O
BRASIL NÃO APRENDEU COM A PRÓPRIA HISTÓRIA: Ainda somos os mesmos?
Republiquei
Como Nossos Pais, de Belchior, na voz de Elis Regina, no Instagram
depois do primeiro turno das eleições presidenciais. Não fui a única. A canção,
gravada há cinquenta anos, voltou a circular entre pessoas que procuravam
expressar o espanto diante de um resultado que, para muitas delas, parecia
difícil de imaginar. Flávio Bolsonaro havia recebido mais de 56 milhões de
votos e terminado à frente de Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto acompanhava
as reações, percebi que também havia recorrido à música para formular uma
pergunta que não conseguia responder. O que exatamente esperávamos que o Brasil
tivesse aprendido com sua própria história?
Em
1976, quando Elis Regina lançou Falso Brilhante, o país vivia sob uma
ditadura militar que já atravessara mais de uma década. A repressão havia
alcançado universidades, jornais, sindicatos, organizações políticas e a vida
de milhares de famílias. Prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos faziam
parte de uma realidade que o regime procurava ocultar ou justificar. Foi nesse
ambiente que a composição de Belchior encontrou, na interpretação de Elis, uma
das expressões mais reconhecíveis do desencanto de uma geração que havia
acreditado na possibilidade de transformar o mundo e começava a reconhecer a
persistência daquilo que desejara superar.
No
espetáculo Falso Brilhante, concebido com elementos do circo e do
teatro, havia bonecos de pano acomodados numa arquibancada, formando uma
plateia dentro da própria encenação. Ao terminar Como Nossos Pais, Elis
permanecia diante daqueles espectadores imóveis. A imagem é perturbadora: uma
cantora que acabara de dar voz à desilusão de sua geração observava figuras
incapazes de responder. Belchior escrevera sobre a distância entre as promessas
da juventude e a vida que se construíra depois delas. Elis transformava essa
descoberta em uma experiência quase física, como se a pergunta alcançasse
também quem estivesse sentado do outro lado do palco.
Cinquenta
anos depois, já conhecemos o desfecho histórico daquele regime. A ditadura
terminou, a Constituição de 1988 reorganizou a vida institucional brasileira,
testemunhos foram reunidos e arquivos foram abertos. A Comissão Nacional da
Verdade documentou graves violações de direitos humanos e identificou
estruturas de repressão que haviam atravessado sucessivos governos militares.
Sabemos mais sobre aquele período do que sabiam muitos dos brasileiros que o
viveram, quando a censura, o medo e a ausência de informações impediam até
mesmo que as famílias conhecessem o destino de seus desaparecidos.
Ainda
assim, conhecer a história e reconhecer suas consequências são operações
diferentes. Uma sociedade pode reunir documentos sobre a violência de Estado e
continuar dividida sobre o significado político daquela violência. Pode ensinar
a existência da tortura nas escolas enquanto parte de seus cidadãos considera
aceitável que autoridades públicas a defendam. Pode preservar as instituições
democráticas e conviver com discursos que relativizam o autoritarismo. O
conhecimento histórico permanece disponível, mas a maneira como é recebido
depende também das disputas políticas e das experiências de quem o encontra.
Penso
nisso porque pertenço a uma geração que não viveu a ditadura brasileira.
Conheci aquele período pelos livros, pelos depoimentos de sobreviventes, pelas
decisões judiciais e pelo trabalho de pessoas que dedicaram suas vidas a
impedir que determinados acontecimentos desaparecessem da memória pública.
Estudar a história da repressão me permitiu compreender experiências que jamais
vivi. Também me fez reconhecer a dimensão da responsabilidade envolvida em
transmitir acontecimentos cuja lembrança, para muitas famílias, permanece
inseparável da perda de alguém.
Há uma
reflexão de José Mujica, registrada em sua entrevista para o documentário Human,
de Yann Arthus-Bertrand, que me acompanha quando penso nessa transmissão. O
ex-presidente uruguaio, que passou anos preso durante a ditadura de seu país,
recorda as expectativas políticas de sua juventude e as derrotas que obrigaram
sua geração a reconsiderar a maneira como imaginava transformar a sociedade.
