A
última eleição de Lula
Respiro
a política desde 1989. Na primeira eleição para presidente após a ditadura,
ainda criança, vivi aquele momento olhando os debates na televisão. Não
entendia muita coisa; acho que gostava era do tom meio comédia pastelão dos
embates entre os candidatos postulantes ao cargo de presidente.
Eram
personagens, cada qual uma espécie de gente habitante do Brasil visível daquela
época: um era o bom velhinho; outro, um playboy mimado que não deveria
reger a nação; tinha um interiorano que parecia estar sempre com um chapéu de
caubói; existia o sofisticado, tal como os homens da Faria Lima de hoje; o
“fora da casinha” se fazia presente e às vezes parecia o mais são. Por fim, uma
dupla que foi se apaixonando aos poucos ao longo dos anos: um que parecia uma
mistura de Capitão Rodrigo com Dom Quixote e o outro que tinha um discurso tão
penetrante, certeiro e forte, que dava medo em grande parte da população.
Na
minha família de classe média baixa, residente do subúrbio porto-alegrense, os
votos se dividiram entre Fernando Collor, do PRN, Leonel Brizola, do PDT, e
Roberto Freire, do PCB, no primeiro turno. Depois foi Fernando Collor e Lula.
Deu Collor. Na época, ele não parecia tão mal na minha visão infantil. Tinha a
tendência de gostar dele. Ele era penetrante tal como o Lula, tinha um
magnetismo.
O
problema é que isso durou muito pouco: logo se percebeu que seu magnetismo nada
mais era do que a maquiagem polida que a burguesia e seus tentáculos midiáticos
produzem. Caiu, mesmo que a cada eleição a mídia escolha, a partir de seus
interesses, alguém parecido com o Fernando Collor para polir. Quando o
movimento cara-pintada tomou as ruas para derrubar Fernando Collor, Lula estava
lá, atuante tal como na redemocratização brasileira.
Veio o
segundo vice do PMDB tomar conta do Brasil depois da redemocratização: Itamar
Franco. Discreto como um bom mineiro, ajeitou a casa com aqueles acordões que
só o PMDB sabe fazer. Governou tranquilamente e ainda saiu no Carnaval. Deu o
pontapé inicial para o nascimento do Real, junto com Fernando Henrique, que
aproveitou os bons ventos e o sucesso do plano para alinhavar duas eleições
presidenciais em sequência.
Lula
amargou o descrédito da população em sua voz, que parecia vir lá de longe, de
um outro tempo, direcionada a olhar para além do Plano Real. Pouco encontrava
ressonância. O Capitão Rodrigo misturado com Dom Quixote foi quem ele teve de
aliado na época: foi seu vice em 1998. Brizola certamente ensinou muito a Lula,
assim como aprendeu muito com o sindicalista do ABC paulista.
Quando
o Plano Real já não sustentava mais a esperança do povo brasileiro e,
sobretudo, a própria economia, o Brasil começou a se aproximar mais daquele
discurso que parecia tão longínquo no qual Lula nunca cansou de insistir. Um
outro mundo era possível, com mais igualdade social e com um governo que também
olhasse para os pobres. Porto Alegre teve um papel fundamental para dar
amplitude ao discurso de Lula. Esta cidade teve, talvez, a experiência mais
bem-sucedida do PT na administração pública de uma prefeitura.
Foram
mais ou menos 15 anos de gestão petista, a começar pelo galo missioneiro em
1989 que, em 1998, assumiu o estado depois de uma batalha épica contra a cria
da grande mídia. A frase “RBS mente, Olívio na frente” espraiou-se por
todos os rincões do Rio Grande do Sul, e Olívio Dutra virou uma eleição que
tinha tudo para perder frente às forças neoliberais que já eram dominantes.
Olívio
Dutra ganhou, e foi um governo difícil, assim como uma das primeiras
experiências do PT de governar um estado brasileiro. A oposição se dava no
Legislativo e no meio midiático. A direita, filhote da ditadura, estava muito
ressentida para admitir os trabalhadores gerindo o estado. Aos trancos e
barrancos Olívio Dutra governou e pôde acolher em pagos gaúchos o primeiro
Fórum Social Mundial.
