sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Onde foram parar os conservadores?

O sucesso mundial da extrema direita é hoje uma evidência. Apesar de episódios surpreendentes, como a eleição de Donald Trump em 2016, ele é resultado de uma tendência de longa duração e amplamente documentada pela ciência política. Esse sucesso torna visíveis transformações no campo intelectual da direita que anteriormente passavam despercebidas.

A hegemonia cultural e política dos Estados Unidos lança os holofotes sobre uma constelação de intelectuais e influenciadores reacionários que gravitam em torno do trumpismo. À esquerda, muito se questionou sobre as razões desse sucesso, na maioria das vezes voltando-se o olhar para a própria esquerda.

O que a esquerda deixou de fazer? O social-liberalismo era um beco sem saída? Teríamos abandonado as classes populares? Perguntou-se menos sobre o que deu errado à direita. Por que a direita conservadora, com a qual a alternância de poder era possível, mostrou-se incapaz de resistir à ascensão das ideias reacionárias?

Se essa questão foi menos colocada, é porque a esquerda geralmente considera a direita responsável, quando não cúmplice, pela ascensão da extrema direita. A incapacidade dos conservadores de resistir aos avanços reacionários pertence tanto ao imaginário antifascista quanto à realidade histórica dos anos 1930. Mas ela não traduz sempre a mesma atitude. É possível condenar a política de Hindenburg e a adesão dos meios industriais a Hitler, reconhecendo ao mesmo tempo que alguns conservadores ofereceram resistência passiva, ou até mesmo ativa, ao nazismo.

A esquerda responde que, se existe uma diferença entre conservadores e reacionários, ela diz respeito aos meios, e não aos fins. O horror aos métodos hitleristas só se manifesta para alguns conservadores depois que seu objetivo comum é alcançado: impedir que a esquerda chegue ao poder e aplique políticas progressistas.

Esse quadro de análise não se aplica muito bem à situação contemporânea. Observa-se, certamente, uma aproximação, ou até mesmo uma adesão, dos partidos da direita conservadora à extrema direita. Mas parece difícil atribuí-la ao temor de uma onda socialista ou comunista. Sustenta-se, então, que os conservadores estariam reagindo às vitórias culturais, quando não econômicas, da esquerda.

O diagnóstico do backlash cultural faz, assim, remontar a difusão das ideias reacionárias, entre outros fatores, aos anos 1960. Embora não seja centrado na esquerda, esse relato enfatiza os reacionários mais do que os conservadores. Ora, nem todos os críticos de 1968 se converteram à reação, muito menos de um dia para o outro. Entre a narrativa da derrota da esquerda e a da ascensão dos reacionários, resta uma terceira história a ser escrita: a do desaparecimento dos conservadores.

<><> Reacionários e conservadores – uma questão de vocabulário?

À primeira vista, distinguir um conservador de um reacionário não parece difícil: os dois termos pertencem ao imaginário coletivo. Dependendo se seu companheiro te avisa, antes de um jantar em família, que seus pais são conservadores ou reacionários, você entende o que se espera de você. No primeiro caso, você tomará certo cuidado em revelar determinados hábitos e comportamentos; no segundo, evitará determinados assuntos na conversa. Intuitivamente, a reação aparece como uma postura política, enquanto o conservadorismo remete aos modos de vida.

Ser reacionário é manifestar opiniões que se sabe serem contrárias ao “politicamente correto”, seja no que diz respeito ao racismo, ao antissemitismo ou ao sexismo. Ser conservador é respeitar e desejar que se respeite um conjunto de normas morais e sociais, o que não impede que essas normas sejam discriminatórias.

Essa abordagem corresponde apenas parcialmente à definição apresentada pelo filósofo conservador Michael Oakeshott: “Ser conservador é ter inclinação para pensar e comportar-se de determinada maneira […]. Ser conservador, portanto, é preferir o familiar ao desconhecido, o experimentado ao não experimentado, o fato ao mistério, o atual ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica”.

A abordagem intuitiva pressupõe modos e circunstâncias particulares, aqueles de uma determinada sociedade tradicional. A definição de Michael Oakeshott descontextualiza o conservadorismo para preservar dele apenas sua essência: a preferência pelo status quo. Ela permite isolar a disposição conservadora de acordo com o domínio em que ela se manifesta: é possível ter gostos musicais conservadores e, ao mesmo tempo, adaptar-se à moda contemporânea.

