sexta-feira, 23 de outubro de 2026

The Economist questiona se Lula ainda teria 'uma última carta na manga'

A revista britânica The Economist publicou uma reportagem na quarta-feira (21/10) na qual afirma que o segundo turno da eleição brasileira será provavelmente o mais acirrado desde a redemocratização do país.

A reportagem questiona em seu título: "Será que Lula, agora um azarão, ainda tem um última carta na manga".

O texto afirma que "nenhum candidato que perdeu o primeiro turno conseguiu, até hoje, vencer o segundo", mas que Lula "se recusa a ser derrotado", mesmo tendo ficado atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na votação do primeiro turno.

O senador aparece um ponto à frente do presidente nas intenções de voto para presidente no segundo turno, de acordo com o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

"Será que ele consegue, agora, protagonizar uma reviravolta?", questiona a Economist.

A revista afirma que, desde a derrota "desastrosa" no primeiro turno, Lula tomou "medidas drásticas", como apoiar a redução da maioridade penal para crimes graves, pressionar o Congresso para aprovar o fim da escala 6x1 e prometeu o perdão da dívida de pequenas empresas e transporte público gratuito nos finais de semana.

Além disso, a revista lembra que o governo Lula reajustou o valor do Bolsa Família e proibiu as apostas esportivas.

A Economist afirma que pesquisas de opinião sugerem que as medidas estão tendo algum efeito, mas ressalta que "os institutos de pesquisa no Brasil têm falhado repetidamente em captar com precisão o sentimento de direita, inclusive antes do primeiro turno, em 4 de outubro, quando as pesquisas apontavam Lula com vários pontos de vantagem".

Segundo a revista, Flávio Bolsonaro está reagindo às medidas de Lula.

"Ele acabou votando a favor da redução da jornada de trabalho, embora antes a tivesse criticado. Em um debate no dia 18 de outubro, ele alegou que a criminalidade havia disparado durante o terceiro mandato de Lula (na verdade, ela caiu). Dos quatro candidatos de direita eliminados no primeiro turno — que, somados, obtiveram 8% dos votos —, três declararam apoio a Bolsonaro."

A revista afirma que, apesar de as pesquisas mostrarem uma disputa acirrada, a consultoria especializada em previsões eleitorais Le Millénaire, baseada em Paris, estima em 82% a probabilidade de vitória de Flávio Bolsonaro.

A Economist diz também que a campanha de Flávio Bolsonaro gastou mais do que a de Lula para impulsionar seu conteúdo online.

"Antes do primeiro turno da eleição presidencial, a campanha de Bolsonaro gastou pelo menos US$ 2 milhões para impulsionar seu conteúdo online. A campanha de Lula gastou pouco menos de US$ 500 mil, embora tenha distribuído muitos adesivos com o seu rosto", diz a Economist.

"Com apenas alguns dias de campanha restantes, a equipe de Lula deve esperar, ansiosamente, que os métodos tradicionais ainda se mostrem os melhores."

•        Lula pode ser 'varrido' pela onda de direita que  vem surgindo na América Latina, mesmo após fracasso de seus governos?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está diante de uma possível derrota que pode representar o fim de sua carreira e alinhar o Brasil a uma onda de direita que tomou grande parte da América Latina, diz uma coluna na revista americana New Yorker publicada nesta quarta-feira (21/10).

As chances no segundo turno estão a favor de Flávio Bolsonaro, um político da direita radical, diz o texto assinado pelo jornalista Ishaan Tharoor. Para sustentar essa perspectiva, é citado o resultado "surpreendente" do primeiro turno, em que Flávio ficou à frente de Lula, além do histórico brasileiro de que, desde 1989, todos os candidatos à presidência que venceram o primeiro turno ganharam também o segundo.

"Lula espera que milhões de brasileiros descontentes, que não votaram no primeiro turno, ainda compareçam às urnas para votar nele", escreve Tharoor, lembrando no entanto das amplas vitórias da direita no Congresso e nos estados.

"Mesmo que Lula consiga uma vitória apertada, ele poderá passar seu próximo mandato bastante limitado por uma estrutura federal dominada pela direita".

