Carlos
Fidelis: Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e os bilhões das apostas — Brasil exige
explicações antes da eleição
Flávio
Bolsonaro teria sido sócio oculto da Best Bet, empresa de apostas ligada ao
advogado Willer Tomaz?
Essa é
a suspeita levantada por documentos brasileiros e portugueses apresentados pela
revista piauí em reportagem publicada em 20 de outubro. Segundo a publicação, o
candidato à Presidência figurava como usuário máster de uma conta bancária da
Alcazar Holdings, empresa portuguesa ligada a Willer, e a Polícia Federal
solicitou ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um inquérito para
investigar uma possível participação societária oculta.
A
revelação se soma a movimentações bilionárias no mercado de apostas, viagens de
Flávio custeadas por empresas ligadas ao advogado e pagamentos destinados a
retirar da internet notícias sobre a proximidade entre ambos. O Brasil precisa
saber se essa relação ultrapassa a amizade e envolve interesses econômicos
desconhecidos dos eleitores.
A
ligação entre os negócios de Willer Tomaz e a influência política de Flávio
Bolsonaro merece atenção.
Em
2023, Willer criou em Portugal a Cathedral Holdings, controladora da Best Bet,
que obteve autorização da Loterj para explorar apostas no Rio de Janeiro e
depois expandiu suas operações para todo o país. A licença foi concedida
durante a gestão de Hazenclever Cançado, indicado para presidir a loteria
estadual por influência de Flávio, segundo a Folha de S.Paulo.
Na
mesma época, Willer criou a Alcazar Holdings, também em Portugal, com o mesmo
proprietário, administrador e endereço da Cathedral. A proximidade entre essas
empresas adquire especial significado diante dos registros bancários que
associam Flávio à Alcazar.
Segundo
a piauí, Flávio e Willer eram os únicos usuários máster de uma conta da Alcazar
no Santander.
Em
janeiro de 2025, o ministro André Mendonça, do STF, restringiu a atuação da
Best Bet ao Rio de Janeiro, impedindo que continuasse operando nacionalmente
apenas com a licença da Loterj.
Quatro
meses depois, em 22 de maio, uma funcionária de Willer solicitou ao banco a
retirada de Flávio da condição de usuário máster. Naquele mesmo dia, o senador
estava com o advogado em Portugal.
No dia
seguinte, viajaram com suas famílias para Nice, na França, em um jato
contratado pela Cathedral. A Best Bet encerraria suas atividades em meados de
2025. É indispensável saber por que Flávio tinha acesso privilegiado à conta,
quais poderes exercia e o que motivou sua retirada naquele momento, em meio às
dificuldades enfrentadas pela empresa de apostas.
Documentos
contábeis portugueses examinados pela piauí levantam outra questão sobre o
acesso bancário de Flávio: um auditor fiscal consultado pela revista considerou
possível que a Cathedral, controladora da Best Bet, tivesse financiado a
Alcazar, ao menos parcialmente.
A
Polícia Federal investiga se o acesso do senador à conta dessa empresa estaria
relacionado a interesses econômicos ou societários não declarados. É necessário
identificar os beneficiários finais das duas empresas, verificar eventuais
transferências de recursos entre elas e apurar se Flávio possuía participação
nos negócios ou recebeu pagamentos.
As
operações de Willer Tomaz no mercado de apostas também estão sob escrutínio.
Segundo nota técnica do Ministério da Fazenda divulgada pela imprensa, o
advogado realizou cerca de R$ 5 bilhões em apostas em 2025, incluindo valores
ganhos e reapostados.
Em 30
de outubro de 2025, depositou R$ 7 milhões em 14 operações; no dia seguinte,
sacou R$ 6 milhões em apenas 18 minutos. A rapidez dessas transações levou os
órgãos de fiscalização a questionar os controles da Blaze, plataforma de
apostas e cassinos on-line. A Polícia Federal investiga suspeitas de lavagem de
dinheiro, enquanto Willer sustenta que os recursos são lícitos e declarados. É
indispensável esclarecer a origem, a circulação e o destino desses valores.
Empresas
ligadas a Willer Tomaz também pagaram viagens internacionais de Flávio
Bolsonaro e seus familiares, incluindo voos executivos, segundo documentos
divulgados pela imprensa. Willer afirmou que se tratava de viagens entre amigos
e que os passageiros eram seus convidados. Entretanto, o pagamento de despesas
particulares do senador por empresas com interesses no mercado de apostas
levanta dúvidas sobre a natureza desses benefícios. As notícias sobre encontros
em Las Vegas com pessoas ligadas ao setor de cassinos tornam ainda mais
importante verificar se essas viagens envolveram apenas relações pessoais ou
também interesses empresariais.
