Legislativo:
renovação à direita é menor que se pensa
A ideia
de que a direita brasileira se tornou o principal polo de renovação política
ganhou espaço nas análises eleitorais. Associada à ascensão de alguns
candidatos jovens, à comunicação direta nas redes sociais e à capacidade de
mobilizar eleitores fora dos canais tradicionais, essa interpretação sugere que
o campo conservador teria encontrado uma fórmula para formar novas lideranças,
enquanto os progressistas enfrentam dificuldades para se renovar. Os resultados
das eleições de 2026, contudo, recomendam cautela. A derrota de políticos
experientes não equivale necessariamente à renovação do sistema, assim como a
eleição de candidatos jovens não comprova, por si só, a emergência de novas
lideranças.
A
disputa pela Câmara dos Deputados oferece um primeiro contraponto. Dos
parlamentares que tentaram renovar seus mandatos, 111 não conseguiram se
reeleger. Entre os derrotados estão representantes de longa trajetória tanto do
campo conservador quanto do progressista. À primeira vista, o resultado poderia
ser interpretado como uma resposta do eleitorado à demanda por renovação
política. Os números, porém, não sustentam uma conclusão tão abrangente.
Em 2018
e 2022, aproximadamente um em cada três deputados que buscaram a reeleição não
conseguiu retornar à Câmara. Em 2026, a proporção foi menor: dos 405
parlamentares que tentaram renovar seus mandatos, 294 foram reeleitos. Houve,
portanto, menos derrotas entre os candidatos à reeleição, proporcionalmente, do
que nos dois pleitos anteriores. O resultado está longe de indicar uma ruptura
mais intensa com a representação estabelecida.
A
composição da Câmara que tomará posse em 2027 reforça essa leitura. Dos 186
deputados considerados estreantes na Casa, apenas 55 nunca haviam exercido
mandato eletivo. Os demais já tinham experiência política em outras posições,
como assembleias legislativas, câmaras municipais e prefeituras. Ao mesmo
tempo, pelo menos uma centena de parlamentares eleitos já acumulava três ou
mais mandatos na Câmara. A entrada de novos nomes, portanto, não corresponde
necessariamente à chegada de novos atores à política. Em boa parte dos casos,
trata-se da circulação de representantes por diferentes posições
institucionais.
Esses
números não diminuem a importância das mudanças individuais nem significam que
o eleitorado tenha permanecido indiferente às candidaturas e a seus
posicionamentos. Revelam, contudo, a necessidade de distinguir a renovação dos
ocupantes dos cargos da transformação das estruturas de representação. Uma
Câmara pode incorporar novos parlamentares sem alterar substancialmente as
forças políticas que a organizam, as agendas que prevalecem ou os mecanismos
que favorecem a continuidade dos mandatos.
Essa
distinção ganha relevância diante das mudanças na relação entre Legislativo e
Executivo. Desde 2015, o Congresso ampliou sua participação na definição e na
destinação de recursos públicos, especialmente por meio das emendas
parlamentares e do avanço do orçamento impositivo. O crescimento dos recursos
sob influência dos parlamentares fortaleceu sua capacidade de atender demandas
das bases eleitorais e de construir vínculos políticos com relativa autonomia
em relação ao governo federal.
O
processo também alterou os incentivos à permanência no cargo. Uma cadeira na
Câmara representa não apenas visibilidade pública e poder de negociação, mas
também capacidade de direcionar recursos, influenciar decisões orçamentárias e
intermediar demandas locais. Quanto maior a possibilidade de converter o
exercício do mandato em entregas reconhecidas pelo eleitorado, maior o
potencial de transformar o capital institucional em capital eleitoral.
A
continuidade de políticos experientes, nesse contexto, não pode ser explicada
apenas pela resistência dos partidos à renovação ou por uma suposta preferência
dos eleitores por nomes conhecidos. Ela também se relaciona a uma estrutura
institucional que oferece aos ocupantes de mandato recursos e instrumentos para
preservar sua posição. Novos candidatos enfrentam concorrentes que, em muitos
casos, já dispõem de redes políticas consolidadas, visibilidade pública e
capacidade de intermediar recursos. A competição eleitoral, embora formalmente
aberta, não ocorre em condições equivalentes.
