Quando
as multidões tornam-se sujeito político
Vivemos
num tempo onde “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Esta frase escrita no
Manifesto Comunista por Marx e Engels pode ser a síntese política perfeita para
o momento que estamos vivendo no mundo. Vivemos num tempo da pós-verdade, onde
o que importa é o que o cada indivíduo acha, mesmo que isso signifique negar os
fatos e a realidade. Esta subjetividade construída principalmente pelo
neoliberalismo anula qualquer possibilidade de se ter projetos mais coletivos,
mais solidários, mais afetivos e, portanto, democráticos.
A
sensação que tudo “desmancha” leva a um sentimento de insegurança e medo. Em
momentos assim, temos experiências históricas, que apontam que a opção da
maioria não é tentar construir algo novo e sim reconstruir um passado que se
entende como “glorioso”. Por isso que a extrema direita mundial apresenta
valores conservadores, um modo de vida e uma cosmovisão de mundo que nem ela
mais acredita e vive. É a exploração política do sentimento, legítimo, de
insegurança e medo.
No
Brasil não é diferente. Há décadas, percebemos a construção de um campo
político que sabe muito bem explorar esses sentimentos, transformando-os em um
movimento político. Isso passa desde os programas policialescos das TVs
abertas, pelo fundamentalismo religioso e econômico, pelo desprezo pelo corpo
da mulher, pelo racismo, pelas LGBTQIAPN+fobias, pela destruição da noção do
que é público, pelo ataque permanente à ideia de igualdade e solidariedade e às
políticas públicas de garantia de direitos. Identifica um inimigo, todos que
pensam diferente, e partem para a eliminação deste inimigo. Uma sociedade que
nunca viveu rupturas com a sua história colonial e escravocrata é um campo
fértil para florescer ideias fascistas.
Associado
a isso temos uma mudança de eixo fundamental. Enquanto a esquerda
institucionalizada assumiu o “poder” via eleições tornando-se uma gestora do
sistema, a extrema direita foi se construindo como o antissistema, mesmo sendo
a criadora dele e usufruindo até hoje das suas benesses. Enquanto isso, parte
da esquerda assumiu o discurso da boa gestão do Estado. Um erro estratégico
profundo, que nos tirou a bandeira do antissistema e nos colocou no gueto dos
defensores do status quo. Enquanto o sentimento é de “sou contra tudo que está
aí”, nos apresentamos como bons gestores do caos “dos empreendedores de si
mesmos” que é a vida no capitalismo.
Esta
mudança condiciona toda a nossa ação política, inclusive a construção de
propostas e estratégias. Ficamos reféns de uma institucionalidade que nunca foi
pensada para nós e que nunca será transformada ao ponto de abarcar os nossos
sonhos, utopias e desejos. Passamos a ver o mundo através da moldura da válida
democracia liberal.
E para
nós o que pode significar a sensação que “tudo que é sólido se desmancha no
ar”?
Esta
sensação surge em momentos profundos de crise. Não só crise política, mas
econômica, cultural, ambiental, de costumes, de convivência, de projetos, de
subjetividades. Crise que interliga questões que estruturam o sistema com
desconfortos da vida concreta. É uma insatisfação generalizada que na maioria
das vezes não conseguimos identificar de onde vem.
Se a
extrema direita transforma esses sentimentos legítimos em projeto político
ultraconservador que identifica em nós, o campo democrático e popular, um
inimigo a ser exterminado, nós precisamos construir processos políticos que
construam outros futuros. Aqui o debate sobre o futuro é fundamental e deve nos
diferenciar, não só no conteúdo, mas no método. Não podemos separar conteúdo,
método e os sujeitos políticos dessa construção.
Para
fazer isso precisamos romper com as amarras e concepções políticas que nos
levam a fazer as coisas sempre da mesma forma e sempre com os mesmos.
Precisamos construir espaços, menos de disputas políticas e mais de diálogos,
que apontem para e demolição do que parece ser sólido e a construção de projeto
coletivo de nação que não aceita as desigualdades, não aceita o racismo, o
patriarcado, a discriminação por você amar quem você quer e a divisão da
sociedade em classes. É utópico? Sim, é utópico, pois não se constrói futuro
sem utopias.
Temos
condições para dar concretude a este processo? Temos.
