sábado, 24 de outubro de 2026


                           “Estruturalmente, a Revolução cubana terminou há meio século”

O historiador Fabio Fernández Batista argumenta que a Revolução Cubana, entendida como um processo de mudança estrutural, terminou em meados da década de 1970. O que existe desde então, afirma ele, é uma sociedade pós-revolucionária cujo destino está novamente em disputa.

ncontramos Fabio Fernández Batista no Hotel Presidente, em meio a uma Havana surpreendentemente tranquila. O garçom nos informou que havia faltado energia e por isso não havia água engarrafada, então só podíamos tomar café. Ele é um homem calmo, de modos gentis e um ótimo interlocutor. Organiza suas ideias com muita clareza e é franco em suas críticas. Uma das vozes mais marcantes do cenário intelectual atual, inegavelmente crítico, porém fiel aos princípios da justiça social.

Fabio, nascido em Havana em 1988, é doutor em Ciências Históricas, professor de História da Revolução Cubana na Universidade de Havana e primeiro vice-presidente da União dos Historiadores de Cuba. É também autor de Apuntes para una Historia de la Revolución Cubana [Notas para uma História da Revolução Cubana] (Edições Temas, 2026). Atualmente, contribui para o podcast La reunión na plataforma digital La Joven Cuba. Ele se define como um ativista de esquerda convicto de que a mudança que Cuba precisa deve vir “de dentro da própria lógica do sistema” e não por meio de uma ruptura radical. Nessa perspectiva, defende uma tese que incomoda ambos os lados: a Revolução, entendida estritamente como um processo de mudança estrutural, terminou há meio século. O que existe desde então é uma sociedade pós-revolucionária — não pós-socialista — cujo destino volta a ser disputado.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Vamos começar contextualizando você para um público não cubano.

FABIO FERNÁNDEZ BATISTA - Sou historiador. Formei-me em 2012 e, desde então, trabalho como professor na Universidade de Havana, sou especialista em História da Revolução Cubana. Politicamente, sempre me identifiquei como um ativista de esquerda, mas com a convicção de que muitas coisas precisam mudar em Cuba, desde a dinâmica econômica até transformações na forma como concebemos a política no país. Estou convencido de que essa mudança deve vir da própria lógica do sistema, que ainda possui certos níveis de conexão — na minha opinião, cada vez mais erodidos — com a Revolução Cubana, com seus grandes objetivos e seus melhores propósitos. Pertenço ao grupo que acredita que devemos ser capazes de transformar o país com base nessa experiência acumulada e não por meio de uma lógica de ruptura radical.

Principalmente porque essa ruptura radical, no contexto atual, tem um enorme potencial para seguir um caminho intimamente alinhado com a direita. Esse é um temor crucial que compartilho: a ideia de que uma mudança radical em Cuba, dadas as nossas circunstâncias geopolíticas, geraria uma lógica de subordinação aos Estados Unidos e criaria as condições para que um núcleo de direita altamente reacionário consolidasse seu poder. É o cenário que nos engoliria. Estou luto contra a concretização desse cenário.

·        Você argumenta que o período da Revolução terminou e que estamos em um momento pós-revolucionário.

FFB - De uma perspectiva científica, uma revolução é um processo no qual ocorre uma mudança estrutural dentro de um determinado sistema de relações: uma mudança radical onde a velha sociedade é demolida e uma nova ordem é construída. Nessa perspectiva, no caso de Cuba, um processo dessa magnitude teve início em 1959, e muitos estudiosos que o analisaram compreendem que essa mudança estrutural foi claramente concluída no início ou meados da década de 1970. Ou seja, a velha ordem — vamos chamá-la de ordem burguesa — foi demolida e uma nova ordem revolucionária foi construída. No momento em que essa ordem revolucionária foi estabelecida, pode-se dizer que a Revolução terminou e deu origem a uma sociedade pós-revolucionária.

Em outras palavras, quando uso o termo “pós-revolucionário”, não estou fazendo uma distinção ideológica. Esta sociedade pós-revolucionária é um produto da Revolução. É o novo mundo criado pela Revolução.

·        Não é pós-socialista.

FFB - Não é pós-socialista, de fato. Há uma distinção.

