Thalys
Alcântara: Deputado da ‘tropa’ de Flávio Bolsonaro fez gesto considerado
racista na plateia durante debate da Band
O
deputado estadual reeleito por São Paulo Antônio Assunção de Olim, o Delegado
Olim, do PP, fez um gesto associado ao supremacismo branco durante o debate dos
candidatos presidenciais no último domingo, 18 de outubro. Ele assistiu ao
embate na plateia do estúdio da Band TV, ao lado do governador de São Paulo,
Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e de outros apoiadores de Flávio
Bolsonaro, do PL.
Questionado
pelo Intercept Brasil, Olim disse primeiro não se lembrar do momento. Depois,
admitiu que pode ter feito o gesto por se sentir incomodado por alguém que o
filmava.
Imagens
da plateia bolsonarista do debate, gravadas pela Band e retransmitidas por
outros órgãos de imprensa nas redes, mostram o momento em que Antônio Olim
parece perceber que é filmado e gesticula na direção da câmera, unindo o
indicador e o polegar em um círculo.
O
deputado estadual que fez o gesto considerado supremacista no debate da Band
foi reeleito pela terceira vez no início de outubro, com 163,9 mil votos. Além
de Tarcísio, na mesma fileira da plateia em que Olim fez o gesto estavam
sentados outros apoiadores de Flávio Bolsonaro, como o influencer Pablo Marçal
e o deputado eleito Lucas Pavanato, do PL.
Semelhante
a um OK, o gesto era inofensivo até uma década atrás, quando se tornou símbolo
do white power (poder branco). A associação viralizou como “trollagem”, ou
provocação, em fóruns na internet, sobretudo no 4chan. No entanto,
nacionalistas brancos, neonazistas e membros da Ku Klux Klan adotam de fato o
gesto. É o caso, por exemplo, do extremista americano Richard Spencer, que já
foi notícia por saudar Donald Trump com expressão associada a Adolf Hitler e,
em 2016, publicou uma foto no X fazendo um “OK” com a mão.
Outro
caso famoso é o de Brenton Tarrant, condenado à prisão perpétua por matar 51
pessoas em ataques a duas mesquitas na Nova Zelândia em 2019. Ao comparecer a
uma audiência em tribunal, o autor do massacre fez o gesto após ser preso.
No
Brasil, o gesto associado ao racismo foi executado em 2021 pelo então assessor
de Assuntos Internacionais do ex-presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins,
durante uma sessão do Senado. Ele foi condenado pelo ato em dezembro de 2024,
em decisão da Justiça Federal. A pena – de dois anos e quatro meses de prisão
por incitar preconceito de raça – foi substituída por serviços comunitários,
contribuição para uma instituição social e pagamento de danos morais coletivos.
A defesa de Martins recorreu da decisão da condenação e o processo ainda está
em tramitação.
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Histórico de investigado
Olim
foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2014 e, desde então, não
perdeu uma disputa. Delegado da Polícia Civil de São Paulo desde 1992, fez
carreira sendo projetado na imprensa ao liderar investigações de repercussão,
como o assassinato da advogada Mércia Nakashima pelo ex-namorado, o ex-policial
militar Mizael Bispo de Souza.
Em
2022, o político foi denunciado ao Conselho de Ética da Assembleia Legislativa
de São Paulo pela também deputada estadual Isa Penna, do PCdoB. Dias antes,
durante uma entrevista ao podcast Inteligência Ltda, Olim havia dito que a
colega havia tido “sorte” ao sofrer importunação sexual pública praticada pelo
deputado Fernando Cury (sem partido). O processo contra Olim por quebra de
decoro foi arquivado.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Olim
também chegou a ser investigado pelo Ministério Público de São Paulo após seu
nome ter sido citado por Vinícius Gritzbach, delator da facção PCC que foi
executado no aeroporto de Guarulhos. Dois meses antes de ser assassinado, em
sua delação, Gritzbach havia dito aos investigadores que teria pago R$ 4,2
milhões em propina a três delegados, entre eles Olim, por intermédio de seu
advogado, Ramsés Benjamin Samuel Costa Gonçalves – que negou a denúncia.
Na
época, o deputado confirmou ter participado de uma reunião com Gonçalves, mas
disse que apenas apresentou o advogado ao então chefe do Departamento Estadual
de Investigações Criminais, o Deic. O
caso foi arquivado pela Promotoria por falta de provas.
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‘Põe o que quiser’
Procurado
pelo Intercept, o deputado Delegado Olim disse inicialmente que não se lembrava
de ter feito o gesto associado ao supremacismo, mas não quis ver o vídeo que
comprova o ato. Depois, na mesma
ligação, cogitou que poderia ter gesticulado em resposta a alguém que o
filmava.
