Por
que Austrália quer 'desligar o algoritmo' da Meta e outras redes sociais
Varsha
Yajman já se sentia desconfortável com sua aparência quando entrou nas redes sociais, aos 13 anos de
idade.
Foi
então que um fluxo infinito de vídeos de exercícios com promessas impossíveis
invadiu o seu feed.
Na
tela, meninas que ela nunca havia visto antes a incentivavam a participar de
perigosos desafios de perda de calorias. Outras promoviam orgulhosamente nos
perfis sua altura, seu peso e até o número de vezes em que foram parar no
hospital, em uma competição perturbadora.
Todas
as noites, na hora de dormir, Yajman assistia a um estranho na internet, que
resumia o que ele havia consumido naquele dia.
"Eu
pensava: 'Não preciso comer. Posso simplesmente observar outras pessoas
comendo'", conta ela à BBC.
"Acabei
descobrindo que iria descer por buracos muito profundos... parecia não importar
o quanto você tentasse sair, era impossível."
Agora
com 24 anos e em recuperação de anorexia, Yajman conta que
ainda recebe conteúdo sobre perda de peso nas redes sociais, mesmo com todas as
configurações de segurança ativadas e uma enorme lista de palavras proibidas.
Fim da
Promoção Agregador de pesquisas
São
pessoas como ela que o governo australiano afirma estar tentando proteger com
um novo conjunto de leis para reprimir as big techs, apresentado ao Parlamento
nacional na semana passada.
Basicamente,
a reforma propõe a criação de uma chave para o algoritmo, que obrigaria as
plataformas de redes sociais a permitir que os usuários desligassem o conteúdo
recomendado. A ideia é que você só tenha acesso a contas que você segue.
O
governo da Austrália não é o primeiro a experimentar esta medida, mas os
controles já existentes dos algoritmos, muitas vezes, são transitórios e trazem
prejuízos para a funcionalidade dos aplicativos.
A
Austrália decidiu reforçar sua legislação para impedir que isso aconteça. E o
governo local espera que suas novas leis (que também incluem a obrigação legal
de assistência nos serviços online) ajudem a deixar os australianos mais
felizes e saudáveis.
Mas a
preocupação dos críticos é que o governo do primeiro-ministro australiano,
Anthony Albanese, esteja indo longe demais na sua luta contra as big techs. E
outros governos — como o do presidente americano, Donald Trump — afirmam que as
reformas ameaçariam a liberdade de expressão.
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A escolha
Flynn
Martin sabe como é ser sugado para uma espiral algorítmica.
O
autoproclamado influenciador misógino Andrew Tate e outras figuras da machosfera começaram a tomar
conta do feed de redes sociais de Martin cerca de quatro anos atrás. Ele tinha
20 anos de idade.
Na
época, Martin estava inseguro, frustrado com sua vida e enfrentava problemas de
saúde mental. Ele viria a ser diagnosticado com distúrbio bipolar e conta que
foi atraído pela retórica.
Martin
logo viralizou na Austrália com dois vídeos. Um deles questionava se seria
aceitável ser um homem branco hétero e outro criticava o pedido de iogurte
congelado de uma pessoa com quem ele saiu.
"Você
fica meio que em uma câmara de eco... É fácil ser arrastado para aquilo",
conta ele à BBC.
"Eu
realmente comprei a ideia de que estaríamos
vivendo nessa matrix, que tínhamos este sistema realmente negativo projetado
para ir contra você. E que a única forma de sair daquilo seria se tornando esse
personagem macho alfa."
Martin
mora na cidade australiana de Melbourne e só saiu da machosfera após um período
de psicose e uma internação hospitalar.
Agora,
ele tem dificuldade para encarar aquela versão anterior de si mesmo.
"Tenho
um pouco de vergonha e constrangimento... mas acho que também um pouco de
empatia por aquele jovem", segundo ele.
Martin
e Yajman sabem que as redes sociais não são as únicas culpadas pelo pior
momento das suas vidas. Mas eles afirmam que elas foram um fator fundamental.
