Samuel
Kilsztajn: Segundo Turno
Eu
estava no Rio, hospedado na casa de uma amiga que queria que a neta dela,
pré-adolescente, viesse visitá-la. Mãe e filha moravam em Nova Friburgo e a
relação da minha amiga com a ex-nora não era das melhores. Minha amiga
rascunhou uma mensagem para a mãe no WhatsApp e leu para mim. Aí eu disse que,
com esse texto, a neta não viria. “Mas a mãe dela não colabora em nada, mais
isso, mais aquilo…”
Perguntei,
“Você quer brigar com sua ex-nora ou quer que a menina venha ao Rio?” “É, mas
ela…” E eu falei, “Você quer que eu repita a pergunta?” Ela respondeu, “Não
precisa, quero que minha neta venha ao Rio.” Ótimo, disse eu, e ela corrigiu o
texto. A nova versão ficou melhor que a anterior, mas continuava irascível.
Perguntei de novo, “Você quer brigar com sua ex-nora ou quer que a menina venha
ao Rio?” Em resumo, minha amiga só conseguiu escrever um texto não beligerante
em sua quinta versão – e a menina veio visitá-la.
Escrevi
uma crítica à China e alguns amigos disseram que eu estava marcando gol contra,
estava favorecendo o Trump e o Bolsonaro. “Quem dera a direita lesse nossos
artigos – a gente só escreve para nos fortalecer uns aos outros.”
No
sábado, 3 de outubro de 2026, eu não fui à Paulista, mas o Lula veio a mim.
Entrou na minha rua em cima de uma caminhonete, junto ao Haddad e companhia. Ao
redor do Lula rolava uma energia contagiante. O povo estava eufórico, senti a
vibração que sinto em manifestações religiosas, mesmo sendo agnóstico. As
pessoas clamavam “Primeiro Turno! Primeiro Turno!” – a CNT/MDA havia acabado de
publicar que o Lula estava com 48% dos votos e o Flávio com 42%.
Chamou
minha atenção que a maior parte da galera estava vestindo camiseta vermelha –
um “mar de comunistas”. Pensei, “não tem conversa”. A direita acha que somos
todos comunistas, leia-se stalinistas; e nós nos orgulhamos muito de sermos
comunistas, apesar da grande maioria ser crítica a Stalin. Na campanha para a
prefeitura de Nova York, quando as pessoas chamavam o Mamdani de comunista,
ele, sorrindo, respondia “Já me chamaram de coisa pior”.
O Lula
e a comitiva desceram da caminhonete em frente ao meu prédio, cumprimentaram e
falaram com o público que estava na área de segurança – a “ala vip”, a que tive
direito porque morava no prédio – e depois saíram todos em automóveis blindados
com vidros fumê.
O
Brasil encontra-se hoje dividido e exposto a administrações alternadas, ora do
Partido dos Trabalhadores/Lula, ora da família Bolsonaro. Essa alternância no
poder tem levado a um desgaste contínuo, que só aprofunda a polarização e reduz
a capacidade dos políticos e da própria sociedade de diminuir as tensões e
superar os conflitos.
O
regime político brasileiro é presidencialista, com forte viés parlamentarista.
Embora disponha de poderes próprios do presidencialismo, o chefe do Executivo
depende do Congresso para implementar grande parte de seu programa de governo.
Mas há setores partidários do presidente em exercício que cobram dele que
ignore metade da população do país – “afinal, nós elegemos o presidente para
quê?”
O
Brasil enfrenta hoje um processo com duas características intrínsecas – a
polarização e a personalização do poder. A maior parte dos votos da esquerda
são votos para o Lula ou para pessoas por ele indicadas, a exemplo de Dilma
Rousseff e Fernando Haddad. A família Bolsonaro, por sua vez, construiu uma
identidade política que prescinde e ultrapassa a identidade partidária.
Considero
o regime parlamentarista mais sadio porque não personaliza o poder, não o
concentra em uma só pessoa, enfrenta crises e flexibiliza mudanças de rumo com
menor desgaste político. Além disso, uma vez instituído, o parlamentarismo
certamente levará o Congresso a reduzir o ostracismo, o marasmo e o oportunismo
que hoje têm caracterizado a atuação de grande parte dos políticos brasileiros.
Evidentemente, não estou sugerindo mudar a Constituição do país em meio à atual
conjuntura política.
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A polarização do país
A
polarização do país é fundamentalmente ideológica, razão pela qual “não há
conversa possível”. Os dois campos eleitorais, relativamente estáveis, com
identidades políticas reconhecíveis e irreconciliáveis, atravessam uma
sociedade heterogênea como a brasileira e agregam grupos sociais distintos,
marcados por diferenças de classe social, interesses econômicos, diferenças
territoriais, religiões, preconceitos, ressentimentos, redes de organização e
desinformação.
