Segurança
alimentar e carestia
Sei que
vão dizer que Lula já tem um programa registrado no TSE, mas ele está
apresentando novas ideias em seus discursos e até decretando novas políticas
que só terão vigência em um novo mandato. Exemplo disso é a proposta de
anistiar dívidas dos MEIs, uma decisão um tanto atrasada para se dirigir a uma
ampla parcela do povo trabalhador que ficou esquecida (e até desprezada) nos
seus governos. O candidato Lula deveria adotar algumas propostas para problemas
importantes que os seus governos trataram de forma errônea ou insuficiente.
Vou
tratar de apenas um tema, mas que tem várias ramificações: a busca da segurança
alimentar e nutricional para os brasileiros, através de uma agricultura
sustentável, sem destruir o meio ambiente e sem provocar o aumento do
aquecimento global.
É
preciso constatar que a proposta do Programa Fome Zero de 2003, transformado em
Programa Bolsa Família, padeceu de alguns erros de formulação. Entre outros
impactos estes erros estão gerando aumentos dos preços dos alimentos
regularmente acima dos preços dos outros setores da economia que compõe o IPCA
– Indice dos Preços do Consumidor Amplo.
A
carestia, que aparece na campanha com eleitores reclamando de seus carrinhos de
supermercado sempre mais vazios, deve ser reconhecida como um dos fatores que
mais provocaram o mau humor do eleitorado com o presidente Lula.
Algo
tem que ser proposto em relação a isto e não pode ser “mais do mesmo”.
O Fome
Zero teve como base um programa do governo de Fernando Henrique Cardoso que
distribuía cestas básicas de produtos alimentares. Este programa tinha
problemas consideráveis de logística que dificultavam a sua operação na escala
da demanda de pessoas em situação de insegurança alimentar grave (milhões de
famílias). A solução do governo Lula I foi distribuir dinheiro para comprar
alimentos no lugar de distribuir os alimentos, mas surgiram outras
dificuldades.
A
primeira foi o cálculo do valor do auxílio. A lógica indicava que ele deveria
ser igual ao valor da cesta básica definida pela lei do salário-mínimo e que
mirava em uma família padrão de dois adultos e dois menores.
Ocorre
que o público dos mais pobres é bastante diferenciado na sua composição
familiar e o uso do padrão definido na lei deixaria as famílias mais numerosas
longe de resolver seu problema alimentar.
O
Programa Bolsa Família procurou uma fórmula para tornar mais justo o auxílio,
calculando-o como um complemento de renda familiar. Deste modo, famílias com
renda familiar menor teriam auxílios maiores e as mais bem aquinhoadas menores.
Isto permitiria incorporar mais famílias com o mesmo orçamento. No entanto,
isto tornou a execução do programa mais complexa e altamente dependente das
declarações dos interessados sobre a sua situação, já que a verificação dos
dados apresentados por milhões de pessoas era uma tarefa impossível de cumprir
em tempo hábil.
Por
outro lado, entregar dinheiro a uma família em situação de pobreza ou de
miséria não dá nenhuma garantia de que ele seja usado estritamente para
melhorar a sua alimentação. Com poucos recursos para cobrir o conjunto de suas
necessidades, muitas vezes o auxílio do Programa Bolsa Família é a única fonte
de renda da família e é gasto para pagar despesas obrigatórias como por exemplo
moradia, luz, água, gás de cozinha, transporte, medicamentos, roupas, outras.
O
resultado é a adoção pelas famílias mais pobres de uma dieta orientada para
“matar a fome”, o que é muito diferente de alimentar. Esta dieta fica centrada
em produtos com alta caloria (pão, massas, biscoitos, embutidos, açúcar,
refrigerantes), que “enchem barriga”, mas são carentes de proteínas, sais
minerais e fibras. Para um grande número dos que são contados como fora do mapa
da fome a classificação correta é de subnutridos. O dito mapa da FAO apenas
mede a ingestão de calorias.
