sábado, 24 de outubro de 2026

Thalys Alcântara: Deputado da ‘tropa’ de Flávio Bolsonaro fez gesto considerado racista na plateia durante debate da Band

O deputado estadual reeleito por São Paulo Antônio Assunção de Olim, o Delegado Olim, do PP, fez um gesto associado ao supremacismo branco durante o debate dos candidatos presidenciais no último domingo, 18 de outubro. Ele assistiu ao embate na plateia do estúdio da Band TV, ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e de outros apoiadores de Flávio Bolsonaro, do PL.

Questionado pelo Intercept Brasil, Olim disse primeiro não se lembrar do momento. Depois, admitiu que pode ter feito o gesto por se sentir incomodado por alguém que o filmava.

Imagens da plateia bolsonarista do debate, gravadas pela Band e retransmitidas por outros órgãos de imprensa nas redes, mostram o momento em que Antônio Olim parece perceber que é filmado e gesticula na direção da câmera, unindo o indicador e o polegar em um círculo.

O deputado estadual que fez o gesto considerado supremacista no debate da Band foi reeleito pela terceira vez no início de outubro, com 163,9 mil votos. Além de Tarcísio, na mesma fileira da plateia em que Olim fez o gesto estavam sentados outros apoiadores de Flávio Bolsonaro, como o influencer Pablo Marçal e o deputado eleito Lucas Pavanato, do PL.

Semelhante a um OK, o gesto era inofensivo até uma década atrás, quando se tornou símbolo do white power (poder branco). A associação viralizou como “trollagem”, ou provocação, em fóruns na internet, sobretudo no 4chan. No entanto, nacionalistas brancos, neonazistas e membros da Ku Klux Klan adotam de fato o gesto. É o caso, por exemplo, do extremista americano Richard Spencer, que já foi notícia por saudar Donald Trump com expressão associada a Adolf Hitler e, em 2016, publicou uma foto no X fazendo um “OK” com a mão.

Outro caso famoso é o de Brenton Tarrant, condenado à prisão perpétua por matar 51 pessoas em ataques a duas mesquitas na Nova Zelândia em 2019. Ao comparecer a uma audiência em tribunal, o autor do massacre fez o gesto após ser preso.

No Brasil, o gesto associado ao racismo foi executado em 2021 pelo então assessor de Assuntos Internacionais do ex-presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins, durante uma sessão do Senado. Ele foi condenado pelo ato em dezembro de 2024, em decisão da Justiça Federal. A pena – de dois anos e quatro meses de prisão por incitar preconceito de raça – foi substituída por serviços comunitários, contribuição para uma instituição social e pagamento de danos morais coletivos. A defesa de Martins recorreu da decisão da condenação e o processo ainda está em tramitação.

<><> Histórico de investigado

Olim foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2014 e, desde então, não perdeu uma disputa. Delegado da Polícia Civil de São Paulo desde 1992, fez carreira sendo projetado na imprensa ao liderar investigações de repercussão, como o assassinato da advogada Mércia Nakashima pelo ex-namorado, o ex-policial militar Mizael Bispo de Souza.

Em 2022, o político foi denunciado ao Conselho de Ética da Assembleia Legislativa de São Paulo pela também deputada estadual Isa Penna, do PCdoB. Dias antes, durante uma entrevista ao podcast Inteligência Ltda, Olim havia dito que a colega havia tido “sorte” ao sofrer importunação sexual pública praticada pelo deputado Fernando Cury (sem partido). O processo contra Olim por quebra de decoro foi arquivado.

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Olim também chegou a ser investigado pelo Ministério Público de São Paulo após seu nome ter sido citado por Vinícius Gritzbach, delator da facção PCC que foi executado no aeroporto de Guarulhos. Dois meses antes de ser assassinado, em sua delação, Gritzbach havia dito aos investigadores que teria pago R$ 4,2 milhões em propina a três delegados, entre eles Olim, por intermédio de seu advogado, Ramsés Benjamin Samuel Costa Gonçalves  – que negou a denúncia.

Na época, o deputado confirmou ter participado de uma reunião com Gonçalves, mas disse que apenas apresentou o advogado ao então chefe do Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic.  O caso foi arquivado pela Promotoria por falta de provas.

<><> ‘Põe o que quiser’

Procurado pelo Intercept, o deputado Delegado Olim disse inicialmente que não se lembrava de ter feito o gesto associado ao supremacismo, mas não quis ver o vídeo que comprova o ato. Depois,  na mesma ligação, cogitou que poderia ter gesticulado em resposta a alguém que o filmava.

