sábado, 24 de outubro de 2026

Novo Trump? Eduardo Bolsonaro fala em enviar tropas dos EUA ao Brasil se Flávio perder eleição

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro sugeriu nesta sexta-feira (23) o envio de fuzileiros navais dos Estados Unidos ao Brasil caso seu irmão, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), perca a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A declaração foi feita durante uma entrevista ao vivo ao programa americano Louder with Crowder, apresentado pelo comentarista conservador Steven Crowder.

A dois dias do segundo turno, Eduardo também defendeu que Flávio deixe o país em caso de derrota e voltou a questionar a confiabilidade das urnas eletrônicas, sem apresentar provas de fraude.

A referência aos militares americanos surgiu depois que um espectador perguntou, pelo chat do programa transmitido no YouTube, se a família Bolsonaro tinha algum plano para ajudar o ex-presidente Jair Bolsonaro caso Flávio não vencesse a disputa.

“Send the Marines” (“Mandem os fuzileiros navais”), respondeu Eduardo, rindo.

Embora a resposta tenha sido dada em tom de brincadeira, Crowder prosseguiu com comentários sobre uma eventual intervenção americana no Brasil. O apresentador afirmou que uma operação desse tipo provocaria protestos da esquerda e mencionou até uma ação de helicóptero para retirar Jair Bolsonaro da prisão.

“Haveria gente na esquerda furiosa com isso. Gente nas ruas dizendo que isso é construção de nação, que somos um império do mal”, afirmou o comentarista, antes de acrescentar que alguma coisa precisaria ser feita.

Eduardo participou presencialmente do programa nos Estados Unidos, país onde passou a viver em 2025. O ex-deputado perdeu o mandato parlamentar por excesso de faltas às sessões da Câmara e mantém relações políticas com setores conservadores americanos próximos ao presidente Donald Trump.

Não há indicação de que o governo dos Estados Unidos tenha considerado ou anunciado qualquer operação militar relacionada à eleição brasileira.

<><> Eduardo defende que Flávio deixe o Brasil

Na sequência da conversa, Eduardo afirmou que o irmão deveria deixar o país caso fosse derrotado nas urnas. A justificativa apresentada foi o receio de que Flávio passe a enfrentar investigações após perder o mandato de senador e a imunidade parlamentar.

O ex-deputado alegou que Lula teria ameaçado o irmão durante o debate presidencial promovido pela Band e pelo Estadão, ao mencionar a possibilidade de investigações depois da eleição.

“Ele disse isso abertamente, no meio do debate. Ele estava ameaçando meu irmão”, afirmou Eduardo, ao apresentar sua interpretação da fala do presidente.

Em seguida, declarou: “Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza. Com certeza”.

A declaração ocorre em um momento decisivo da disputa presidencial. Lula e Flávio se enfrentam no segundo turno neste domingo (25), após o senador receber 47,03% dos votos válidos no primeiro turno, contra 45,16% do presidente.

<><> Sem provas, Eduardo volta a questionar as urnas

Durante a entrevista, Eduardo também lançou suspeitas sobre a apuração eleitoral brasileira. O ex-deputado criticou a ausência de cédulas impressas e afirmou que o sistema obrigaria os eleitores a confiar exclusivamente nas máquinas.

“O problema é que nós não usamos papel, não há contagem pública dos votos, e você precisa confiar na máquina”, declarou.

Em outro momento, afirmou que o Brasil utiliza um sistema eletrônico centralizado e alegou que a definição do vencedor dependeria de um pequeno grupo de funcionários em Brasília.

A descrição não corresponde ao funcionamento da apuração eleitoral brasileira. Os votos são registrados nas urnas eletrônicas, que emitem boletins com os resultados de cada seção eleitoral. Esses documentos podem ser conferidos e comparados com os dados divulgados pela Justiça Eleitoral.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também realiza testes públicos de segurança e procedimentos de auditoria. Nunca foi comprovada fraude capaz de comprometer os resultados das eleições realizadas com urnas eletrônicas no Brasil.