Entre as descobertas que descreve está a dificuldade de modificar uma cultura,
mesmo quando se consegue alterar suas condições materiais. Sua própria vida
havia sido atravessada por acontecimentos históricos cuja compreensão
dificilmente poderia ser separada da experiência de tê-los vivido.
A
lembrança dessa entrevista me leva a pensar na distância entre a história que
recebemos e aquela que experimentamos pessoalmente. Quem nasceu depois de uma
ditadura pode reconhecer a violência daquele período, mas dificilmente sentirá
a mesma coisa que alguém que esperou por um familiar desaparecido ou aprendeu a
medir as próprias palavras por medo de ser denunciado. A transmissão da memória
exige que experiências individuais adquiram significado para pessoas que não
estavam presentes. É um trabalho necessariamente incompleto, porque cada
geração encontra o passado a partir das perguntas, dos conflitos e das
preocupações do seu próprio tempo.
Seria
possível, então, compreender a permanência de certas disposições autoritárias
no Brasil como resultado dessa distância entre gerações. Muitos dos que votam
hoje nasceram depois de 1985. Outros eram crianças quando a ditadura terminou.
Para eles, o regime militar pertence a uma história recebida, reconstruída por
narrativas familiares, registros públicos, disputas ideológicas e instituições
de ensino. A passagem do tempo altera a relação afetiva com os acontecimentos,
e a memória daqueles que sofreram diretamente a repressão não alcança
necessariamente seus descendentes com a mesma intensidade.
Mas
essa explicação encontra um obstáculo: nós vivemos a pandemia.
Há
apenas alguns anos, acompanhávamos diariamente a divulgação do número de mortos
pela Covid-19. Hospitais ficaram sobrecarregados, famílias perderam pessoas sem
conseguir se despedir, profissionais de saúde trabalharam sob condições
extremas e milhões de brasileiros reorganizaram suas vidas em torno do medo de
adoecer ou transmitir o vírus a alguém próximo. O país ultrapassou a marca de
700 mil mortes oficialmente registradas pela doença. Aquela experiência ocorreu
diante de nós, acompanhada por boletins epidemiológicos, imagens de hospitais,
debates públicos e investigações parlamentares.
Também
acompanhamos a conduta de Jair Bolsonaro. Em abril de 2020, questionado sobre o
número de mortes, o então presidente respondeu que não era coveiro. Ao longo da
emergência sanitária, suas declarações sobre a gravidade da doença, as vacinas
e os tratamentos contrariaram repetidamente orientações científicas. Em 2021, a
Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia investigou ações e omissões do
governo federal e aprovou um relatório que recomendava, entre outras
providências, seu indiciamento. Flávio Bolsonaro, então senador, esteve entre
os defensores políticos do pai durante aqueles trabalhos e chegou a classificar
a investigação como uma grande perda de tempo.
É
evidente que Flávio e Jair Bolsonaro são pessoas distintas, com trajetórias e
responsabilidades próprias. Sigo firme na minha posição de que não devemos
culpar os filhos pelos erros dos seus pais. Mas a candidatura presidencial do
filho também se apresenta como continuidade de um movimento político construído
em torno da figura do pai. A associação envolve uma herança eleitoral, uma
identidade pública e a defesa de parte de seu legado. Quando mais de 56 milhões
de brasileiros escolheram Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026, portanto,
o resultado exigiu uma reflexão que alcança também a memória política dos anos
da pandemia.
O que
fazemos com uma experiência que todos atravessamos, mas da qual não guardamos a
mesma lembrança?
Para
algumas pessoas, aqueles anos estão associados à perda de familiares e ao
sentimento de abandono diante das autoridades públicas. Para outras, permanecem
ligados ao desemprego, ao fechamento de pequenos negócios, à interrupção da
vida escolar ou às restrições impostas à circulação. Houve quem atribuísse ao
governo federal responsabilidade pelas consequências da crise, quem
concentrasse suas críticas nos governadores e prefeitos e quem interpretasse as
medidas sanitárias como uma ameaça à liberdade individual. Estávamos expostos à
mesma emergência, mas nossa percepção do que acontecia era atravessada por
condições materiais, convicções políticas, fontes de informação e experiências
pessoais muito diferentes.
