Almir
Felitte: Diário de uma relação com as milícias
De
Adriano da Nóbrega ao caso Ana Clara, episódios de mais de duas décadas revelam
como Flávio Bolsonaro se posicionou diante de policias acusados de crimes e das
milícias do Rio de Janeiro...
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Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, RJ, 24 de outubro de 2003
– O
recém-eleito deputado estadual Flávio Bolsonaro aprova moções de louvor a um
grupo de policiais militares pelos vários anos de corporação em que
desenvolveram “sua função com dedicação, brilhantismo e galhardia”. Entre os
policiais homenageados estavam Adriano da Nóbrega e Fabrício Queiroz. Adriano
seria preso um mês depois por sequestro, tortura e extorsão com outros
policiais também homenageados.
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Batalhão Especial Prisional de Benfica, Rio de Janeiro, RJ, 9 de setembro de
2005
– Preso
por homicídio, o PM Adriano da Nóbrega recebe nova homenagem proposta por
Flávio Bolsonaro, mesmo encarcerado: a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria
concedida pela ALERJ. Essa era a segunda visita de Flavio ao então tenente no
presídio em Benfica.
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Câmara dos Deputados, Brasília, DF, outubro de 2005
– Após
a condenação de Adriano da Nóbrega, o então deputado federal Jair Bolsonaro
discursa na tribuna da Câmara em defesa do tenente: “Na segunda-feira passada,
pela primeira vez compareci a um Tribunal do Júri. Estava sendo julgado um
tenente da Polícia Militar de nome Adriano, acusado de ter feito incursão em
uma favela, onde teria sido executado um elemento que, apesar de envolvido com
o narcotráfico, foi considerado pela imprensa um simples flanelinha. (…) É
importante saber a quem interessa a condenação pura e simples de militares da
Polícia do Rio de Janeiro, sejam eles culpados ou não”.
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Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, RJ, 7 de fevereiro de 2007
– Em
debate sobre as milícias na ALERJ, o deputado estadual Flávio Bolsonaro profere
um discurso na tribuna: “Não se pode levar pro lado e simplesmente estigmatizar
a milícia, em especial, os policiais que estão envolvidos nesse novo tipo de
policiamento, vamos dizer assim. (…) Pergunte a qualquer morador que está numa
comunidade dessas, dominada pelas milícias, se ele quer sair de lá, se ele não
está feliz da vida (…). Eu gostaria de estar pagando R$ 20, R$ 30, R$ 40 pra
não ter um carro furtado na minha casa”.
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Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, RJ, meados de 2007
– O
deputado estadual Flávio Bolsonaro nomeia o ex-policial Fabrício Queiroz e a
esposa de Adriano da Nóbrega, Danielle Mendonça da Costa, como seus assessores
parlamentares. Anos depois, em 2015, a mãe de Adriano, Raimunda Veras
Magalhães, também ganharia um cargo no gabinete de Flávio.
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Niterói, RJ, 12 de agosto de 2011
– Com
21 tiros, a juíza Patrícia Acioli é assassinada ao chegar em sua casa na região
metropolitana do RJ. A juíza havia sido responsável pela prisão de mais de 60
policiais ligados a milícias e grupos de extermínio. No mesmo dia, o então
deputado estadual Flávio Bolsonaro escreveu no Twitter: “Que Deus tenha essa
juíza, mas a forma absurda e gratuita com q ela humilhava Policiais nas sessões
contribuiu p ter mts inimigos” (sic). Anos depois, 11 policiais militares
seriam condenados pelo crime.
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Batalhão Especial Prisional de Benfica, Rio de Janeiro, RJ, outubro de 2015
–
Enquanto realizava uma inspeção surpresa em um batalhão prisional, a juíza
Daniela Barbosa Assumpção de Souza foi cercada e agredida por policiais
militares que estavam presos no local. Horas depois, o deputado estadual Flávio
Bolsonaro saiu em defesa dos agressores em declaração à imprensa: “Ao serem
tratados como bandidos por uma pessoa representando o Estado, se sentiram
indignados”. A juíza averiguava denúncias de que os policiais recebiam regalias
no presídio. “Não é nenhum excesso, não é nenhum privilégio”, disse Flávio.
# Rio
de Janeiro, RJ, 14 de março de 2018
– A
vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson Gomes são
assassinados no centro da cidade carioca. Seriam longos anos até que o mando do
crime que chocou o Brasil fosse solucionado, apontando o envolvimento entre
milícias, políticos e autoridades policiais do Rio de Janeiro.
