sábado, 24 de outubro de 2026

Parlamentares europeus: eleição definirá tom das relações com Brasil

Eurodeputados e parlamentares alemães envolvidos em grupos legislativos vinculados ao Brasil dizem acompanhar com atenção a eleição presidencial brasileira, marcada para o próximo domingo. Em comum, elencam temas decisivos para o futuro da parceria com a União Europeia, como a questão ambiental, o acordo UE-Mercosul, as terras raras, o respeito à democracia e até o papel dos algoritmos das plataformas digitais.

Por um lado, há consenso de que o Brasil é um parceiro relevante para a Europa e que o diálogo deve permanecer independentemente do resultado das urnas. Por outro, os representantes ouvidos pela DW entendem que o resultado dará o tom do futuro dessa parceria, citando, inclusive, o peso que Brasília pode dar a terceiros, como os EUA. O apelo é pela manutenção dos compromissos assumidos.

"Esta eleição é importante não só para o Brasil, senão também para a Europa. O Brasil é um parceiro fundamental da União Europeia, pelo seu peso internacional e pelo seu papel em áreas como o comércio, o Acordo UE-Mercosul, a transição energética, a proteção da Amazônia e a defesa do multilateralismo", afirmou à DW Hélder Sousa Silva, presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Brasil.

O parlamentar português é membro do Partido Popular Europeu (PPE), grupo político conservador do Parlamento Europeu associado à democracia cristã. Ele vê como natural que uma possível mudança de liderança traga diferenças nas prioridades e na orientação da política externa brasileira. "A relação entre a União Europeia e o Brasil deve ser sólida o suficiente para atravessar essas diferenças e continuar a produzir resultados concretos", diz.

Na Câmara Baixa do Parlamento alemão, o Bundestag, o deputado Florian Ossner, da sigla conservadora União Social Cristã (CSU), também vê a eleição como decisiva para a relação bilateral. O partido bávaro é irmão da União Democrata Cristã (CDU), do chanceler federal Friedrich Merz.

"Como nosso parceiro comercial mais importante na América Latina, o país está [...] diante de uma decisão fundamental de rumo, que também vai moldar de forma decisiva o futuro da parceria alemã-brasileira", diz o parlamentar, membro do Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro do Bundestag. "A polarização política, que ficou ainda mais evidente com a eleição de 4 de outubro, também nos coloca diante de desafios no trato com o Brasil", diz à DW.

<><> Engajamento europeu em jogo

Anna Cavazzini, vice-presidente da Delegação para as Relações com o Brasil no Parlamento Europeu, também argumenta que a eleição importa para além das fronteiras brasileiras.

"O resultado vai decidir se o Brasil continua sendo um parceiro confiável para a Europa ou não, um parceiro que compartilha nossos valores: defender a democracia, combater a crise climática e acreditar na cooperação multilateral. Por isso nós, na Europa, acompanhamos estas eleições muito de perto", defendeu à DW. A eurodeputada alemã integra o grupo parlamentar dos Verdes/Aliança Livre Europeia no Parlamento Europeu. "Mas, não importa quem vença, esperamos um diálogo respeitoso e construtivo."

Cavazzini sustenta que o engajamento do bloco está atrelado a padrões democráticos, coesão social, Estado de Direito e proteção da Amazônia e de seus povos. "O Brasil, como sabemos, é central na luta contra as crises do clima e da biodiversidade. [...] Acredito que a parceria UE-Brasil deve ser construída sobre valores compartilhados: a transição verde, o combate à pobreza, a justiça social", pontua, ao elogiar a redução do desmatamento da Amazônia sob o governo Lula.

O Brasil se tornou central na negociação do acordo Mercosul-UE. O acordo comercial interino está em aplicação provisória desde maio, enquanto o tratado de parceria mais amplo ainda depende da conclusão dos procedimentos de ratificação. O bloco europeu cobra dos países sul-americanos padrões ambientais elevados para consolidar o tratado.

Para Sousa Silva, a Europa vê o Brasil como um parceiro estratégico para enfrentar desafios que nenhum dos lados consegue resolver sozinho. "No comércio, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul poderá abrir novas oportunidades, desde que seja acompanhado por compromissos efetivos em matéria de sustentabilidade e por benefícios para as empresas e os cidadãos", diz o eurodeputado, que também cita o domínio das matérias-primas críticas como área de interesse comum. 

"Há, naturalmente, desafios e diferenças a superar. Mas a minha convicção é que a relação UE-Brasil tem condições para se aprofundar, assente no diálogo, em regras claras e no respeito pelos compromissos assumidos."