Inúmeros
outros jovens contam histórias em que foram confrontados por conteúdo nas redes
sociais que eles não procuraram e não queriam ver. E, há muito tempo, existem
suspeitas de que os algoritmos que selecionam conteúdo nessas plataformas estão
prejudicando os usuários.
As
empresas responsáveis pelas redes sociais defendem que os possíveis riscos são
exagerados e que elas já fornecem ferramentas de segurança eficazes aos seus
usuários.
Mas
pesquisas realizadas em todo o mundo vêm trazendo um quadro diferente.
Estudos
concluíram que as redes sociais ativam uma reação cerebral similar à dependência de jogos e substâncias; que os algoritmos,
muitas vezes de forma não solicitada, fornecem conteúdo prejudicial à saúde mental
dos usuários
e que eles difundem desinformação e aumentam a
polarização, promovendo a violência fora da internet.
Ações
judiciais e delatores já trouxeram acusações de que as empresas conhecem os
riscos e estão dispostas a ignorá-los, pois esta tecnologia aumenta o
engajamento dos usuários e os seus lucros.
"Como
resultado, elas promovem conteúdo revoltante ou que desperta fortes emoções das
pessoas", conta à BBC a ativista da educação para o consentimento Chanel
Contos.
"Pode
ser raiva, medo, desejo, luxúria ou insegurança. Seja o que for, irá nos manter
rolando a tela."
A
ativista ajudou a reformar os padrões de educação para o consentimento sexual
na Austrália e criou uma campanha defendendo mudanças quando estudava o tema na
universidade.
A
campanha "Fix Our Feeds" ("Conserte os nossos feeds", em
tradução livre) exigia que os algoritmos recomendados fossem desligados como
padrão e que os usuários das redes sociais tivessem a opção de adotá-los.
Contos
idealizou um retorno nostálgico às redes sociais do início dos anos 2010, uma
época em que os feeds das pessoas eram finitos e ficavam repletos de postagens
de amigos ou pessoas que elas realmente seguiam.
Mais de
15 mil pessoas assinaram sua petição e a campanha conquistou o apoio de dois
ex-primeiros-ministros australianos, diversos parlamentares, figuras
influentes, defensores da saúde mental e especialistas em segurança na
internet.
Em
setembro, o governo da Austrália declarou ter ouvido os cidadãos do país que
apoiaram a campanha de Contos e anunciou uma versão da sua proposta, que
obrigaria as empresas de tecnologia a criar uma chave do algoritmo, mas sem
exigir que ele fosse automaticamente desligado.
"Não
se trata de dar controle ao governo", afirmou Albanese, "trata-se de
dar controle às pessoas."
"Se
as pessoas quiserem rolar a tela compulsivamente... tudo bem, é problema
delas."
Esta
política faz parte do projeto de lei Obrigação de Assistência Digital, criado
pelo governo australiano para exigir que os serviços online (empresas de redes
sociais, sites de jogos, chatbots e outros) "garantam, até o máximo
razoavelmente praticável, um ambiente seguro na internet".
As
crianças devem ser protegidas contra material "prejudicial" e
características de projeto, como pornografia e material que incentive
distúrbios alimentares ou comportamentos perigosos em relação às mulheres. E os
adultos devem ser protegidos contra material e condutas "seriamente
prejudiciais", uma lista muito mais rigorosa de conteúdo ilegal.
Desrespeitar
a legislação pode gerar multas de até 100 milhões de dólares australianos (US$
70 milhões, cerca de R$ 353 milhões).
"A
obrigação de assistência digital responde a grande parte das questões pendentes
da legislação de idade mínima para uso de redes
sociais,
pois ela é muito mais ampla", declarou à BBC a ministra das Comunicações
da Austrália, Anika Wells.
"Ela
abrange todos os serviços online e transfere o ônus da responsabilidade dos
ombros das vítimas para as big techs operadoras, que buscam ganhar dinheiro com
os usuários australianos."
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Os desafios
A
reação das big techs foi de silêncio.
A Meta,
Snap, TikTok, X e Google, dona do YouTube, não apresentaram declarações
públicas sobre esta legislação, nem responderam aos pedidos de comentários
enviados pela BBC.
