Homens
praticam tiro contra imagem de Lula em clube de São Paulo
Em um
clube de tiro, uma dupla de homens armados pratica contra um alvo com o desenho
do rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre risos, eles dizem
“Faz o L” e “esse não vai participar da próxima eleição”. A câmera foca no
rosto do boneco de Lula, mostrando furos de bala na parte superior da imagem.
“Olha a carinha dele. Só na testa.” A legenda do vídeo é “toma essa picanha”.
No
vídeo, os homens dizem:
– “Esse
não vai participar da próxima eleição.”
– “Faz
o L.”
– “Olha
a carinha dele. Só na testa.”
Na
legenda da publicação, escreveram: “Toma essa picanha”.
O homem
que postou o vídeo em seu perfil no WhatsApp foi identificado como Maurício
Archangelo, dono de empresas na Zona Leste de São Paulo. Ao ser contatado, ele
disse não se lembrar do vídeo. A reportagem explicou que ele estava, naquele
momento, no dia 21 de outubro, publicado em seu status. Ele disse que ia ver e
desligou. Neste intervalo, o vídeo foi apagado.
Em uma
nova ligação, Archangelo disse que não sabia do que se tratava, desligou de
novo e bloqueou o contato. A reportagem insistiu com outro número de telefone.
Desta vez, Archangelo não respondeu às perguntas e se limitou à perguntar como
foi feito o acesso ao seu status do WhatsApp.
No
perfil do empresário no Instagram, que é aberto, há outra foto de Archangelo em
um clube de tiro. Ele também já postou uma imagem de um bebê de poucos meses
com uma arma na parte de trás da fralda.
Bruno
Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, avalia que a conduta de
atirar na foto de um presidente pode ser enquadrada como crime de ameaça, que é
prevista como “Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro
meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave”.
“Vindo
de pessoas que têm acesso a arma de fogo e se tratando de políticos como Lula,
que já tiveram a caravana em 2018 atingida por tiros e que na época da
tentativa de golpe, em 2023, foi demonstrado que havia um plano para matá-lo
também a tiros, isso é algo bastante grave e que deve ter providências sérias
das autoridades”, afirma. Para ele, a investigação deve ser não só contra as
pessoas que atiraram, mas também sobre o clube de tiro por permitir o uso
dessas silhuetas em alvos de tiro”, complementa.
Em
2021, um vereador de Fortaleza foi condenado a pagar indenização por danos
morais após atirar numa foto de Lula. No ano seguinte, quando o petista foi
eleito para o seu terceiro mandato, o PT denunciou que clubes de tiro estariam
usando a imagem do político em alvos e acionou a justiça.
Para o
cientista político da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o episódio da
imagem de Lula ser usada como alvo por bolsonaristas é simbólico do processo de
normalização da violência deste grupo. “Passa a ser normal tratar adversários
como inimigos a quem se deve eliminar”, aponta.
• Como surgiram as fakes sobre suposto elo
de Lula e crime organizado
A ideia
de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o seu partido, o PT, mantêm
vínculos com organizações criminosas reaparece ciclicamente no debate político
brasileiro. Em 2026, ela voltou a circular com força nas redes sociais,
impulsionada por vídeos e postagens que afirmam, sem provas, que o presidente
defende facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho
(CV).
Essas
alegações já foram desmentidas por agências de checagem. O senador e candidato
à Presidência Flávio Bolsonaro chegou a ser multado pela Justiça Eleitoral por
associar Lula a facções criminosas sem apresentar evidências.
Embora
os personagens e as organizações mencionadas tenham mudado ao longo do tempo, a
lógica da narrativa
permanece
semelhante. A associação entre Lula, o PT e grupos ligados ao crime organizado
acompanha a trajetória eleitoral do partido há mais de duas décadas.
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Das Farc ao PCC
As
origens dessa narrativa remontam ao início dos anos 2000. Na época da primeira
eleição de Lula à Presidência, em 2002, o foco das acusações era outro: as
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Naquele
momento, as Farc estavam no centro de uma crise internacional. Os Estados
Unidos pressionavam governos da região a classificarem o grupo como organização
terrorista. Ao mesmo tempo, um novo governo de direita na Colômbia defendia
posição semelhante.
Quando
Lula assumiu a Presidência, o Brasil optou por não adotar oficialmente essa
classificação. O argumento do governo era diplomático: manter canais que
possibilitassem apoiar eventuais negociações de paz no conflito colombiano.
A
decisão alimentou críticas de adversários políticos. O PT participava do Foro
de São Paulo, articulação que reúne partidos e movimentos de esquerda da
América Latina. As Farc enviaram representantes a encontros do grupo nos anos
1990, fato frequentemente citado por críticos para sugerir proximidade entre a
guerrilha e o partido brasileiro.
Ao
longo dos anos, surgiram reportagens e alegações sobre possíveis contatos entre
integrantes do PT e representantes das Farc. No entanto, nunca foram
apresentadas provas da suposta colaboração do partido com atividades armadas ou
criminosas da organização.
Ainda
assim, a narrativa persistiu. Isso ocorreu em parte porque, além de movimento
guerrilheiro, as Farc passaram a ser amplamente associadas internacionalmente
ao narcotráfico. Desse modo, acusações de proximidade política acabavam sendo
interpretadas, por parte do eleitorado, como uma ligação indireta com o crime
organizado.
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Segurança pública no centro do debate
Ao
longo das últimas duas décadas, o cenário mudou. As Farc deixaram de ocupar
espaço central no noticiário regional após o acordo de paz firmado na Colômbia
em 2016. Em contrapartida, facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho
ampliaram sua presença e influência em diferentes regiões do país.
No
mesmo período, a segurança pública tornou-se uma das principais preocupações
dos eleitores brasileiros. O avanço da violência e do crime organizado
fortaleceu discursos políticos de endurecimento penal e combate às facções.
Nesse
contexto, novas versões da antiga narrativa ganharam espaço. Em 2022, uma
intensa campanha de desinformação nas redes sociais voltou a associar o PT ao
crime organizado. Algumas peças misturavam referências às Farc com acusações
envolvendo facções brasileiras.
Um dos
casos mais conhecidos foi o compartilhamento de um suposto áudio atribuído a
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder do PCC. A
gravação foi usada para sugerir apoio da facção a Lula. No entanto, o conteúdo
não continha tal declaração, e sua autenticidade nunca foi confirmada.
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O fator Trump
Em
2026, um novo elemento passou a alimentar o debate. O governo do presidente
americano Donald Trump classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações
terroristas. A medida foi defendida por integrantes da oposição brasileira,
entre eles o senador Flávio Bolsonaro.
Críticos
da iniciativa afirmaram que a decisão poderia influenciar o debate político no
Brasil, especialmente em um tema sensível para o eleitorado. Já o governo
federal interpretou a medida como uma possível interferência externa em
assuntos de soberania nacional.
As
divergências abriram espaço para novos episódios de desinformação. Em muitos
casos, fatos reais, como a designação feita pelos Estados Unidos, passaram a
ser combinados com interpretações enganosas ou acusações sem comprovação
dirigidas a adversários políticos.
Ao
misturar elementos verdadeiros, disputas políticas e alegações sem prova, os
conteúdos enganosos encontram terreno fértil para circular nas redes sociais.
Fonte:
Por Amanda Audi, na Agência Pública/DW Brasil

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