sábado, 24 de outubro de 2026

Qual o impacto de uma vitória de Lula ou Flávio na onda de direita da América Latina?

À Sputnik Brasil, especialistas apontam os prós e contras de um alinhamento automático do Brasil com os Estados Unidos, sob uma gestão Flávio Bolsonaro, ou do país como foco de resistência, sob uma gestão Lula.

A eleição presidencial brasileira terá impacto crucial na América Latina para a onda laranja, como vem sendo chamada a rápida ascensão de governos de direita aliados aos EUA de Donald Trump na região.

Uma vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) poderia levar ao auge a onda laranja, garantindo quase o apoio total dos países latino-americanos ao governo do presidente estadunidense.

Por outro lado, a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consolidaria o Brasil como um dos últimos redutos da região de resistência a Washington, junto com o México.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Corival Alves do Carmo, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), avalia que apesar da simultaneidade dar uma ideia de causalidade recíproca, como se a ascensão dessa direita em um país impulsionasse a de outro, essas mudanças ocorreram essencialmente por fatores internos, e os governos que ascenderam possuem diferenças relevantes. Ele cita como exemplo os governos de Javier Milei, na Argentina, e de José Antonio Kast, no Chile.

"O Milei age de forma improvisada e oportunista em relação à economia, enquanto o governo Kast é mais pragmático, ainda que com um discurso ultraliberal, e recupera uma tradição de políticas adotadas ao longo do governo Pinochet, e mesmo no início da redemocratização, portanto, por mais controversas que sejam as políticas, elas possuem algum enraizamento em certos setores sociais."

Ele considera que um governo Flávio Bolsonaro seria mais parecido com o do pai do senador, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e de Milei, sendo marcado pela improvisação e pelo processo de stop-and-go na política econômica, caracterizado por uma expansão rápida, seguida de um freio severo na atividade econômica, respondendo às demandas do mercado financeiro de um lado, e à flutuação da popularidade do governo de outro.

Ele considera improvável que uma vitória de Flávio resulte em avanço na integração regional, destacando que o processo não prosperou durante o governo Jair Bolsonaro. Além disso, o foco da política externa da gestão Flávio estaria nos EUA, o que colocaria a região em plano secundário.

O mais provável é que a aliança Bolsonaro-Milei acabe levando a um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e os EUA, o que esvaziaria o valor estratégico do Mercosul nas negociações comerciais internacionais.

Já uma vitória de Lula mudaria pouco o cenário atual. A Argentina, independentemente da retórica de Milei, não teria condições de romper com o Brasil. Como consequência, outros países, como Paraguai e Bolívia, que também integram a onda laranja, não teriam como se descolar completamente do Brasil.

"Para a Bolívia, continua sendo um desafio encontrar uma alternativa ao Brasil como destino para a sua produção de gás."

Ele acrescenta que os únicos países que teriam condições de ignorar o Brasil seriam os que estão voltados para o Pacífico, mas essa capacidade não significa interesse.

"Empresas chilenas possuem investimentos significativos no Brasil. O Peru tem interesse na integração da infraestrutura para que o Brasil exporte para a China utilizando os portos peruanos. O Equador tem interesse semelhante em relação ao porto de Manta", afirma.

A Colômbia, afirma Alves, também teria condições de colocar as relações com o Brasil em segundo plano, mas não pode ignorar a questão da fronteira na região de Letícia, e que certas regiões da Colômbia só podem ser acessadas navegando por águas em território brasileiro.

Na política externa, ele diz que o maior impacto de uma gestão Flávio seria a possível nomeação de Eduardo Bolsonaro como ministro das Relações Exteriores, pois provocaria uma mudança drástica na agenda externa do Brasil e causaria instabilidade e burocracia dentro da pasta, colocando em xeque a operacionalização do cotidiano consular e diplomático.

"Apesar de questionável, Eduardo Bolsonaro como embaixador nos EUA seria um mal menor, porque caso se confirme o alinhamento automático, a política externa em relação aos EUA será formulada pelo próprio Trump."

Outra grande questão nessa área seria combinar o alinhamento com os EUA com o fato de a China ser o maior parceiro comercial do Brasil.

"Apesar de o agronegócio estar alinhado ao bolsonarismo e à ideia do alinhamento ideológico com os EUA, seus interesses econômicos estão vinculados à China e, portanto, não têm interesse em um afastamento da China que gere prejuízos econômicos. Enfim, quanto mais se repetir a agenda de política externa de Jair Bolsonaro, mais o Brasil ficará numa posição isolada."

