sábado, 24 de outubro de 2026

Homens praticam tiro contra imagem de Lula em clube de São Paulo

Em um clube de tiro, uma dupla de homens armados pratica contra um alvo com o desenho do rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre risos, eles dizem “Faz o L” e “esse não vai participar da próxima eleição”. A câmera foca no rosto do boneco de Lula, mostrando furos de bala na parte superior da imagem. “Olha a carinha dele. Só na testa.” A legenda do vídeo é “toma essa picanha”.

No vídeo, os homens dizem:

– “Esse não vai participar da próxima eleição.”

– “Faz o L.”

– “Olha a carinha dele. Só na testa.”

Na legenda da publicação, escreveram: “Toma essa picanha”.

O homem que postou o vídeo em seu perfil no WhatsApp foi identificado como Maurício Archangelo, dono de empresas na Zona Leste de São Paulo. Ao ser contatado, ele disse não se lembrar do vídeo. A reportagem explicou que ele estava, naquele momento, no dia 21 de outubro, publicado em seu status. Ele disse que ia ver e desligou. Neste intervalo, o vídeo foi apagado.

Em uma nova ligação, Archangelo disse que não sabia do que se tratava, desligou de novo e bloqueou o contato. A reportagem insistiu com outro número de telefone. Desta vez, Archangelo não respondeu às perguntas e se limitou à perguntar como foi feito o acesso ao seu status do WhatsApp.

No perfil do empresário no Instagram, que é aberto, há outra foto de Archangelo em um clube de tiro. Ele também já postou uma imagem de um bebê de poucos meses com uma arma na parte de trás da fralda.

Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, avalia que a conduta de atirar na foto de um presidente pode ser enquadrada como crime de ameaça, que é prevista como “Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave”.

“Vindo de pessoas que têm acesso a arma de fogo e se tratando de políticos como Lula, que já tiveram a caravana em 2018 atingida por tiros e que na época da tentativa de golpe, em 2023, foi demonstrado que havia um plano para matá-lo também a tiros, isso é algo bastante grave e que deve ter providências sérias das autoridades”, afirma. Para ele, a investigação deve ser não só contra as pessoas que atiraram, mas também sobre o clube de tiro por permitir o uso dessas silhuetas em alvos de tiro”, complementa.

Em 2021, um vereador de Fortaleza foi condenado a pagar indenização por danos morais após atirar numa foto de Lula. No ano seguinte, quando o petista foi eleito para o seu terceiro mandato, o PT denunciou que clubes de tiro estariam usando a imagem do político em alvos e acionou a justiça.

Para o cientista político da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o episódio da imagem de Lula ser usada como alvo por bolsonaristas é simbólico do processo de normalização da violência deste grupo. “Passa a ser normal tratar adversários como inimigos a quem se deve eliminar”, aponta.

•        Como surgiram as fakes sobre suposto elo de Lula e crime organizado

A ideia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o seu partido, o PT, mantêm vínculos com organizações criminosas reaparece ciclicamente no debate político brasileiro. Em 2026, ela voltou a circular com força nas redes sociais, impulsionada por vídeos e postagens que afirmam, sem provas, que o presidente defende facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Essas alegações já foram desmentidas por agências de checagem. O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro chegou a ser multado pela Justiça Eleitoral por associar Lula a facções criminosas sem apresentar evidências.

Embora os personagens e as organizações mencionadas tenham mudado ao longo do tempo, a lógica da narrativa

permanece semelhante. A associação entre Lula, o PT e grupos ligados ao crime organizado acompanha a trajetória eleitoral do partido há mais de duas décadas.

<><> Das Farc ao PCC

As origens dessa narrativa remontam ao início dos anos 2000. Na época da primeira eleição de Lula à Presidência, em 2002, o foco das acusações era outro: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Naquele momento, as Farc estavam no centro de uma crise internacional. Os Estados Unidos pressionavam governos da região a classificarem o grupo como organização terrorista. Ao mesmo tempo, um novo governo de direita na Colômbia defendia posição semelhante.

Quando Lula assumiu a Presidência, o Brasil optou por não adotar oficialmente essa classificação. O argumento do governo era diplomático: manter canais que possibilitassem apoiar eventuais negociações de paz no conflito colombiano.

A decisão alimentou críticas de adversários políticos. O PT participava do Foro de São Paulo, articulação que reúne partidos e movimentos de esquerda da América Latina. As Farc enviaram representantes a encontros do grupo nos anos 1990, fato frequentemente citado por críticos para sugerir proximidade entre a guerrilha e o partido brasileiro.

Ao longo dos anos, surgiram reportagens e alegações sobre possíveis contatos entre integrantes do PT e representantes das Farc. No entanto, nunca foram apresentadas provas da suposta colaboração do partido com atividades armadas ou criminosas da organização.

Ainda assim, a narrativa persistiu. Isso ocorreu em parte porque, além de movimento guerrilheiro, as Farc passaram a ser amplamente associadas internacionalmente ao narcotráfico. Desse modo, acusações de proximidade política acabavam sendo interpretadas, por parte do eleitorado, como uma ligação indireta com o crime organizado.

<><> Segurança pública no centro do debate

Ao longo das últimas duas décadas, o cenário mudou. As Farc deixaram de ocupar espaço central no noticiário regional após o acordo de paz firmado na Colômbia em 2016. Em contrapartida, facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho ampliaram sua presença e influência em diferentes regiões do país.

No mesmo período, a segurança pública tornou-se uma das principais preocupações dos eleitores brasileiros. O avanço da violência e do crime organizado fortaleceu discursos políticos de endurecimento penal e combate às facções.

Nesse contexto, novas versões da antiga narrativa ganharam espaço. Em 2022, uma intensa campanha de desinformação nas redes sociais voltou a associar o PT ao crime organizado. Algumas peças misturavam referências às Farc com acusações envolvendo facções brasileiras.

Um dos casos mais conhecidos foi o compartilhamento de um suposto áudio atribuído a Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC. A gravação foi usada para sugerir apoio da facção a Lula. No entanto, o conteúdo não continha tal declaração, e sua autenticidade nunca foi confirmada.

<><> O fator Trump

Em 2026, um novo elemento passou a alimentar o debate. O governo do presidente americano Donald Trump classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A medida foi defendida por integrantes da oposição brasileira, entre eles o senador Flávio Bolsonaro.

Críticos da iniciativa afirmaram que a decisão poderia influenciar o debate político no Brasil, especialmente em um tema sensível para o eleitorado. Já o governo federal interpretou a medida como uma possível interferência externa em assuntos de soberania nacional.

As divergências abriram espaço para novos episódios de desinformação. Em muitos casos, fatos reais, como a designação feita pelos Estados Unidos, passaram a ser combinados com interpretações enganosas ou acusações sem comprovação dirigidas a adversários políticos.

Ao misturar elementos verdadeiros, disputas políticas e alegações sem prova, os conteúdos enganosos encontram terreno fértil para circular nas redes sociais.

 

Fonte: Por Amanda Audi, na Agência Pública/DW Brasil

 

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