Na política, essa preferência se traduz pelo desejo de conservar as condições de possibilidade das circunstâncias nas quais nos encontramos. O conservadorismo político procura, assim, proteger “as regras gerais de conduta” que definem nosso modo de governo. Ele se distingue das doutrinas para as quais agir politicamente significa perseguir um objetivo substantivo: instituir o Estado de bem-estar social, realizar a revolução ou restaurar a ordem divina.

A noção de tradição esclarece, então, a diferença entre conservadores e reacionários. Os conservadores concebem “a tradição como a fé viva dos mortos”, a herança que recebemos e que devemos fazer viver. Politicamente, basta, portanto, que o governo preserve as circunstâncias que permitiram sua transmissão até o presente. Os reacionários, segundo os conservadores, são tradicionalistas na medida em que compreendem a tradição como “a fé morta dos vivos”. Como a transmissão do credo foi interrompida, eles fazem dela o objetivo consciente de uma empreitada de restauração que não pode prescindir do poder político, e atacam os obstáculos que lembram que a tradição se tornou letra morta.

Essa definição é contestável. Diferentemente das outras posições políticas, que aparecem todas como doutrinas, o conservadorismo assim definido paira acima da política, da qual se torna o garantidor. Por isso, foi acusado de ser apenas um véu que encobre o fato de que a defesa do status quo é, na realidade, a defesa das relações tradicionais de poder que se exercem fora da esfera política. Segundo o teórico americano Corey Robin, isso impede a reforma daquilo que essa “vida privada do poder” possui de arbitrário.

O conservadorismo de Michael Oakeshott permanece silencioso sobre o lugar do pai na família ou do patrão na fábrica. Na prática, portanto, ele não difere da reação: ao proteger a transmissão da tradição, protege as formas tradicionais de dominação.

Essa recusa em distinguir conservadorismo e reação, ou até mesmo conservadorismo e fascismo, é clássica na história intelectual da esquerda. Ela pode ser encontrada tanto em um comunista como Leon Trotsky quanto em um liberal americano como Albert Hirschman. Sua persistência em contextos variados demonstra que ela se baseia em uma análise fundamentalmente política: conservadores e reacionários acabarão sempre por se aliar para barrar o progresso ou, na linguagem de Corey Robin, para proteger a vida privada do poder.

Mas surge então um problema histórico: como explicar que, depois de 1945, os conservadores tenham aceitado a alternância democrática com a esquerda, ao mesmo tempo em que colocavam fascismo e comunismo no mesmo plano sob o termo “totalitarismo”? Por que sua prática política se mostrou mais próxima da esquerda democrática do que do tradicionalismo dos reacionários?

<><> Um conservadorismo forjado pela Guerra Fria

Podemos responder invocando a astúcia dos conservadores. Mas, se nos limitarmos aos textos e à maneira como os próprios conservadores compreendem a si mesmos, essa questão faz emergir o contexto no qual a definição de Michael Oakeshott se desenvolve: as democracias liberais ocidentais e a Guerra Fria.

A obra de Raymond Aron, centrada nesses dois objetos, esclarece a especificidade daquilo que chamamos de conservadorismo. Raymond Aron raramente se reivindicou conservador, exceto em dois elogios às democracias conservadoras: uma comunicação de 1939 diante da Sociedade Francesa de Filosofia e o capítulo “Democracias conservadoras” de livro publicado em 1957.

Em 1939, Raymond Aron conclama à unidade dos partidos de esquerda e de direita diante da ameaça fascista. Ele busca convencer aqueles que pensam que a Alemanha nazista ameaça, em primeiro lugar, a Rússia comunista: “na ordem diplomática como na ordem interna, as democracias são potências conservadoras e, consequentemente, os regimes totalitários devem, antes de tudo, atacá-las”. Raymond Aron descreve as democracias como regimes definidos pela legalidade, nos quais a competição das elites dirigentes é controlada por um sistema representativo.

A manutenção da legalidade condiciona a conservação de um Estado democrático e repousa sobre normas civis que garantem que as elites aceitem jogar o jogo da representação. Essa definição se aproxima daquela de Oakeshott. Concebida às vésperas da Segunda Guerra Mundial, a ideia de que o conservadorismo protege as democracias ocidentais diante do totalitarismo irá se incorporar ao quadro da Guerra Fria.

Em 1957, Raymond Aron se interessa pelas condições de êxito das democracias conservadoras no longo prazo, no contexto da rivalidade com o comunismo e das sociedades industriais do pós-guerra. Comparando a instabilidade francesa à situação da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Alemanha, observa que a oposição bipartidária e a alternância são, em toda parte, condições de estabilidade e de sucesso econômico. Ele explica isso por meio de uma fórmula dupla: “nada fracassa como o sucesso” e “nada tem tanto sucesso quanto o fracasso”.