Somado a isso, Alves diz não haver nenhuma vantagem evidente no alinhamento automático, pois, além de tirar oportunidades do Brasil, os EUA não fazem concessões relevantes a quem assume essa postura.

Caso Lula seja reeleito, Brasil e México se consolidariam como os últimos redutos de resistência a Washington na América Latina. Porém, Alves aponta que o Brasil tem uma margem de manobra maior do que o México para reduzir os vínculos com os EUA, por não fazer fronteira com o país e ter relações econômicas mais diversificadas.

No entanto, ele frisa que, embora não estejam alinhados aos EUA, Brasil e México buscam evitar o confronto com Washington.

"Durante esse período de sobreposição entre os mandatos de Lula e Trump, o presidente Lula buscou estabelecer as relações diretas com Trump para normalizar as relações entre os dois países, e ainda que os ruídos não tenham desaparecido, não houve ruptura."

Sendo assim, caso Lula seja reeleito, o mais provável é que as relações com os EUA se mantenham no mesmo padrão, podendo até mesmo melhorar.

"A agenda de Trump na segunda metade do mandato deve se voltar para tentar eleger um sucessor republicano, e é possível que fiquemos em segundo plano", afirma.

Alves observa que economia real e mercado financeiro são duas coisas diferentes, e em caso de reeleição de Lula, a tensão entre os dois setores persistiria.

"A economia real deve manter a tendência de algum crescimento e baixo desemprego, enquanto a política econômica continuará sendo criticada pelo setor financeiro em função das questões fiscais."

Paralelamente, nesse cenário, o predomínio de parlamentares bolsonaristas no Congresso poderia gerar pautas-bombas, criando situações de instabilidade e restringindo a margem de manobra do governo.

Em caso de vitória de Flávio, ele diz que a tendência é que, em um primeiro momento, ele cumpra a agenda firmada com o mercado financeiro de reduzir o gasto público e a dívida pública.

"Porém, cumprindo essa agenda, não será possível cumprir o compromisso com as políticas sociais. Assim, é provável que a política econômica tenha um comportamento errático em função das pressões predominantes em cada momento. Haveria impacto regional relevante se Argentina e Brasil fizessem uma liberalização significativa no comércio exterior, o que poderia gerar um impulso no comércio regional."

Vinícius Guilherme Rodrigues Vieira, professor de economia e relações internacionais na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), aponta que, sob uma nova gestão Lula, o Brasil ficaria isolado na América Latina, mas esse seria um cenário melhor que o alinhamento automático aos EUA.

"Não vejo nada positivo no alinhamento com Trump, nem na questão de segurança, que, em tese, seria o diferencial da direita", avalia.

Ele considera que o Brasil, com Lula, não integraria a iniciativa Escudo das Américas, que ele classifica como "um ato de subordinação a Trump e aos EUA".

"De todo modo, com o peso do Brasil economicamente, haverá continuidade dos projetos de integração regional, notadamente o Mercosul."

Vieira acrescenta que estar na resistência ao unilateralismo trumpista poderia gerar um fardo diplomático enorme para o Brasil, mas seria uma oportunidade para consolidar, ao lado do México, fóruns multilaterais alternativos com outras potências médias.

Ele diz que o Brasil tem potencial para ser um contraponto ao exclusivismo da Doutrina Donroe, e Lula atuaria para manter o Mercosul, o que interessa às elites do Brasil e da Argentina, e a aproximação com o BRICS. Por outro lado, haveria fatores negativos, como a sujeição do país a sanções ainda mais duras que as já aplicadas e eventuais ações no estilo da captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

"Isso gera muita instabilidade, inclusive para empreendedores", afirma.

Já em relação a um governo Flávio, Vieira diz que levaria a economia do Brasil ao declínio, prejudicando até mesmo o agronegócio.

"O alinhamento com Trump prejudica inclusive o agro, já que o presidente dos EUA quer ampliar a exportação de soja e afins para a China. Isso reduz a margem do produtor. E se o congelamento de dívidas ocorrer, é a antessala de um cenário à la Collor", conclui.

¨      Aliados de Bolsonaro e de Trump na América do Sul: impopularidade, pobreza e queda na economia. Por Márcia Carmo

A economia argentina está à beira da recessão, segundo dados oficiais divulgados nesta quarta-feira. Os indicadores mostram que a motosserra do presidente Javier Milei, propagada pela extrema-direita da região, incluindo a equipe do candidato Flávio Bolsonaro, têm efeitos severos para a atividade econômica. De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), a economia caiu 1,7% nos últimos doze meses, até agosto deste ano, que é o ultimo dado disponível.

