Luiz
Marques: Brasil – ser ou não ser
O
Brasil enfrenta o dilema shakespeareano, em 25 de outubro: “ser ou não ser”.
Pode escolher ser uma nação mais justa e igualitária, com soberania nacional;
ou optar por ser um país com orgulho das desigualdades, disposto a voltar a uma
condição de colônia. O ponto é – como chegamos até a beira desse abismo?
Os
meios de comunicação de massas tendo à frente a Rede Globo e o Judiciário com a
Operação Lava Jato carregam toda responsabilidade pela gestação e normalização
da extrema direita no cenário político. O primeiro passo é dado pela narrativa
para que os torturadores durante a ditadura militar fossem travestidos de
heróis, na opinião pública. Covardes e perversos viraram exemplos de cidadãos.
A
prisão do presidente Lula entre 2018 e 2019, sem prova de crime cometido, fruto
da armação da mídia e do arcabouço institucional da justiça, buscou dinamitar o
patrimônio ético da esquerda. De tempos em tempos o fantasma udenista retorna à
ativa – via lawfare – para atacar a reputação das lideranças populares. O
calvário iniciou com o líder da Revolta da Chibata (1910), o bravo marinheiro
João Cândido.
A
verdade deixa de significar o valor supremo, desbancada por “fatos
alternativos” – as fake news. Os Bolsonaros são o supra-sumo do momento
histórico de inversão de valores. As regras subjetivas na conduta de
honestidade e respeito à dignidade dos que produzem a riqueza dão lugar à
“pós-verdade”. O dístico positivista (“ordem e progresso”) cede ao
mau-caratismo (“milícia e estelionato”).
“A
sociedade não existe, só o que existe são os indivíduos e suas famílias”. Quem
pensa de acordo com a ex-primeira ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher,
não tem espírito público ou projeto de mudança da realidade. Interessa-se
apenas por tirar vantagem pessoal da situação, de preferência em um regime de
exceção com as liberdades individuais restritas ao círculo de poder. Fora da
cordialidade ficam os humanos genéricos, as vítimas da vigarice, os humilhados
e ofendidos.
Que
Michelle Bolsonaro tenha retirado as moedas do espelho d’água do Palácio do
Planalto e o marido, no exercício da Presidência da República, tentasse furtar
as joias sauditas pertencentes à União antes de entregar o cargo e sair pela
porta dos fundos – não é mera coincidência. Na “guerra de todos contra todos”,
a família trata de assegurar sua cota na pilhagem. Os rapazes seguem o “Pai
total”, que se confunde com o lúmpem (trapo, pessoa desprezível) da literatura
sociológica.
Treinado
por um sociopata no papel de canastrão, o primogênito do clã reitera a tradição
punguista dos ascendentes. Com bocas e caras atrás do presidente Lula, invadiu
o quadro visual do adversário para intimidá-lo, como desviou a atenção dos
telespectadores. A manobra feriu a prerrogativa dos eleitores para formar um
juízo autônomo. No encerramento do confronto fez dancinhas de regozijo.
Achou-se o “rei da cocada”, quando era o palhaço sem graça de um circo
mambembe.
Os
sonhos coletivos de transformação e emancipação soam anacrônicos para o
individualismo neoliberal. Soluções autocráticas ganham audiência, enquanto a
imprensa corporativa continua a naturalizar o monstro surgido do ressentimento
social e da crítica às instituições democráticas. As virtudes da democracia
foram sequestradas por mentiras em série, sob o signo de uma calamidade
triunfal.
Alguns
lucram com o caos. Têm interesses econômicos, e não só ideológicos, ao defender
políticas de desregulamentação na legislação ambiental. Sob o pretexto do livre
mercado, fazem da acumulação um princípio e do meio ambiente o reles estorvo
desmatado pela motosserra – às favas com os escrúpulos ecológicos. A hegemonia
da necropolítica sepulta o prazer de viver na cova do antropoceno.
O agro
e o capital financeiro apresentam interesses particulares como interesses
gerais, estimando encarnar o desejo da humanidade in totum. Nenhum endossa o
projeto do governo democrático para uma “reindustrialização sustentável”. Nem o
presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) mostra entusiasmo
com a agenda. Paulo Skaf financiou 65,5% da propaganda contra a Lula, de 5 a 10
do corrente, conforme a Redação Quenty com IA. A viralatice não tem limites.
Entende-se.
As palavras mais usadas por décadas referem: crise da democracia; crise
climática; ajustes fiscais; austeridade; cortes em reparações sociais, saúde,
educação, transporte público, moradias sociais; pessoas pobres em situação de
rua; fome; financeirização do Estado. Jornalistas domesticados repetem a senha.
O vocabulário sugere o temor de dias piores; não a percepção otimista do
futuro.
O
declínio da industrialização impacta o Ocidente e os tristes trópicos. O
arrocho salarial, as terceirizações, a informalidade, o empreendedorismo como
estratégia de sobrevivência, a carestia – tudo cobra a conta hoje.
Manifestações insubmissas na França, Italia, Espanha, Portugal e as
mobilizações gigantes nas cidades brasileiras – para avançar mudanças sem
retrocessos – sinalizam a virada.
A
unipolaridade imperialista, o neoliberalismo, o trumpismo e suas variantes no
mileismo e no bolsonarismo caem em descrédito apesar de constituir uma força
social de peso. A balança pende para a democracia com a entrada em cena dos
jovens, que querem tomar as rédeas do destino ora submetido ao livre mercado. A
“geração Z”, de 18 a 24 anos, engajou-se na luta para garantir uma manhã de
sol. A esperança renasceu. Lula e o povo
brasileiro reatualizam um personagem mítico, Prometeu, ao levar o fogo à
civilização na esquina escura da história. A Terra girou.
Como
escreve o filósofo alemão G. W. E. Hegel, no livro Ciência da Lógica: “O mais
alto amadurecimento ou estágio que qualquer coisa pode atingir é aquele no qual
começa a perecer”. A questão é que as lutas sociais deslocaram o iluminismo, da
razão, ao coração para pôr a economia a serviço do humano em vez do contrário.
Eis o significado do mantra repetido – inserir já os pobres no orçamento da
União.
O
programa dos progressistas, sintetizado no binômio Lula-Geraldo Alckmin, tem
base na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Propõe o reencantamento
utópico das relações sociais e uma harmonia com a natureza, com a participação
cidadã para democratizar a democracia. Entre ser ou não ser, vamos ser juntos
para superar o passado autoritário, vencer os preconceitos, o ódio, o atraso e
o medo. Bora lá.
Fonte:
A Terra é Redonda

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