“Eu acho que era alguém que estava me filmando o tempo inteiro lá, sem nenhuma noção. E eu não entendi porque me filmava tanto. (…) Eu estava ali, eu pus a mão daquele jeito e fiquei, nem olhei pra pessoa, não sei nem quem é”, relatou o deputado, dizendo que seria alguém que estava na plateia do PT.

Quando a reportagem disse que enviaria o vídeo para o deputado se recordar do momento exato, Olim se negou a ver e desligou a chamada.

“Põe o que você quiser aí. […] Fica pra você o vídeo aí, um abraço”, disparou.

O Intercept enviou o vídeo para o deputado, mas não recebeu novo retorno até a publicação desta reportagem.

•        Aluno da UFRN espancado em protesto envolvendo Girão: “Não tem alternativa senão a luta”. Por Cecília Melo

Quando chegou na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) no fim da tarde da segunda-feira (19), Henrique Neiva não sabia que terminaria o dia em um exame de corpo e delito, com hematomas pelo corpo e um dente fraturado. O estudante de 28 anos fez parte do grupo que tentou resistir ao avanço de um protesto organizado pelo perfil “Endireita RN” no grupo de WhatsApp “UFRN Anti Lula”, administrado pelo secretário do gabinete do deputado federal General Girão (PL-RN), Allison Lobato. O parlamentar Girão esteve envolvido na ação junto à vereadora de Natal recentemente eleita deputada estadual Camila Araújo (PL-RN).

“Era pra ter quebrado mais uns três”, dizia uma mensagem no grupo, após o fim do protesto. “Apanhou pouco”, completava outro integrante, após as notícias de agressões começarem a se popularizar na Grande Natal. A Agência Pública teve acesso a mensagens trocadas no grupo administrado pelo secretário de gabinete do deputado da extrema direita. O caso foi registrado na 1ª Delegacia de Plantão da Polícia Civil.

<><> A noite que não terminou

Henrique Neiva ainda estava em casa quando começou a ouvir um paredão automotivo reproduzindo: “Um caminho novo pra gente seguir. Agora é Flávio presidente”, parte da letra de um dos jingles do candidato à presidência pelo PL. Por volta das 17h, o universitário chegou à unidade de ensino, onde foi avisado que as aulas estavam sendo interrompidas e os estudantes, liberados, devido à aglomeração que se formava em frente à UFRN.

“Quando eu cheguei, já estava tendo violência, né? Eles já estavam xingando e instigando as pessoas a irem pra cima”, conta o estudante que disse ter acompanhado quando as ofensas passaram de verbais à físicas. “O que a gente tava fazendo era uma corrente humana, dizendo que daquele lado eles não passavam”, disse o estudante.

“Recua, facista, recua”, gritavam alunos, como pode ser visto em vídeos divulgados nas redes sociais. Em outros registros, o deputado General Girão (PL), cercado por seguranças privados, aparece dizendo: “Avança, avança. Esse ambiente é meu também” e “muitos de vocês ficam na vadiagem vendendo drogas aqui dentro”, acusava.

Henrique conta que o portão do campus estava sendo fechado quando as agressões tiveram início. “Fui segurar o portão. E aí do outro lado a galera estava gritando, xingando e chamando para a violência. Quando eu saio com o meu celular para gravar quem é que estava fazendo isso eu levo um chute na perna. É nesse momento que eu vou atrás de quem me chutou e quando eu vou para cima sou agredido”, narrou o estudante que recebeu chutes e pontapés ao cair no chão, momento registrado em vídeos por colegas.

Após ser submetido por um exame de corpo de delito, Neiva foi para casa, mas não conseguiu dormir direito. “Eu estava sentindo dores e fiquei com uma angústia muito grande do que tinha acontecido, que eu tinha ido pra lá para ser agredido. Fiquei pensando que não vale de nada, né? Nada vai tirar as agressões que eu sofri”, conta. “É necessário ter responsabilização para que isso não volte a acontecer”, opina.

Estou me recuperando física e mentalmente, também temendo pela segurança, mas não tenho deixado esse medo me paralisar. Mesmo eu recebendo esses comentários de ódio nas minhas redes sociais, eu continuo seguindo a minha vida. […] Não acho que é o momento de parar. Eu acho que é na verdade um momento de intensificar, de a gente ocupar mais as ruas, de a gente disputar a consciência das pessoas, de a gente mostrar que não tem outra alternativa senão a luta política”

<><> Os lados da moeda

Em sua curta jornada política, Henrique Neiva já vivenciou lados opostos do espectro político e disse ter votado em Jair Bolsonaro em 2018, motivado pelo sentimento antipetista. Foi com a efervescência política de junho de 2013 que Neiva começou a se interessar por política. O jovem contou que começou a buscar na internet informações sobre o cenário político brasileiro, e foi quando teve contato com o pensamento liberal. Foi no MBL que Henrique começou sua trajetória na militância, e chegou a se candidatar a vereador de Natal pelo Novo, mas diz que o sentimento mudou durante o mandato de Bolsonaro.