·        Como é a cronologia que você usa?

FFB - Hoje, os historiadores têm várias versões. Alguns dizem que a Revolução durou apenas de 1959 a 1961. Outros a estendem até 1968, com a Ofensiva Revolucionária, que destruiu os últimos vestígios do capitalismo na agricultura familiar. E outros ainda — e estes são a maioria — a estendem até meados da década de 1970, quando ocorreu a institucionalização: o Congresso do Partido, a Constituição, o fim do governo provisório. Foi uma nova ordem que tomou forma a partir do modelo soviético, num contexto em que Cuba passou a primeira década tentando encontrar seu próprio caminho, um socialismo à moda cubana. Se me perguntarem meu ponto de vista: 1975, 1976. Para mim, foi até aí.

Existem maneiras de ver a Revolução Cubana ainda viva: se ela não for mais um processo confinado a um período específico, mas sim um projeto, um conjunto de ideais, podemos dizer que ela está viva hoje porque há pessoas que seguem defendendo esses princípios. Mas é preciso cuidado: isso nos colocaria em uma interessante contradição. Talvez algumas das decisões tomadas pelo governo contrariem o projeto da Revolução.

E há uma última ideia, também bastante iconoclasta para mim: talvez a revolução de 1959 não esteja mais viva, mas que outra revolução esteja acontecendo em Cuba. Qual? O processo que envolve a restauração da dinâmica do capitalismo. Sempre gosto de enfatizar que, embora geralmente associemos o significante “revolução” a um significado ideológico ligado a causas de esquerda, estritamente falando, revolução é qualquer mudança estrutural. Portanto, pode haver uma revolução que não tenha um sentido progressista. Talvez em Cuba, nos últimos 30 anos, tenhamos vivenciado uma revolução de ritmo mais lento, mas que aponta para o fim da estrutura nascida em 1959 e a formação de um novo cenário marcado pelas regras do capitalismo.

·        Quais foram os elementos originais do processo cubano, em comparação com processos como o russo ou o chinês?

FFB - Um ponto muito importante é que houve uma revolução que rapidamente levou a um processo de construção anticapitalista sem que uma força ligada à ideologia comunista fosse claramente definida desde o início como sua vanguarda. Nas revoluções russa e chinesa, havia um partido comunista que liderou o processo ou rapidamente se tornou seu centro. Isso não aconteceu em Cuba: o Partido Socialista Popular (PSP) era marginal, sequer participou seriamente do movimento insurrecional e, posteriormente, aderiu à revolução de forma fragmentada.

Foi uma revolução que, desde o seu início, demonstrou grande flexibilidade ideológica, impulsionada pela busca de respostas que surgiam da condição singular, subdesenvolvida e periférica de Cuba, a um passo de seu grande inimigo, os Estados Unidos. Toda a década de 1960 foi uma luta entre o socialismo de estilo soviético e o socialismo de estilo cubano, que argumentava que em Cuba era preciso fazer as coisas de maneira diferente porque o contexto era outro e porque o modelo soviético estava marcado por erros que não queríamos repetir.

A isso se soma uma distinta tradição nacionalista que vinha se desenvolvendo pelo menos desde o século XIX. José Martí era um paradigma do tipo de república que queríamos construir, do tipo de cidadão que queríamos formar. Não se tratava de algumas pessoas aqui terem lido Marx repentinamente e começado a entender a realidade através das lentes do Manifesto comunista: havia uma tradição singular que, para o bem ou para o mal, estava intrinsecamente ligada ao marxismo.

·        Estamos no ano do centenário do nascimento de Fidel Castro, uma figura fundamental na história cubana. Que avaliação crítica você faria como historiador?

FFB - Quando penso em Fidel, associo-o imediatamente a Simón Bolívar, na perspectiva de que ambos foram homens com muita luz, mas também com sombras no desenrolar de suas atuações como figuras públicas.

Acredito que duas coisas em Fidel foram fundamentalmente positivas: a defesa da soberania nacional, um caminho independente para Cuba; e o compromisso com um cenário social marcado pela justiça. Justiça social e soberania nacional foram as duas grandes bandeiras que ele hasteou ao longo de sua vida. Todos nós devemos nos manter firmes diante dessas bandeiras até hoje.