Nos
dias que se seguiram ao anúncio, o diretor do Instagram, Adam Mosseri, defendeu
que feeds sem algoritmos levariam os usuários a observar menos postagens dos
seus amigos. Ele afirmou não acreditar que seu aplicativo seja viciante, embora
um júri americano tenha recentemente decidido o contrário.
"Acho
que estamos confundindo a forma como usamos a palavra 'viciado' (como em
'fiquei viciado neste programa que estou maratonando') com a dependência
clínica", declarou ele em entrevista coletiva, em Sydney, na Austrália.
Os
partidos de direita da Austrália e o governo Trump declararam que a proposta
dos algoritmos e o projeto de lei como um todo correm o risco a obrigar a
prática de moderação excessiva e censura.
Mas os
defensores da legislação afirmam que isso não irá acontecer porque você ainda
poderá seguir quem quiser e compartilhar o que desejar.
"Se
os adultos ouvirem os podcasts da machosfera ou as pessoas postarem suas
opiniões sobre o governo, fizerem memes ou quiserem dizer que o pouso na Lua
foi falso, eles podem continuar a fazê-lo sem restrições", explicou Wells
na semana passada.
A
proposta parece ser muito menos polêmica entre o público e os especialistas em
segurança na internet do que a proibição das redes sociais para as crianças na
Austrália. Mas a grande questão é como o país irá implementar esta política se,
até agora, vem enfrentando dificuldades para fazer valer a proibição.
Pesquisas
indicam que a maioria das crianças que estavam nas redes sociais antes da
proibição permanecem conectadas e nenhuma multa foi imposta.
A
tentativa da União Europeia de introduzir controles dos algoritmos em 2023, que
levou as plataformas a apresentar feeds somente de contas seguidas pelo
usuário, é uma história que recomenda cautela.
As
empresas responsáveis pelas redes sociais indicaram que a adoção de
características de controle e segurança como esta tem sido baixa. Elas
mencionam este dado como evidência de que os usuários gostam dos seus produtos
da forma como eles são — e os especialistas afirmam que há uma razão para isso.
"As
plataformas fazem o que a lei manda, mas de uma forma tão malfeita que os
usuários, na verdade, não aproveitam a opção e permanecem com a experiência
algorítimica padrão", escreveu no site de notícias acadêmicas The
Conversation
o pesquisador Chris Zomer, do Centro ARC de Excelência para a Criança Digital,
na Austrália.
No
Instagram, por exemplo, quando você desliga o algoritmo, não consegue ver
mensagens diretas, nem ter acesso ao seu perfil e configurações. E, se você
sair do aplicativo, ele mostrará novamente o feed curado pelo algoritmo ao
retornar.
O único
país onde estes problemas não existem é a Holanda. Lá, o aplicativo foi
alterado quando um tribunal holandês concluiu, no ano passado, que a Meta
estava desrespeitando a Lei de Serviços Digitais da União Europeia.
A
regras da Austrália ainda não entraram em vigor. Mas o governo afirma que os
feeds somente de pessoas que o usuário seguir não devem ser mais difíceis de
usar, nem ter menos funcionalidades. E também que as configurações do algoritmo
devem ser "óbvias" e não devem ser alteradas sem "decisão
explícita" do usuário, mesmo depois de sair do aplicativo.
Incentivada
pelo seu sucesso na Austrália, Contos agora leva sua campanha para outros
países.
"Percebemos
que o Canadá, o Reino Unido e a Austrália estão
todos bem alinhados em relação à segurança na internet... Se estas três
jurisdições estão fazendo, pode surgir uma massa crítica."
Experiências
como as de Flynn Martin e Varsha Yajman ajudaram a inspirar estas reformas, mas
eles são um tanto céticos a este respeito.
Yajman
conta que tem dificuldade de acreditar que um país como a Austrália possa se
impor frente às big techs. Ela não tem tanta certeza de que a Lei de Obrigação
de Cuidado Digital irá funcionar.
E Flynn
afirma que os legisladores devem ser "realistas" sobre o potencial da
chave do algoritmo. "Afinal, nós usamos as redes sociais como forma de
entretenimento", segundo ele.
