Onde
foram parar os conservadores?
O
sucesso mundial da extrema direita é hoje uma evidência. Apesar de episódios
surpreendentes, como a eleição de Donald Trump em 2016, ele é resultado de uma
tendência de longa duração e amplamente documentada pela ciência política. Esse
sucesso torna visíveis transformações no campo intelectual da direita que
anteriormente passavam despercebidas.
A
hegemonia cultural e política dos Estados Unidos lança os holofotes sobre uma
constelação de intelectuais e influenciadores reacionários que gravitam em
torno do trumpismo. À esquerda, muito se questionou sobre as razões desse
sucesso, na maioria das vezes voltando-se o olhar para a própria esquerda.
O que a
esquerda deixou de fazer? O social-liberalismo era um beco sem saída? Teríamos
abandonado as classes populares? Perguntou-se menos sobre o que deu errado à
direita. Por que a direita conservadora, com a qual a alternância de poder era
possível, mostrou-se incapaz de resistir à ascensão das ideias reacionárias?
Se essa
questão foi menos colocada, é porque a esquerda geralmente considera a direita
responsável, quando não cúmplice, pela ascensão da extrema direita. A
incapacidade dos conservadores de resistir aos avanços reacionários pertence
tanto ao imaginário antifascista quanto à realidade histórica dos anos 1930.
Mas ela não traduz sempre a mesma atitude. É possível condenar a política de
Hindenburg e a adesão dos meios industriais a Hitler, reconhecendo ao mesmo
tempo que alguns conservadores ofereceram resistência passiva, ou até mesmo
ativa, ao nazismo.
A
esquerda responde que, se existe uma diferença entre conservadores e
reacionários, ela diz respeito aos meios, e não aos fins. O horror aos métodos
hitleristas só se manifesta para alguns conservadores depois que seu objetivo
comum é alcançado: impedir que a esquerda chegue ao poder e aplique políticas
progressistas.
Esse
quadro de análise não se aplica muito bem à situação contemporânea. Observa-se,
certamente, uma aproximação, ou até mesmo uma adesão, dos partidos da direita
conservadora à extrema direita. Mas parece difícil atribuí-la ao temor de uma
onda socialista ou comunista. Sustenta-se, então, que os conservadores estariam
reagindo às vitórias culturais, quando não econômicas, da esquerda.
O
diagnóstico do backlash cultural faz, assim, remontar a difusão das
ideias reacionárias, entre outros fatores, aos anos 1960. Embora não seja
centrado na esquerda, esse relato enfatiza os reacionários mais do que os
conservadores. Ora, nem todos os críticos de 1968 se converteram à reação,
muito menos de um dia para o outro. Entre a narrativa da derrota da esquerda e
a da ascensão dos reacionários, resta uma terceira história a ser escrita: a do
desaparecimento dos conservadores.
<><>
Reacionários e conservadores – uma questão de vocabulário?
À
primeira vista, distinguir um conservador de um reacionário não parece difícil:
os dois termos pertencem ao imaginário coletivo. Dependendo se seu companheiro
te avisa, antes de um jantar em família, que seus pais são conservadores ou
reacionários, você entende o que se espera de você. No primeiro caso, você
tomará certo cuidado em revelar determinados hábitos e comportamentos; no
segundo, evitará determinados assuntos na conversa. Intuitivamente, a reação
aparece como uma postura política, enquanto o conservadorismo remete aos modos
de vida.
Ser
reacionário é manifestar opiniões que se sabe serem contrárias ao
“politicamente correto”, seja no que diz respeito ao racismo, ao antissemitismo
ou ao sexismo. Ser conservador é respeitar e desejar que se respeite um
conjunto de normas morais e sociais, o que não impede que essas normas sejam
discriminatórias.
Essa
abordagem corresponde apenas parcialmente à definição apresentada pelo filósofo
conservador Michael Oakeshott: “Ser conservador é ter inclinação para pensar e
comportar-se de determinada maneira […]. Ser conservador, portanto, é preferir
o familiar ao desconhecido, o experimentado ao não experimentado, o fato ao
mistério, o atual ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante,
o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à
felicidade utópica”.
A
abordagem intuitiva pressupõe modos e circunstâncias particulares, aqueles de
uma determinada sociedade tradicional. A definição de Michael Oakeshott
descontextualiza o conservadorismo para preservar dele apenas sua essência: a
preferência pelo status quo. Ela permite isolar a disposição
conservadora de acordo com o domínio em que ela se manifesta: é possível ter
gostos musicais conservadores e, ao mesmo tempo, adaptar-se à moda
contemporânea.
