Quem
aprovou o crédito de Flávio? BRB silencia, e três diretores da época são alvo
da PF
Três
integrantes da Diretoria Colegiada do Banco de Brasília (BRB) que estavam à
frente da instituição quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) obteve um
financiamento de R$ 3,1 milhões para comprar uma mansão em Brasília tiveram sua
atuação investigada pela Polícia Federal (PF) por suposta gestão fraudulenta no
caso Banco Master.
Segundo
um documento obtido pela Agência Pública via Lei de Acesso à Informação (LAI),
dos nove diretores eleitos pelo Conselho de Administração do BRB em 28 de maio
de 2020, o então presidente, Paulo Henrique Costa; a diretora executiva de
Gestão de Pessoas e Administração, Cristiane Maria Lima Bukowitz; e o diretor
executivo de Rede e Canais, Dario Oswaldo Garcia Júnior, são suspeitos de terem
cometido gestão fraudulenta em operações ligadas à compra de carteiras de
crédito do Banco liquidado que pertenceu a Daniel Vorcaro.
O
documento obtido pela reportagem permitiu identificar que a composição da
diretoria colegiada eleita para o mandato 2020/2022 é a mesma que estava à
frente do banco público em janeiro de 2021, quando o crédito para a compra da
mansão foi concedido ao senador e à sua esposa, Fernanda Bolsonaro. Cinco anos
após a contratação do empréstimo, o financiamento voltou a ser investigado,
dessa vez pela PF. Os detalhes foram inicialmente divulgados pelo jornal O
Globo.
As
informações sobre o trio investigado constam do processo do caso Master, cujo
sigilo foi parcialmente levantado em setembro, como mostrou o Valor Econômico e
foi confirmado pela Pública. Segundo a PF, os diretores identificados tinham
direito a voto nas deliberações que levaram à compra das carteiras da
instituição por Daniel Vorcaro e que aprovaram o negócio. Costa é o único preso
e suspeito de ter recebido propina, por meio de imóveis, para atuar em favor do
Master no banco distrital, o que é considerado a maior fraude bancária da
história do país.
A
Pública procurou os ex-diretores com questionamentos relacionados ao crédito
para o senador e sua esposa, mas apenas a defesa do então presidente do BRB,
Paulo Henrique respondeu: “o financiamento dado ao Senador, seguiu-se toda a
governança do banco, que tem contrato de financiamento em condições idênticas
aos demais postulantes, ou seja, não lhe foi conferida rigorosamente nenhuma
vantagem”.
Como
mostra o documento, a Diretoria Colegiada do BRB é o órgão executivo
responsável pela administração dos negócios do banco, nos termos e limites
estabelecidos pelo estatuto da instituição. Entre as funções da diretoria estão
a gestão de operações e a tomada de decisões financeiras dentro de suas
alçadas. Segundo o próprio BRB, “todas as decisões no âmbito do banco e dos
comitês da instituição financeira são colegiadas.”
Segundo
servidores ouvidos pela reportagem, financiamentos que ultrapassam os limites
das instâncias inferiores são submetidos à Diretoria Colegiada. A Pública
tentou confirmar se foi o caso do crédito ao senador Flávio Bolsonaro – e se a
decisão foi tomada em conjunto pelos diretores, incluindo os investigados pela
PF, ou por uma única instância. O BRB não respondeu. Sem essas informações, não
é possível afirmar se o financiamento passou por deliberação conjunta da
Diretoria Colegiada ou foi aprovado por uma instância isolada.
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Debate da Band relembrou Mansão de Flávio
A
mansão do senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, foi um dos
assuntos abordados no debate da Band no último domingo, 18 de outubro. Ao
comparar o próprio patrimônio ao do adversário, o presidente-candidato Lula
questionou Flávio sobre a origem dos recursos utilizados na compra do imóvel.
“Esse cidadão, que ganha o mesmo salário que eu, comprou uma casa de R$ 10
milhões.”
O tema
surgiu a partir de uma pergunta de Lula. “Mas me explica como é que você
comprou uma casa de R$ 10 milhões com salário de senador?”. Flávio respondeu
que comprou o imóvel “com trabalho”. Lula rebateu: “Eu sou presidente há 12
anos e tenho um apartamento de 190 m² de R$ 1,5 milhão”, afirmou. Na mesma
fala, o petista relacionou a compra da mansão do adversário ao BRB, banco
investigado no caso Master.
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Quitação antecipada da Mansão de Flávio
A
compra da mansão ocorreu em janeiro de 2021 e foi vendida ao senador por R$
5,97 milhões pelo empresário Juscelino Sarkis, filho do pioneiro de Brasília
Simão Sarkis, dono do grupo Sarkis. Simão foi um dos principais doadores da
campanha vitoriosa de Michelle Bolsonaro (PL-DF) ao Senado: em 8 de setembro,
Sarkis doou R$ 100 mil à ex-primeira-dama que se elegeu pelo PL com 938 mil
votos.
