Uma
aposta civilizatória
Apenas um
dia nos separam da eleição presidencial mais importante da história que se
seguiu à Constituição Federal brasileira promulgada em 5 de outubro de 1988.
Corrijo-me. Apenas quatro dias nos separam da eleição presidencial mais
importante da história republicana brasileira principiada em 15 de novembro de
1889.
As
razões para um tal juízo histórico são muitas e o espaço de um artigo de
opinião é insuficiente para enumerá-las, o que me obriga a destacar aquela que
muitos de nós situados no campo democrático-popular e socialista consideramos
como sendo a mais importante e central de todas: a questão democrática e dos
direitos humanos – direitos civis, políticos, sociais e à diversidade.
A
eleição de 25 de outubro de 2026 colocará frente a frente, sem mediações, dois
projetos visceralmente antagônicos quanto à manutenção da democracia e dos
direitos humanos, em suas múltiplas dimensões acima assinaladas, com destaque
na atual conjuntura histórica para as da preservação da soberania nacional e do
combate a todas as modalidades de desigualdade existentes em nosso país.
Democracia
e direitos humanos estes arduamente conquistados nos últimos 137 anos de vida
republicana pelas classes e grupos sociais subalternizados, inobstante os
trágicos hiatos autoritários não apenas das ditaduras do Estado Novo e Militar,
entre 1937-1945 e 1964-1985, respectivamente, mas também durante o regime
oligárquico da República Velha, entre 1889 e 1930.
Guardadas
as enormes diferenças existentes, as candidaturas do presidente Lula (PT) e do
senador Flávio Bolsonaro (PL) trazem em si a memória histórica das lutas
travadas entre republicanos (derrotados) e falangistas na Guerra Civil
Espanhola, e entre partigiani (vitoriosos) e fascistas durante as duas décadas
de ditadura mussoliniana na Itália monárquica – ainda que, na Espanha e na
Itália da primeira metade do século passado, as armas estivessem no lugar das
urnas eletrônicas.
O
presidente Lula e o filho 01 de Jair Bolsonaro representam estruturalmente dois
polos socioeconômicos e ideopolíticos opostos presentes na sociedade brasileira
desde a queda do regime monárquico, ainda que tragam consigo as marcas
profundas do nosso sistema escravocrata. Como todos sabem – apesar das
tentativas da mídia corporativa de convencer a opinião pública do contrário –,
não são polos igualmente extremistas pelo seu desprezo em relação às regras do
jogo de um Estado de Direito Democrático, mas sim por terem em vista, por um
lado, a defesa da democracia e dos direitos humanos, e, por outro lado, o
aniquilamento de ambos sob
Já
ficaram para trás os tempos em que se falava da existência de uma esquerda
democrática e de uma esquerda autoritária no Brasil, o que não significa dizer
que não continuem a existir personalidades e grupelhos, só enxergáveis com o
auxílio de um microscópio, que tratam a democracia e os direitos humanos como,
nada mais nada menos que, um engodo responsável pela preservação do modo de
produção capitalista, o qual somente seria sepultado por intermédio da ditadura
do proletariado, que, historicamente, no decorrer do século XX, nos países em
que vigorou o socialismo de caserna, foi a ditadura do partido único.
Num
movimento radicalmente inverso, a direita brasileira, que nunca teve vínculos
orgânicos e duradouros com a democracia e, diga-se de passagem, nem mesmo com o
liberalismo político – tendo-os mandado ambos às favas nos momentos históricos
em que avançaram processos de socialização da política e de ampliação dos
direitos sociais, a exemplo de 1964 –, desde o golpe
jurídico-parlamentar-midiático de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff,
aderiu de maneira majoritária às concepções autoritárias de sociedade e de
Estado, arrastando consigo uma perigosíssima base de massas – a ponto do seu
Partido Liberal ser, de fato e por ironia da história, um partido que abriga no
seu interior o neofascismo.
A “onda
vermelha” que tomou conta do país a partir de baixo no dia seguinte ao primeiro
turno das eleições, impulsionada especialmente pela juventude estudantil,
representou uma resposta veloz ao “sinal de alarme” que soou na noite do dia 4
de outubro. Seu ímpeto foi responsável pelo deslocamento rápido de um
“pessimismo da razão” que poderia resultar num estado de resignação e letargia,
para um “otimismo da vontade” que não dá sinais de ufanismo irresponsável.
A
virada é uma incógnita, mas a disposição de luta demonstrada nas ruas aponta um
caminho a ser seguido caso ela aconteça e se dê início ao quarto mandato
presidencial do Lula e sexto encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores.
Tenho
plena consciência de que, em grande medida, o que foi dito acima não passa de
um conjunto de platitudes. Entretanto, o enorme risco de sermos derrotados no
próximo domingo parece sinalizar que metade do eleitorado brasileiro concorda
com um projeto de “mudança” de natureza antidemocrática ou não consegue
identificar na candidatura de Flávio Bolsonaro um perigo para a democracia, ou
ainda, não se preocupa minimamente com o fato de viver sob um regime
democrático ou um regime que restrinja, em maior ou menor medida, as liberdades
democráticas.
Ainda
assim, é preciso reiterar, em alto e bom som, a platitude de que quatro dias
nos separam de uma eleição que definirá o futuro da democracia e dos direitos
humanos no Brasil não apenas no curto prazo de um mandato de quatro anos, como
se estivéssemos em meio a uma situação de normalidade democrática, diante de
uma escolha rotineira fundada no princípio da alternância de governo. Não.
Nós
estamos atravessando uma situação de “emergência democrática” e os eleitores
brasileiros decidirão no próximo 25 de outubro os destinos da democracia e dos
direitos humanos no curto e médio prazo, com implicações possivelmente
irreversíveis para as gerações vindouras. Assim, para a salvação e o mais que
desejável aprofundamento da democracia e dos direitos humanos no Brasil, a
reeleição do presidente Lula é bem mais que a única alternativa possível.
Trata-se
de uma aposta civilizatória!
Fonte:
Por Marco Mondaini, em A Terra é Redonda

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