Na
política, essa preferência se traduz pelo desejo de conservar as condições de
possibilidade das circunstâncias nas quais nos encontramos. O conservadorismo
político procura, assim, proteger “as regras gerais de conduta” que definem
nosso modo de governo. Ele se distingue das doutrinas para as quais agir
politicamente significa perseguir um objetivo substantivo: instituir o Estado
de bem-estar social, realizar a revolução ou restaurar a ordem divina.
A noção
de tradição esclarece, então, a diferença entre conservadores e reacionários.
Os conservadores concebem “a tradição como a fé viva dos mortos”, a herança que
recebemos e que devemos fazer viver. Politicamente, basta, portanto, que o
governo preserve as circunstâncias que permitiram sua transmissão até o
presente. Os reacionários, segundo os conservadores, são tradicionalistas na
medida em que compreendem a tradição como “a fé morta dos vivos”. Como a
transmissão do credo foi interrompida, eles fazem dela o objetivo consciente de
uma empreitada de restauração que não pode prescindir do poder político, e
atacam os obstáculos que lembram que a tradição se tornou letra morta.
Essa
definição é contestável. Diferentemente das outras posições políticas, que
aparecem todas como doutrinas, o conservadorismo assim definido paira acima da
política, da qual se torna o garantidor. Por isso, foi acusado de ser apenas um
véu que encobre o fato de que a defesa do status quo é, na realidade, a
defesa das relações tradicionais de poder que se exercem fora da esfera
política. Segundo o teórico americano Corey Robin, isso impede a reforma
daquilo que essa “vida privada do poder” possui de arbitrário.
O
conservadorismo de Michael Oakeshott permanece silencioso sobre o lugar do pai
na família ou do patrão na fábrica. Na prática, portanto, ele não difere da
reação: ao proteger a transmissão da tradição, protege as formas tradicionais
de dominação.
Essa
recusa em distinguir conservadorismo e reação, ou até mesmo conservadorismo e
fascismo, é clássica na história intelectual da esquerda. Ela pode ser
encontrada tanto em um comunista como Leon Trotsky quanto em um liberal
americano como Albert Hirschman. Sua persistência em contextos variados
demonstra que ela se baseia em uma análise fundamentalmente política:
conservadores e reacionários acabarão sempre por se aliar para barrar o
progresso ou, na linguagem de Corey Robin, para proteger a vida privada do
poder.
Mas
surge então um problema histórico: como explicar que, depois de 1945, os
conservadores tenham aceitado a alternância democrática com a esquerda, ao
mesmo tempo em que colocavam fascismo e comunismo no mesmo plano sob o termo
“totalitarismo”? Por que sua prática política se mostrou mais próxima da
esquerda democrática do que do tradicionalismo dos reacionários?
<><>
Um conservadorismo forjado pela Guerra Fria
Podemos
responder invocando a astúcia dos conservadores. Mas, se nos limitarmos aos
textos e à maneira como os próprios conservadores compreendem a si mesmos, essa
questão faz emergir o contexto no qual a definição de Michael Oakeshott se
desenvolve: as democracias liberais ocidentais e a Guerra Fria.
A obra
de Raymond Aron, centrada nesses dois objetos, esclarece a especificidade
daquilo que chamamos de conservadorismo. Raymond Aron raramente se reivindicou
conservador, exceto em dois elogios às democracias conservadoras: uma
comunicação de 1939 diante da Sociedade Francesa de Filosofia e o capítulo
“Democracias conservadoras” de livro publicado em 1957.
Em
1939, Raymond Aron conclama à unidade dos partidos de esquerda e de direita
diante da ameaça fascista. Ele busca convencer aqueles que pensam que a
Alemanha nazista ameaça, em primeiro lugar, a Rússia comunista: “na ordem
diplomática como na ordem interna, as democracias são potências conservadoras
e, consequentemente, os regimes totalitários devem, antes de tudo, atacá-las”.
Raymond Aron descreve as democracias como regimes definidos pela legalidade,
nos quais a competição das elites dirigentes é controlada por um sistema
representativo.
A
manutenção da legalidade condiciona a conservação de um Estado democrático e
repousa sobre normas civis que garantem que as elites aceitem jogar o jogo da
representação. Essa definição se aproxima daquela de Oakeshott. Concebida às
vésperas da Segunda Guerra Mundial, a ideia de que o conservadorismo protege as
democracias ocidentais diante do totalitarismo irá se incorporar ao quadro da
Guerra Fria.
Em
1957, Raymond Aron se interessa pelas condições de êxito das democracias
conservadoras no longo prazo, no contexto da rivalidade com o comunismo e das
sociedades industriais do pós-guerra. Comparando a instabilidade francesa à
situação da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Alemanha, observa que a
oposição bipartidária e a alternância são, em toda parte, condições de
estabilidade e de sucesso econômico. Ele explica isso por meio de uma fórmula
dupla: “nada fracassa como o sucesso” e “nada tem tanto sucesso quanto o
fracasso”.