“Eu
acho que era alguém que estava me filmando o tempo inteiro lá, sem nenhuma
noção. E eu não entendi porque me filmava tanto. (…) Eu estava ali, eu pus a
mão daquele jeito e fiquei, nem olhei pra pessoa, não sei nem quem é”, relatou
o deputado, dizendo que seria alguém que estava na plateia do PT.
Quando
a reportagem disse que enviaria o vídeo para o deputado se recordar do momento
exato, Olim se negou a ver e desligou a chamada.
“Põe o
que você quiser aí. […] Fica pra você o vídeo aí, um abraço”, disparou.
O
Intercept enviou o vídeo para o deputado, mas não recebeu novo retorno até a
publicação desta reportagem.
• Aluno da UFRN espancado em protesto
envolvendo Girão: “Não tem alternativa senão a luta”. Por Cecília Melo
Quando
chegou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) no fim da tarde da
segunda-feira (19), Henrique Neiva não sabia que terminaria o dia em um exame
de corpo e delito, com hematomas pelo corpo e um dente fraturado. O estudante
de 28 anos fez parte do grupo que tentou resistir ao avanço de um protesto
organizado pelo perfil “Endireita RN” no grupo de WhatsApp “UFRN Anti Lula”,
administrado pelo secretário do gabinete do deputado federal General Girão
(PL-RN), Allison Lobato. O parlamentar Girão esteve envolvido na ação junto à
vereadora de Natal recentemente eleita deputada estadual Camila Araújo (PL-RN).
“Era
pra ter quebrado mais uns três”, dizia uma mensagem no grupo, após o fim do
protesto. “Apanhou pouco”, completava outro integrante, após as notícias de
agressões começarem a se popularizar na Grande Natal. A Agência Pública teve
acesso a mensagens trocadas no grupo administrado pelo secretário de gabinete
do deputado da extrema direita. O caso foi registrado na 1ª Delegacia de
Plantão da Polícia Civil.
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A noite que não terminou
Henrique
Neiva ainda estava em casa quando começou a ouvir um paredão automotivo
reproduzindo: “Um caminho novo pra gente seguir. Agora é Flávio presidente”,
parte da letra de um dos jingles do candidato à presidência pelo PL. Por volta
das 17h, o universitário chegou à unidade de ensino, onde foi avisado que as
aulas estavam sendo interrompidas e os estudantes, liberados, devido à
aglomeração que se formava em frente à UFRN.
“Quando
eu cheguei, já estava tendo violência, né? Eles já estavam xingando e
instigando as pessoas a irem pra cima”, conta o estudante que disse ter
acompanhado quando as ofensas passaram de verbais à físicas. “O que a gente
tava fazendo era uma corrente humana, dizendo que daquele lado eles não
passavam”, disse o estudante.
“Recua,
facista, recua”, gritavam alunos, como pode ser visto em vídeos divulgados nas
redes sociais. Em outros registros, o deputado General Girão (PL), cercado por
seguranças privados, aparece dizendo: “Avança, avança. Esse ambiente é meu
também” e “muitos de vocês ficam na vadiagem vendendo drogas aqui dentro”,
acusava.
Henrique
conta que o portão do campus estava sendo fechado quando as agressões tiveram
início. “Fui segurar o portão. E aí do outro lado a galera estava gritando,
xingando e chamando para a violência. Quando eu saio com o meu celular para
gravar quem é que estava fazendo isso eu levo um chute na perna. É nesse
momento que eu vou atrás de quem me chutou e quando eu vou para cima sou
agredido”, narrou o estudante que recebeu chutes e pontapés ao cair no chão,
momento registrado em vídeos por colegas.
Após
ser submetido por um exame de corpo de delito, Neiva foi para casa, mas não
conseguiu dormir direito. “Eu estava sentindo dores e fiquei com uma angústia
muito grande do que tinha acontecido, que eu tinha ido pra lá para ser
agredido. Fiquei pensando que não vale de nada, né? Nada vai tirar as agressões
que eu sofri”, conta. “É necessário ter responsabilização para que isso não
volte a acontecer”, opina.
Estou
me recuperando física e mentalmente, também temendo pela segurança, mas não
tenho deixado esse medo me paralisar. Mesmo eu recebendo esses comentários de
ódio nas minhas redes sociais, eu continuo seguindo a minha vida. […] Não acho
que é o momento de parar. Eu acho que é na verdade um momento de intensificar,
de a gente ocupar mais as ruas, de a gente disputar a consciência das pessoas,
de a gente mostrar que não tem outra alternativa senão a luta política”
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Os lados da moeda
Em sua
curta jornada política, Henrique Neiva já vivenciou lados opostos do espectro
político e disse ter votado em Jair Bolsonaro em 2018, motivado pelo sentimento
antipetista. Foi com a efervescência política de junho de 2013 que Neiva
começou a se interessar por política. O jovem contou que começou a buscar na
internet informações sobre o cenário político brasileiro, e foi quando teve
contato com o pensamento liberal. Foi no MBL que Henrique começou sua
trajetória na militância, e chegou a se candidatar a vereador de Natal pelo
Novo, mas diz que o sentimento mudou durante o mandato de Bolsonaro.