O
imóvel de 1,1 mil metros quadrados, com piscina, academia e spa, fica no Setor
de Mansões Dom Bosco, no Lago Sul, área nobre da capital. Segundo a escritura
do imóvel obtida pela Pública, Flávio e Fernanda pagaram cerca de R$ 2,9
milhões com recursos próprios, por meio de depósitos. Os outros R$ 3,1 milhões
foram financiados pelo BRB, com prazo de 30 anos.
O valor
da casa era mais do que o triplo do patrimônio declarado por Flávio à Justiça
Eleitoral em 2018, de R$ 1,74 milhão, como mostrou o Estadão à época.
Para
obter o crédito, o casal declarou renda mensal conjunta de R$ 36.957,68,
conforme revelou a Folha de S.Paulo. Um simulador do próprio BRB, disponível à
época, indicava, para aquela modalidade e aquele valor de financiamento, uma
renda mínima de aproximadamente R$ 46.401,25 – cerca de R$ 9,4 mil a mais do
que o declarado.
O
financiamento previsto para 30 anos durou apenas três, porque o senador quitou
a dívida com seis pagamentos extras, entre R$ 198 mil e R$ 997 mil, que somaram
R$ 3,4 milhões – o último em março de 2024. Procurado à época, Flávio disse que
os recursos tinham origem lícita, sem detalhar de onde vieram.
A
operação levou o Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios
(MPDFT) a instaurar uma investigação. A deputada federal Erika Kokay (PT-DF)
também ajuizou ação contra o banco, seu então presidente, Paulo Henrique Costa,
o senador, e a esposa. Ela pediu a anulação do contrato, sob o argumento de que
o crédito foi concedido em desacordo com as regras internas do BRB.
Na
contestação, a defesa de Flávio afirmou que a renda do senador não se limita ao
salário do Senado, porque ele “atua como advogado, empresário e empreendedor,
por muitos anos”, e que Fernanda exerce a odontologia em consultórios no Rio de
Janeiro e em Brasília. Os advogados classificaram as suspeitas como “uma
falácia criada por adversários políticos e desafetos”.
O BRB,
por sua vez, afirmou no processo que as condições oferecidas a Flávio também
estavam disponíveis a outros clientes e que a análise considerou quatro rendas
líquidas registradas no cadastro – uma da atividade parlamentar e as demais de
caráter privado. “Para análise do financiamento imobiliário, o valor da
prestação dos proponentes não ultrapassou 30% do rendimento líquido, mesmo
estando previsto em lei que o comprometimento não pode ser superior ao limite
de 40%”, disse o banco. O BRB também argumenta que a quitação comprova que não
houve prejuízo aos cofres públicos. O MPDFT concluiu que não houve
irregularidades.
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BRB se recusa a informar como a decisão foi tomada
Resta
saber quem, no BRB, deu o aval ao crédito do senador – e se os diretores hoje
investigados participaram da decisão. Um deles, no entanto, o presidente do BRB
à época, Paulo Henrique Costa, aparece em foto com Flávio, Fernanda e um
tabelião de Brasília, Allan Guerra, na própria mansão, no final de janeiro de
2021. A imagem foi divulgada pela coluna de Lauro Jardim.
A
reportagem procurou duas agências do banco e solicitou informações sobre o
trâmite de aprovação de financiamentos acima de R$ 3 milhões. Segundo um
servidor do BRB, pedidos desse porte passam pelas instâncias superiores de
governança do banco, como o Comitê de Crédito. “No caso de a solicitação do
financiamento ultrapassar os limites das instâncias inferiores, a Diretoria
Colegiada é a responsável pela deliberação”, explicou. Questionado sobre quais
seriam esses limites, o servidor afirmou “não saber os valores”.
Um
segundo servidor disse, sob reserva, que detalhes sobre o financiamento de
Flávio Bolsonaro não estão disponíveis para consulta no BRB. “O sistema é
sigiloso com pouquíssimas pessoas com acesso”, disse.
A
Pública também procurou o BRB para perguntar quantos financiamentos
imobiliários nas mesmas condições oferecidas a Flávio foram concedidos entre
2020 e 2021, como são analisadas as operações milionárias e quais procedimentos
de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) são aplicados às quitações antecipadas
de grande porte. Até a publicação, o banco não respondeu. Caso se manifeste, a
reportagem será atualizada.
Fonte:
Por Jéssica Ribeiro, em Agência Pública

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