Com Flávio como favorito na disputa, o Brasil está "prestes a se tornar o nome mais importante em uma longa lista de países latino-americanos que se voltaram para a direita nos últimos dois anos", uma "guinada" que vai ao encontro da visão ideológica da gestão do presidente americano Donald Trump para o hemisfério, diz.

A coluna sobre o petista tem como título "A última dança de Lula" (em tradução livre), uma referência ao trecho de uma música famosa de David Bowie e do Queen, Under Pressure, que vem sendo usada em vídeos de apoiadores do presidente.

<><> O legado de Lula e a ascensão da família Bolsonaro

O texto enumera conquistas dos dois primeiros mandatos de Lula, citando a redução do desmatamento na Amazônia, a liderança do Brasil em questões climáticas e uma política externa que colocou o país à frente do chamado "Sul Global".

São mencionados também "vultuosos gastos sociais", favorecidos por um ciclo de alta nos preços das commodities e que fizeram com que "dezenas de milhões de pessoas" saíssem da pobreza.

O texto então aborda a derrocada política de Lula após o impeachment de Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato, que o fez ficar na prisão por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019.

Mesmo com uma nova vitória em 2022, na qual Lula derrotou o ex-presidente Jair Bolsonaro na eleição presidencial, o petista não tem conseguido conquistar brasileiros impactados pelo alto custo de vida, preocupados com questões referentes à segurança e à Justiça e pessimistas sobre o futuro do país.

O texto também aborda brevemente o governo de Jair Bolsonaro, político descrito como um ex-membro do Exército que "via com bons olhos o período da ditadura militar"

"Como presidente, ele eliminou as proteções ambientais estabelecidas por Lula, cortou verbas destinadas a universidades e a programas de habitação urbana, e conduziu de forma desastrosa o enfrentamento da pandemia", diz o texto assinado por Ishaan Tharoor, acrescentando que Jair Bolsonaro "não aceitou perder" para Lula em 2022.

"Em 8 de janeiro de 2023, milhares de seus apoiadores invadiram o coração de Brasília, a capital federal, vandalizando os prédios do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e do Palácio Presidencial. As autoridades brasileiras determinaram, posteriormente, que Bolsonaro fez parte de uma trama golpista para derrubar Lula; atualmente, ele cumpre uma pena de vinte e sete anos em regime de prisão domiciliar."

Flávio Bolsonaro é descrito como alguém que se comporta como "uma versão mais moderada do pai". O oponente de Lula tem sido "claro" sobre seus planos de garantir a soltura do pai e de punir ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que levaram à condenação de Jair, acrescenta o texto.

<><> 'Estranho labirinto de espelhos' entre Brasil e EUA

O colunista afirma que o Brasil e os Estados Unidos têm caminhado em paralelo num "estranho labirinto de espelhos", como mostram os ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília e a invasão ao Capitólio, em Washington, em 6 de janeiro de 2021.

"As duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental vivem uma realidade compartilhada em cronologias distintas: tanto Jair Bolsonaro quanto Trump lançaram-se como demagogos antissistema, promovendo um nacionalismo divisivo que explorou a apatia e a desilusão generalizadas do eleitorado, e conquistaram uma base entre cristãos evangélicos fervorosos", escreve Ishaan Tharoor.

Ele compara, então, Lula a Joe Biden — candidato democrata que chegou a enfrentar Trump na campanha presidencial de 2024, mas desistiu da tentativa de reeleição, dando lugar a Kamala Harris, que acabou derrotada.

Mas o colunista faz uma ressalva nessa comparação: "Ninguém pode acusar Lula, como fizeram com Biden, de não ter a capacidade mental e física necessária para o cargo — suas redes sociais trazem vários vídeos dele praticando exercícios."

Em outros pontos, porém, há semelhanças.

"Lula e Joe Biden, veteranos bem conhecidos de um status quo mais antigo e de orientação liberal, pareciam ser o tipo certo de político para impedir a reeleição de Bolsonaro e Trump, respectivamente; contudo, não conseguiram derrotar o trumpismo ou o bolsonarismo enquanto movimentos", afirma.

"Assim como Biden, Lula constatou, neste pleito, que um número desconcertante de seus compatriotas permaneceu indiferente aos seus apelos para salvar a democracia daqueles que buscam miná-la", analisa o texto publicado pela New Yorker.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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