Ao longo dos ciclos eleitorais, cada partido vê sucederem-se o sucesso, a chegada ao poder e o fracasso, seguido da defesa de seu balanço. A direita pode, assim, defender o status quo ao mesmo tempo em que aceita as transformações necessárias ao crescimento; a esquerda pode aplicar seu programa ao mesmo tempo em que atribui à direita a manutenção das hierarquias.

Em Raymond Aron, o conservadorismo assume a forma de uma justificação intelectual do regime das democracias liberais da Guerra Fria. De um lado, a ameaça soviética transforma a defesa do regime democrático em um imperativo existencial: não há necessidade de justificar o desejo de conservar a democracia; basta “opor ao regime soviético totalitário os fatos, […] as características desse regime”.

De outro, a alternância bipartidária assegura que direita e esquerda tenham interesse na manutenção das “regras gerais de conduta” que caracterizam o governo democrático. O conservadorismo tal como definido por Oakeshott aparece, portanto, como produto da Guerra Fria: de um contexto internacional, a oposição entre Leste e Oeste, e de um ponto de vista dentro dessa oposição, o das democracias liberais da Europa Ocidental. O fim da Guerra Fria oferece, portanto, o ponto de partida para explicar o desaparecimento do conservadorismo.

<><> Um conservadorismo não tradicionalista

Essas condições também esclarecem aquilo que havíamos apresentado como o ponto de discórdia entre conservadores e reacionários: o tradicionalismo. Aplicado à política, o tradicionalismo como “fé morta dos vivos” é a doutrina que faz da tradição a fonte da legitimidade política. Ora, sua defesa mais conhecida pertence ao pensamento conservador: a condenação da Revolução Francesa por Edmund Burke.

Porque a razão iluminista rompe com a tradição, compreendida como o conjunto das instituições e dos preconceitos considerados portadores da sabedoria acumulada pelas gerações, Edmund Burke prevê que a promessa democrática da Revolução resultará em anarquia. A outra forma célebre é o tradicionalismo religioso de Joseph de Maistre, também nascido da reação à Revolução. A tradição designa, nesse caso, a revelação divina; ao contrário da tradição burkeana, ela não é fruto de uma evolução inconsciente, mas de uma transmissão consciente.

Que os conservadores da Guerra Fria tenham chegado a rejeitar o tradicionalismo nessas duas formas constitui, portanto, uma inovação intelectual amplamente ignorada. Essa rejeição decorre da ideia de que não é possível recorrer à tradição para justificar a democracia liberal.

Raymond Aron exprime isso ao destacar que o modelo do Antigo Regime é inaplicável às sociedades industriais: “A legitimidade do soberano separava-se dificilmente dos ensinamentos da Igreja, a da nobreza provinha de um longo passado. Uma vez que a Igreja e a tradição são questionadas ou rejeitadas, proclamada a soberania do povo, todos os partidos, todos os grupos sociais são arrastados para um debate incessante sobre o regime mais conforme às ideias dominantes (liberdade e igualdade), o mais favorável à riqueza das coletividades e ao bem-estar dos indivíduos”.

Raymond Aron não contesta que Edmund Burke possa ter tido razão em seu tempo; constata que esse tempo passou. Em sociedades pluralistas, é ilusório fundamentar o consentimento dos cidadãos em uma tradição política que eles não compartilham. Mas Raymond Aron também lembra que a modernização não implicou necessariamente “a ruptura com as tradições nacionais seculares”, como demonstram “as modernizações mais bem-sucedidas, a do Japão e a de Taiwan”. As democracias liberais não podem ser tradicionalistas, o que não as impede de serem tradicionais.

Essa crítica é essencialmente sociológica. Aquela que Leo Strauss dirige a Edmund Burke em Direito natural e história a complementa no plano filosófico. Segundo Leo Strauss, figura tutelar do conservadorismo americano do pós-guerra, o defeito irremediável de Edmund Burke é seu historicismo: ele quer legitimar a ordem política tradicional ao mesmo tempo em que afirma que ela é produto de uma “causalidade fortuita”. Ora, se a tradição é fruto de um processo inconsciente e incontrolável, é impossível voltar atrás quando seu fio é rompido. Leo Strauss sugere, ao contrário, que, se a tradição contém um fundo de verdade, o que importa é fazer emergir essa verdade, e não enfatizar sua ligação com a tradição.