Agora, se eu tivesse que apresentar algumas ressalvas, mencionaria algumas. Fidel não conseguiu compreender ou conceber práticas que garantissem o exercício permanente do controle popular sobre a dinâmica política, nem mecanismos eficientes para a participação popular na tomada de decisões. Ele foi incapaz de gerar uma dinâmica na qual a dissidência — que objetivamente está sempre presente em uma sociedade — tivesse espaço suficiente para se expressar. O projeto democrático que a Revolução Cubana, ou melhor, Fidel Castro, apresentou mostrou deficiências significativas desde o início, que se agravaram à medida que o misticismo da Revolução se dissipava.

E eu acrescentaria outro ponto: Fidel personificava essa lógica de hiperliderança, disfarçada de tremendo voluntarismo, que, num contexto de insuficiente controle popular, levou o país — talvez devido ao que quase poderia ser interpretado como os caprichos de um homem — a se envolver em tarefas que não eram necessariamente a melhor linha de ação. Acho que ele permaneceu muito preso às respostas à transição socialista construídas a partir dos socialismos históricos do século XX. Sempre digo aos meus alunos: talvez eu esteja exigindo demais de Fidel. Mas Fidel não tinha a capacidade de ser Mao e Deng Xiaoping simultaneamente.

Tenho algumas ressalvas, mas sempre as ignoro. Acredito que seu trabalho por Cuba seja positivo, embora a Cuba melhor que devemos construir precise ser capaz de debater criticamente esse legado.

¨      Cuba denuncia pressão dos EUA para reduzir apoio contra bloqueio na ONU

 O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, denunciou os Estados Unidos por pressionar governos a reduzir o apoio à resolução que pede o fim do bloqueio econômico, comercial e financeiro contra a ilha.

Segundo reportagem do Cubadebate, o chanceler afirmou que Washington recorre a ameaças de restrições a vistos e imposição de tarifas para influenciar a votação, marcada para 28 de outubro na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Em entrevista coletiva na quarta-feira (21), Rodríguez apresentou documentos e trechos de vídeos que, de acordo com o governo cubano, demonstram uma campanha para convencer países a mudar seu posicionamento. A iniciativa busca enfraquecer o respaldo internacional à proposta, tradicionalmente aprovada por esmagadora maioria na ONU.

Segundo o chanceler, as pressões incluem pedidos para que governos favoráveis à resolução se abstenham ou deixem o plenário no momento da votação. Ele também afirmou que embaixadas e funcionários americanos distribuem mensagens para tentar alterar os votos dos países.

Rodríguez afirmou ainda que um grupo de nações latino-americanas de atua em favor dos objetivos de Washington, procurando convencer outros governos a modificar suas posições.

Entre as possíveis retaliações mencionadas pelo ministro estão a negativa de vistos a funcionários e seus familiares e a adoção unilateral de tarifas. Na avaliação dele, essas medidas fazem parte da tentativa de reduzir o apoio diplomático a Cuba.

O chanceler também contestou um documento que é distribuído pelos Estados Unidos para defender a legalidade das sanções e sustentar que elas permitem o comércio com a ilha. Rodríguez afirmou que Washington procura responsabilizar o governo cubano pelos prejuízos econômicos, financeiros e sociais decorrentes do bloqueio.

A reportagem relaciona a ofensiva diplomática ao endurecimento das restrições americanas e ao bloqueio energético sem precedentes, com consequências para a população.

<><> Reunião na ONU é alvo de críticas

Na coletiva, Rodríguez criticou um encontro realizado em 19 de outubro em uma sala das Nações Unidas, convocado pelo representante dos Estados Unidos na organização. Segundo ele, cerca de dez países participaram, com presença reduzida de embaixadores.

O ministro classificou a reunião como um evento fracassado e afirmou que ela integrou os esforços para influenciar a votação da resolução. Também questionou a participação de opositores cubanos em um espaço que, conforme relatou, exige credenciamento diplomático.

Entre os participantes mencionados pelo chanceler estavam Orlando Gutiérrez Boronat, José Daniel Ferrer e Luis Manuel Otero Alcántara. Rodríguez dirigiu acusações aos três e apresentou a presença deles como parte de uma provocação contra Havana.