<><> Entre pragmatismo e alinhamento

No Bundestag, deputados repetem o apelo à parceria estratégica. "O Brasil é um país de uma importância enorme para a Alemanha, não só porque tem uma população muito grande, não só porque é a décima maior economia do mundo, mas também porque tem muitos recursos, matérias estratégicas, terras raras", diz Rainer Rothfuss, membro do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) e presidente do Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro.

"Por isso também acompanhamos de perto todas as eleições e consideramos o resultado de importância realmente excepcional para as relações da Alemanha com o Brasil no futuro", afirma.

Rothfuss, que vê "grande potencial" de colaboração de seu partido com Flávio Bolsonaro, com quem conversou por videochamada no fim de fevereiro, considera que a estratégia de política externa brasileira serve de modelo para a política externa alemã. "O Brasil sempre mantém o equilíbrio entre o Ocidente e as economias emergentes, os países do Brics, e por isso também tem uma posição forte. E é isso que buscamos para a Alemanha", argumenta. "A cor do partido não interessa para nós. É uma questão de interesse dos dois lados para intensificar os laços."

Por outro lado, também avalia que uma eventual presidência de Flávio Bolsonaro pode acabar optando por uma relação mais forte com os Estados Unidos, em detrimento da parceria com a UE e com a Alemanha. "Achamos que seria sábio, e esperamos, que Bolsonaro [se eleito] também mantenha a via do Brics como alternativa aos Estados Unidos", diz, ao defender a intensificação dos laços bilaterais e sugerir que o Brasil evite a dependência dos EUA na extração e no processamento de terras raras.

O tema também vem sendo destacado por institutos de pesquisa alemães vinculados a partidos políticos e pelo Serviço de Pesquisa do Parlamento Europeu, que, em um relatório publicado neste mês, afirmou que uma vitória de Flávio Bolsonaro "poderia levar a um forte alinhamento com o governo [de Donald] Trump e ao distanciamento do Brics e da China".

Para Ossner, da CSU, vice-presidente do Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro, a eleição brasileira exigirá da política externa alemã um "pragmatismo estratégico". "Independente do resultado da eleição, precisamos nos preparar para que as relações com o Brasil possam, no futuro, ser mais fortemente marcadas por interesses nacionais próprios e por formações de blocos geopolíticos", diz.

<><> Oposição cobra governo alemão

Maren Kaminski, do partido A Esquerda (Die Linke), que também compõe o Grupo Parlamentar Alemão-Brasileiro e exerce uma de suas vice-presidências, cita preocupações com uma aliança brasileira com os EUA em caso de vitória de Flávio Bolsonaro. "O abandono da proteção do clima seria apenas uma das catástrofes. Além disso, trata-se de mais: esses governos autoritários minam toda a ordem internacional e suas regras", diz.

Para Kaminski que defende a candidatura de Lula, o intercâmbio parlamentar entre países não deve se limitar a partidos de governo e é "essencialmente importante nestes tempos políticos difíceis". A deputada também cobra o governo alemão, que, segundo ela, pretende manter parceria estratégica independente do resultado das urnas. "Se direitos humanos e democracia forem atropelados, algo estaria dando terrivelmente errado."

"Às vezes nós, na Europa, esquecemos como o Brasil é relevante: 200 milhões de habitantes vivem em um país democrático de dimensões continentais. O Brasil é uma potência econômica global. A República Federal tem um acordo de parceria estratégica com o Brasil, e a União Europeia negociou no ano passado o acordo de livre comércio com o Mercosul. O fato de que nisso os interesses de lucro estejam em primeiro plano, muito mais do que os aspectos sociais, não torna a cooperação menos importante", diz.

<><> Desinformação entra no radar europeu

Questionados sobre o papel das plataformas e da desinformação nas eleições brasileiras, Cavazzini e Sousa Silva destacaram a necessidade de regulação e de transparência sobre os algoritmos.

"O que vemos no Brasil, conhecemos da Europa: plataformas com enorme poder sobre o debate político, nenhuma transparência sobre os algoritmos, dinheiro estrangeiro e deepfakes de IA em anúncios políticos", diz Cavazzini. "Estas eleições mostram de novo que eleições não são justas se há interferência e viés nas plataformas americanas."

lva, a inteligência artificial torna esse desafio ainda mais exigente, sobretudo quando é usada para criar conteúdos que parecem autênticos. "Isso exige transparência sobre a publicidade política e a forma como os conteúdos são recomendados, maior responsabilidade das plataformas e uma resposta eficaz a campanhas coordenadas de manipulação, sem transformar o combate à desinformação numa forma de censura."

