SOBERANIA
OU SUBMISSÃO?: O futuro da política energética
A
energia é um dos pilares de qualquer projeto de nação e um instrumento
estratégico de soberania e inserção geopolítica. Entretanto, a abundância de
recursos naturais não se traduz, por si só, em desenvolvimento. Isso depende da
capacidade de convertê-los em riqueza social, estruturas produtivas nacionais,
diversificação econômica, segurança energética e alimentar e melhores condições
de vida para a população.
Na
disputa presidencial, o que está em jogo não é simplesmente a exploração das
riquezas brasileiras, mas quem controla seus benefícios e a serviço de qual
projeto de país elas serão mobilizadas.
As
experiências dos governos Jair Bolsonaro (2019-2022) e Lula III (2023-2026),
assim como as propostas dos atuais presidenciáveis, expressam concepções
distintas sobre o papel do Estado e a destinação dessa riqueza. De um lado,
temos a agenda bolsonarista ultraliberal, que, sob o discurso da eficiência de
mercado, favorece a apropriação privada de ativos estratégicos, aprofunda a
reprimarização econômica e reforça a inserção subordinada do Brasil na economia
mundial. De outro, um projeto que reivindica a soberania nacional e o
fortalecimento das capacidades estatais como premissas para articular a
exploração dos recursos naturais ao desenvolvimento produtivo, à redução das
desigualdades e ao bem-estar social.
O
governo Bolsonaro deixou cicatrizes profundas, da fome ao negacionismo que
ceifou milhares de vidas durante a pandemia de Covid-19. No setor energético, a
orientação ultraliberal resultou na privatização da Eletrobras e no
aprofundamento do desmonte da Petrobras iniciado por Michel Temer.
Sob
Temer e Bolsonaro, a Petrobras foi progressivamente submetida a uma lógica
mercantil, concentrada nos ativos mais rentáveis, na redução de investimentos e
na maximização dos retornos aos acionistas. A busca por resultados financeiros
de curto prazo prevaleceu sobre seu papel estratégico da estatal no
desenvolvimento nacional.
Bolsonaro
manteve a política de preços da Petrobras atrelada ao mercado internacional, o
chamado preço de paridade de importação (PPI), concluiu a venda da BR
Distribuidora e da Liquigás, transferiu quatro refinarias ao setor privado,
vendeu centenas de ativos de exploração e produção e unidades de energia e
biocombustíveis, além de hibernar e arrendar fábricas de fertilizantes. Não se
tratou apenas da transferência de patrimônio público, mas da entrega de
instrumentos estratégicos para atender às necessidades nacionais. O resultado
foi a perda do controle nacional sobre segmentos estratégicos, ampliação da
vulnerabilidade do país aos choques externos, combustíveis mais caros e
agravamento da pobreza energética.
Em
2023, Lula voltou ao Palácio do Planalto com a difícil missão de reconstruir o
Brasil e a Petrobras. Três decisões marcaram a mudança inicial de orientação: a
suspensão das privatizações; o “abrasileiramento” dos preços dos combustíveis,
encerrando a vinculação exclusiva ao PPI; e a retomada de crescentes
investimentos, acompanhada da diversificação do portfólio da companhia.
Apesar
da suspensão das privatizações, grandes prejuízos ao povo brasileiro já estavam
consolidados. A venda de 20% do parque de refino da Petrobras prejudicou,
sobretudo, os consumidores das regiões Norte e Nordeste. Sob a gestão de
monopólios privados, tais refinarias orientaram sua política comercial pelos
preços internacionais (PPI) e pela lucratividade de curto prazo, com baixa
adesão às realidades e necessidades locais.
Entre
2023 e 2025, os preços médios nas refinarias privatizadas foram 12,8%
superiores aos da Petrobras para a gasolina, 17,4% para o diesel e 31,9% para o
GLP, evidenciando os efeitos das privatizações do refino sobre os consumidores.
No mesmo período, a Petrobras bateu recordes de produção em suas refinarias,
contribuindo para reduzir a dependência nacional de importações de
derivados.
A nova
política de preços da Petrobras, instituída em 2023, substituiu o PPI por uma
estratégia comercial focada em referências do mercado interno e custos de
produção nacionais. A mudança reduziu a volatilidade dos preços domésticos, mas
não eliminou imediatamente a pressão internacional sobre eles. A venda da BR
Distribuidora (hoje VIBRA) transferiu o controle da distribuição e revenda de
combustíveis para agentes privados, limitando o esforço de manutenção dos
preços nas refinarias da Petrobras abaixo da referência internacional.
A
explosão dos preços do petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio, desde
fevereiro de 2026, evidenciou os custos sociais e econômicos das privatizações
da dupla Temer-Bolsonaro.
