança – a “ala vip”, a que tive direito porque morava no prédio – e depois saíram todos em automóveis blindados com vidros fumê.

O Brasil encontra-se hoje dividido e exposto a administrações alternadas, ora do Partido dos Trabalhadores/Lula, ora da família Bolsonaro. Essa alternância no poder tem levado a um desgaste contínuo, que só aprofunda a polarização e reduz a capacidade dos políticos e da própria sociedade de diminuir as tensões e superar os conflitos.

O regime político brasileiro é presidencialista, com forte viés parlamentarista. Embora disponha de poderes próprios do presidencialismo, o chefe do Executivo depende do Congresso para implementar grande parte de seu programa de governo. Mas há setores partidários do presidente em exercício que cobram dele que ignore metade da população do país – “afinal, nós elegemos o presidente para quê?”

O Brasil enfrenta hoje um processo com duas características intrínsecas – a polarização e a personalização do poder. A maior parte dos votos da esquerda são votos para o Lula ou para pessoas por ele indicadas, a exemplo de Dilma Rousseff e Fernando Haddad. A família Bolsonaro, por sua vez, construiu uma identidade política que prescinde e ultrapassa a identidade partidária.

Considero o regime parlamentarista mais sadio porque não personaliza o poder, não o concentra em uma só pessoa, enfrenta crises e flexibiliza mudanças de rumo com menor desgaste político. Além disso, uma vez instituído, o parlamentarismo certamente levará o Congresso a reduzir o ostracismo, o marasmo e o oportunismo que hoje têm caracterizado a atuação de grande parte dos políticos brasileiros. Evidentemente, não estou sugerindo mudar a Constituição do país em meio à atual conjuntura política.

<><> A polarização do país

A polarização do país é fundamentalmente ideológica, razão pela qual “não há conversa possível”. Os dois campos eleitorais, relativamente estáveis, com identidades políticas reconhecíveis e irreconciliáveis, atravessam uma sociedade heterogênea como a brasileira e agregam grupos sociais distintos, marcados por diferenças de classe social, interesses econômicos, diferenças territoriais, religiões, preconceitos, ressentimentos, redes de organização e desinformação.

A incompatibilidade entre os dois campos ideológicos reúne e articula questões morais, econômicas e políticas. Em termos morais, culturais e de costumes, a sociedade se divide entre liberais e conservadores, que apoiam ou resistem à diversidade de orientação sexual e de gênero, aborto, uso de drogas, combate ao racismo, à xenofobia, à intolerância religiosa etc. Economicamente, a divisão se manifesta na valorização das políticas públicas, sociais e distributivas versus neoliberalismo e desregulamentação ambiental. Politicamente, a questão gira em torno do papel das instituições, diferentes concepções de democracia, uso da força policial e alinhamento aos Estados Unidos.

Nesse leque de posicionamentos, o Partido Liberal, conservador nos costumes e liberal em economia, consegue reunir militantes críticos ao movimento LGBT+, políticos racistas, representantes trans e negros, todos falando em democracia e apoiando os candidatos responsáveis pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, embora se mostrem extremamente críticos a outros países autoritários e igualmente conservadores nos costumes.

<><> Renda familiar

As pessoas com maior renda familiar votaram preferencialmente no Bolsonaro. Mesmo assim, há que se considerar que 22 milhões de pessoas com renda familiar até 2 salários mínimos votaram no Bolsonaro – mais de metade da população brasileira tem renda familiar abaixo de 2 salários mínimos.

Os mais de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno constituem um grupo particularmente importante. A abstenção é maior entre pessoas de baixa renda, justamente o segmento no qual Lula teve ampla vantagem nas pesquisas. Portanto, a maior parte dos votos adicionais seria para ele e, se esses eleitores comparecerem no segundo turno, uma parcela significativa deles votará no Lula.

<><> Epílogo

Quando você desembarca do metrô em Nova York, pode seguir pela saída nordeste, noroeste, sudeste ou sudoeste. Tenho uma amiga que morava com dois filhos em Nova York. Quando eram crianças, o filho mais velho saía do metrô apressado, sem saber para onde estava indo; e a irmã mais nova dizia, “se você não sabe para que lado devemos ir, por que segue caminhando?”

Para um turista, na rua, o visual das quatro saídas parece sempre o mesmo – um monte de prédios geminados. Então, o pai de um amigo meu comprou uma bússola que carregava no bolso…

Uma sociedade pode estar em movimento, pode ter pressa, pode até saber que precisa chegar a algum lugar, mas, dependendo da direção que toma, cada passo pode apenas afastá-la cada vez mais de seu destino.

•        O pesado clima das urnas. Por Emanuel Alencar

Mesmo que o presidente Lula consiga uma surpreendente e inédita virada na segunda rodada presidencial, temos um fato inconteste que já marcou a corrida eleitoral deste mordaz 2026: a acachapante derrota das candidaturas ambientalistas. A ministra Marina Silva, que vinha bem nas pesquisas, acabou fora do Senado por São Paulo. Carlos Minc, expoente da luta verde no Rio, ficou sem mandato. Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama no atual governo federal, viu sua votação para a Câmara dos Deputados derreter a reboque do conservadorismo paulista. São apenas alguns exemplos. Uma dissonância cognitiva — termo da moda — nos assola, enquanto o planeta aquece e os alertas superam todos os limites aceitáveis. Numa alegoria, é como se emulássemos o comportamento da pessoa que sabe que o cigarro faz mal à saúde, mas continua fumando dois maços por dia.