Pesquisas
realizadas no início do mês indicaram que dois terços dos jovens da geração Z
(nascidos entre 1996 e 2012) manteriam seus algoritmos de redes sociais. Mas
cerca da metade de todos os australianos os desligariam.
Yajman
reconhece que, provavelmente, não irá usar muito a chave do algoritmo, mas
gostaria de ter esta opção.
"Em
um dia ruim, ainda fico susceptível a tudo o que me atingia aos 17 anos",
ela conta. "Sabendo que posso sair, se tiver um dia ruim, eu me sinto
muito bem."
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Entenda últimos acontecimentos envolvendo a Meta e as
eleições presidenciais de 2026
O
reconhecimento de falhas técnicas pela Meta e denúncias de possíveis
favorecimentos à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) colocaram a atuação das plataformas
digitais no centro do debate eleitoral de 2026. O caso envolve restrições a
conteúdos de Luiz Inácio Lula da
Silva
(PT). Ambos concorrem no segundo turno
das eleições presidenciais.
Líder
do PT no Senado, o ex-ministro Camilo Santana denunciou nessa
sexta-feira, 16, a interferência externa da Meta Platforms, conglomerado
que reúne redes como Instagram, Facebook e WhatsApp, no pleito.
Em
entrevista ao programa Bastidores CNN, a campanha de reeleição do
petista foi diretamente prejudicada por falhas técnicas reconhecidas pela
própria empresa.
"Denunciamos
nesta semana, mostrando fatos e a própria Meta já reconheceu, as interferências
externas por meio das redes sociais aqui no Brasil. Isso é muito grave, isso
desequilibra pela força que tem hoje. O Brasil passa em média 9 horas nas redes
sociais", alegou Camilo.
O líder
petista pontuou que as redes favoreciam conteúdos relacionados ao filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
"Sabemos
a força da mobilização das redes sociais. A própria Meta reconheceu as falhas
técnicas. Falhas do tipo de você pedir a IA da Meta uma bandeira com o número
22, do Flávio, e aparecer, mas pedir a do Lula e não aparecer; de você fazer
uma pesquisa do 'Exército do Lula' e sugerir para o grupo que criaram para o
Flávio", argumentou o ex-ministro.
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Denúncia na ONU
Camilo
afirmou que o caso foi denunciado tanto no âmbito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quanto publicamente
e para entidades internacionais, como a Organização das Nações Unidas
(ONU) e Organização dos Estados Americanos (OEA).
"Além
de termos entrado com ações no TSE, resolvemos denunciar isso publicamente e
internacionalmente. Eu participei de uma reunião com parlamentares e entidades
do mundo inteiro [...] ontem (quinta-feira, 15) tivemos reunião com
observadores internacionais, representades OEA e da ONU, para eles ouvirem as
denúncias do que está acontecendo da interferência da Meta aqui no Brasil,
prejudicando a campanha do presidente Lula", garantiu.
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Meta
Também
nessa sexta-feira, a Meta admitiu que uma "lacuna" nas
"proteções" da empresa fez com que a ferramenta de inteligência
artificial elaborasse materiais de campanha que favoreciam Flávio Bolsonaro.
Em
nota, a empresa afirmou que a falha foi resultado de um problema técnico e
negou a existência de "viés político".
“A Meta
não toma partido nessa nem em nenhuma outra eleição, e são falsas e infundadas
as alegações de que estamos favorecendo ou interferindo em nome de qualquer
candidato ou grupo político. Nossos sistemas não classificam nem distribuem
conteúdo com base em ideologia política, e nossas regras e sua aplicação
Obtidas
pelo jornal Folha de S.Paulo, mensagens internas de funcionários da
empresa indicam que a Meta também prejudicou a campanha de Lula ao restringir
por 24 horas o impulsionamento de conteúdo do candidato e permitir que o
algoritmo do Instagram sugerisse o perfil de Flávio, ferindo regras eleitorais.
Segundo
a empresa, "os episódios citados pela reportagem tiveram causas distintas:
falhas técnicas globais, um erro específico prontamente corrigido e a aplicação
de normas eleitorais brasileiras que valem igualmente para todas as
candidaturas."
Fonte:
BBC News/O Povo

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