A
pandemia demonstra, assim, um limite particularmente difícil daquilo que
esperamos da memória. Ter vivido um acontecimento não determina a interpretação
que faremos dele. Duas pessoas podem recordar os mesmos meses e discordar
profundamente sobre quem agiu corretamente, quais medidas foram necessárias e
quem deve ser responsabilizado. A existência de provas documentais permite
confrontar afirmações falsas e investigar responsabilidades, mas nem sempre
dissolve os vínculos afetivos e políticos por meio dos quais cada pessoa
organiza suas lembranças.
Talvez
por isso seja insuficiente afirmar que os eleitores simplesmente esqueceram. O
esquecimento existe, assim como a desinformação e a tentativa deliberada de
reescrever acontecimentos recentes. Mas há também aqueles que se lembram e
atribuem ao que viveram outro significado, ou que reconhecem determinados erros
e, ainda assim, consideram outras preocupações mais urgentes. A rejeição ao
Partido dos Trabalhadores, o descontentamento econômico, as expectativas sobre
segurança pública, os valores religiosos e a identificação com o
conservadorismo podem adquirir um peso maior do que a avaliação retrospectiva
da pandemia. Reconhecer essa diversidade de motivações ajuda a compreender como
se constitui uma escolha eleitoral, embora não encerre a discussão sobre suas
consequências políticas.
A
surpresa diante do primeiro turno merece, por isso, ser examinada com a mesma
atenção que dedicamos ao resultado. Entre as pessoas que compartilharam Elis
Regina, havia quem estivesse convencido de que Flávio Bolsonaro dificilmente
chegaria tão longe. Também vi manifestações de artistas e eleitores que, diante
da necessidade de um segundo turno, passaram a discutir o voto estratégico em
Lula. A incredulidade parece nascer de uma expectativa bastante humana:
imaginamos que certas experiências, por sua gravidade, deveriam produzir
consequências morais suficientemente profundas para orientar as escolhas
futuras.
Essa
expectativa tem algo de compreensível. Se a história da ditadura não bastou
para estabelecer um consenso sobre a violência autoritária, talvez a
proximidade da pandemia devesse ter produzido uma consciência diferente sobre o
exercício do poder. Entretanto, a convivência com uma catástrofe tampouco
garante acordo sobre suas causas ou responsabilidades. A memória de uma
sociedade é formada por lembranças que competem entre si, por acontecimentos
que recebem interpretações divergentes e por pessoas que lutam para estabelecer
quais versões do passado terão reconhecimento público.
É
justamente por isso que a preservação da memória continua necessária. As
investigações, os arquivos, os testemunhos e o trabalho de educação histórica
permitem que uma sociedade confronte suas próprias justificativas e mantenha
acessíveis fatos que interesses políticos procuram minimizar. A memória não
oferece imunidade contra a repetição. Sua importância está também na
possibilidade de contestar publicamente a maneira como o passado é narrado,
identificar responsabilidades e transmitir experiências que, sem esse trabalho,
poderiam ser perdidas ou deliberadamente apagadas.
Volto,
então, à canção que compartilhei. Quando Belchior escreveu sobre a semelhança
entre sua geração e a de seus pais, havia uma dor particular no reconhecimento
de que a juventude também podia envelhecer dentro das estruturas que prometera
transformar. A força da interpretação de Elis talvez esteja em conservar essa
descoberta sem oferecer ao ouvinte o conforto de uma solução. Cinquenta anos
depois, seguimos recorrendo àquela voz quando o presente parece desmentir o
futuro que imaginávamos possível.
Mas,
desde que republiquei a música, outra pergunta passou a me incomodar: quem está
incluído naquele nós?
Pensei
inicialmente nos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, nas continuidades
políticas que reconheço em sua candidatura e na dificuldade de compreender por
que os acontecimentos recentes não foram suficientes para afastar tantos
eleitores desse projeto. Agora penso também em quem, como eu, acreditou que a
história da ditadura e a experiência da pandemia teriam tornado esse resultado
menos provável. Talvez a pergunta de Belchior permaneça tão desconfortável
porque alcança também a nossa maneira de compreender o país. Compartilhamos
Elis Regina para lamentar que tantas coisas pareçam continuar iguais. Ainda
precisamos compreender por que esperávamos que fossem diferentes.
Fonte:
Por Estéfany Rocha Monteiro, no Le Monde

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