A
incompatibilidade entre os dois campos ideológicos reúne e articula questões
morais, econômicas e políticas. Em termos morais, culturais e de costumes, a
sociedade se divide entre liberais e conservadores, que apoiam ou resistem à
diversidade de orientação sexual e de gênero, aborto, uso de drogas, combate ao
racismo, à xenofobia, à intolerância religiosa etc. Economicamente, a divisão
se manifesta na valorização das políticas públicas, sociais e distributivas
versus neoliberalismo e desregulamentação ambiental. Politicamente, a questão
gira em torno do papel das instituições, diferentes concepções de democracia,
uso da força policial e alinhamento aos Estados Unidos.
Nesse
leque de posicionamentos, o Partido Liberal, conservador nos costumes e liberal
em economia, consegue reunir militantes críticos ao movimento LGBT+, políticos
racistas, representantes trans e negros, todos falando em democracia e apoiando
os candidatos responsáveis pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023,
embora se mostrem extremamente críticos a outros países autoritários e
igualmente conservadores nos costumes.
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Renda familiar
As
pessoas com maior renda familiar votaram preferencialmente no Bolsonaro. Mesmo
assim, há que se considerar que 22 milhões de pessoas com renda familiar até 2
salários mínimos votaram no Bolsonaro – mais de metade da população brasileira
tem renda familiar abaixo de 2 salários mínimos.
Os mais
de 33 milhões de eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno
constituem um grupo particularmente importante. A abstenção é maior entre
pessoas de baixa renda, justamente o segmento no qual Lula teve ampla vantagem
nas pesquisas. Portanto, a maior parte dos votos adicionais seria para ele e,
se esses eleitores comparecerem no segundo turno, uma parcela significativa
deles votará no Lula.
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Epílogo
Quando
você desembarca do metrô em Nova York, pode seguir pela saída nordeste,
noroeste, sudeste ou sudoeste. Tenho uma amiga que morava com dois filhos em
Nova York. Quando eram crianças, o filho mais velho saía do metrô apressado,
sem saber para onde estava indo; e a irmã mais nova dizia, “se você não sabe
para que lado devemos ir, por que segue caminhando?”
Para um
turista, na rua, o visual das quatro saídas parece sempre o mesmo – um monte de
prédios geminados. Então, o pai de um amigo meu comprou uma bússola que
carregava no bolso…
Uma
sociedade pode estar em movimento, pode ter pressa, pode até saber que precisa
chegar a algum lugar, mas, dependendo da direção que toma, cada passo pode
apenas afastá-la cada vez mais de seu destino.
• O pesado clima das urnas. Por Emanuel
Alencar
Mesmo
que o presidente Lula consiga uma surpreendente e inédita virada na segunda
rodada presidencial, temos um fato inconteste que já marcou a corrida eleitoral
deste mordaz 2026: a acachapante derrota das candidaturas ambientalistas. A
ministra Marina Silva, que vinha bem nas pesquisas, acabou fora do Senado por
São Paulo. Carlos Minc, expoente da luta verde no Rio, ficou sem mandato.
Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama no atual governo federal, viu sua
votação para a Câmara dos Deputados derreter a reboque do conservadorismo
paulista. São apenas alguns exemplos. Uma dissonância cognitiva — termo da moda
— nos assola, enquanto o planeta aquece e os alertas superam todos os limites
aceitáveis. Numa alegoria, é como se emulássemos o comportamento da pessoa que
sabe que o cigarro faz mal à saúde, mas continua fumando dois maços por dia.
A
extrema direita que nega a crise climática avança — o domínio no Congresso é
avassalador — ao mesmo tempo em que o Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente lança um relatório dizendo que, “até o fim da década”, o mundo poderá
atingir um aquecimento global de 1,5 °C, ultrapassando-o nas décadas seguintes.
Para ficarmos em apenas alguns exemplos, esse “novo normal” indica o colapso da
floresta amazônica, a morte de recifes de coral, o esfacelamento dos mantos de
gelo da Groenlândia e do Oeste Antártico e o derretimento do permafrost, o solo
congelado e riquíssimo em carbono do hemisfério Norte.
Sedutor,
o discurso “antissistêmico” bolsonarista tem ressonância global. É nutrido e
alimenta uma poderosa rede. A negação climática não é mero efeito colateral:
está no centro do modus operandi da extrema direita. Trump já chamou a crise
dos extremos climáticos de “a maior farsa já imposta ao mundo”. Para o
tresloucado Javier Milei, chefe do governo argentino, “todas essas políticas
que culpam o ser humano pela mudança climática são falsas e buscam arrecadar
fundos para financiar socialistas que não gostam de trabalhar”. Em uma de suas
primeiras grandes ações de governo, a administração do superdireitista chileno
José Antonio Kast revogou 43 decretos ambientais herdados da gestão anterior de
Gabriel Boric.
