O
que é PHP e a falha grave de segurança detectada por IA que tirou sites do ar
Durante
mais de uma década, falhas graves passaram despercebidas em uma tecnologia
usada por grande parte da internet. Foi preciso que a inteligência artificial as trouxesse à tona,
causando um alerta global de segurança cibernética.
As
vulnerabilidades estão em uma linguagem de programação chamada
PHP,
que tem sido usada no mundo todo desde os anos 2000 para construir sites.
Governos
e agências de segurança cibernética em todo o mundo estão se mobilizando para
conter as consequências da descoberta feita na quarta-feira (21/10) e instaram
os operadores de sites a instalarem uma nova correção de emergência ou a
considerarem a possibilidade de desativar suas plataformas.
A
empresa de cibersegurança Wiz — cujos pesquisadores ajudaram a descobrir as
vulnerabilidades — descreveu as falhas como as "mais graves" já
detectadas por IA.
A
OpenAI — cuja tecnologia foi usada para encontrar as falhas — classificou a
descoberta como "um dos problemas de segurança mais impactantes da
história recente".
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O que é PHP?
Muitas
pessoas podem nunca ter ouvido falar de PHP, mas provavelmente interagem com
ele diariamente.
PHP é
uma sigla em inglês para Hypertext Preprocessor. É a base de um grande número
de plataformas, incluindo lojas online, a Wikipédia e o WordPress — o sistema
de gerenciamento de conteúdo por trás de muitos sites, como blogs.
Quando
você visita um site como a Wikipédia, o PHP é o código que coleta as
informações necessárias e as apresenta de uma forma que você consiga lê-las na
internet, afirma Paul Spain, diretor executivo da Gorilla Cyber Security, à
BBC.
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Qual é a vulnerabilidade?
Todos
os sites que usam PHP ficaram expostos devido a uma falha que permite que
hackers assumam o controle dos servidores de internet afetados sem autenticação
e roubem dados confidenciais.
A
inteligência artificial pode tornar esses ataques ainda mais fáceis e rápidos,
afirma Paul Spain. Ele estima que a falha poderia afetar "milhões" de
sites.
A
pesquisadora de segurança cibernética Jill Slay, da Universidade de Adelaide,
afirma que seria "desastroso" se hackers ou países explorassem a
falha e roubassem dados privados de sites.
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Quais sites foram afetados?
O
alerta interrompeu serviços em todo o mundo, desde plataformas de jogos a
portais governamentais e fóruns online.
Isso
inclui a Wikimedia — a organização por trás da enciclopédia online Wikipédia —
que desativou vários de seus sistemas como medida de precaução.
O
governo da Finlândia, a prefeitura de Edimburgo, a agência de segurança
cibernética da Holanda e a BBC estão entre os que retiraram seus sites do ar
por um período.
Diversas
organizações públicas da Escócia, incluindo conselhos e autoridades de saúde,
também desativaram seus sites.
Alguns
especialistas alertam que a vulnerabilidade pode deixar sites com baixo nível
de manutenção — particularmente aqueles pertencentes a organizações menores com
recursos de segurança limitados — em maior risco.
É
provável que ocorram mais tentativas de explorar essas falhas nas próximas
semanas, já que os detalhes técnicos estão sendo divulgados agora, afirma o
pesquisador de segurança cibernética Salil Kanhere, da UNSW Sydney.
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O que aconteceu depois que as falhas foram expostas?
Os
desenvolvedores da plataforma PHP lançaram na quarta-feira atualizações para
corrigir as vulnerabilidades que estavam presentes no software há anos.
"Recomenda-se
fortemente que todos os usuários do PHP façam atualizações imediatamente",
disse a empresa.
Autoridades
e organizações de segurança em todo o mundo reiteraram esses alertas aos
operadores de sites para que protejam suas plataformas.
A
Agência de Segurança Nacional dos EUA alertou todas as organizações que
utilizam PHP para que desliguem seus sistemas caso não consigam corrigir a
falha imediatamente, acrescentando que ela pode fornecer um "caminho
direto" para explorar o banco de dados de um sistema.
"Esses
riscos são graves o suficiente para exigir correções imediatas em todos os
departamentos e agências do governo dos EUA", disse a agência.
O
Centro Nacional de Segurança Cibernética do Reino Unido fez recomendações
semelhantes e orientou organizações a verificarem a existência de "portas
traseiras instaladas por um invasor".
Autoridades
de segurança na União Europeia, em Singapura e na Austrália também emitiram
alertas semelhantes.
A
primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, pediu às pessoas que verificassem
se seus sites públicos utilizavam a linguagem PHP.
"Temos
um pedido urgente para que todos tomem providências esta noite", escreveu
Takaichi no X.
"Se
for difícil aplicar a correção prontamente, a suspensão temporária de sites e
medidas semelhantes podem ser consideradas uma forma eficaz de reduzir o
risco", disse ela.