Analisando
o que foi o 1º turno e o que está acontecendo no 2º turno podemos afirmar que
temos condições, sim. Independente do resultado eleitoral. Lógico que num
cenário onde Flávio Bolsonaro ganhe teremos maiores dificuldades, pois
estaremos lutando para estar vivos e vivas.
O
primeiro turno foi uma campanha morna, basicamente feita nas redes sociais, com
pouco envolvimento de rua, não empolgou ninguém, portanto, não acumulou nada
para as lutas. Tivemos algumas vitórias importantes para o parlamento,
principalmente vindo das juventudes negras periféricas, sobretudo as mulheres.
Após o
resultado do primeiro turno, a tristeza bateu fundo e, sabendo o que será um
segundo governo da família Bolsonaro, numa versão muito pior, dada a conjuntura
da América Latina e mundial, se foi à luta. O clima mudou radicalmente e as
pessoas, impulsionadas principalmente pelos estudantes, tomaram as ruas de todo
o Brasil em defesa da manutenção da democracia. Num entendimento que para
destruir o que é “sólido” precisamos manter a democracia liberal, apesar das
nossas críticas e de seus limites. Podia ter sido diferente caso não tivéssemos
cometido o erro estratégico de querer ser o bom gestor de uma massa válida. Mas
o que se tem de “diferente” nisso?
É
impossível não constatar que as ocupações das ruas vieram sem o chamado da
campanha do governo, que é altamente centralizada. Enquanto se estava pensando
no que fazer, uma vez que se tinha a equivocada ideia de uma vitória no
primeiro turno, o povo foi lá e fez. Ocupou as ruas. Enquanto as estruturas
partidárias estavam analisando o que tinha acontecido, o povo entendeu e entrou
na disputa como sujeito político. Talvez porque lembre muito bem como foi o
governo do pai do candidato da extrema direita.
Sim, as
organizações históricas também convocaram, mobilizaram, fizeram o card
divulgando os locais, mas isso não explica a adesão, pois isso já foi feito
outras vezes e não se teve o mesmo resultado.
E, ao
mesmo tempo, um exército se formou nas redes. Essas mesmas, dominadas pela
extrema direita mundial com suas Big Techs e controle de algoritmos. Não
importou se a pessoa tem 10 ou 1 milhão de seguidores, se estão somente nos
Whatsapp ou na infinidade de redes sociais que sempre implicaram em barreiras
geracionais, todas foram convocadas a contribuir no grande projeto coletivo de
defender a democracia, as conquistas alcançadas, ao mesmo tempo que sinalizam a
necessidade de avanços estruturais. O sentimento de pertencimento a um projeto
maior fez com que mais um campo de batalha tivesse força. Ruas e redes se
uniram na missão impossível de tentar produzir uma virada que nunca aconteceu
antes na história das eleições brasileiras, que é um candidato que termina o
primeiro turno em segundo lugar vencer no segundo turno.
Tem
algo de novo neste processo. Ao mesmo tempo que é espontâneo aponta para a
construção de um projeto coletivo de país. E isso, precisamos entender.
Precisamos
olhar para este processo com lentes diferentes das manifestações de 2013. Assim
como lá, as manifestações têm potencial de mudar a chave de leitura do processo
político. Lógico que em 2013 não se tinha o componente eleitoral que tem hoje.
São processos diferentes. Mas o que queremos chamar a atenção é para o
potencial de luta que estamos construindo. O que as ruas parecem exigir, é a
construção de processos políticos dialógicos, inclusive com a questão
geracional, racial, de gênero e de classe para o futuro.
Um
recado está sendo dado pelas multidões: nós vamos fazer com vocês ou sem vocês.
Vocês aqui incluímos movimentos, organizações, partidos etc oriundos da luta
contra a ditadura e pela redemocratização (já fomos democráticos?).
Um
ponto importante é: se Flávio Bolsonaro ganhar, terá uma oposição ferrenha das
ruas, e se o Lula ganhar e não fizer as reformas estruturais que tanto
precisamos, terá uma massa crítica o lembrando do porque foi para as ruas para
reelegê-lo.
Estamos
no quadrante da história brasileira em que está em disputa o que vai se
desmanchar no ar, o que vai ser colocado no lugar e principalmente quem serão
os sujeitos políticos que destruirão o que parece ser sólido.
Podemos
sim esperançar.
Fonte:
Por Cristiane Ribeiro e José Moroni, em Outras Palavras

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