A extrema direita que nega a crise climática avança — o domínio no Congresso é avassalador — ao mesmo tempo em que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente lança um relatório dizendo que, “até o fim da década”, o mundo poderá atingir um aquecimento global de 1,5 °C, ultrapassando-o nas décadas seguintes. Para ficarmos em apenas alguns exemplos, esse “novo normal” indica o colapso da floresta amazônica, a morte de recifes de coral, o esfacelamento dos mantos de gelo da Groenlândia e do Oeste Antártico e o derretimento do permafrost, o solo congelado e riquíssimo em carbono do hemisfério Norte.

Sedutor, o discurso “antissistêmico” bolsonarista tem ressonância global. É nutrido e alimenta uma poderosa rede. A negação climática não é mero efeito colateral: está no centro do modus operandi da extrema direita. Trump já chamou a crise dos extremos climáticos de “a maior farsa já imposta ao mundo”. Para o tresloucado Javier Milei, chefe do governo argentino, “todas essas políticas que culpam o ser humano pela mudança climática são falsas e buscam arrecadar fundos para financiar socialistas que não gostam de trabalhar”. Em uma de suas primeiras grandes ações de governo, a administração do superdireitista chileno José Antonio Kast revogou 43 decretos ambientais herdados da gestão anterior de Gabriel Boric.

Flávio Bolsonaro, porta-voz brasileiro dos extremistas, não tem vergonha em negar o aquecimento global na TV Globo. O faz porque tem amparo: os movimentos negacionistas são bem estruturados mundo afora. Uma reportagem do jornalista Joe Fassler, publicada no final de outubro de 2024 no portal “DeSmog” com o título de “The Friendly New Face of Dark Money” (“A Nova Face Amigável do Dinheiro Oculto”), revelou que, desde 2020, as divisões de fundos de doadores de empresas como Fidelity, Schwab e Vanguard canalizaram mais de US$ 171 milhões em doações anônimas para organizações sem fins lucrativos focadas no negacionismo climático.

O colapso do planeta — que afetará primeiro a população mais pobre e vulnerável — implica posturas firmes, que vão na contramão do fortalecimento da indústria dos hidrocarbonetos. A discussão está embotada. Mesmo partidos de esquerda e progressistas no Brasil parecem ter abandonado a pauta. Quem teima em alertar tem colhido dissabores nas urnas. É como se a questão climática, tão central e urgente, estivesse dissociada do debate sobre transportes não poluentes e baratos, do saneamento básico, da habitação, da inclusão social.

Vivemos no trágico vórtex da “Tragédia dos Comuns”, conceito consolidado pelo ecologista americano Garrett Hardin, em um ensaio publicado na prestigiada revista “Science”, há exatos 60 anos. A base do raciocínio é simples: indivíduos agindo racionalmente em interesse próprio acabam destruindo o recurso coletivo de que todos dependem. “A Terra não precisa de nós. Nós é que precisamos dela para continuar existindo”, já alertou nosso Ailton Krenak. Que a pauta climática e ambiental volte a ganhar o debate público. O punhado de grãos de areia na parte superior da ampulheta está a cada dia menor.

•        A eleição, a luta pela vida e a troca de guarda na esquerda. Por Bepe Damasco

Nos regimes democráticos, em condições normais de temperatura e pressão, eleição se disputa, se ganha ou se perde. Os vencedores governam e os perdedores vão para a oposição.

Com o advento e crescimento da extrema-direita no Brasil e no mundo, a coisa muda de figura. Lutar para que os fascistas não cheguem ao poder é, antes de tudo, um compromisso com a vida.

Por isso, mesmo gente como eu, com larga experiência em acompanhar e participar como cidadão e militante de disputas eleitorais, fica com o coração apertado e os nervos à flor da pele diante da divulgação de qualquer pesquisa.

Também a régua que usamos para monitorar as movimentações da campanha eleitoral é diferente. Há uma tensão permanente para saber se os representantes da necropolítica avançaram ou recuaram, se as forças democráticas erraram ou acertaram.

Pudera!

O Poder Executivo da República é a última cidadela de defesa da democracia no Brasil. A nova composição da Câmara e do Senado que emergiu das urnas em 4 de outubro e grande parte dos governadores eleitos nos dão a certeza de que anos desafiadores e de enormes dificuldades se avizinham.

Contudo, como não existe linha reta na política, eis que os jovens brasileiros brotam de todos os cantos e ocupam ruas, praças e avenidas de norte a sul, de leste a oeste.

Impulsionados pela gurizada, como dizem os gaúchos, muitos adultos despertam para a gravidade do momento, compreendem que está em jogo algo que vai muito além da eleição e se perfilam com os filhos, sobrinhos e netos, somando forças para salvar a democracia e livrar o Brasil das trevas.

Fora das contas dos analistas políticos mais argutos, levanta-se então o maior movimento antifascista da história do Brasil. Sem tirar nem pôr, é isso que está acontecendo nesta primavera.

Nervosismo inevitável à parte, até domingo à noite a parte do nosso país que vale a pena seguirá firme na disputa de cada voto, para que os direitos dos trabalhadores e aposentados continuem sendo respeitados; para que as ciências, as artes e a cultura não sejam perseguidas; para que a educação e a saúde não sucumbam ao mercado; para que os nossos biomas não sejam destruídos; para derrotar os racistas, homofóbicos e os que odeiam os pobres.

A curva de Lula é ascendente nas pesquisas na hora H da definição do voto.

Por isso, acho que venceremos.

Mas, como disse um amigo, pouco antes de eu escrever este artigo, já houve uma bem-vinda troca de guarda geracional no protagonismo da esquerda brasileira.

Esse é o grande saldo dessa eleição histórica

 

Fonte: Blog da Boitempo/Brasil 247

 

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