Sempre
lembrarei da passeata de abertura. Gigantesca. Lula estava presente, caminhava
à frente daquela multidão. Àquela altura, ganhava status de maior
liderança política do Brasil, não só no campo da esquerda, mas para uma grande
parte que antes não simpatizava ou até tinha medo dele.
Um
pouco menos de dois anos depois do Fórum, Lula estava subindo a rampa do
Planalto para ser, pela primeira vez, presidente. Já tinha perdido três
eleições, porém nunca desistiu do Brasil e de seu povo. Renascia a cada
fracasso. Entretanto, nunca expressava ressentimento nas derrotas; pelo
contrário, aprendia um pouco a cada vez com os tombos que levava na vida
democrática.
Parece
que o século XXI aspirava a um outro mundo possível, e Lula então ganhou a
primeira, depois a segunda, e o Brasil nunca foi tão valorizado
internacionalmente a partir de seus governos. Preservando o Plano Real,
turbinou a economia e as relações comerciais internacionais, mas, sobretudo,
fez circular o dinheiro na mão do povo brasileiro.
Lula
também não inventou o programa Bolsa Família, mas o multiplicou, o qualificou e
o legitimou perante a sociedade, ganhando prêmios internacionais por isso. Mas
não só: nas universidades públicas, abriu mais e mais espaço para a população
brasileira usufruir deste lugar de conhecimento e formação qualificada. Pobres,
populações negras e indígenas, pessoas com deficiência, enfim, puderam ocupar
aquilo que lhes era de direito, obviamente, não sem lutas que perduram até os
dias de hoje.
Dilma
Rousseff, saída do governo de Olívio Dutra no estado do Rio Grande do Sul,
substituiu essa figura que já tinha alçado outro patamar na história do Brasil.
Desafio quase intransponível, mas que a “coração valente”, de ferro tal como
foi no tempo da ditadura, ousou viver, sendo a primeira presidenta do Brasil.
Ela sofreu muito nas mãos da misoginia brasileira ressentida por perder seu
posto de comando perante a sociedade.
Boicotada
em seu governo de todas as maneiras – o que o inviabilizou –, acabou por sofrer
um golpe, no qual um insignificante deputado ainda teve o disparate perverso de
exaltar o torturador de Dilma no período militar. Regozijaram-se como hienas, e
logo em seguida os filhotes da ditadura saíram do armário, assumindo, com
orgulho, o fascismo.
O PMDB,
que sempre está no lugar certo e na hora certa, fez um novo acordão para gerir
o Brasil. O vampirão, terceiro vice do PMDB a assumir a presidência, fez aquele
governo silencioso de todo golpista manchado por lama. Além de derrubar Dilma
Rousseff, também sujou suas mãos desarticulando com o Legislativo várias
conquistas que os governos do PT tinham garantido ao povo brasileiro. A famosa
“PEC do Teto” (ou PEC da Maldade) foi o seu auge.
Depois
de 14 anos de governo progressista, a burguesia não poderia esperar para
recuperar todos os lucros que achava ter o direito de reaver. O Brasil, desde
sua invasão em 1500, foi governado por
colonizadores/conservadores/burgueses/corruptos. Foram quinhentos e dois anos
desta estirpe no poder antes de Lula, abocanhando tudo o que podiam do Estado
brasileiro. Quatorze anos com uma dieta mais restritiva, com a qual não podiam
abocanhar tudo a que estavam acostumados, fizeram-nos soltar todo o ódio, ressentimento
e fascismo que possuem em seus corpos atravessados pela perversidade da classe
burguesa.
Lula
foi preso e o sistema vibrou. Conseguiram amarrar o gigante, tentaram
silenciá-lo, queriam que todos o esquecessem; era para ter sido apagado da
história. Não só ele: a ideia era apagar os quatorze anos de diferença que o
Brasil viveu em relação aos outros quinhentos e dois anos de
colonizadores/conservadores/burgueses controlando a nação.
