Quando
a honra se torna uma sentença de morte para mulheres no Irã
Nas
primeiras horas da manhã do dia 5 de outubro deste ano, Maryam Yarmohammadi foi
assassinada. A mãe de dois filhos, de 28 anos, foi atacada com golpes de faca
por seu irmão e seu marido na ilha de Qeshm, no sul do Irã. Seus órgãos
genitais foram mutilados. Os autores do crime, que confessaram o ato, foram
presos.
Segundo
relatos da imprensa, cerca de 50 parentes da mulher assassinada se reuniram em
frente ao hospital para onde ela foi levada e protestaram contra a prisão do
irmão e do marido de Maryam. Eles teriam considerado que o assassinato a
"menor punição" que a vítima poderia ter tido. O suposto crime, que a
família de Maryam achava que ela teria cometido, não foi revelado.
O caso
e a forma como a mãe de dois filhos foi morta, porém, apontam para um padrão
conhecido dos chamados crimes de honra, nos quais costuma prevalecer a ideia de
que um homem precisa eliminar uma suposta "desonra" trazida à família
por uma irmã, filha ou esposa. Caso contrário, ele poderia ser rejeitado,
humilhado ou excluído por seu meio social.
O que é
considerado "decoro" pode ser definido pela família ou pelas normas
sociais e culturais locais. Em algumas regiões mais tradicionais, até mesmo rir
alto ou conversar amigavelmente com um homem desconhecido pode ser visto como
uma violação dessas normas. Mulheres acusadas de cometer esse tipo de infração
muitas vezes não tem a oportunidade de se defender das acusações.
Há
anos, ativistas dos direitos das mulheres no Irã tentam criar redes nacionais
que ofereçam orientação e proteção a mulheres ameaçadas, entre elas está a
"Campanha pelo Fim dos Crimes de Honra". Rezvan Moghaddam, porta-voz
da inciativa, afirmou que aparentemente não havia, na região, nenhuma ativista
ou grupo capaz de oferecer apoio a Maryam Yarmohammadi.
Com a
ajuda de redes da sociedade civil, a campanha conseguiu, em alguns casos, levar
mulheres ameaçadas para locais seguros e garantir abrigo para elas. Ao mesmo
tempo, Moghaddam ressalta que isso não deve ser interpretado como uma crítica
às ativistas dos direitos das mulheres nessas regiões: "Eu mesma sou do
Khuzistão, no sul do Irã, e conheço as limitações existentes ali."
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Falhas do sistema judiciário
As leis
iranianas baseadas na sharia não tratam as mulheres como cidadãs plenamente
iguais aos homens. Suas possibilidades de ação e decisões sobre a própria vida
podem depender da aprovação de parentes do sexo masculino, por exemplo em
questões ligadas à educação, ao trabalho ou a viagens.
Mesmo
após a morte de uma mulher, parentes homens podem, dentro de determinadas
disposições legais, influenciar o andamento de processos criminais. No direito
penal iraniano, determinadas infrações, entre elas o homicídio, são regidas
pelo princípio da retaliação. Em casos de assassinato, os familiares da vítima
podem optar por exigir retaliação, o que pode significar a pena de morte, ou
conceder perdão ao autor do crime.
Essas
situações evidenciam as lacunas de proteção existentes no sistema judiciário
iraniano em casos de violência contra as mulheres.
Segundo
um estudo da Academia de Polícia do Irã publicado em 2020, os chamados crimes
de honra, definidos como o assassinato de uma mulher por parentes homens devido
a uma suposta violação de normas sociais de conduta, representavam até 45% de
todos os homicídios registrados em algumas províncias mais tradicionais do
oeste e do sul do país.
Em
março de 2025, o relator especial da ONU para os direitos humanos no Irã
anunciou que, em 2024, pelo menos 179 mulheres foram assassinadas por homens de
seu círculo familiar no país.
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Quando a violência é legitimada socialmente
No caso
do assassinato de Maryam Yarmohammadi, foi sobretudo o grau de brutalidade que
chocou a sociedade e provocou uma onda de consternação e luto nas redes
sociais. Muitas mulheres reagiram a esse feminicídio marcado pelo ódio cometido
em nome da "honra" e da "desonra".
Em
contrapartida, surgiram inúmeros comentários culpando a vítima. Outros falaram
em "punição de uma mulher infiel" ou tentaram "compreender a
raiva dos homens".
A
psicanalista Saba Alaleh fala de uma estrutura que, segundo ela, há anos
transmite aos homens a ideia de que devem controlar as mulheres e monitorar
seus comportamentos e decisões. Ao mesmo tempo, a identidade masculina estaria
associada à "obediência da mulher". "A violência é normalizada
em uma sociedade quando convicções, consentimento e silêncio atuam em conjunto
dentro de uma estrutura desse tipo."
"Quando
fatores culturais, sociais, políticos, econômicos, jurídicos e educacionais
estão estreitamente interligados, desenvolvem um enorme poder. Nessas
condições, as mulheres também são altamente dependentes economicamente e não
dispõem de apoio social suficiente. Além disso, faltam mecanismos de prevenção.
Tudo isso aumenta o risco de violência", acrescenta Alaleh.
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Mulheres lutam por autodeterminação
Segundo
a socióloga e ativista dos direitos das mulheres Atefeh Rangriz, os
feminicídios sempre existiram nos país, e são ancorados por manifestações
políticas ao longo da história. A especialista afirma que as mulheres conhecem
bem o caminho da emancipação e, apesar de todas as dificuldades, conquistaram
muito nas últimas décadas.
No Irã,
as mulheres dirigem automóveis desde 1940. Desde 1963, podem votar e concorrer
a cargos políticos. Metade dos iranianos com diploma universitário no país são
mulheres. Também cresce continuamente o número de mulheres que pedem o divórcio
ou se separam consensualmente de casamentos infelizes.
O
movimento "Mulher, Vida, Liberdade", que surgiu dos protestos
nacionais de 2022 após a morte de Jina Mahsa Amini sob custódia policial,
também mudou a imagem pública das mulheres no Irã.
"As
mulheres aprenderam a se concentrar no presente em vez de adiar a justiça para
o futuro", diz Rangriz. "Querem decidir sobre seus próprios corpos,
viver da maneira que desejam e se libertar de relações de dominação, opressão e
exploração. Trata-se de uma espécie de revolução radical."
Muitas
mulheres já deixaram de usar o hijab obrigatório em público, desafiando as
regras de vestimenta impostas pelo Estado. Mas ainda há um longo caminho pela
frente para evitar mortes como a da jovem mãe Maryam Yarmohammadi.
Fonte:
DW Brasil

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