“Eu vi que não era um governo que tava sendo feito para governar para todas as pessoas, era um governo feito de atacar as instituições públicas e aí essa desesperança começa e se amplifica em 2020”, avalia o jovem, que disse ter sentido na pandemia o divisor de águas de sua visão política, em especial, devido à recusa do governo federal em comprar imunizantes.

Jovem negro e periférico, estudante universitário desde 2021, Neiva disse ter repensado a própria existência em contato com o rap. No ano de 2023, já se considerava de esquerda, e a experiência de um episódio de violência policial o fez sentir como o ódio pode ser força motriz da política, nas redes e nas ruas. “Eu não recebi solidariedade daquelas pessoas que antes diziam estar comigo. Tive, na verdade, apoio de muitas que antes eu tinha como inimigo. Porque a direita faz com que você enxergue pessoas de esquerda como inimigo explícito. Uma mentalidade autoritária. Você pensa diferente de mim e automaticamente você odeia o Brasil, você odeia a família”, contou, refletindo sobre o episódio sofrido na UFRN com pessoas de extrema direita, mesmo grupo que já se viu apoiador.

<><> Crime sem castigo

Na segunda-feira (19), após o protesto, o deputado federal General Girão participou de uma entrevista na rádio Mix FM Natal. Quando perguntado se imaginava que o ato pudesse escalar para a violência, o parlamentar disse que “esperava”. Girão também afirmou que pessoas da equipe dele também foram agredidas, e que “meu pessoal tava todo pacificamente lá”. Além disso, criticou a segurança do campus: “Lamento profundamente e vou entregar um documento ao reitor Daniel [Diniz Melo], de que a ‘polícia’ do campus foi fraca, omissa e talvez até conivente”, disse o parlamentar.

A deputada estadual eleita Camila Araújo (PL) também esteve no ato e fez falas públicas antes do confronto físico iniciar. Em um vídeo ela lamentou a violência contra estudantes e o dano causado ao boneco inflável de Lula como presidiário: “Não é possível que dentro de uma Universidade Federal estudantes que pensam diferente sejam chamados de fascistas e sejam expulsos de lá. Política não se faz com soco, com violência, muito menos com faca furando o boneco ‘pixuleco’”, falou.

O reitor Daniel Diniz também se manifestou por vídeo, e afirmou que a manifestação foi acompanhada e registrada pela Diretoria de Segurança Patrimonial (DSP), e que a UFRN abriu um processo para apurar o ocorrido. “Encaminharei documentos ao Ministério Público Federal, à Procuradoria Federal e ao Tribunal Regional Eleitoral, narrando os acontecimentos e informando as providências adotadas”, disse o reitor.

Ainda na terça-feira (20) a UFRN emitiu uma nota repudiando a violência ocorrida e afirmou que a atividade com carros de som e fogos de artifício não tinha autorização institucional: “A divergência de ideias, inerente à vida universitária e ao exercício democrático, não pode, sob qualquer circunstância, servir de justificativa para atos de intimidação, ameaças, violência ou desrespeito”, diz a nota.

Com a repercussão do caso pelo país, ainda na segunda-feira (19) a deputada federal reeleita Duda Salabert (PT/MG), fez uma publicação se solidarizando com os estudantes e disse que acionou o Comitê de Ética da Câmara dos Deputados contra o deputado Girão.

Após o caso, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE/RN) determinou que o deputado Girão e a vereadora Camila Araújo não podem fazer propaganda eleitoral a menos de 200 metros de espaços educacionais em funcionamento, e em caso de descumprimento, cada um deverá pagar multa de R$ 15 mil por ação realizada.

O Artigo 243 do Código Eleitoral também afirma que não será tolerada propaganda que “perturbe o sossego público, com algazarra ou abusos de instrumentos sonoros ou sinais acústicos”. Em vídeos divulgados pelos manifestantes é possível ver um desses carros com a placa coberta por um adesivo da campanha do presidenciável, o que também pode ser considerado crime, segundo a Lei Nº 14.562/2023.

Ao longo da semana, a Pública procurou duas vezes, por e-mail e via assessoria, os parlamentares Girão e Camila Araújo para questionar sobre a participação no protesto. Também procuramos o secretário de Girão, Allison Lobato, por mensagem em diferentes redes sociais. O secretário preferiu não responder e bloqueou a reportagem em uma das redes após as tentativas de comunicação. O espaço segue aberto e será atualizado caso haja manifestação.

 

Fonte: The Intercept/Agencia Pública

 

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