As declarações de Eduardo retomam questionamentos utilizados pelo bolsonarismo em eleições anteriores, especialmente na disputa presidencial de 2022, quando Jair Bolsonaro contestou repetidamente a confiabilidade do sistema de votação.

Desta vez, porém, os ataques ocorrem acompanhados de uma sugestão de intervenção militar estrangeira, ainda que em tom jocoso, e da defesa de que o próprio candidato presidencial deixe o Brasil caso seja derrotado.

A entrevista também expõe a tentativa de levar a disputa política brasileira ao público conservador americano, em um momento em que os eleitores estão prestes a decidir quem governará o país pelos próximos quatro anos.

<><> Eduardo Bolsonaro abriu empresa no Bahrein com passaporte italiano

Em 30 de janeiro deste ano, Eduardo Bolsonaro postou uma foto com o Príncipe Herdeiro e Primeiro-Ministro do Reino do Bahrein, Sheik Salman bin Hamad Al Khalifa, ao lado do seu irmão, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL). Ambos apareciam vestidos nos trajes tradicionais do país. “No mundo árabe, a candora é o equivalente ao terno e gravata. Vestir a roupa tradicional é mais do que estilo, é respeito. Diplomacia se faz com gestos. E gestos constroem confiança, proximidade e resultados reais para Bahrein e Brasil”, escreveu Eduardo, que tem pretensões de assumir o Ministério de Relações Exteriores se seu irmão vencer as eleições no próximo domingo.

Eduardo participava da comitiva oficial do candidato ao lado de Paulo Figueiredo e dos deputados federais Paulo Bilynskyj (PL-SP) e Rodrigo Valadares (União Brasil-SE). A viagem incluiu uma visita ao palácio e um festival de corridas de cavalos promovido pela monarquia.

Mas o que Eduardo não mencionou no post do Instagram é que ele mantinha uma relação bem mais firme com o país.

Uma investigação da Agência Pública constatou que ele manteve uma empresa no Bahrein para realizar atividades de consultoria em gestão. Aberta em 19 de setembro de 2024, a The Next Level LLC funcionou oficialmente por pouco mais de um ano e teve suas atividades encerradas em setembro do ano passado por não ter renovado o registro de companhia limitada. O capital inicial era de cerca de R$ 130 mil.

Um detalhe chama a atenção: o irmão do candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) registrou a empresa como cidadão italiano. Tanto Eduardo quanto seu irmão Carlos possuem passaporte italiano, fruto dos antepassados dos Bolsonaro na cidade de Anguillara Veneta, no norte do país.

A informação pode ampliar controvérsias em torno do lobby de Eduardo para gerir o Itamaraty e liderar a diplomacia brasileira. E abre dúvidas se ele não teria aberto empresas em outros países como cidadão italiano e não brasileiro.

Eduardo Nantes Bolsonaro, cujo nome, em árabe, aparece no Portal de Registro Comercial (SIJILAT) no Bahrein como ورانوسلوب ستنان ودراودإ, não respondeu aos questionamentos da Agência Pública sobre qual era a finalidade da empresa.

Mas ela foi aberta exatamente no mesmo período em que ele e o irmão Flávio buscavam fundos para viabilizar a realização do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, que recebeu aporte de US$ 13 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro. Foi em dezembro de 2024 que Flávio conheceu Daniel Vorcaro em uma reunião online, e nos meses seguintes, até meados de 2025, Fabiano Zettel passou a coordenar o repasse dos valores em parcelas de cerca de US$ 2 milhões. Foi um período de grande mobilização para buscar apoio para o projeto familiar.

Em maio deste ano, o deputado federal Mário Frias Filho (PL-SP), produtor do filme e detentor dos direitos sobre a história de vida de Bolsonaro – como revelou a Pública – acompanhou Eduardo em uma nova viagem até o Bahrein. Realizada entre 12 e 18 de maio, segundo Mário Fias, a visita ocorreu a convite do Conselho de Desenvolvimento Econômico do país (EDB, na sigla em inglês).

