sábado, 24 de outubro de 2026

Programa de Flávio Bolsonaro promete adiar devolução de impostos para 70 milhões de brasileiros

A proposta de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de suspender por um ano a implementação da reforma tributária poderá adiar também a devolução de impostos a até 70 milhões de brasileiros de baixa renda. O benefício, conhecido como cashback, está previsto na legislação aprovada pelo Congresso e começará a considerar o consumo das famílias em janeiro de 2027. A candidatura não esclareceu se pretende manter esse calendário caso consiga interromper a entrada em vigor do novo sistema.

A intenção de suspender a reforma está registrada no próprio site de campanha de Flávio. Em publicação de 22 de agosto, intitulada “Fim da reeleição e suspensão da reforma tributária serão os primeiros atos do senador Flávio Bolsonaro ao ser eleito presidente da República”, a equipe do candidato apresentou a medida como uma de suas prioridades para o início de um eventual governo.

No comunicado, a campanha afirma que “o adiamento por um ano da reforma tributária é o tempo necessário para ampliar o debate mais democrático e favorecer a implementação de reformas econômicas estruturantes”.

O senador também havia defendido a medida publicamente em junho, durante entrevista à Times Brasil/CNBC. “Vamos suspender a entrada em vigor dela por, pelo menos, um ano”, declarou.

O ponto que não aparece nas justificativas da campanha é que a reforma inclui um mecanismo criado especificamente para diminuir os impostos pagos pelas famílias mais pobres. Ao contrário de benefícios que ainda dependem de aprovação legislativa, o cashback já está previsto em lei e possui um calendário de implementação.

O artigo 123 da Lei Complementar 214/2025 estabelece que a devolução da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), tributo federal, será calculada sobre o consumo familiar realizado a partir de janeiro de 2027. Para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios, a referência começa em janeiro de 2029.

A relação entre os dois calendários é direta. O cashback depende da cobrança dos novos tributos que substituirão impostos atualmente existentes. Se a reforma for suspensa integralmente por um ano, sem uma regra que preserve a devolução, o início do benefício também será postergado.

Isso não significa que a suspensão do cashback já esteja formalizada. Flávio não apresentou uma proposta legislativa detalhando quais dispositivos pretende alterar, e qualquer mudança no calendário dependerá de aprovação do Congresso.

<><> Devolução inclui impostos sobre gás, energia elétrica e água

O cashback da reforma tributária foi criado para devolver parte dos impostos cobrados sobre produtos e serviços consumidos pelas famílias de menor renda.

Segundo estimativa divulgada pelo Ministério da Fazenda em 2026, o mecanismo poderá alcançar cerca de 70 milhões de brasileiros. Uma apresentação técnica da Receita Federal, baseada em dados do Cadastro Único de maio de 2025, identificou aproximadamente 27,8 milhões de famílias, reunindo 70,4 milhões de pessoas, nas faixas de renda consideradas para o benefício.

A legislação estabelece a devolução de 100% da CBS sobre despesas com gás de cozinha, energia elétrica, água e esgoto, além de percentuais específicos para outras compras e serviços. Também há regras de restituição do IBS, incluindo percentuais diferenciados para despesas essenciais.

Na prática, uma família poderá receber de volta parte dos impostos embutidos em despesas cotidianas. O objetivo é corrigir uma distorção do sistema tributário brasileiro: quem ganha menos costuma comprometer uma parcela proporcionalmente maior da renda com impostos sobre o consumo.

Para ter direito ao benefício, a família deverá estar inscrita no Cadastro Único, possuir renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa e cumprir os demais requisitos previstos na legislação.

O cashback não é um novo programa de transferência de renda como o Bolsa Família. Trata-se da devolução de tributos pagos pelos próprios consumidores, conforme critérios estabelecidos em lei.

A Receita Federal já desenvolve os sistemas necessários à implementação do mecanismo. Uma apresentação técnica do órgão informa que uma primeira versão da interface de consulta e cálculo dos valores a devolver havia sido desenvolvida, embora ainda dependesse de ajustes.

<><> Campanha não esclarece o destino do benefício

A suspensão da reforma tributária também foi defendida pelo coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN).

Em maio, Marinho afirmou que a candidatura estudava apresentar uma proposta de emenda à Constituição para interromper a implementação do novo sistema por um ano. Posteriormente, passou a defender uma revisão da reforma, sem necessariamente paralisar todas as suas etapas.

A diferença entre suspender integralmente a reforma e modificar dispositivos específicos é decisiva para o cashback. No primeiro cenário, a devolução de impostos poderia ser atingida diretamente. No segundo, o benefício poderia ser preservado, desde que fossem mantidas as condições legais e operacionais necessárias ao seu funcionamento.