O
governo Lula III, em resposta emergencial ao conflito, anunciou subvenções e
subsídios a produtores e importadores (privados e estatais). Esse esforço foi
inicialmente recusado por grandes distribuidoras, as mesmas que,
posteriormente, foram autuadas pela ANP por aumentos abusivos. Segundo a
Agência, em alguns casos, as margens brutas dessas empresas cresceram mais de
1.350% entre março e agosto. Essa prática abusiva compromete a eficácia das
medidas públicas e evidencia os limites da atuação estatal em uma cadeia na
qual perdeu presença direta devido às privatizações.
A
Petrobras, em virtude de mudanças em sua estratégia de negócios, estava melhor
preparada para contextos geopolíticos adversos. A estatal já havia ampliado
investimentos em refino, retomado as operações no segmento de fertilizantes,
voltado a apostar nos biocombustíveis e ampliado sua atuação em energias de
baixo carbono. Essas medidas garantiram maior capacidade nacional de resposta à
explosão dos preços internacionais e manutenção de preços mais baixos aos
consumidores brasileiros.
Tais
avanços, contudo, não eliminam os problemas deixados pelo desmonte produzido
por governos anteriores. Reestatizar parte do patrimônio vendido ainda sofre
forte resistência interna e política, além de embargos legais. A Petrobras e
seu papel no desenvolvimento nacional seguem em disputa. A estrutura de
governança e a política de dividendos continuam em aberto e impondo restrições
à conversão das riquezas produzidas em investimentos estratégicos para
desenvolvimento nacional.
Na
atual disputa presidencial, a divergência ultrapassa a gestão do setor de
petróleo e gás. Ela envolve, simultaneamente, o controle das nossas reservas
petrolíferas, a distribuição mais equitativa da riqueza gerada através de sua
exploração e as condições de planejamento nacional do setor energético, se de
maneira soberana e democrática ou submissa a interesses externos.
Lula em
seu programa defende o setor energético e mineral como instrumentos de
soberania, geração de riqueza e trabalho, desenvolvimento de capacidades
industriais e tecnológicas, combate de desigualdades e construção de um futuro
sustentável. Flávio Bolsonaro, por outro lado, representa uma ameaça à
democracia e ao pacto social de 1988, além da retomada de uma agenda
ultraliberal, responsável, em várias partes do mundo, em especial na América
Latina, por políticas que ampliam desigualdades, subordinam nossas riquezas a
interesses estrangeiros e destroem sistemas de políticas públicas consolidados.
O
resultado eleitoral do primeiro turno e a composição do Congresso na próxima
legislatura ampliam os riscos à soberania nacional. Uma eventual vitória de
Flávio Bolsonaro enfraquece a Petrobras, o meio ambiente e inviabiliza uma
política energética soberana para o Brasil. Tal cenário interrompe a retomada
de investimentos estratégicos à segurança energética e alimentar do país,
amplia o negacionismo climático, avança na regulamentação do fracking,
fragiliza ainda mais o regime de partilha, acelera os leilões sob concessão e a
desnacionalização de nossas reservas, inclusive no pré-sal e em novas
fronteiras de elevado potencial como a Margem Equatorial. Ademais, o projeto
bolsonarista reforça uma inserção subordinada do Brasil na geopolítica
energética global, transformando seu território em zona de sacrifício, com
amplos custos ambientais e sociais, além do aprofundamento das desigualdades.
Eventuais avanços na transição energética tenderiam a permanecer subordinados a
uma lógica competitiva e primário-exportadora, distante de uma transição justa
e soberana.
Uma
vitória de Lula, nesse mesmo contexto legislativo, não significa um caminho
livre de obstáculos, mas a continuidade de uma disputa política e econômica em
torno do papel da Petrobras e do setor de petróleo e gás no desenvolvimento
nacional. O fortalecimento da Petrobras segue na pauta pública, assim como a
reestatização de ativos, seu retorno à distribuição, incremento de
investimentos, o melhor aproveitamento da renda petroleira e os rumos para uma
transição energética justa. O desafio brasileiro permanece sendo avançar na
implementação de uma agenda popular, democrática e progressista no campo
energético. Enfrentar os dogmas da rentabilidade de curto prazo e os interesses
privados segue desafiando governos do Sul Global.
Em
síntese, a abundância de recursos naturais por si só não garante soberania: é
preciso convertê-los em desenvolvimento sustentável e redução das desigualdades
estruturais brasileiras. A candidatura bolsonarista é a antítese disso.
• STF suspende licença de instalação da
Belo Sun por pendências em estudos sobre impactos indígenas
O
presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin,
restabeleceu a suspensão da licença de instalação do Projeto Volta Grande de
Mineração, da empresa Belo Sun, em Senador José Porfírio, no sudoeste do Pará.