O
Programa Bolsa Família é, na verdade, um programa de renda mínima, usado para o
conjunto das necessidades de uma família, mas calculado para complementar a
renda necessária para uma boa alimentação. A confusão entre os objetivos do
programa e as necessidades das famílias acaba sacrificando a qualidade da
alimentação, com os beneficiários buscando os produtos de custos mais baixos
para poder usar o dinheiro para outras despesas.
Uma
possibilidade de se resolver esta diferença entre os objetivos do programa e os
objetivos das famílias beneficiadas seria obrigar as famílias a gastar o
dinheiro em alimentos. Isto poderia ser feito através da distribuição de um
cartão de crédito específico para uso em supermercados e outras formas de venda
de alimentos no varejo. Estas empresas seriam credenciadas pelo Programa Bolsa
Família e responsáveis pelo uso na compra de produtos básicos selecionados.
Isto
imitaria um programa americano que existe desde os anos da grande recessão
mundial (1930/1938) e se intitula “food stamps”, ou cartões de alimentação. O
complicador é que a pressão da necessidade de recursos das famílias para outros
fins pode levar à venda de cartões para trocá-los por dinheiro vivo.
Não há
forma de se resolver esta contradição senão pela correção dos objetivos do
programa, tornando-o um Programa de Renda Mínima que seja calculado para prover
as necessidades dos mais pobres na sua totalidade, de forma a que os recursos
exigidos para uma boa alimentação sejam garantidos. Vai custar mais caro, mesmo
adotando o princípio correto de complementaridade com a renda auferida pelas
famílias.
Até
hoje só conheci dois políticos que entenderam este problema e propuseram um
programa de renda mínima, Eduardo Suplicy (PT) já de muito tempo e Simone Tebet
(PSB) nestas eleições. Nenhum dos dois teve muito sucesso. Em países do
primeiro mundo um grupo de megaempresários vem defendendo esta proposta como a
fórmula necessária para garantir a paz social em uma economia capitalista.
O
organismo de assessoria do movimento sindical, DIEESE, calcula que a renda
necessária para o conjunto das despesas de uma família padrão chega a quatro ou
cinco salários-mínimos de hoje, mas o cálculo do custo da alimentação tem como
base uma dieta insuficiente do ponto de vista nutricional, com custos mais
baixos em relação à ideal.
Finalmente,
seja para um programa de renda mínima, seja para um programa hipoteticamente
voltado apenas para a alimentação teria que definir mecanismos de correção do
auxílio em função das oscilações de preços e maior peso da inflação dos
alimentos.
A
inflação dos alimentos afeta a todos, embora aflija mais as famílias mais
pobres. Isto tem a ver com a oferta insuficiente do conjunto dos alimentos
necessários para nutrir corretamente as pessoas.
Esta
oferta insuficiente de alimentos para o mercado interno tem a ver com a
orientação dominante no agronegócio brasileiro. Como todo negócio capitalista o
agro busca o lucro máximo para seus investimentos. Perpetuando a histórica
participação das exportações de produtos agrícolas na nossa economia (lembremos
que o país começa a existir no século XVI pela produção de açúcar para os
mercados europeus) o agronegócio se dedica a suprir o mercado internacional e
tem como baliza de sua produção a bolsa de futuros de Chicago, que define os
preços das commodities.
O
resultado desta opção preferencial pelos produtos de exportação é uma
agricultura onde soja e milho ocupam 88 milhões de hectares de terra produtiva,
71% de toda a terra cultivada no Brasil. Outros 15% das terras foram destinadas
para cana de açúcar, algodão, café, cacau e fumo, também exportados em grande
parte.
Apenas
11,5% da área de lavouras foi destinada a culturas alimentares do mercado
interno: feijão, arroz, trigo, mandioca, banana, batata, tomate, cebola, aveia,
outros. E não esqueçamos que a maior área ocupada no agro brasileiro é
destinada à criação de gado bovino, 164 milhões de hectares e uma boa parte da
carne produzida é também exportada.
Secundariamente,
setores do agronegócio proveem o mercado interno de maior renda, ficando a
produção para o consumo de massa dependente da demanda solvente de alimentos no
país. Como a renda de boa parte da população não permite que paguem preços
competitivos com os do mercado internacional o volume produzido de alimentos se
adequa a uma demanda reprimida que exclui os mais pobres e aperta o cinto dos
remediados. Para resumir e simbolicamente, o preço do feijão nos nossos
armazéns compete com o da soja na bolsa de Chicago.