“Eu vi
que não era um governo que tava sendo feito para governar para todas as
pessoas, era um governo feito de atacar as instituições públicas e aí essa
desesperança começa e se amplifica em 2020”, avalia o jovem, que disse ter
sentido na pandemia o divisor de águas de sua visão política, em especial,
devido à recusa do governo federal em comprar imunizantes.
Jovem
negro e periférico, estudante universitário desde 2021, Neiva disse ter
repensado a própria existência em contato com o rap. No ano de 2023, já se
considerava de esquerda, e a experiência de um episódio de violência policial o
fez sentir como o ódio pode ser força motriz da política, nas redes e nas ruas.
“Eu não recebi solidariedade daquelas pessoas que antes diziam estar comigo.
Tive, na verdade, apoio de muitas que antes eu tinha como inimigo. Porque a
direita faz com que você enxergue pessoas de esquerda como inimigo explícito.
Uma mentalidade autoritária. Você pensa diferente de mim e automaticamente você
odeia o Brasil, você odeia a família”, contou, refletindo sobre o episódio
sofrido na UFRN com pessoas de extrema direita, mesmo grupo que já se viu
apoiador.
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Crime sem castigo
Na
segunda-feira (19), após o protesto, o deputado federal General Girão
participou de uma entrevista na rádio Mix FM Natal. Quando perguntado se
imaginava que o ato pudesse escalar para a violência, o parlamentar disse que
“esperava”. Girão também afirmou que pessoas da equipe dele também foram
agredidas, e que “meu pessoal tava todo pacificamente lá”. Além disso, criticou
a segurança do campus: “Lamento profundamente e vou entregar um documento ao
reitor Daniel [Diniz Melo], de que a ‘polícia’ do campus foi fraca, omissa e
talvez até conivente”, disse o parlamentar.
A
deputada estadual eleita Camila Araújo (PL) também esteve no ato e fez falas
públicas antes do confronto físico iniciar. Em um vídeo ela lamentou a
violência contra estudantes e o dano causado ao boneco inflável de Lula como
presidiário: “Não é possível que dentro de uma Universidade Federal estudantes
que pensam diferente sejam chamados de fascistas e sejam expulsos de lá.
Política não se faz com soco, com violência, muito menos com faca furando o
boneco ‘pixuleco’”, falou.
O
reitor Daniel Diniz também se manifestou por vídeo, e afirmou que a
manifestação foi acompanhada e registrada pela Diretoria de Segurança
Patrimonial (DSP), e que a UFRN abriu um processo para apurar o ocorrido.
“Encaminharei documentos ao Ministério Público Federal, à Procuradoria Federal
e ao Tribunal Regional Eleitoral, narrando os acontecimentos e informando as
providências adotadas”, disse o reitor.
Ainda
na terça-feira (20) a UFRN emitiu uma nota repudiando a violência ocorrida e
afirmou que a atividade com carros de som e fogos de artifício não tinha
autorização institucional: “A divergência de ideias, inerente à vida
universitária e ao exercício democrático, não pode, sob qualquer circunstância,
servir de justificativa para atos de intimidação, ameaças, violência ou
desrespeito”, diz a nota.
Com a
repercussão do caso pelo país, ainda na segunda-feira (19) a deputada federal
reeleita Duda Salabert (PT/MG), fez uma publicação se solidarizando com os
estudantes e disse que acionou o Comitê de Ética da Câmara dos Deputados contra
o deputado Girão.
Após o
caso, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RN) determinou que o deputado Girão e
a vereadora Camila Araújo não podem fazer propaganda eleitoral a menos de 200
metros de espaços educacionais em funcionamento, e em caso de descumprimento,
cada um deverá pagar multa de R$ 15 mil por ação realizada.
O
Artigo 243 do Código Eleitoral também afirma que não será tolerada propaganda
que “perturbe o sossego público, com algazarra ou abusos de instrumentos
sonoros ou sinais acústicos”. Em vídeos divulgados pelos manifestantes é
possível ver um desses carros com a placa coberta por um adesivo da campanha do
presidenciável, o que também pode ser considerado crime, segundo a Lei Nº
14.562/2023.
Ao
longo da semana, a Pública procurou duas vezes, por e-mail e via assessoria, os
parlamentares Girão e Camila Araújo para questionar sobre a participação no
protesto. Também procuramos o secretário de Girão, Allison Lobato, por mensagem
em diferentes redes sociais. O secretário preferiu não responder e bloqueou a
reportagem em uma das redes após as tentativas de comunicação. O espaço segue
aberto e será atualizado caso haja manifestação.
Fonte:
The Intercept/Agencia Pública

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