Com
Lula preso, o centrão abriu as portas do inferno e deixou o demônio do fascismo
tomar conta das peças do xadrez da equipe que fica mais à direita do tabuleiro.
Alimentaram o demônio chamado de “mito” e conhecido como Jair Bolsonaro;
achavam graça das bravatas dele, era meio tosco, mas era muito parceiro para
qualquer tramóia que beneficiasse a família e excluísse qualquer um que
ameaçasse seus atos corruptos. A sorte é que o fascismo é tão violento que se
suicida com o tempo, pois em seu interior um efeito paranoico está sempre no
ar: todos são potencialmente inimigos.
Encarnam
fielmente o clima do livro 1984, de perseguição ao inimigo. Não à toa,
vimos uma briga de várzea entre Jair Bolsonaro e Sérgio Moro em abril de 2020.
Só
esqueceram que Lula não cansa de renascer, tal como a mitologia de seu signo
astrológico, o Escorpião. Ele sempre volta, renasce, insiste em viver. Àquela
altura, Lula já era cada um de nós, pois aprendemos com ele a acreditar na
igualdade econômica, política, social e cultural. Lula retornou à presidência,
derrubando toda a maquinaria fascista que assaltou o país. Obviamente, não sem
o ressentimento da direita, que agora não era só direita, era também fascista.
O
representante deste fascismo não teve a hombridade de reconhecer a derrota.
Golpista que sempre foi, acabou na cadeia por seus atos contra a democracia.
Lula agora termina seu terceiro mandato e, mesmo com mais de 80 anos de idade,
ainda tem lenha para queimar e deseja, cada vez mais, aproximar as classes no
Brasil, agenciar comércios mais parceiros entre os países fora do eixo Europa e
Estados Unidos e afastar o fascismo de nossa sociedade.
Estamos
na última eleição de Lula. Vai para o seu quarto mandato. Sim, vai, porque é
descabido ele perder para um cara que nunca aprovou um projeto em anos de
legislativo, sempre envolvido em corrupção e que só tem amigos presos ou que
sofrem processos judiciais. É inadmissível.
E esta
semana é a última da eleição 2026. Nesta segunda Lula esteve fazendo campanha
em Porto Alegre em uma linda e gigante caminhada pelas ruas da cidade. Só que
esta semana não é a última apenas desta eleição. É a última eleição do Lula.
Esta gigantesca caminhada de Porto Alegre não era apenas o último grande ato no
Rio Grande do Sul nesta eleição. Esta última semana, esta eleição, esta
caminhada enorme em Porto Alegre tipo a do primeiro fórum social mundial,
provavelmente, é a última de Lula, independentemente de ele ganhar ou não.
O que
emociona ao olhar o que foi esta caminhada é que não é só uma passeata para a
eleição do Lula, pois também é uma espécie de despedida dele, este que se
tornou o pai de todos os brasileiros. Tem filho que é fiel a ele; outro que o
admira, mas sabe criticar também. Tem aquele que com o tempo se distanciou e
ficou frio com Lula, e alguns desistiram dele. Ainda tem uma parcela de filhos
que o desprezam, não querem um pobre vindo do Nordeste como pai, rejeitam,
querem matá-lo de todas as formas. Não adianta: o legado de Lula já está
cravado na história.
Independentemente
de termos vivido nas mãos dos colonizadores/conservadores/burgueses por mais de
quinhentos e oito anos, Lula é o maior. Daqui cinquenta anos, se ainda existir
o mundo, se ainda livros cruzarem nossos olhos e se a história sobreviver, Lula
será lembrado como o maior estadista do Brasil e da América Latina. Nada o
superará; mesmo que “Messias” se apresentem ao longo do tempo para reclamar a
coroa, quem nasceu para ser Pelé – que, aliás, era de Escorpião também – nunca
perderá a majestade.
Fonte:
Por Mário Francis Petry Londero, em A Terra é Redonda

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