Para o chefe da diplomacia cubana, a iniciativa também procurou desviar a atenção das consequências das medidas americanas sobre a ilha. Ele defendeu uma reação urgente da ONU e argumentou que práticas semelhantes poderiam atingir outros Estados.

<><> Havana espera nova aprovação da resolução

Apesar das denúncias de pressão, Rodríguez manifestou confiança em uma nova aprovação do texto que pede o encerramento do bloqueio. Ele agradeceu aos governos que apoiam a resolução e aos países que enviaram doações a Cuba.

O chanceler também citou manifestações de solidariedade de parlamentos, organizações sociais e políticas, artistas e intelectuais. Segundo ele, 43 organizações internacionais apresentaram ao secretário-geral da ONU, António Guterres, informações sobre os impactos das restrições americanas na ilha. “Quanto mais Cuba resistir, maior será a solidariedade”, declarou.

Durante a entrevista, Rodríguez também rejeitou um mandado de prisão contra Raúl Castro que foi expedido pelo Gabinete do Procurador-Geral da Flórida. O ministro afirmou que a medida não tem valor jurídico, ético ou prático.

Ao abordar o futuro das relações bilaterais, o chanceler sustentou que a resistência cubana e a posição da população dos Estados Unidos levarão a uma mudança na política de Washington. A votação de 28 de outubro será o próximo momento de manifestação dos países na Assembleia Geral sobre a continuidade do bloqueio.

¨      Cuba condena ‘manobra repreensível’ dos EUA após emitirem mandado de prisão contra Raúl Castro

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, condenou o que descreveu como um “circo patético de Miami” com contexto eleitoral o mandado de prisão emitido nesta segunda-feira (19/10) na Flórida contra o ex-presidente e general do Exército, Raúl Castro Ruz. Pela plataforma X, o mandatário apontou que a medida norte-americana carece de sentido jurídico e prático.

“Raúl é Raúl, e ante cada afronta à sua figura sempre encontrarão a determinação de um povo em defender a Revolução”, escreveu. “Essa manobra de vestidura legal montada por políticos anti-cubanos contra Raúl e contra Cuba merece nossa firme condenação. Faz parte da ânsia agressiva e responde aos obstáculos tentando justificar o bloqueio e a punição coletiva contra nosso povo”.

Na sequência, o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodriguez, condenou a “manobra estéril” com “acusações infundadas” promovida por políticos anti-cubanos “do sul da Flórida”. De acordo com o chanceler, trata-se de um “reflexo da podridão política e do colapso moral com que um grupo de parasitas engana seus seguidores para que continuem contribuindo com arrecadações e financiamento”. 

A medida contra Raúl Castro foi anunciada pelo procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, que baseou o mandado de prisão em acusações de conspiração para cometer assassinato qualificado.

“Raúl Castro ordenou o assassinato de quatro moradores da Flórida a sangue-frio, e a Flórida nunca deixará de buscar justiça”, alegou Uthmeier, em coletiva. As acusações estão ligadas à queda de duas aeronaves em 1996, um evento no qual o lado cubano afirma ter agido em legítima defesa após repetidas violações do espaço aéreo pela organização Irmãos do Resgate.

Em maio, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou Raúl Castro e outros cinco oficiais militares pelo mesmo incidente. Na ocasião, segundo documentos divulgados pelo governo norte-americano, o ex-presidente enfrentava quatro acusações de homicídio e duas de destruição de aeronave. Diante disso, as autoridades cubanas denunciaram que a acusação carece de fundamento legal e moral, alertando que tais ações buscam criar pretextos para justificar agressões militares contra a nação caribenha.

Na ocasião, a chancelaria cubana alertou Washington em 25 ocasiões sobre o perigo dessas operações e solicitou a revogação das licenças de voo dos pilotos, sem receber resposta da administração norte-americana. Foi exposto também que o fundador dos Irmãos para o Resgate, José Basulto, foi treinado pela Agência Central de Inteligência (CIA) para ações de sabotagem em 1961.

 

Fonte: Entrevista com Fabio Fernández Batista - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil/Opera Mundi

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