Para esses conservadores, o tradicionalismo é, portanto, um beco sem saída prático. Os tradicionalistas pregam que o respeito à tradição é necessário para uma ordem política estável, omitindo que ela só a estabiliza quando já é compartilhada e reconhecida pelos membros da sociedade. E querem restaurar politicamente a tradição precisamente porque ela já não o é. O mesmo vale para o tradicionalismo religioso: o fato de uma sociedade que compartilha um mesmo dogma ser mais estável nada diz sobre a possibilidade de restaurar esse dogma.

Em Michael Oakeshott, Raymond Aron e Leo Strauss, essa rejeição visa menos à noção de tradição do que à ideia de que ela possa constituir o objetivo de uma doutrina política. O conservadorismo da Guerra Fria recusa, assim, que a ordem política seja justificada por analogia com a ordem familiar, religiosa ou econômica. O governo democrático se opõe ao governo do pai, do pastor ou do patrão.

Assim, mesmo que a tese de Robin seja, em geral, correta, a Guerra Fria parece ter dado origem a um conservadorismo que não pode ser reduzido à reação. Isso ocorre porque seu quadro de análise é o do totalitarismo, no qual os defeitos do regime soviético são compreendidos à luz do exemplo fascista, em particular do nazismo.

Raymond Aron compreende, assim, o comunismo como uma “religião secular”, uma doutrina que promete realizar aqui na Terra a salvação da humanidade mediante a criação de uma nova ordem social. O tradicionalismo político também é uma delas, quer acredite poder realizar aqui na Terra a vontade de Deus, quer pretenda restaurar uma tradição nacional com a qual teríamos rompido. Para conservar os regimes democráticos, é necessário, portanto, que a alternância exclua esses dois extremos que – porque se apoiam em uma fé – não podem suportar o fracasso.

<><>Conclusão

Não é, portanto, o conservadorismo como categoria abstrata que desapareceu, mas as condições de possibilidade da variante que havia se tornado familiar para nós. Primeiro, a Guerra Fria terminou e, com ela, a evidência da oposição ao comunismo.

Francis Fukuyama, influenciado por Leo Strauss, já escrevia que, se o fim da história coincidisse com o triunfo das democracias liberais, a ameaça viria do radicalismo de direita: se não houver “nem tirania nem opressões dignas desse nome contra as quais lutar”, os seres humanos em busca de experiências transcendentes “lutarão contra essa paz e essa prosperidade, e contra a democracia”.

Sobretudo, a alternância bipartidária também chegou ao fim: o ciclo eleitoral já não satisfaz as condições que Raymond Aron considerava favoráveis a uma democracia conservadora. Em vez de aparecer como a ocasião para um sucesso, cada eleição assume os contornos da última oportunidade de chegar ao poder.

No plano institucional, portanto, o desaparecimento do conservadorismo da Guerra Fria é lógico. Sua defesa da democracia liberal, compreendida como competição eleitoral legal, não é guiada por um princípio: baseia-se em uma análise contextual e não sobrevive ao desaparecimento dessas condições. Mas esse desaparecimento é, por isso mesmo, reversível.

Os regimes autoritários e as ambições imperiais não desapareceram com a Guerra Fria: ainda se pode afirmar, com Aron, que um exame factual dos inimigos externos das democracias liberais basta para destacar seu valor. E as disfunções da política partidária não impedem que se imagine o retorno de uma alternância democrática saudável.

Entretanto, o desvio pelo tradicionalismo mostra que, no plano intelectual, esse desaparecimento ultrapassa a extinção de suas condições institucionais, que poderia muito bem suscitar um apelo à sua reconstrução. A força de atração dos conservadores da Guerra Fria não repousava apenas em uma análise fria das democracias liberais, mas também em uma concepção da tradição, da relação que une os vivos aos mortos e do presente, como o futuro, ao passado.

Se eles desaparecem, é porque já não conseguem sustentar que a modernidade política não rima necessariamente com a morte da tradição. Que interpretemos esse fracasso sob o ângulo da responsabilidade (eles não souberam cumprir essa tarefa) ou da necessidade (a modernidade acaba tornando essa articulação impossível) importa pouco.

O essencial é que, do ponto de vista conservador, o retorno vigoroso do tradicionalismo também se explica pelo enfraquecimento do terreno intelectual que ele veio ocupar. Enfraquecimento do qual têm consciência aqueles que, como Peter Thiel, romperam com o conservadorismo da Guerra Fria: “Ao contrário de Strauss, o estadista cristão sabe que a era moderna não será permanente e que, finalmente, dará lugar a algo muito diferente”.

 

Fonte: Por Thomas Charrayre, em A Terra é Redonda

 

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