Empresas
de tecnologia também estão correndo contra o tempo para proteger seus sistemas.
A
gigante do comércio eletrônico Amazon afirmou ter sido alvo de múltiplas
tentativas de ataque dias antes da divulgação pública da vulnerabilidade no
PHP. Não se sabe como os hackers tomaram conhecimento da vulnerabilidade.
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Como a IA esteve envolvida?
As
vulnerabilidades foram descobertas por pesquisadores das empresas de segurança
Calif e Wiz.
Os
pesquisadores utilizaram ferramentas avançadas de IA capazes de analisar o
código e encontrar falhas muito mais rapidamente do que os humanos ou os
sistemas mais antigos.
"O
software moderno é incrivelmente complexo e algumas vulnerabilidades podem
permanecer sem ser detectadas por anos", disse Kanhere.
"Os
problemas subjacentes não eram novos; o que mudou foi nossa capacidade de
encontrá-los", disse Kanhere.
Detalhes
da descoberta vazaram online esta semana, forçando os desenvolvedores da
plataforma PHP a divulgarem às pressas o anúncio da falha de segurança e sua
enorme escala.
O
incidente "destaca como a IA pode descobrir falhas de segurança", mas
também como ela pode "ajudar invasores a desenvolver rapidamente
ferramentas", disse a OpenAI em uma postagem no blog.
A
empresa, que é dona do ChatGPT, afirmou ter lançado um programa para verificar
se a plataforma PHP é segura.
"Muitas
dessas falhas decorrem da forma como o software era construído no passado,
priorizando a funcionalidade em detrimento da segurança", afirmou Ryan Ko,
do Centro de Pesquisa Cibernética da Universidade de Queensland.
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O que as pessoas podem fazer para se proteger?
Os
proprietários de sites estão sendo aconselhados a proteger seus sites com a
versão mais recente do PHP.
Segundo
Spain, a correção do software PHP é uma pequena alteração de rotina para a
maioria das equipes de TI.
A
Agência de Segurança Nacional dos EUA recomendou "maior atenção" nas
próximas semanas e o acompanhamento rigoroso das atualizações dos fornecedores
de software.
A
responsabilidade recai principalmente sobre os operadores dos sites, mas os
usuários devem ficar atentos a quaisquer avisos de segurança emitidos pelos
serviços afetados, como solicitações para alterar senhas, disse Kanhere.
Ele
alertou as pessoas para que fiquem atentas a quaisquer mensagens de phishing
que explorem a publicidade em torno do incidente.
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Por que algoritmo parece colocar o eleitor dentro de
bolha política
Em meio
às eleições, muitas pessoas
passaram a relatar a sensação de que discutem ou até brigam sobre política com
indivíduos que não recebem as mesmas informações que elas. Segundo
especialistas, isso tem relação com a forma como as redes sociais selecionam e distribuem conteúdos.
As
plataformas costumam favorecer a formação de bolhas, nas quais os usuários são
expostos com maior frequência a publicações semelhantes àquelas que demonstram
interesse. Assim, quem apoia determinado candidato costuma se deparar com mais
frequência com conteúdos favoráveis a ele.
A
seleção de conteúdos é feita por sistemas de recomendação que utilizam algoritmos para identificar
padrões de comportamento e definir quais publicações devem gerar mais interesse
em cada usuário.
"Esse
algoritmo é uma fórmula que customiza aquilo que o usuário vê em uma
determinada plataforma. Ele é customizado para que o indivíduo passe o máximo
de tempo ali e consuma cada vez mais, por isso são oferecidos conteúdos que ele
tenha prazer em acompanhar", explica o pesquisador Emilio Alves DON, que
estudou os algoritmos e a opinião pública durante doutorado na Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).
"Passamos
meses nos alimentando de determinadas informações, inclusive sobre política,
achando que aquilo que recebemos é o mesmo que a maioria das pessoas recebe,
mas não é. Estamos recebendo conteúdos muito específicos, conforme o
comportamento de cada um", acrescenta DON.
Essas
bolhas criam uma forma de "realidade paralela", diz a cientista
política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV). "Às vezes, alguém
diz: ‘Na minha bolha, estou achando que determinado candidato está ganhando'. E
mesmo se as pesquisas mostrarem o contrário, a pessoa diz: ‘Pela sensação que
tenho, acho que meu candidato está ficando cada vez mais forte, está
crescendo'", comenta.
O modo
como os algoritmos funcionam não é revelado pelas
plataformas. Pesquisadores dizem que essas ferramentas são como "segredos
industriais" dessas empresas de tecnologia.
A
reportagem procurou as plataformas mais utilizadas no país para entender sobre
os algoritmos em tempos eleitorais. O TikTok, o Google – também responsável pelo YouTube – e a Meta – dona do Facebook, Instagram e WhatsApp – não quiseram comentar sobre o tema. O X, antigo Twitter, não respondeu ao
e-mail com os questionamentos.