A
inserção do nosso agro no mercado internacional faz com que estejamos entre os
maiores produtores de muita coisa (soja, café, açúcar, carnes, laranja, cacau,
milho, outros), mas a parte do mercado nacional é subordinada à demanda
externa. Produtos típicos da nossa alimentação tradicional como feijão e arroz,
vem perdendo lugar na dieta dos brasileiros.
Entre
1977 e 2022 o consumo per capita de arroz caiu de 79 para 49 quilos por ano. O
de feijão de 24,7 para 14 quilos per capita por ano. O de milho caiu para 8,7
quilos pc/ano, embora a produção de milho tenha crescido por um fator de sete
vezes, mas agora para produzir sobretudo ração animal ou álcool.
Analistas
convencionais tendem a explicar esta queda na produção pela diminuição de
demanda enquanto os mais atentos aos indicadores sociais apontam que ela
encolhe porque os preços sobem e induzem a uma mudança da dieta, reduzindo o
consumo. E os preços sobem porque foi ocorrendo uma rápida substituição de
áreas dedicadas aos cultivos alimentares por áreas dedicadas aos produtos de
exportação.
Uma das
razões da nossa permanente inflação de alimentos é o desbalanço entre a oferta
de alimentos e a demanda que vem sendo estimulada pelos programas de
distribuição de renda e de aumento real do salário-mínimo pelos governos
populares. Como a oferta é menor do que a procura os preços sobem.
Pela
lógica do capital isto deveria levar a um aumento da oferta destes produtos,
mas não é assim que a banda toca pois os produtores agrícolas (do agronegócio e
do agronegocinho) preferem produtos com um mercado mais estável e remunerador
do que depender da capacidade de compra dos mais pobres, mesmo com os auxílios
do governo.
Uma
outra razão é o aumento constante dos custos da produção agrícola, indexados
nos preços do petróleo e dos fertilizantes, pesticidas e sementes, em alta por
vários motivos que não cabem neste artigo.
Finalmente,
a oscilação na oferta de alimentos (e de commodities) também é influenciada e
cada vez mais, pelo impacto do aquecimento global, além das perdas de
biodiversidade e da qualidade dos solos que decorre do tipo de modelo agrícola
adotado.
Em
todos os governos populares a política de promoção da produção de alimentos
esteve dirigida para a agricultura familiar. Os técnicos do governo se baseavam
em uma pesquisa da FAO dos anos 1980 que indicavam que esta categoria era
responsável por 70% dos alimentos colocados no prato dos brasileiros. Já não
era verdade, se jamais o foi desde as grandes migrações de produtores
familiares nos anos da ditadura.
Em 2002
esta porcentagem era muito menor e não deixou de cair entre os Censos
Agropecuários de 2006 e de 2017. Nestes censos a participação da agricultura
familiar no total da produção agrícola (alimentos ou commodities) variou de 33%
para 23% (números arredondados), medida em valor da produção.
Como a
agricultura familiar tem participação também na produção de commodities como
café, cacau, soja, e outros, a sua parte na produção alimentar deve estar perto
dos 15%. Em termos de alimentos base como arroz, feijão, trigo, milho e
mandioca a participação da agricultura familiar, em 2017, ficou em 11%, 38%,
18%, 12,5% e 70%, respectivamente.
A
tentativa de Lula/Dilma Rousseff para expandir a produção de alimentos básicos
passou pelo crédito, isenção de impostos, assistência técnica e compras
governamentais com preços com preços mínimos acima do mercado. Não deu certo
nem poderia dar, mesmo que todos os agricultores familiares tivessem acesso a
estas políticas e que seus efeitos fossem 100% positivos (e isto ficou muito
longe de acontecer).
As
razões são muitas e não cabe aqui expô-las por extenso. Para uma boa metade da
agricultura familiar havia impedimentos como os riscos com secas no Nordeste
que exigiam investimentos em infraestruturas hídricas de captação e estocagem
de água de chuvas e equipamentos de irrigação. Para estes e outros a
disponibilidade de terra era pequena e os solos estavam muito desgastados,
exigindo investimentos em reforma agrária (que foram poucos) e em recuperação
de solos e do meio ambiente (que foram nulos).