A campanha também passou a divulgar uma proposta chamada “Vira Pix”, destinada a devolver parte dos gastos dos consumidores. Diferentemente do cashback previsto na reforma tributária, a iniciativa anunciada por Flávio ainda não possui regras detalhadas de funcionamento, financiamento e acesso.

A proposta cria uma situação que exige esclarecimento: enquanto defende suspender a implementação de uma reforma que já prevê a devolução de impostos às famílias mais pobres, o candidato anuncia um mecanismo próprio de restituição de gastos.

<><> Coordenador de Flávio Bolsonaro defendeu aumento de 23% no preço do botijão de gás

O economista Adriano Pires, coordenador da área de energia da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), defendeu uma política que elevaria em aproximadamente 23% o preço do botijão de gás de cozinha para consumidores não atendidos por benefícios sociais. Em artigo publicado em outubro de 2018, Pires propôs retirar o subsídio generalizado do produto e permitir que os preços fossem definidos pelo mercado, mesmo reconhecendo que a mudança encareceria um item essencial para as famílias brasileiras.

Na época, o botijão de 13 quilos custava aproximadamente R$ 65. Pelos cálculos apresentados pelo próprio economista, a retirada do subsídio elevaria o preço para R$ 80, um aumento de R$ 15. Corrigidos pela inflação até setembro de 2026, esses valores equivaleriam a aproximadamente R$ 98 e R$ 121, respectivamente.

A proposta aparece em um artigo intitulado Robin Hood às avessas: vale gás como proposta para presidenciáveis, publicado em 4 de outubro de 2018. Nele, Pires apresentou o encarecimento do produto como parte de uma reformulação da política de subsídios.

“Hoje o preço do gás de cozinha está em torno de R$ 65. Se fosse retirado o subsídio, o preço iria para algo como R$ 80”, escreveu.

O economista argumentou que manter o gás mais barato para toda a população era um erro, porque o desconto também beneficiava famílias de maior poder aquisitivo. Sua proposta era concentrar os recursos públicos em um vale-gás destinado exclusivamente aos consumidores mais pobres.

O benefício alcançaria 8,7 milhões de famílias cadastradas na tarifa social de energia elétrica, que passariam a pagar R$ 40 pelo botijão. Os demais consumidores teriam de arcar com o preço integral de R$ 80.

“Quando somente 8,7 milhões de famílias pagarem R$ 40 pelo botijão e o restante das famílias R$ 80, aí vai aparecer o dinheiro para o subsídio direcionado”, argumentou Pires.

Pelos cálculos apresentados no artigo, aproximadamente 35 milhões de brasileiros seriam contemplados pela assistência. O benefício seria concedido a cada 45 dias, período considerado pelo economista como o tempo médio de consumo de um botijão.

Para quem ficasse fora do programa, entretanto, não haveria qualquer mecanismo de proteção contra os aumentos de preço previstos no modelo.

“O preço do botijão será determinado pelo mercado, sofrendo todas as pressões, inclusive as do mercado internacional, da taxa de câmbio”, escreveu.

Isso significaria que as oscilações do dólar e das cotações internacionais poderiam ser repassadas aos consumidores, sem a manutenção do desconto generalizado então praticado.

Pires também deixou claro que não pretendia utilizar recursos da Petrobras para financiar o benefício. O objetivo, segundo ele, era preservar os interesses dos acionistas da estatal.

“Com isso, estaremos respeitando os direitos dos acionistas da empresa”, afirmou.

<><> Autor da proposta pode assumir área estratégica em eventual governo

O posicionamento ganha relevância porque Adriano Pires passou a ocupar uma função estratégica na candidatura de Flávio Bolsonaro. O economista coordena a elaboração das propostas para o setor energético e atua na interlocução da campanha com representantes do mercado.

Ele também é cotado para assumir o Ministério de Minas e Energia ou a presidência da Petrobras em um eventual governo do senador.

Sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e ex-superintendente-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Pires tem defendido historicamente maior liberdade na formação dos preços dos combustíveis.

Em agosto de 2026, já na condição de coordenador da campanha, afirmou que a possibilidade de capitalização da Petrobras deveria ser discutida. A medida poderia abrir espaço para mudanças na estrutura de controle da estatal, embora não estivesse prevista no programa eleitoral de Flávio.

A defesa de uma política de preços orientada pelo mercado também apareceu em outros posicionamentos do economista. Em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro, Pires apoiou o fim da diferenciação de preços do gás de cozinha residencial praticada pela Petrobras.

Mais recentemente, em 2025, voltou a criticar a manutenção de preços abaixo das referências de mercado, sustentando que a prática prejudicava a Petrobras e que a assistência às famílias pobres deveria ocorrer por meio de subsídios direcionados.

A discussão ocorre em um momento em que o governo Lula mantém o Gás do Povo, programa que garante a recarga gratuita de botijões para famílias de baixa renda e que alcançou aproximadamente 15 milhões de famílias em 2026.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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