Segundo levantamento da jornalista Juliana Dal Piva na sua coluna no ICL Notícias, Eduardo Bolsonaro esteve ao menos nove vezes no Bahrein desde 2019. Quatro destas viagens ocorreram durante o governo de Jair Bolsonaro. Depois disso, outras três coincidiram com momentos de pressão judicial do STF contra o ex-deputado federal.

A mais recente ocorreu em 8 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições. Ele voltou a visitar o palácio e a se encontrar com o Sheikh Salman bin Hamad Al Khalifa, além do ministro de economia e finanças, para discutir cooperação econômica e comercial.

As fotos foram feitas no mesmo dia em que o ministro do STF Alexandre de Moraes decretou sua prisão pelo crime de coação no curso do processo, devido ao lobby realizado junto ao governo Trump por retaliações contra o Brasil. Alexandre mandou ainda cancelar os passaportes de Eduardo.

O ex-deputado, foragido da justiça brasileira, usou seu passaporte italiano para entrar no país e postou vídeos xingando o ministro do STF e passeando pelo aeroporto do Bahrein e dos EUA livremente.

¨      Marcos Coimbra: “Flávio Bolsonaro colocou em risco o que tinha de mais precioso”

O sociólogo e especialista em pesquisas eleitorais Marcos Coimbra avalia que o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) no debate presidencial promovido pela Band pode representar um ponto de inflexão na disputa do segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista ao Boa Noite 247, Coimbra afirmou que a estratégia de confronto adotada pelo candidato do PL pode comprometer justamente o apoio dos eleitores que não fazem parte de sua base ideológica e cuja adesão é necessária para conquistar a Presidência da República.

“Flávio Bolsonaro colocou em risco o que ele tinha de mais precioso”, afirmou Coimbra, ao analisar a postura do candidato durante o confronto televisivo. Segundo ele, a agressividade pode mobilizar os setores mais identificados com o bolsonarismo, mas tende a produzir uma reação diferente entre os eleitores que ainda avaliam suas escolhas ou que podem reconsiderar o voto.

O especialista recorreu ao conhecimento acumulado em pesquisas qualitativas para explicar por que o comportamento de Flávio pode ter consequências eleitorais. Coimbra lembrou uma orientação do publicitário Duda Mendonça, responsável por campanhas presidenciais, que sintetizava a reação dos eleitores diante de candidatos que adotavam estratégias de ataque: “Quem bate perde”.

De acordo com Coimbra, essa máxima não se refere aos segmentos que já apoiam um candidato independentemente de seu comportamento. Seu significado está relacionado à reação dos eleitores que não possuem identificação partidária consolidada e que observam os debates para formar ou confirmar suas opiniões.

“Eu duvido que isso produza efeito na massa do eleitorado. Produz um efeito altamente positivo na meia dúzia de radicais daquele lado”, declarou. Para ele, a tentativa de desestabilizar o adversário pode satisfazer os apoiadores mais mobilizados, mas não necessariamente contribui para ampliar a votação.

Coimbra considera que Flávio Bolsonaro adotou uma estratégia inspirada no influenciador Pablo Marçal e no presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na avaliação do sociólogo, o candidato procurou reproduzir gestos, formas de expressão e interrupções destinadas a impedir que Lula desenvolvesse seus argumentos.

O resultado, segundo ele, foi a exposição de características que podem dificultar a aproximação com setores do eleitorado que não compartilham desse estilo de atuação política.

“Eu acho que ele se tornou uma figura, uma caricatura de si mesmo”, afirmou.

O sociólogo argumentou que Flávio poderia ter se beneficiado de uma postura menos confrontadora. Como vinha demonstrando resistência nas pesquisas eleitorais, sua candidatura não precisava necessariamente assumir riscos durante o debate. Uma apresentação voltada à exposição de propostas, segundo Coimbra, poderia preservar o apoio já conquistado sem provocar questionamentos adicionais sobre sua capacidade de exercer a Presidência.