<><> Ataques de Milei – ‘a pontapés’

– No momento da divulgação destes dados negativos, em Buenos Aires, Milei estava em Madri, na Espanha, onde acusou o presidente espanhol Pedro Sánchez de “ditador” e disse que deseja que os espanhóis o expulsem “a patadas” (a pontapés) do cargo nas eleições do dia 29 de novembro. Na semana passada, Milei tinha usado as mesmas expressões ao se referir ao presidente Lula. Foi durante evento em Washington, nos Estados Unidos, onde abraçou efusivamente o irmão de Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro. “É preciso tirar ‘a patadas’ o ditador comunista”, disse em referência ao presidente do Brasil.

<><> Milei, ‘tira votos’

– No caso do socialista Pedro Sánchez, Milei teve para com ele a mesma atitude agressiva que tinha exibido em relação ao presidente Lula no palanque da convenção do PL, neste ano, em São Paulo. Na convenção, Milei apoiou a candidatura de seu amigo Flávio Bolsonaro. Mas na Espanha, assim como ocorreu no debate da Band, quando Bolsonaro não respondeu ao presidente Lula se pegaria emprestada a motosserra de Milei, a direita e a extrema-direita espanholas evitaram se encontrar pessoalmente com o argentino na sua passagem por Madri. Em plena campanha para as eleições de novembro, Milei virou sinônimo de ‘tira votos’ diante dos efeitos da sua motosserra na realidade da Argentina.

<><> A reação

– Em Madrid, universitários realizaram protesto contra a sua presença. Ao mesmo tempo, Pedro Sánchez deu uma guinada nos ataques do argentino. Ele disse em suas redes sociais, por exemplo, que se apoiar aposentados, subindo seus benefícios, é ser ‘zurdo’ (de esquerda), “então sou zurdo, com muita honra”. Milei que pensava que apoiaria as candidaturas da direita e da extrema-direita acabou virando, inadvertidamente, cabo eleitoral do socialista Sánchez.

<><> Impopular

– Milei é hoje um presidente impopular na Argentina. A perda de poder aquisitivo, o aumento do desemprego (7%), da pobreza (32%) e o fechamento de 32 mil empresas desde que chegou à Casa Rosada geram preocupação e cansaço na população. Milei demonstrou que não acompanha a realidade dos argentinos quando disse, nesta semana, num evento na província de Neuquén, na região da Patagônia, que é mentira que as pessoas não tenham dinheiro para chegar ao fim do mês. Fez ironias sobre uma realidade que é comentada nas ruas e, diariamente, pela imprensa local. As manifestações de universitários, professores, aposentados e de familiares de pessoas com deficiência são um dos retratos do sufoco econômico e das queixas de que Milei “não está interessado” nas reclamações populares. O país realiza eleições presidenciais em outubro do ano que vem. Hoje, a oposição está fragmentada e ainda não consegue canalizar fortemente a insatisfação popular com o governo Milei.

<><> Chile, desemprego recorde

– No Chile, o presidente José Antonio Kast, também da extrema-direita, que tomou posse há apenas sete meses, é impopular como Milei. Tem cerca de 28% ou 30% de apoio, dependendo da pesquisa de opinião. O ajuste fiscal de Kast provocou uma taxa recorde de desemprego (9,6%, o maior em cinco anos). E dados oficiais apontam que a economia cai e está, como a da Argentina, à beira da recessão. O custo de vida subiu logo depois que Kast assumiu e aumentou os preços dos combustíveis. A insatisfação popular é crescente e as manifestações estudantis, contra os cortes na educação, passaram a ser frequentes – e com repressão policial.

<><> Peru, com Keiko

– Keiko Fujimori tomou posse há apenas três meses e levantamento da agência ‘Bloomberg en línea’ mostra que sua popularidade é de 28%. No Peru, historicamente, os presidentes costumam perder apoio popular rapidamente. Mas Keiko pode estar batendo recordes, segundo fontes do seu próprio governo, que falaram ao Brasil 247 sob a condição do anonimato. No caso de Keiko, comentaram, preocupa a sua falta de disposição para dialogar com os diferentes setores e inclusive com sua base parlamentar no Congresso.