# Rio
de Janeiro, RJ, 12 de março de 2019
– O
ex-PM Ronnie Lessa e o ex-militar Élcio de Queiroz são presos acusados de terem
executado o assassinato de Marielle e Anderson. Ronnie foi preso em sua casa,
no Condomínio Vivendas da Barra, onde era vizinho de Jair Bolsonaro. O mando do
crime, porém, ainda não seria desvendado ali.
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Salvador, Bahia, 9 de fevereiro de 2020
–
Foragido após ser apontado como chefe do “Escritório do Crime”, o miliciano
Adriano da Nóbrega é morto em confronto com a PM baiana. Adriano chegou a ser
considerado suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson e,
segundo sua defesa, temia ser morto em queima de arquivo. A esposa e a mãe de
Adriano já não trabalhavam na assessoria de Flávio Bolsonaro desde novembro de
2018, quando surgiram as primeiras suspeitas sobre o esquema de“rachadinha” no
gabinete.
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Atibaia, São Paulo, 18 de junho de 2020
– Após
cerca de dois anos de sumiço em meio a investigações, Fabrício Queiroz é preso
em um imóvel de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. Queiroz foi
acusado de participar do esquema de rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro
na ALERJ, cometendo crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Esposa e filha (esta última acusada de ser funcionária fantasma) também
integravam o gabinete e foram investigadas. O processo, porém, acabou anulado
por erros processuais. Queiroz ainda disputaria eleições em 2022 e 2024.
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Niterói, Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2021
– A menina Ana Clara, de apenas 5 anos,
brincava na porta de casa, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, quando foi
atingida por um tiro de fuzil disparado pelo PM Bruno Dias Delaroli. Apesar de
ter sido inicialmente preso, o PM passou a responder pelo processo em
liberdade. Três anos depois, quando a Justiça determinou que o caso fosse
encaminhado ao júri, o então senador da República Flávio Bolsonaro, passou a
integrar a equipe de defesa do PM como advogado, chegando a assinar um recurso
ao STJ. O caso segue sem julgamento até hoje.
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Senado Federal, Brasília, DF, 10 de maio de 2023
– Em
reunião da CCJ do Senado que debatia projeto de lei que criminalizava as
milícias, Bolsonaro defendeu uma emenda que limitava o conceito de milícias à
exploração de serviços básicos, na tentativa de excluir os esquadrões da morte
desse tipo de crime. Após críticas, Flávio se defendeu: “E sabe que lá atrás,
milícia era qualquer prédio onde moravam dois, três policiais militares e não
deixavam vender droga na frente do prédio. Começou assim. Aí depois a coisa foi
tomando vulto (…)”.
# Rio
de Janeiro, RJ, 24 de março de 2024
– O
deputado federal Chiquinho Brazão é preso junto com seu irmão, Domingos Brazão,
conselheiro do TCE–RJ, ambos acusados de serem mandantes do assassinato de
Marielle e Anderson. O ex-chefe da Polícia Civil do RJ, Rivaldo Barbosa, também
foi preso por participar do planejamento. As prisões foram possibilitadas pela
delação do miliciano Ronnie Lessa, responsável pela execução dos assassinatos.
# Rio
de Janeiro, RJ, 9 de maio de 2024
– A
Polícia Federal prende Robson Calixto da Fonseca, o “Peixe”, PM reformado e
ex-assessor de Domingos Brazão, acusado de participar da organização criminosa
dos irmãos Brazão. Outro mandado é cumprido contra major Ronald, acusado de
monitorar a rotina de Marielle no planejamento de seu assassinato. Ronald havia
sido homenageado por Flávio Bolsonaro em março de 2004 por uma ação que deixou
três mortos na Maré.
# Rio
de Janeiro, setembro de 2026
– São
reveladas pela imprensa mensagens trocadas entre Peixe” e uma secretária
parlamentar do gabinete do senador Flávio Bolsonaro. Nas mensagens, obtidas por
investigação do Ministério Público do RJ e da PF, “Peixe” pediu o envio de
verbas para uma ONG localizada na Taquara, bairro dominado por milícias no RJ.
As conversas se estenderam por cinco meses. Em uma delas, “Peixe” chama Flávio
de “nosso Senador”. As investigações revelaram que, em 2023, Flávio Bolsonaro
enviou uma emenda parlamentar de quase R$ 200.000,00 ao projeto social da ONG
indicada por “Peixe”.
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Brasil, 25 de outubro de 2026
– O
Brasil vai às urnas para decidir quem será o seu próximo presidente da
República. Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno da eleição presidencial
contra o ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva.
Algumas
das falas e dos discursos citados neste artigo foram retirados do livro “A
República das Milícias” (Todavia, 2020), do jornalista Bruno Paes Manso.
Fonte:
IHU

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