The
Economist questiona se Lula ainda teria 'uma última carta na manga'
A
revista britânica The Economist publicou uma reportagem na quarta-feira (21/10)
na qual afirma que o segundo turno da eleição brasileira será provavelmente o
mais acirrado desde a redemocratização do país.
A
reportagem questiona em seu título: "Será que Lula, agora um azarão, ainda
tem um última carta na manga".
O texto
afirma que "nenhum candidato que perdeu o primeiro turno conseguiu, até
hoje, vencer o segundo", mas que Lula "se recusa a ser
derrotado", mesmo tendo ficado atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na votação
do primeiro turno.
O
senador aparece um ponto à frente do presidente nas intenções de voto para
presidente no segundo turno, de acordo com o Agregador de Pesquisas da BBC News
Brasil.
"Será
que ele consegue, agora, protagonizar uma reviravolta?", questiona a
Economist.
A
revista afirma que, desde a derrota "desastrosa" no primeiro turno,
Lula tomou "medidas drásticas", como apoiar a redução da maioridade
penal para crimes graves, pressionar o Congresso para aprovar o fim da escala
6x1 e prometeu o perdão da dívida de pequenas empresas e transporte público
gratuito nos finais de semana.
Além
disso, a revista lembra que o governo Lula reajustou o valor do Bolsa Família e
proibiu as apostas esportivas.
A
Economist afirma que pesquisas de opinião sugerem que as medidas estão tendo
algum efeito, mas ressalta que "os institutos de pesquisa no Brasil têm
falhado repetidamente em captar com precisão o sentimento de direita, inclusive
antes do primeiro turno, em 4 de outubro, quando as pesquisas apontavam Lula
com vários pontos de vantagem".
Segundo
a revista, Flávio Bolsonaro está reagindo às medidas de Lula.
"Ele
acabou votando a favor da redução da jornada de trabalho, embora antes a
tivesse criticado. Em um debate no dia 18 de outubro, ele alegou que a
criminalidade havia disparado durante o terceiro mandato de Lula (na verdade,
ela caiu). Dos quatro candidatos de direita eliminados no primeiro turno — que,
somados, obtiveram 8% dos votos —, três declararam apoio a Bolsonaro."
A
revista afirma que, apesar de as pesquisas mostrarem uma disputa acirrada, a
consultoria especializada em previsões eleitorais Le Millénaire, baseada em
Paris, estima em 82% a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro.
A
Economist diz também que a campanha de Flávio Bolsonaro gastou mais do que a de
Lula para impulsionar seu conteúdo online.
"Antes
do primeiro turno da eleição presidencial, a campanha de Bolsonaro gastou pelo
menos US$ 2 milhões para impulsionar seu conteúdo online. A campanha de Lula
gastou pouco menos de US$ 500 mil, embora tenha distribuído muitos adesivos com
o seu rosto", diz a Economist.
"Com
apenas alguns dias de campanha restantes, a equipe de Lula deve esperar,
ansiosamente, que os métodos tradicionais ainda se mostrem os melhores."
• Lula pode ser 'varrido' pela onda de
direita que vem surgindo na América
Latina, mesmo após fracasso de seus governos?
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está diante de uma possível derrota
que pode representar o fim de sua carreira e alinhar o Brasil a uma onda de
direita que tomou grande parte da América Latina, diz uma coluna na revista
americana New Yorker publicada nesta quarta-feira (21/10).
As
chances no segundo turno estão a favor de Flávio Bolsonaro, um político da
direita radical, diz o texto assinado pelo jornalista Ishaan Tharoor. Para
sustentar essa perspectiva, é citado o resultado "surpreendente" do
primeiro turno, em que Flávio ficou à frente de Lula, além do histórico
brasileiro de que, desde 1989, todos os candidatos à presidência que venceram o
primeiro turno ganharam também o segundo.
"Lula
espera que milhões de brasileiros descontentes, que não votaram no primeiro
turno, ainda compareçam às urnas para votar nele", escreve Tharoor,
lembrando no entanto das amplas vitórias da direita no Congresso e nos estados.
"Mesmo
que Lula consiga uma vitória apertada, ele poderá passar seu próximo mandato
bastante limitado por uma estrutura federal dominada pela direita".
Com
Flávio como favorito na disputa, o Brasil está "prestes a se tornar o nome
mais importante em uma longa lista de países latino-americanos que se voltaram
para a direita nos últimos dois anos", uma "guinada" que vai ao
encontro da visão ideológica da gestão do presidente americano Donald Trump
para o hemisfério, diz.