<><> Brasil

– A Argentina, o Chile e o Peru fazem parte do chamado ‘Escudo das Américas’ que marca o forte vínculo com o governo Trump. Além deles, a Bolívia, governada por Rodrigo Paz, igualmente impopular, e o Paraguai, governado por Santiago Peña, o menos impopular entre eles, também integram esta aliança de segurança (que envolve igualmente os recursos naturais estratégicos). E todos estes presidentes estão de olho no que acontecerá neste domingo decisivo no Brasil – o maior país da América Latina e uma das maiores economias do mundo. “Não vamos romper nunca com o Brasil, não importando quem seja o eleito”, disse um assessor de Keiko. No Chile, o pensamento é parecido.

<><> Itamaraty sobre ataques de Milei sobre fraude: “inaceitáveis”

– Já Milei levou o Itamaraty a repudiar suas afirmações de que poderia haver fraude na eleição deste domingo. No comunicado, divulgado nesta semana, o Itamaraty diz que as “ofensas” constituem uma “nova e inaceitável” tentativa de ingerência no processo eleitoral brasileiro. A palavra “desequilibrada” também está no texto de repúdio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil em relação às falas de Milei, para quem a política externa argentina tem uma principal prioridade – o governo Trump.

¨      Nem Lula, nem Flávio Bolsonaro 'têm estômago' para reforma que Brasil precisa, diz Economist

A revista britânica The Economist publicou uma reportagem na quinta-feira (22/10) afirmando que "a estranha economia do Brasil precisa de uma reforma séria" mas que "nem Lula, nem Flávio Bolsonaro têm estômago" para isso.

O agregador de pesquisas da BBC News Brasil mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL) dois pontos à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas intenções de voto para presidente no segundo turno, na eleição que será realizada no domingo.

A reportagem diz que "democratas de todo o mundo estremeceram" quando Flávio Bolsonaro — "filho de um ex-presidente conspirador para um golpe de Estado" — ficou na frente de Lula no primeiro turno. Mas, segundo a publicação, "capitalistas também tremeram, mas de entusiasmo".

"Esse foi um veredito contundente sobre a condução econômica de Lula. O crescimento do PIB superou as previsões (pessimistas), o desemprego está baixo e a inflação manteve-se próxima à faixa de 1,5% a 4,5% estabelecida como meta pelo Banco Central do Brasil (BCB)", diz a Economist.

"No entanto, seu descaso com as contas públicas e sua retórica hostil ao setor empresarial assustam os mercados. O superávit primário (ou seja, antes do pagamento de juros) que ele herdou transformou-se em déficit, e o FMI projeta que a dívida pública atingirá 97% do PIB este ano, ante 84% em 2022."

Já Flávio Bolsonaro é comparado a Javier Milei, o presidente argentino que promoveu reformas pró-mercado no seu país "com algum sucesso" mas também "com muita dor", segundo a Economist, destacando promessas do senador de reduzir o número de ministérios, digitalizar o setor público e vender prédios do governo federal.

Mas para a revista, essa reforma prometida pelo senador "é implausível — ele teria sorte se conseguisse metade da economia prometida com tais ajustes".

"Seria preciso um fervor genuíno, ao estilo de Milei, para enfrentar os problemas econômicos do Brasil — problemas que decorrem de uma combinação complexa de gastos públicos elevados, inflação persistente e baixa taxa de poupança."

A Economist afirma que um dos problemas principais do Brasil é o alto custo para se tomar empréstimos no país, fruto das altas taxas de juros e dos altos gastos públicos.

A revista afirma que nenhum governo recente atacou o problema dos altos gastos públicos, e que Lula não foi diferente.

"A única saída para essa confusão é o ajuste fiscal — o famoso 'aperto de cintos'. Isso reduziria a inflação, diminuiria a taxa de juros real e liberaria capital para usos produtivos", diz a Economist.

"A equipe de Bolsonaro fala, em tom reservado, sobre reformas, mas o próprio candidato rejeitou mudanças no sistema previdenciário ou nos mecanismos de indexação."

"Se Lula protagonizar uma virada surpreendente no segundo turno, é improvável que ele subitamente se torne um defensor do rigor fiscal", diz a revista.

A Economist afirma que "qualquer presidente teria dificuldade em convencer três quintos dos membros de ambas as casas do Congresso — quórum necessário para desmontar as amarras constitucionais que impulsionam os gastos".

"O mercado talvez prefira Bolsonaro a Lula; mas, seja quem for o eleito, o resultado acabará sendo uma decepção", conclui a reportagem.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Brasil 247/BBC News Brasil

 

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