Ao
longo dos ciclos eleitorais, cada partido vê sucederem-se o sucesso, a chegada
ao poder e o fracasso, seguido da defesa de seu balanço. A direita pode, assim,
defender o status quo ao mesmo tempo em que aceita as transformações
necessárias ao crescimento; a esquerda pode aplicar seu programa ao mesmo tempo
em que atribui à direita a manutenção das hierarquias.
Em
Raymond Aron, o conservadorismo assume a forma de uma justificação intelectual
do regime das democracias liberais da Guerra Fria. De um lado, a ameaça
soviética transforma a defesa do regime democrático em um imperativo
existencial: não há necessidade de justificar o desejo de conservar a
democracia; basta “opor ao regime soviético totalitário os fatos, […] as
características desse regime”.
De
outro, a alternância bipartidária assegura que direita e esquerda tenham
interesse na manutenção das “regras gerais de conduta” que caracterizam o
governo democrático. O conservadorismo tal como definido por Oakeshott aparece,
portanto, como produto da Guerra Fria: de um contexto internacional, a oposição
entre Leste e Oeste, e de um ponto de vista dentro dessa oposição, o das
democracias liberais da Europa Ocidental. O fim da Guerra Fria oferece,
portanto, o ponto de partida para explicar o desaparecimento do
conservadorismo.
<><>
Um conservadorismo não tradicionalista
Essas
condições também esclarecem aquilo que havíamos apresentado como o ponto de
discórdia entre conservadores e reacionários: o tradicionalismo. Aplicado à
política, o tradicionalismo como “fé morta dos vivos” é a doutrina que faz da
tradição a fonte da legitimidade política. Ora, sua defesa mais conhecida
pertence ao pensamento conservador: a condenação da Revolução Francesa por
Edmund Burke.
Porque
a razão iluminista rompe com a tradição, compreendida como o conjunto das
instituições e dos preconceitos considerados portadores da sabedoria acumulada
pelas gerações, Edmund Burke prevê que a promessa democrática da Revolução
resultará em anarquia. A outra forma célebre é o tradicionalismo religioso de
Joseph de Maistre, também nascido da reação à Revolução. A tradição designa,
nesse caso, a revelação divina; ao contrário da tradição burkeana, ela não é
fruto de uma evolução inconsciente, mas de uma transmissão consciente.
Que os
conservadores da Guerra Fria tenham chegado a rejeitar o tradicionalismo nessas
duas formas constitui, portanto, uma inovação intelectual amplamente ignorada.
Essa rejeição decorre da ideia de que não é possível recorrer à tradição para
justificar a democracia liberal.
Raymond
Aron exprime isso ao destacar que o modelo do Antigo Regime é inaplicável às
sociedades industriais: “A legitimidade do soberano separava-se dificilmente
dos ensinamentos da Igreja, a da nobreza provinha de um longo passado. Uma vez
que a Igreja e a tradição são questionadas ou rejeitadas, proclamada a
soberania do povo, todos os partidos, todos os grupos sociais são arrastados
para um debate incessante sobre o regime mais conforme às ideias dominantes
(liberdade e igualdade), o mais favorável à riqueza das coletividades e ao
bem-estar dos indivíduos”.
Raymond
Aron não contesta que Edmund Burke possa ter tido razão em seu tempo; constata
que esse tempo passou. Em sociedades pluralistas, é ilusório fundamentar o
consentimento dos cidadãos em uma tradição política que eles não compartilham.
Mas Raymond Aron também lembra que a modernização não implicou necessariamente
“a ruptura com as tradições nacionais seculares”, como demonstram “as
modernizações mais bem-sucedidas, a do Japão e a de Taiwan”. As democracias
liberais não podem ser tradicionalistas, o que não as impede de serem
tradicionais.
Essa
crítica é essencialmente sociológica. Aquela que Leo Strauss dirige a Edmund
Burke em Direito natural e história a complementa no plano filosófico.
Segundo Leo Strauss, figura tutelar do conservadorismo americano do pós-guerra,
o defeito irremediável de Edmund Burke é seu historicismo: ele quer legitimar a
ordem política tradicional ao mesmo tempo em que afirma que ela é produto de
uma “causalidade fortuita”. Ora, se a tradição é fruto de um processo
inconsciente e incontrolável, é impossível voltar atrás quando seu fio é
rompido. Leo Strauss sugere, ao contrário, que, se a tradição contém um fundo
de verdade, o que importa é fazer emergir essa verdade, e não enfatizar sua
ligação com a tradição.
Para
esses conservadores, o tradicionalismo é, portanto, um beco sem saída prático.