A DW também procurou organizações representativas da sociedade civil do continente, que preferiram não comentar a política doméstica brasileira até o resultado efetivo das eleições.

¨      A democracia tem memória. E seu futuro está em disputa. Por Sérgio Takemoto

Em 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog foi torturado e assassinado pela ditadura militar brasileira. Seu direito de pensar, questionar e exercer o jornalismo foi interrompido pela violência de um Estado que não admitia a liberdade. Exatamente 51 anos depois, neste domingo, 25 de outubro de 2026, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher o presidente da República. A coincidência das datas nos convida a refletir sobre algo que ultrapassa a disputa eleitoral: quanto vale a nossa liberdade?

Não por acaso, tramita no Congresso Nacional o projeto que institui o Dia Nacional de Defesa da Democracia em memória de Herzog. A proposta já foi aprovada pelo Senado, mas ainda depende de análise na Câmara dos Deputados. A data carrega uma advertência: direitos podem ser perdidos quando a intolerância se transforma em política de Estado.

A democracia não vive apenas nas instituições. Está no direito de uma mulher trabalhar e ser mãe sem sofrer discriminação. Na oportunidade de uma pessoa negra estudar, trabalhar e ocupar espaços historicamente negados. Na liberdade de amar alguém do mesmo sexo sem ser humilhado. Na possibilidade de um trabalhador reivindicar salário digno sem sofrer perseguição. Democracia é, antes de tudo, o direito de existir com dignidade.

Os avanços não foram um presente. As mulheres brasileiras conquistaram o voto em 1932, depois de décadas de mobilização. Os trabalhadores enfrentaram a repressão para assegurar sua liberdade de organização. A Constituição de 1988 nasceu de uma longa luta contra o autoritarismo e estabeleceu direitos que transformaram a vida de milhões de brasileiros.

É à luz dessa história que devemos examinar as atitudes daqueles que disputam o poder.

Na Assembleia Legislativa do Rio, a trajetória de Flávio Bolsonaro inclui episódios marcantes sobre direitos de minorias e mulheres: em 2009, foi o único deputado a votar contra a ampliação da licença-maternidade para servidoras e se opôs a medidas contra a exploração da imagem feminina, além de ter declarado, em 2011, que a heterossexualidade era o “normal”, questionando pais com filhos gays.

A relação da família Bolsonaro com a memória da ditadura também não pode ser ignorada. Em 2016, durante a votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador. Dilma havia sido presa e torturada durante o regime militar. A homenagem, feita diante da própria vítima da tortura, expôs uma das mais dolorosas contradições da história política recente do país: a exaltação de um torturador dentro da instituição que deveria representar a soberania popular.

Em 2025, Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por participação na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Seu filho Flávio, agora candidato à Presidência, classificou a condenação como uma “farsa” e negou que os ataques de 8 de janeiro de 2023 representassem uma tentativa de golpe.

Luiz Inácio Lula da Silva tem uma trajetória política marcada por outro conjunto de experiências. Como dirigente sindical, enfrentou a ditadura, liderou greves por melhores salários e condições de trabalho e foi preso em 1980. Participou do movimento pela redemocratização e, como presidente, conduziu governos em que o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, em 2014 e novamente em 2025. Seu programa atual defende a valorização do trabalho, políticas de inclusão social e a redução da jornada de trabalho.

Neste 25 de outubro, o voto ganha um significado histórico especial. Cada cidadão que comparecer às urnas exercerá um direito conquistado por gerações que enfrentaram a censura, a prisão, a tortura e a morte. Uma conquista que precisa ser preservada, independentemente do resultado eleitoral.

A memória de Vladimir Herzog nos recorda até onde pode chegar um Estado que deixa de reconhecer a dignidade humana. A história de quem resistiu à ditadura nos mostra, por sua vez, que a liberdade não se sustenta sozinha.

Que este 25 de outubro nos lembre de uma verdade que jamais deveria ser esquecida: a democracia pode conviver com as diferenças, mas não pode sobreviver à intolerância que pretende eliminá-las. O Brasil já conheceu o horror de um Estado que calava seus cidadãos. Que nunca mais precisemos perder a liberdade para compreender o quanto ela vale.