Finalmente,
para os poucos agricultores familiares (os mais bem aquinhoados em terras,
localização, mão de obra e capital próprio) que tiveram condições de acessar
todas estas políticas, a orientação técnica dominante foi o uso de
fertilizantes químicos, sementes melhoradas, agrotóxicos e maquinário,
produzindo forte endividamento por serem insumos caros. Os produtores
familiares de alimentos que adotaram este modelo logo perceberam que a melhor
remuneração possível com a produção era trocar feijão, arroz, trigo, outros por
commodities de exportação, sobretudo milho e soja.
Para
obter uma resposta rápida na oferta de alimentos o governo teria que partir
para a aplicação de políticas que se dirijam para os médios produtores
capitalizados, além dos agricultores familiares. Entretanto, nenhuma política
de promoção do desenvolvimento tem resposta imediata e, enquanto elas fazem
efeito, será preciso garantir a oferta de produtos básicos de uma dieta correta
através de importações.
Esta é
uma operação que terá que ser feita com muito cuidado para não desestimular
ainda mais os produtores de alimentos nacionais. A Companhia Nacional de
Abastecimento (CONAB) deveria fazer a gestão das compras governamentais de
alimentos, das importações e da formação de estoques.
Como proposta política o presidente Lula
deveria propor a criação de um Programa Nacional de Alimentação e Nutrição
envolvendo as políticas de estímulo à produção (crédito, seguro, assistência
técnica, preços mínimos garantidos, compras governamentais), importações,
formação de estoques públicos, educação alimentar, restaurantes populares,
entre outras.
Este
programa deveria ser negociado com as entidades patronais e familiares
relacionadas com a produção dos alimentos básicos para ajustar as medidas e as
dimensões desta empreitada. A meta deveria ser a adoção de uma dieta adequada
do ponto de vista nutricional para todos os classificados como pobres e
miseráveis, os beneficiários dos programas sociais do governo, Programa Bolsa
Família e BPC.
Além
disso, o governo deveria garantir a qualidade alimentar correta de todos os
seus dependentes em escolas (Programa de Alimentação Escolar), hospitais
públicos, forças armadas, presídios, outros.
Este
programa terá que ter um ajuste fino com os programas sociais, de forma a que
os preços dos alimentos e a capacidade de compra do público sejam compatíveis.
Isto implica na definição de um Programa de Renda Mínima, nos termos já
discutidos acima neste artigo.
Finalmente,
o governo deveria enfrentar o eterno e cada vez mais grave problema do
fornecimento de fertilizantes e isto dependerá de um outro programa em larga
escala de tratamento de lixo e lodo de esgoto para produção de adubo orgânico
que deverá ser articulado com prefeituras e governos estaduais. Para fins de
campanha o candidato deveria anunciar a criação de um de Programa Nacional de
Fertilizantes Orgânicos.
Pensando
na sustentabilidade ambiental deste programa de produção de alimentos, o
governo deveria convocar a Embrapa e os serviços estaduais e não governamentais
de assistência técnica para introduzir no Brasil o Programa de Manejo Integrado
de Pragas da FAO e estimular a produção em larga escala de controles biológicos
de pragas, fungos e doenças.
Tudo
isto vai exigir uma mobilização de técnicos da Embrapa, Conab, MDA, MAPA e MMA
para tratar do detalhamento e dos mecanismos de execução do programa, além de
criar formas de consulta com as entidades do agronegócio e da agricultura
familiar e dos governos estaduais e municipais.
Parece
muita coisa para quatro anos de governo e é. Mas será preciso começar esta
mudança estratégica para superarmos os atuais programas que, embora
bem-intencionados, mostraram-se incapazes de resolver corretamente o problema
alimentar e nutricional do povo brasileiro.
Ponha
esta proposta no seu programa eleitoral presidente Lula, ainda há tempo para
dar esperança ao povo.
Fonte:
Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário