Política
e monetização: como ativistas se tornam alvo de violência dentro e fora das
redes
Os
perfis nas redes sociais do jornalista e comunicador popular Mateus Fernandes,
de 26 anos, sempre articularam debates sobre raça, meio ambiente e participação
política a partir da periferia de São Paulo. A decisão de declarar o voto no
presidente Lula no segundo turno das eleições custou a liberdade e
tranquilidade de Mateus. Conhecido nas redes como @omateuso, seu perfil
divulgou uma nota pública no dia 12 de outubro informando que ele havia
recebido oito ameaças de morte e tortura, com referências à Ku Klux Klan e
saudações nazistas. Além disso, seu endereço residencial foi exposto em
comentários no Facebook, o que motivou o jornalista a sair de casa por medo de
ser assassinado.
As
ameaças surgiram após a participação de Mateus na campanha de “vira-voto” com
centenas de criadores de conteúdo. Sem respostas efetivas às denúncias enviadas
à Meta, Mateus e sua equipe jurídica de apoio registraram boletim de ocorrência
por racismo, apologia ao nazismo, intolerância religiosa e ameaça. Também levou
o caso ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e à Polícia Civil.
O caso
de Mateus não é isolado. Ele se soma a episódios de intimidação contra
parlamentares e agentes políticos registrados em diferentes estados durante o
período eleitoral. Os dados após o primeiro turno confirmaram o diagnóstico:
segundo levantamento da organização de Direitos Humanos Terra de Direitos e da
Justiça Global, divulgado no dia 7 de outubro, o Brasil registrou 134 episódios
de violência política em 50 dias de campanha, uma média de um caso a cada nove
horas.
Segundo
a pesquisa, dos 134 episódios registrados no primeiro turno, 102 foram
dirigidos a pessoas com candidaturas registradas, o que equivale a 76,1% do
total. Os outros 32 casos atingiram quem não disputava eleições: foram vítimas
19 vereadores, 3 prefeitos, um vice-prefeito e dois secretários. Também houve
quatro casos contra dirigentes partidários e dois contra sedes do PT e a equipe
de uma candidata.
Um
exemplo foi da deputada federal eleita com a melhor votação de Minas Gerais,
Ana Elisa (PT-MG), de 21 anos, a mulher mais jovem da história do país e
assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados. Logo após a confirmação do
resultado das urnas, ela passou a ser alvo de perseguição e ameaças de morte.
No
Amazonas, a deputada estadual e candidata a vice-governadora Alessandra Campêlo
(PSD) denunciou ter sido ameaçada durante um debate eleitoral promovido pela TV
Norte Amazonas. Alessandra disputa o segundo turno ao Governo do Estado ao lado
de Omar Aziz (PSD) contra a chapa da Professora Maria do Carmo (PL).
Um
homem da coligação adversária foi flagrado, nos bastidores, fazendo um gesto de
degolamento enquanto a encarava. Tratava-se de Kidson Maia, que buscou uma vaga
de deputado estadual no Amazonas, mas não foi eleito, ficando como 1° suplente.
Segundo o portal G1, Alessandra apresentou uma representação criminal e, com
isso, a juíza eleitoral Bárbara Folhadela Paulain determinou que Kidson e o
deputado federal eleito Sargento Salazar (PL) mantenham distância mínima de 200
metros da parlamentar, proibiu qualquer tipo de contato e suspendeu o porte de
armas da dupla. A Agência Pública solicitou um posicionamento do Tribunal
Regional Eleitoral do Amazonas mas não obteve retorno até o fechamento desta
reportagem. O espaço segue aberto.
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Além de candidatas, minorias políticas tornam-se alvo
A
violência política segue um padrão na escolha das vítimas: atingem sobretudo
pessoas negras, mulheres, populações periféricas, entre outros grupos
marginalizados que ocupam o debate público. Em setembro, uma articulação de
quase 70 organizações da sociedade civil (entre elas o Instituto Marielle
Franco, Terra de Direitos, Justiça Global, Articulação de Mulheres Negras
Brasileiras) entregou uma nota coletiva ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE
Mulheres). O documento exige medidas de prevenção, investigação e
responsabilização diante da escalada do racismo, misoginia e exposição de dados
pessoais direcionada a candidatas e ativistas.
Um
estudo publicado em 2025 pelo Instituto Marielle Franco, já mostrava que 69%
das vítimas de violência política virtual de gênero e raça são mulheres pretas
e pardas, e 84% dos casos se concentram estão concentrados contra lideranças
filiadas a legendas progressistas. Nesses espaços, a identidade racial e a
atuação em defesa dos direitos humanos funcionam como catalisadores para
campanhas orquestradas de difamação e intimidação física.
Para o
advogado Thiago Farias, que representa Mateus Fernandes junto ao Ministério
Público de São Paulo, as agressões se tornam bem mais graves quando ultrapassam
as telas. “Quando a ameaça cita a rua, o bairro e o trajeto cotidiano de um
comunicador, a violência deixa de ser uma agressão virtual difusa e passa a
operar como uma tecnologia de confinamento territorial”, explica o jurista.
“Não atinge apenas o Mateus, mas envia um recado de intimidação a todo corpo
negro e periférico que tenta ocupar o debate.” Farias afirma que essa violência
atua em duas frentes: a pressão psicológica e o confinamento.
Pressão
e confinamento que impõem custos invisíveis às vítimas e seu entorno. Na
segunda-feira seguinte ao primeiro turno, 5 de outubro, o babalorixá, professor
e escritor Sidnei Nogueira transmitia uma live ao lado da professora da Unifesp
Ellen de Lima Souza. A transmissão lançava um curso sobre saberes de terreiro e
os ensaios da teórica feminista negra norte-americana Bell Hooks e da escritora
burquinense Sobonfu Somé. Embora a aula não tratasse de política eleitoral, o
pai de Santo comentou sua esperança em um resultado democrático no segundo
turno. A partir daí, a transmissão passou a ser invadida por dezenas de
comentários de ódio, ofensas intolerantes e ataques bolsonaristas.
Para o
Babalorixá, o link da transmissão provavelmente foi compartilhado em grupos de
mensagens da extrema direita: “não reconheci aquelas pessoas das interações
comuns da minha página”, relata. Sidnei já evitava andar a pé pelo próprio
bairro por medo. Depois dos ataques, passou a usar mais transportes privados, o
que gerou um custo financeiro não planejado. Integrantes de sua comunidade
religiosa, seus filhos de Santo, também organizaram uma rede de acompanhamento
para que ele não circule sozinho. “A política do ódio substituiu o debate
saudável”, reflete Nogueira.
Apesar
da violência, a reação dos seguidores do professor abriu caminhos de
solidariedade. Pessoas de fora de São Paulo que acompanhavam a transmissão
passaram a denunciar os perfis agressores em seus próprios estados, pois se
sentiram atingidos pelo discurso de ódio. Diante da gravidade dos ataques, a
defesa de Sidnei estuda levar a denúncia à esfera federal.
Se as
ameaças visam intimidar, podem ter um efeito contrário. A exposição do caso do
pai de Santo Sidnei Nogueira também encorajou outras lideranças religiosas a se
posicionarem. “Depois desse episódio, um outro Pai de Santo me mandou mensagem
dizendo que não tinha se posicionado até então, mas se sentiu impelido a se
manifestar após a repercussão da minha denúncia”, relata Sidnei. Para ele, isso
reforça a necessidade de não recuar nem se calar diante da intimidação: “a
verdade não tem pressa”, conclui.
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O modelo de negócio do ódio e a omissão das Big Techs
Para
especialistas e vítimas, a proliferação desses ataques está diretamente
conectada à tolerância e ao modelo econômico das empresas de tecnologia.
Ex-deputada
federal e cientista política, Áurea Carolina, que teve 2,6 milhões de votos ao
Senado por Minas Gerais em 2026, afirma que “o negócio dessas plataformas é
baseado em publicidade e retenção de público”. Para ela, a violência atua como
um “veneno invisível” que desestimula a presença de mulheres negras na política
formal. “Elas [big techs] lucram inclusive com anúncios de golpes e conteúdos
de incitação. E há um alinhamento ideológico e de privilégio: dados mostram
como algoritmos entregam mais alcance para a extrema-direita enquanto censuram
ou reduzem a entrega de perfis progressistas”, analisa Áurea.
A
professora e ativista feminista Lola Aronovich, umas das primeiras mulheres a
receber e combater os discursos de ódio na internet, cuja perseguição deu
origem à Lei 13.642/2018 (Lei Lola), aponta que o ecossistema digital se
deteriorou a partir de 2016: “as Big Techs sempre difundiram ódio porque lucram
com o engajamento pelo ultraje. Com as eleições de Donald Trump nos EUA e Jair
Bolsonaro no Brasil, a ‘machosfera’ e os grupos extremistas perderam a vergonha
de expor o rosto. Viram que discursos de misoginia e violência não eram
punidos, mas recompensados com o poder”, pontua.
Na
análise do advogado Thiago Farias, a facilidade com que discursos extremistas
se convertem em perseguição tem relação com as políticas de moderação das
empresas de tecnologia.
“As
plataformas digitais precisam abandonar as suas convenientes posturas de
distância do debate público. Ficou escancarado no debate público recente,
especialmente nos períodos eleitorais, que existe uma assimetria gritante na
aplicação dos termos de uso quando o conteúdo partia da extrema direita,
permitindo que a desumanização e a incitação ao ódio corressem soltas; em
contrapartida, vozes progressistas, periféricas e democráticas, que buscavam
apenas qualificar o debate público, foram sistematicamente silenciadas ou
punidas com rigor desmedido”, argumenta.
Farias
defende que as redes deixem de usar algoritmos que tratam o engajamento com o
ódio como motor de distribuição. Também apela para que elas cooperem imediatamente com a Justiça,
fornecendo dados cadastrais e registros de conexão dos agressores.
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Partidos também devem se envolver e se responsabilizar
Áurea
Carolina avalia que a lei “aumenta a pena e tipifica o crime, mas não prevê
nenhuma política pública para prevenir nem cria estruturas de proteção.” Para a
ex-deputada, a omissão dos partidos políticos diante dos ataques é um dos
principais fatores que deixam as candidatas desprotegidas nas campanhas. Como
alternativa, ela defende a criação de um fundo emergencial com recursos do
Fundo Eleitoral: a medida destinaria parte da verba pública de campanha para
custear ações imediatas de proteção (como escolta, suporte psicológico,
veículos blindados ou relocação de domicílio) em até 48 horas após o registro
da ameaça.
“Os
partidos são omissos, para não dizer coniventes. Se é de interesse do Brasil
financiar candidaturas de todo o espectro político, também deve ser de
interesse do país garantir que todas as candidaturas de mulheres concorram em
condições de igualdade e segurança. Não dá para esperar um mês de trâmite
burocrático partidário quando a vida e o mandato de uma mulher estão em jogo”,
defende a cientista política.
Por
outro lado, leis focadas em investigação digital têm utilidade quando há
vontade política. Lola Aronovich destaca que a Lei Lola (Lei 13.642/2018), que
autoriza a Polícia Federal a investigar crimes cibernéticos de misoginia e ódio
com repercussão intermunicipal ou internacional, passou a ser aplicada de forma
mais firme a partir de 2023. “Hoje ela é usada pela PF para desmantelar fóruns
que planejam massacres em escolas, redes internacionais de abuso digital e
campanhas organizadas de incitação à violência contra mulheres.”
Apesar
dos avanços legais, os órgãos de segurança ainda enfrentam questões
operacionais. A Lei 14.192/2021 tipifica a violência política de gênero, mas a
aplicação das normas segue desafiada pela velocidade das ameaças. Segundo
Thiago Farias, instituições como a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de
Intolerância (DECRADI) e o GECRADI, no Ministério Público de São Paulo, são
conquistas históricas dos movimentos sociais. Ainda assim, enfrentam limitações
de alcance e lentidão burocrática para preservar provas digitais com a urgência
necessária.