¨      O futuro sombrio que nos espera. Por Michel Goulart da Silva

O resultado que emergiu do primeiro turno das eleições mostra, em seu conjunto, uma situação de preocupação com o agravamento das tensões políticas e sociais nos próximos anos. Embora ainda se espere a definição das eleições presidenciais e de alguns estados, esse cenário aponta muitas dificuldades e muitas lutas para os trabalhadores na manutenção de seus direitos. Nesse sentido, a possibilidade de derrota eleitoral do bolsonarismo no segundo turno coloca-se como apenas um aspecto – o mais frágil, talvez – na resistência que deve marcar o próximo período.

No cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, deve haver uma ampla ofensiva contra os direitos conquistados pelos trabalhadores. O fato de ter a maior bancada tanto entre deputados federais como entre senadores permitiria propor pautas que poderiam piorar reformas já desastrosas, como a trabalhista e a da previdência. Como no governo de seu pai, os gastos do Estado com educação, saúde e áreas sociais serão reduzidos ou, no melhor dos casos, congelados, drenando esses recursos para emendas parlamentares e outras ferramentas de manutenção dos interesses materiais desse grupo político.

Por outro lado, sua grande presença parlamentar fará com que procure avançar em suas pautas reacionárias. Devem ganhar força debates como a censura a professores ou a perseguição a profissionais de educação, ao mesmo tempo em que se propagandeiam as escolas militares. No caso das universidades públicas, voltarão a ser tratadas como inimigas, vendo seu orçamento ser desnutrido paulatinamente e as verbas públicas para projetos de pesquisa cada vez mais reduzidas em nome da ampliação da participação privada. Pautas fundamentais para a classe trabalhadora, como a redução da jornada de trabalho e outras que os mais ricos consideram privilégios, serão enterradas ou mesmo derrotadas e, o que é pior, deve haver medidas para tornar a situação ainda pior.

Esse cenário trágico não melhora mesmo com a vitória de Lula. Por certo que não haveria de parte do governo a postura de fomentar ataques e tirar direitos, mas, sob o cerco dos setores reacionários, o governo não teria condições de avançar em pautas de interesse dos trabalhadores. O governo, inclusive, procuraria ampliar seu arco de alianças, assumindo compromissos com segmentos da direita que o fariam perder ainda mais o potencial de medidas de interesse dos trabalhadores. Contudo, o fator positivo é que o governo seria o primeiro dique contra o avanço dos reacionários, mas um dique frágil e cheio de contradições, que depende da força de sua base social.

O governo, ademais, correria riscos de ataques vindos dos setores reacionários. Com sua grande bancada entre deputados e senadores, seria possível aos setores reacionários aprovar pautas de ataques aos trabalhadores que, mesmo vetadas pelo presidente, seriam revisadas pelo mesmo parlamento. Este, inclusive, poderia encaminhar o pedido de impeachment de Lula, alegando qualquer motivo sórdido, como o fez com Dilma Rousseff, em 2016.

Portanto, um novo governo Lula estaria sob a pressão dos setores reacionários, que tentariam ao máximo enfraquecê-lo ou mesmo derrubá-lo, fazendo uso dos serviços de mandatos parlamentares ou dos juízes dos tribunais superiores que vêm defendendo de forma aberta o bolsonarismo.

Em qualquer um dos cenários, coloca-se como fundamental a mobilização da juventude e dos trabalhadores. Embora seu objetivo imediato possa ser a derrota eleitoral do candidato bolsonarista, essas mobilizações cumprem um papel estratégico, preparando a resistência que, invariavelmente, deverá ser protagonista depois das eleições. No debate sobre a redução da jornada de trabalho, essas mobilizações literalmente espantaram a extrema direita, que sequer teve coragem de aparecer na votação seja para fazer demagogia, seja para reafirmar seu programa de arrocho da classe trabalhadora.

Seja com a vitória de Lula, seja com a vitória da extrema direita nas urnas, essas mobilizações poderão garantir a manutenção dos direitos dos trabalhadores e da juventude. Em um governo bolsonarista, resistindo aos ataques aos direitos que os reacionários tentarão promover. Em um novo governo Lula, garantindo que a pauta vitoriosa nas urnas não se torne mais um estelionato eleitoral, como o foi com Dilma em 2014. De uma perspectiva estratégica, ademais, as mobilizações indicam a possibilidade, ainda que embrionária, de reorganização da juventude e dos trabalhadores, superando os limites da consciência de classe impostos há décadas pela direção do PT.

 

Fonte: DW Brasil/Correio da Cidadania

 

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