Os tradicionalistas pregam que o respeito à tradição é necessário para uma
ordem política estável, omitindo que ela só a estabiliza quando já é
compartilhada e reconhecida pelos membros da sociedade. E querem restaurar
politicamente a tradição precisamente porque ela já não o é. O mesmo vale para
o tradicionalismo religioso: o fato de uma sociedade que compartilha um mesmo
dogma ser mais estável nada diz sobre a possibilidade de restaurar esse dogma.
Em
Michael Oakeshott, Raymond Aron e Leo Strauss, essa rejeição visa menos à noção
de tradição do que à ideia de que ela possa constituir o objetivo de uma
doutrina política. O conservadorismo da Guerra Fria recusa, assim, que a ordem
política seja justificada por analogia com a ordem familiar, religiosa ou
econômica. O governo democrático se opõe ao governo do pai, do pastor ou do
patrão.
Assim,
mesmo que a tese de Robin seja, em geral, correta, a Guerra Fria parece ter
dado origem a um conservadorismo que não pode ser reduzido à reação. Isso
ocorre porque seu quadro de análise é o do totalitarismo, no qual os defeitos
do regime soviético são compreendidos à luz do exemplo fascista, em particular
do nazismo.
Raymond
Aron compreende, assim, o comunismo como uma “religião secular”, uma doutrina
que promete realizar aqui na Terra a salvação da humanidade mediante a criação
de uma nova ordem social. O tradicionalismo político também é uma delas, quer
acredite poder realizar aqui na Terra a vontade de Deus, quer pretenda
restaurar uma tradição nacional com a qual teríamos rompido. Para conservar os
regimes democráticos, é necessário, portanto, que a alternância exclua esses
dois extremos que – porque se apoiam em uma fé – não podem suportar o fracasso.
<><>Conclusão
Não é,
portanto, o conservadorismo como categoria abstrata que desapareceu, mas as
condições de possibilidade da variante que havia se tornado familiar para nós.
Primeiro, a Guerra Fria terminou e, com ela, a evidência da oposição ao
comunismo.
Francis
Fukuyama, influenciado por Leo Strauss, já escrevia que, se o fim da história
coincidisse com o triunfo das democracias liberais, a ameaça viria do
radicalismo de direita: se não houver “nem tirania nem opressões dignas desse
nome contra as quais lutar”, os seres humanos em busca de experiências
transcendentes “lutarão contra essa paz e essa prosperidade, e contra a
democracia”.
Sobretudo,
a alternância bipartidária também chegou ao fim: o ciclo eleitoral já não
satisfaz as condições que Raymond Aron considerava favoráveis a uma democracia
conservadora. Em vez de aparecer como a ocasião para um sucesso, cada eleição
assume os contornos da última oportunidade de chegar ao poder.
No
plano institucional, portanto, o desaparecimento do conservadorismo da Guerra
Fria é lógico. Sua defesa da democracia liberal, compreendida como competição
eleitoral legal, não é guiada por um princípio: baseia-se em uma análise
contextual e não sobrevive ao desaparecimento dessas condições. Mas esse
desaparecimento é, por isso mesmo, reversível.
Os
regimes autoritários e as ambições imperiais não desapareceram com a Guerra
Fria: ainda se pode afirmar, com Aron, que um exame factual dos inimigos
externos das democracias liberais basta para destacar seu valor. E as
disfunções da política partidária não impedem que se imagine o retorno de uma
alternância democrática saudável.
Entretanto,
o desvio pelo tradicionalismo mostra que, no plano intelectual, esse
desaparecimento ultrapassa a extinção de suas condições institucionais, que
poderia muito bem suscitar um apelo à sua reconstrução. A força de atração dos
conservadores da Guerra Fria não repousava apenas em uma análise fria das
democracias liberais, mas também em uma concepção da tradição, da relação que
une os vivos aos mortos e do presente, como o futuro, ao passado.
Se eles
desaparecem, é porque já não conseguem sustentar que a modernidade política não
rima necessariamente com a morte da tradição. Que interpretemos esse fracasso
sob o ângulo da responsabilidade (eles não souberam cumprir essa tarefa) ou da
necessidade (a modernidade acaba tornando essa articulação impossível) importa
pouco.
O
essencial é que, do ponto de vista conservador, o retorno vigoroso do
tradicionalismo também se explica pelo enfraquecimento do terreno intelectual
que ele veio ocupar. Enfraquecimento do qual têm consciência aqueles que, como
Peter Thiel, romperam com o conservadorismo da Guerra Fria: “Ao contrário de
Strauss, o estadista cristão sabe que a era moderna não será permanente e que,
finalmente, dará lugar a algo muito diferente”.
Fonte:
Por Thomas Charrayre, em A Terra é Redonda

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