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"Sensação de conforto"
Os
algoritmos das plataformas têm o objetivo de manter as pessoas confortáveis nas
redes, diz Luiz Alberto de Farias, professor de opinião pública na Universidade
de São Paulo (USP). "O ser humano adora uma situação de conforto. Um
desses desejos é o conforto opinativo. Sentir-se coberto por uma razão
majoritária é algo que dá prazer às pessoas. Em função disso, as programações
algorítmicas entregam às pessoas aquilo que elas normalmente já consomem."
O
professor da USP diz que as bolhas levam a "verdades convenientes",
que são entregues pelo algoritmo na tentativa de, muitas vezes, agradar o
usuário. "Isso é um presente de grego, porque passamos a não enxergar
necessariamente a realidade. Eu diria que passamos a viver um certo nível de
psicose. Isso dá conforto, dá felicidade, dá uma sensação boa. É uma espécie de
pílula da felicidade", afirma.
Nas
redes, essas bolhas podem surgir em relação a diferentes temas, a partir
daquilo que o usuário consome com mais frequência. No período eleitoral, elas
tendem a ficar mais evidentes. "O algoritmo constrói um perfil a partir
daquilo que você oferece para ele, seja uma predisposição a conteúdos
progressistas ou conservadores", diz Farias.
Em meio
ao grande volume de informações nas redes, os algoritmos podem selecionar e
apresentar uma mesma notícia de maneiras diferentes, conforme os interesses e o
comportamento do usuário.
Essa
exposição a inúmeros conteúdos que reforçam os pensamentos do usuário pode
levar a dificuldades para ouvir o contraditório. "O usuário vai se
distanciando da leitura contrária. É como se fosse se aprofundando em uma bolha
na qual passa a ter contato apenas com os argumentos daquele grupo, sem ter
acesso a outros argumentos. Isso torna a pessoa cada vez mais dura e, às vezes,
vai reduzindo a tolerância dela aos argumentos contrários", explica Veiga.
A
cientista política afirma que essa segmentação de conteúdo mudou até mesmo a
forma como as campanhas se comunicam com os eleitores. "Antes, você
elaborava uma campanha para a televisão na qual você tinha que fazer um
denominador comum em que todo mundo te escutava, não tinha fragmentação. Hoje,
com essa questão das bolhas, você pode fazer campanhas com o que aquelas bolhas
querem. É possível alcançar o eleitor de maneira muito específica", diz.
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Os riscos do algoritmo
Quando
se fala em algoritmo, os especialistas destacam os riscos desse tipo de
ferramenta. Por trás do que é oferecido pelas plataformas aos usuários, há
detalhes que não são abertos pelas empresas. "De uns tempos para cá, é
comum usarmos expressões como ‘o algoritmo decidiu'. Isso, na verdade, também é
uma sensação de naturalização do controle que as empresas têm. Dá a impressão
de que foi o algoritmo que decidiu entregar alguma coisa, mas existe uma
programação por trás desse algoritmo", explica Farias.
As
plataformas têm interesses financeiros, diz Veiga, o que pode fazer com que
discursos com mais engajamento, que costumam gerar mais monetização, ganhem
maior destaque. "É muito importante pensar nessa perspectiva de que não se
trata apenas de uma plataforma neutra em que quem fala mais é quem acaba
ecoando mais. Atrás disso há questões que ainda são muito pouco
transparentes."
Nos
últimos dias, a Meta esteve no centro de uma denúncia da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A equipe do
petista acusou a empresa de favorecer o adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL). A empresa nega
essas acusações.
Os
especialistas avaliam que é difícil comprovar que houve alguma ação para
beneficiar Flávio, principalmente porque os detalhes sobre os algoritmos não
são abertos. Para especialistas, esse caso reacende o debate sobre a
regulamentação dessas plataformas no país, uma discussão que se arrasta há
anos, mas avançou pouco.
"Em
termos de regulamentação das redes, sempre se pede mais transparência em
relação a como os conteúdos são distribuídos e tudo mais. A lógica é sempre a
de ampliar a transparência, que consideramos muito importante para que possamos
ter um debate mais saudável de comunicação nas redes sociais", diz Veiga.
"A regulação das plataformas digitais é uma coisa fundamental, porque elas
têm impactado a própria continuidade da democracia", acrescenta.
Farias
diz que é necessário algum tipo de lei para definir como essas plataformas
podem disseminar informações, além de uma fiscalização da forma como elas
controlam os conteúdos compartilhados pelos usuários. "Sabemos que, muitas
vezes, essas organizações são lenientes e, às vezes, intencionalmente lentas,
porque conteúdos danosos geram visualizações, lucro e retorno."
Para
Farias, a regulamentação tornará os mecanismos das redes mais claros, mas não
mudará a sensação de bolha, já que os usuários devem continuar acessando e
recebendo os conteúdos baseados naquilo que demonstram mais interesse.
Fonte:
BBC News Brasil/DW Brasil

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