A decisão, assinada na segunda-feira (19), atende parcialmente a um pedido do
Ministério Público Federal (MPF) e aponta que ainda existem pendências nos
estudos sobre os impactos do empreendimento em comunidades indígenas, além de
questionamentos sobre a realização da consulta prévia, livre e informada.
A
medida suspende os efeitos de uma decisão individual do Tribunal Regional
Federal da 1ª Região (TRF-1) que havia autorizado a retomada do processo de
implantação da mineradora. Segundo Fachin, a continuidade das atividades sem a
comprovação do cumprimento das exigências ambientais e indígenas pode
representar risco à ordem pública e ao meio ambiente. A suspensão foi
determinada até uma eventual homologação judicial do acordo discutido entre as
partes no TRF-1.
Na
decisão, o ministro reconheceu que os argumentos apresentados pelo MPF são
juridicamente relevantes e destacou que os estudos apresentados pela empresa
ainda são considerados insuficientes pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas
(Funai). O órgão identificou a necessidade de complementar informações sobre
comunidades indígenas situadas fora de terras demarcadas, possíveis
reassentamentos e os impactos acumulados do projeto de mineração com os da
Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
“Os
elementos constantes dos autos evidenciam a persistência de expressiva
controvérsia técnica quanto ao efetivo cumprimento das condicionantes
estabelecidas pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região para o
restabelecimento da licença de instalação do empreendimento”, afirmou Fachin.
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Estudos indígenas e consulta prévia
A
disputa judicial sobre o licenciamento da Belo Sun começou com uma ação civil
pública apresentada pelo MPF contra a empresa e o Estado do Pará. O processo
questiona a validade das autorizações ambientais concedidas ao empreendimento e
o cumprimento das medidas destinadas à proteção das populações indígenas
potencialmente afetadas.
Em
decisão anterior, o TRF-1 condicionou a emissão da licença de instalação à
elaboração de um Estudo do Componente Indígena (ECI), com base em dados
primários e conforme as exigências da Funai, além da realização de consulta
prévia, livre e informada, prevista na Convenção nº 169 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT).
Segundo
a Funai, permanecem pendências relacionadas às comunidades da Ilha da Fazenda,
Garimpo do Galo, Vila da Ressaca e São Francisco, que não estariam contempladas
adequadamente nos estudos apresentados. Também faltam análises sobre eventuais
realocações, impactos cumulativos com Belo Monte e medidas específicas de
proteção previstas no Plano Básico Ambiental.
Para
Fachin, essas questões impedem uma conclusão segura sobre o cumprimento das
exigências judiciais. O ministro ressaltou que a região já sofre os efeitos da
implantação de Belo Monte, o que exige maior rigor na avaliação de novos
empreendimentos. “O empreendimento possui dimensão excepcional, com potencial
para produzir impactos significativos na região afetada”, registrou.
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Empresa e governo defendem continuidade do licenciamento
Durante
o processo, o Governo do Pará se manifestou contra a suspensão, argumentando
que a manutenção da licença permitiria à Secretaria de Estado de Meio Ambiente
e Sustentabilidade (Semas) continuar a análise técnica do empreendimento. A
Prefeitura de Senador José Porfírio também defendeu a continuidade do
licenciamento, embora tenha reconhecido a necessidade de atualizar as medidas
de compensação socioeconômica, já que os estudos originais utilizaram dados
populacionais de 2010.
A Belo
Sun, por sua vez, alegou que não havia demonstração de danos concretos e
informou que não previa intervenções físicas antes do segundo semestre de 2027.
A empresa também destacou a existência de negociações com a Funai para
complementar os estudos indígenas.
Fachin,
entretanto, considerou que o acordo parcial firmado em junho de 2026, no âmbito
do TRF-1, ainda não havia sido homologado judicialmente. Por isso, o
compromisso de suspensão temporária das intervenções físicas não afastava,
segundo o ministro, o risco de retomada das atividades.
“Não
há, portanto, qualquer provimento judicial vigente que impeça o imediato
reinício das atividades de instalação pela empresa”, destacou o presidente do
STF ao justificar a necessidade de uma medida preventiva.
Com a
decisão, a licença de instalação do Projeto Volta Grande volta a ter seus
efeitos suspensos. A determinação não representa um julgamento definitivo sobre
a validade do licenciamento ambiental, mas impede que a autorização
restabelecida anteriormente produza efeitos enquanto se aguarda a eventual
homologação do acordo no TRF-1.
Fonte:
Por Mahatma Ramos dos Santos, Francismar Ferreira e Ticiana de Oliveira
Alvares, no Le Monde/Tapajós de Fato

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