Outro
episódio chama a atenção: a tentativa de reduzir a visibilidade dessas
relações. Segundo reportagem do UOL, documentos examinados pela Polícia Federal
indicam que Willer Tomaz pagou à empresa Seu Nome Novo de Novo para retirar ou
dificultar o acesso, nos mecanismos de busca, a notícias que o associavam a
Flávio Bolsonaro, inclusive sobre encontros com operadores de cassinos. A
defesa de Willer afirma que a iniciativa foi legal e buscava remover
informações desatualizadas.
Ainda
assim, os motivos desses pagamentos e o conteúdo das notícias que se pretendia
tornar menos acessíveis são de evidente interesse público, especialmente diante
das suspeitas sobre os negócios do advogado e sua proximidade com o senador.
As
suspeitas sobre as relações de Flávio Bolsonaro com a Best Bet também colocam
em questão suas posições sobre as apostas. Além da influência atribuída ao
senador na indicação do presidente da Loterj, que autorizou a empresa a operar
no Rio de Janeiro, Flávio se opôs à proposta de Lula de proibir as bets
esportivas e os cassinos on-line, classificando-a como eleitoreira e contrária
à segurança jurídica. Embora tenha defendido o fim dos cassinos on-line, não
descartou a continuidade das apostas esportivas.
Defender
a permanência de uma atividade econômica não constitui, por si só,
irregularidade. Diante das suspeitas de participação oculta na Best Bet, porém,
é indispensável apurar se Flávio utilizou sua influência política para
favorecer a empresa e se suas posições sobre a regulamentação das apostas
estiveram associadas a interesses econômicos próprios ou de pessoas próximas,
desconhecidos dos eleitores.
Quem
pretende presidir o Brasil precisa demonstrar que suas decisões sobre um
mercado que movimenta bilhões e compromete a renda, a saúde e o bem-estar das
famílias obedecem ao interesse público, e não à proteção de negócios
particulares.
Diante
dessas suspeitas, o desafio de Lula para a abertura recíproca dos sigilos
bancários, fiscais e telefônicos ganha especial importância. Depois de ouvir
acusações contra ele e sua família, Lula propôs que ambos autorizassem o exame
de suas informações, abrangendo familiares e empresas relacionadas.
A
iniciativa coloca Flávio diante de uma exigência de coerência política e moral:
quem acusa seu adversário e questiona os negócios de seus familiares precisa
aceitar o mesmo escrutínio. Não é admissível exigir transparência dos outros
enquanto se deixam sem resposta perguntas sobre as próprias relações.
A
abertura dos sigilos permitiria confrontar acusações com documentos e verificar
eventuais participações societárias, movimentações bancárias, pagamentos de
viagens e transferências entre pessoas e empresas.
Lula já
manifestou disposição para se submeter a esse exame. Cabe agora a Flávio, que
fez acusações contra o presidente e seus familiares, demonstrar a mesma
disposição e apresentar provas que sustentem suas denúncias. Sem essa
comprovação, permanece uma pergunta: as acusações do bolsonarista eram
levianas, tinham fundamento ou serviram como estratégia diversionista para
afastar a atenção das questões incômodas sobre suas próprias relações
empresariais?
A
gravidade dessas revelações ultrapassa a situação pessoal de Flávio Bolsonaro.
A eventual existência de interesses econômicos não declarados no mercado de
apostas colocaria em questão a independência de suas decisões caso chegasse à
Presidência da República. Um presidente dispõe de instrumentos para
regulamentar, fiscalizar e tributar atividades que movimentam fortunas e afetam
diretamente a população.
Essas
suspeitas não podem desaparecer sob o ruído da disputa eleitoral: exigem
investigação rigorosa, esclarecimentos públicos e respostas documentadas de
quem pretende assumir a Presidência, sob a cobrança permanente da sociedade.
O
Brasil tem o direito de saber, antes das eleições, se quem pretende governá-lo
mantém interesses econômicos ocultos capazes de comprometer a independência de
suas decisões e colocar o poder do Estado a serviço de negócios particulares.
Fonte:
Viomundo

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