“Ele podia ganhar mais jogando parado do que fazendo esse papel ridículo que ele fez, inspirado no seu professor, o Pablo Marçal”, disse.

A avaliação de Coimbra é que o comportamento do candidato pode ter provocado consequências que ultrapassam a percepção imediata de quem venceu ou perdeu o debate. Ao examinar a cobertura da imprensa no dia seguinte, ele identificou sinais de questionamento sobre Flávio Bolsonaro em setores que, até então, tratavam sua candidatura como uma alternativa política aceitável.

O especialista citou manifestações de articulistas da Folha de S.Paulo como exemplos de uma possível mudança na maneira de avaliar o candidato. Segundo ele, comentários publicados após o debate sugeriam que determinadas características de Flávio passaram a ser consideradas um problema para sua própria candidatura.

Coimbra ressaltou, entretanto, que essa percepção ainda não permite afirmar que houve uma alteração efetiva na intenção de voto. Trata-se, por enquanto, de uma hipótese sobre os efeitos políticos do confronto, cuja confirmação depende de pesquisas realizadas após a transmissão.

“A impressão que me deu é de que começa uma pequena quebra num modo de olhar para a eleição que estava claramente favorecendo essa contraposição do presidente Lula com esse cidadão”, afirmou.

Para explicar o risco eleitoral da estratégia de Flávio, Coimbra também recuperou a experiência de Geraldo Alckmin na eleição presidencial de 2006. Naquele segundo turno, o então candidato do PSDB adotou uma postura de maior agressividade contra Lula, diferente do comportamento que havia caracterizado sua trajetória política.

Segundo o sociólogo, Alckmin chegou à reta final da disputa em uma situação desfavorável e tentou mobilizar os setores mais combativos de seu eleitorado. A mudança de postura, contudo, não conseguiu reverter a tendência de derrota.

Coimbra observou que Alckmin abandonou posteriormente aquela forma de atuação e continuou conquistando vitórias eleitorais, incluindo novas eleições para o governo de São Paulo.

A comparação serve, na análise do especialista, para demonstrar que estratégias de confronto podem funcionar como tentativas de mobilização de uma base já existente, mas não oferecem necessariamente condições para conquistar os votos que faltam a uma candidatura.

No caso de Flávio Bolsonaro, Coimbra considera que o problema pode ser ainda maior porque o candidato não estava obrigado a assumir uma postura de confronto para preservar sua competitividade. A decisão de apostar na agressividade teria introduzido um elemento de risco em uma disputa marcada por diferenças reduzidas nas pesquisas.

O especialista também levantou a possibilidade de que a própria campanha do PL reavalie a estratégia antes do debate da TV Globo, previsto para a sexta-feira anterior à votação. Ele acredita que pesquisas qualitativas e levantamentos de intenção de voto poderão indicar se houve rejeição ao comportamento apresentado na Band.

“Eu acho que o Flávio Bolsonaro vai procurar fazer diferente”, afirmou, deixando claro que se trata de uma expectativa, e não de uma informação sobre decisões internas da campanha.

Para Coimbra, o episódio pode produzir uma consequência decisiva caso parte dos eleitores que vinham considerando votar em Flávio passe a questionar essa escolha. O sociólogo não afirmou que esse movimento já ocorreu, mas sustentou que a experiência de outras eleições mostra como acontecimentos da reta final podem alterar percepções que pareciam consolidadas.

Sua conclusão é que Flávio Bolsonaro assumiu um risco ao privilegiar uma linguagem voltada aos apoiadores mais radicalizados, justamente no momento em que precisava conquistar a confiança de eleitores situados fora desse núcleo. A dimensão desse possível desgaste, segundo a análise apresentada, dependerá de como o eleitorado reagirá nos dias que antecedem o segundo turno.

 

Fonte: ICL Notícias/Brasil 247

 

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