A
coluna sobre o petista tem como título "A última dança de Lula" (em
tradução livre), uma referência ao trecho de uma música famosa de David Bowie e
do Queen, Under Pressure, que vem sendo usada em vídeos de apoiadores do
presidente.
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O legado de Lula e a ascensão da família Bolsonaro
O texto
enumera conquistas dos dois primeiros mandatos de Lula, citando a redução do
desmatamento na Amazônia, a liderança do Brasil em questões climáticas e uma
política externa que colocou o país à frente do chamado "Sul Global".
São
mencionados também "vultuosos gastos sociais", favorecidos por um
ciclo de alta nos preços das commodities e que fizeram com que "dezenas de
milhões de pessoas" saíssem da pobreza.
O texto
então aborda a derrocada política de Lula após o impeachment de Dilma Rousseff
e a Operação Lava Jato, que o fez ficar na prisão por 580 dias, entre abril de
2018 e novembro de 2019.
Mesmo
com uma nova vitória em 2022, na qual Lula derrotou o ex-presidente Jair
Bolsonaro na eleição presidencial, o petista não tem conseguido conquistar
brasileiros impactados pelo alto custo de vida, preocupados com questões
referentes à segurança e à Justiça e pessimistas sobre o futuro do país.
O texto
também aborda brevemente o governo de Jair Bolsonaro, político descrito como um
ex-membro do Exército que "via com bons olhos o período da ditadura
militar"
"Como
presidente, ele eliminou as proteções ambientais estabelecidas por Lula, cortou
verbas destinadas a universidades e a programas de habitação urbana, e conduziu
de forma desastrosa o enfrentamento da pandemia", diz o texto assinado por
Ishaan Tharoor, acrescentando que Jair Bolsonaro "não aceitou perder"
para Lula em 2022.
"Em
8 de janeiro de 2023, milhares de seus apoiadores invadiram o coração de
Brasília, a capital federal, vandalizando os prédios do Supremo Tribunal
Federal, do Congresso e do Palácio Presidencial. As autoridades brasileiras
determinaram, posteriormente, que Bolsonaro fez parte de uma trama golpista
para derrubar Lula; atualmente, ele cumpre uma pena de vinte e sete anos em
regime de prisão domiciliar."
Flávio
Bolsonaro é descrito como alguém que se comporta como "uma versão mais
moderada do pai". O oponente de Lula tem sido "claro" sobre seus
planos de garantir a soltura do pai e de punir ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF) que levaram à condenação de Jair, acrescenta o texto.
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'Estranho labirinto de espelhos' entre Brasil e EUA
O
colunista afirma que o Brasil e os Estados Unidos têm caminhado em paralelo num
"estranho labirinto de espelhos", como mostram os ataques de 8 de
janeiro de 2023 em Brasília e a invasão ao Capitólio, em Washington, em 6 de
janeiro de 2021.
"As
duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental vivem uma realidade
compartilhada em cronologias distintas: tanto Jair Bolsonaro quanto Trump
lançaram-se como demagogos antissistema, promovendo um nacionalismo divisivo
que explorou a apatia e a desilusão generalizadas do eleitorado, e conquistaram
uma base entre cristãos evangélicos fervorosos", escreve Ishaan Tharoor.
Ele
compara, então, Lula a Joe Biden — candidato democrata que chegou a enfrentar
Trump na campanha presidencial de 2024, mas desistiu da tentativa de reeleição,
dando lugar a Kamala Harris, que acabou derrotada.
Mas o
colunista faz uma ressalva nessa comparação: "Ninguém pode acusar Lula,
como fizeram com Biden, de não ter a capacidade mental e física necessária para
o cargo — suas redes sociais trazem vários vídeos dele praticando
exercícios."
Em
outros pontos, porém, há semelhanças.
"Lula
e Joe Biden, veteranos bem conhecidos de um status quo mais antigo e de
orientação liberal, pareciam ser o tipo certo de político para impedir a
reeleição de Bolsonaro e Trump, respectivamente; contudo, não conseguiram
derrotar o trumpismo ou o bolsonarismo enquanto movimentos", afirma.
"Assim
como Biden, Lula constatou, neste pleito, que um número desconcertante de seus
compatriotas permaneceu indiferente aos seus apelos para salvar a democracia
daqueles que buscam miná-la", analisa o texto publicado pela New Yorker.
Fonte:
BBC News Brasil

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