É nesse
ponto que a suposta superioridade da direita na formação de novas lideranças
precisa ser examinada com maior rigor. A capacidade de lançar candidatos
jovens, conquistar visibilidade nas redes sociais e converter insatisfação em
votos constitui uma vantagem eleitoral relevante. Mas a capacidade de eleger
não se confunde com a de construir lideranças duradouras, capazes de
representar grupos sociais diversos, formular agendas, mediar conflitos e
estabelecer vínculos de confiança que sobrevivam a uma eleição. São processos
relacionados, mas distintos, com temporalidades e exigências próprias.
A mesma
distinção vale para o campo progressista. A renovação política exige mais do
que apresentar candidatos de uma nova geração ou substituir quadros antigos.
Pressupõe construir reconhecimento social, estabelecer conexões territoriais
com diferentes segmentos do eleitorado e transformar pautas e identidades
políticas em capacidade efetiva de representação.
Uma
pesquisa realizada pelo Núcleo Ypykuéra em parceria com o Observatório Político
e Eleitoral da UFRJ ajuda a aprofundar essa discussão. O estudo, baseado em
grupos focais com eleitores que votaram em Lula nos dois turnos de 2022 ou
apenas no segundo, identificou percepções distintas sobre a permanência de
representantes já conhecidos. Entre as menções codificadas, 23,6% apontaram as
vantagens financeiras e de marketing de quem já ocupa um mandato como fator
favorável à sua escolha. Outros 21% destacaram o reconhecimento e a confiança
no trabalho realizado por esses representantes.
Os dois
resultados iluminam dimensões diferentes da continuidade política. De um lado,
a vantagem dos incumbentes está associada a condições desiguais de competição.
De outro, a preferência por representantes conhecidos também pode decorrer de
uma avaliação positiva de sua atuação. A continuidade pode expressar vínculos
de confiança construídos ao longo do tempo.
Essa
ambivalência é central para compreender os limites de uma renovação reduzida à
substituição de nomes. Não basta que novos candidatos tenham acesso à disputa
eleitoral. Eles precisam construir reconhecimento e credibilidade, enquanto
partidos e organizações políticas precisam criar condições para que novas
lideranças conquistem espaço. Ao mesmo tempo, a familiaridade com um
representante não deve ser confundida automaticamente com qualidade da
representação, assim como a inexperiência institucional não constitui, por si
só, uma virtude política.
A
pesquisa também ajuda a afastar a ideia de que o campo progressista esteja
simplesmente paralisado. A emergência de novas referências ocorre de forma
plural, em torno de agendas, trajetórias e públicos distintos. Há ainda que se
considerar que as formas de identificação política se tornaram mais
fragmentadas. As redes sociais ampliaram os canais de mobilização, reduziram o
peso exclusivo das estruturas partidárias e permitiram que lideranças com
agendas específicas alcançassem públicos próprios. O desafio está na capacidade
de converter as experiências em formas de articulação política que ampliem sua
legitimidade para além de segmentos específicos.
A
discussão sobre renovação, portanto, exige critérios mais precisos do que
idade, número de mandatos ou desempenho nas urnas. É preciso observar se novos
representantes conseguem ampliar a participação política, construir vínculos
sociais duradouros, formular respostas para problemas coletivos e influenciar
as instituições para além da própria eleição. Também é necessário avaliar se a
chegada de novos nomes modifica as relações de poder ou apenas incorpora novos
atores a estruturas que permanecem praticamente inalteradas.
Os
resultados de 2026 não autorizam afirmar que a política brasileira tenha
passado por uma renovação generalizada. Tampouco permitem atribuir
exclusivamente à direita a capacidade de produzir novos quadros.
O que
revelam é a convivência entre a permanência de políticos tradicionais, a
circulação de representantes por diferentes níveis de governo e a entrada de
novos nomes, em um sistema no qual as oportunidades de ascensão e consolidação
política permanecem desiguais.
A
renovação política não pertence a um espectro ideológico. É um processo
disputado, desigual e de longo prazo. Seu êxito se mede pela possibilidade de
transformar representação eleitoral em legitimidade social, capacidade de
articulação e influência efetiva sobre a vida pública. Confundir essas
dimensões pode produzir uma narrativa atraente sobre vencedores e vencidos, mas
pouco esclarece sobre as mudanças – ou as continuidades – da democracia
brasileira.
Fonte: Por
Artur Sampaio, em Outras Palavras

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