No
Congresso Nacional, há uma proposta em tramitação buscam enfrentar essas
brechas: o PL 3191/2026, de autoria da deputada Sâmia Bomfim (PSOL/SP), altera
a Lei de Violência Política contra a Mulher (Lei 14.192/2021) e o Código
Eleitoral. A proposta tipifica expressamente como violência política de gênero
a manipulação digital, o uso de inteligência artificial (deepfakes) e a
disseminação de conteúdos falsos ou difamatórios destinados a induzir ao erro
sobre a opinião ou identidade de candidatas e parlamentares. Protocolado em
junho de 2026, o projeto passa pela análise das comissões da Câmara antes de
seguir para votação.
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Outro lado
Procurada
pela reportagem, a Meta informou por meio de nota, que: “não permite ameaças,
intimidação, conduta de ódio ou exposição não autorizada de dados pessoais,
inclusive no contexto eleitoral”. A empresa afirmou que qualquer usuário pode
denunciar violações diretamente nas redes (Facebook, Instagram e Threads) e
ressaltou que mantém, para as Eleições 2026, canais dedicados à Justiça
Eleitoral, partidos e candidatas, além de um guia de segurança voltado a
mulheres na política. “Removemos conteúdos que violam nossas regras, e contas
infratoras podem ter recursos limitados, ser suspensas ou desativadas”,
declarou o porta-voz da plataforma.
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Guia prático
A
pedido da Agência Pública, a advogada especialista em Direito Digital Elaine
Keller criou um série de orientações para vítimas de ameaças no ambiente
digital
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O que fazer em caso de perseguição e ataques virtuais?
# 1.
Qual é o limite entre a liberdade de expressão e o crime de ódio ou
perseguição?
A
crítica e o debate, mesmo contundentes, são legítimos no ambiente democrático.
No entanto, a liberdade de expressão não é absoluta e não pode servir de escudo
para ofensas, ameaças, misoginia ou ataques à honra e à dignidade. Quando o
limite é ultrapassado, configura-se abuso de direito e ilícito civil e penal
(injúria, difamação, ameaça e perseguição).
# 2.
Sofri um ataque ou ameaça na rede. Qual deve ser a minha primeira atitude?
A
primeira providência imediata é preservar as provas das agressões (mensagens,
comentários, áudios, vídeos e links/URLs das publicações) e denunciar o
conteúdo nos canais da própria plataforma. Se persistir ou houver ameaça grave
e exposição de dados (doxxing), procure imediatamente a polícia para registrar
um Boletim de Ocorrência e busque orientação jurídica.
# 3.
Tirar um simples print (captura de tela) serve como prova na Justiça?
Nem
sempre. Para ter validade no Judiciário, a prova digital precisa cumprir três
requisitos: autenticidade (origem), integridade (garantia de que não foi
manipulada) e licitude. Um print isolado pode ser contestado. O ideal é salvar
as URLs exatas, a navegação gravada, manter os arquivos originais sem alteração
e, se possível, contar com orientação jurídica ou registros de preservação
técnica (como ata notarial em cartório ou plataformas com tecnologia de
blockchain).
# 4. O
agressor usou um perfil falso ou sem foto. É possível identificar quem está por
trás?
Sim. O
anonimato nas redes não é uma blindagem contra responsabilização civil e
criminal. Por meio de ordem judicial, as plataformas digitais são obrigadas a
fornecer os registros de conexão e dados de acesso, como endereços de IP, datas
e horários, que permitem às autoridades policiais identificar o autor da
infração.
# 5. A
plataforma não removeu o conteúdo denunciado e a perseguição continua. O que
posso fazer judicialmente?
Um
advogado especialista em Direito Digital pode acionar o Judiciário para pedir,
em caráter de urgência (liminar), a retirada imediata do conteúdo ou a
suspensão do perfil sob pena de multa diária à plataforma. Além da remoção, a
vítima pode pleitear indenizações civis por danos morais e a responsabilização
criminal dos envolvidos.
Fonte:
Por Por Nicole Santos, na Agência Pública

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