Flávio
Bolsonaro, porta-voz brasileiro dos extremistas, não tem vergonha em negar o
aquecimento global na TV Globo. O faz porque tem amparo: os movimentos
negacionistas são bem estruturados mundo afora. Uma reportagem do jornalista
Joe Fassler, publicada no final de outubro de 2024 no portal “DeSmog” com o
título de “The Friendly New Face of Dark Money” (“A Nova Face Amigável do
Dinheiro Oculto”), revelou que, desde 2020, as divisões de fundos de doadores
de empresas como Fidelity, Schwab e Vanguard canalizaram mais de US$ 171
milhões em doações anônimas para organizações sem fins lucrativos focadas no
negacionismo climático.
O
colapso do planeta — que afetará primeiro a população mais pobre e vulnerável —
implica posturas firmes, que vão na contramão do fortalecimento da indústria
dos hidrocarbonetos. A discussão está embotada. Mesmo partidos de esquerda e
progressistas no Brasil parecem ter abandonado a pauta. Quem teima em alertar
tem colhido dissabores nas urnas. É como se a questão climática, tão central e
urgente, estivesse dissociada do debate sobre transportes não poluentes e
baratos, do saneamento básico, da habitação, da inclusão social.
Vivemos
no trágico vórtex da “Tragédia dos Comuns”, conceito consolidado pelo
ecologista americano Garrett Hardin, em um ensaio publicado na prestigiada
revista “Science”, há exatos 60 anos. A base do raciocínio é simples:
indivíduos agindo racionalmente em interesse próprio acabam destruindo o
recurso coletivo de que todos dependem. “A Terra não precisa de nós. Nós é que
precisamos dela para continuar existindo”, já alertou nosso Ailton Krenak. Que
a pauta climática e ambiental volte a ganhar o debate público. O punhado de
grãos de areia na parte superior da ampulheta está a cada dia menor.
• A eleição, a luta pela vida e a troca de
guarda na esquerda. Por Bepe Damasco
Nos
regimes democráticos, em condições normais de temperatura e pressão, eleição se
disputa, se ganha ou se perde. Os vencedores governam e os perdedores vão para
a oposição.
Com o
advento e crescimento da extrema-direita no Brasil e no mundo, a coisa muda de
figura. Lutar para que os fascistas não cheguem ao poder é, antes de tudo, um
compromisso com a vida.
Por
isso, mesmo gente como eu, com larga experiência em acompanhar e participar
como cidadão e militante de disputas eleitorais, fica com o coração apertado e
os nervos à flor da pele diante da divulgação de qualquer pesquisa.
Também
a régua que usamos para monitorar as movimentações da campanha eleitoral é
diferente. Há uma tensão permanente para saber se os representantes da
necropolítica avançaram ou recuaram, se as forças democráticas erraram ou
acertaram.
Pudera!
O Poder
Executivo da República é a última cidadela de defesa da democracia no Brasil. A
nova composição da Câmara e do Senado que emergiu das urnas em 4 de outubro e
grande parte dos governadores eleitos nos dão a certeza de que anos
desafiadores e de enormes dificuldades se avizinham.
Contudo,
como não existe linha reta na política, eis que os jovens brasileiros brotam de
todos os cantos e ocupam ruas, praças e avenidas de norte a sul, de leste a
oeste.
Impulsionados
pela gurizada, como dizem os gaúchos, muitos adultos despertam para a gravidade
do momento, compreendem que está em jogo algo que vai muito além da eleição e
se perfilam com os filhos, sobrinhos e netos, somando forças para salvar a
democracia e livrar o Brasil das trevas.
Fora
das contas dos analistas políticos mais argutos, levanta-se então o maior
movimento antifascista da história do Brasil. Sem tirar nem pôr, é isso que
está acontecendo nesta primavera.
Nervosismo
inevitável à parte, até domingo à noite a parte do nosso país que vale a pena
seguirá firme na disputa de cada voto, para que os direitos dos trabalhadores e
aposentados continuem sendo respeitados; para que as ciências, as artes e a
cultura não sejam perseguidas; para que a educação e a saúde não sucumbam ao
mercado; para que os nossos biomas não sejam destruídos; para derrotar os
racistas, homofóbicos e os que odeiam os pobres.
A curva
de Lula é ascendente nas pesquisas na hora H da definição do voto.
Por
isso, acho que venceremos.
Mas,
como disse um amigo, pouco antes de eu escrever este artigo, já houve uma
bem-vinda troca de guarda geracional no protagonismo da esquerda brasileira.
Esse é
o grande saldo dessa eleição histórica
Fonte:
Blog da Boitempo/Brasil 247

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