sábado, 24 de outubro de 2026

Ronilso Pacheco: Insatisfação de fiéis mostra que apoio evangélico ao bolsonarismo foi fruto de assédio

O segmento evangélico é diverso. Ponto. Essa é uma questão importante  quando o assunto é o já desgastado “voto evangélico”, e a premissa de que isso significa um voto em bloco. É uma ideia que ainda circula e  segue sendo equivocada, visto que ninguém é “só” evangélico.

Na política, mesmo as mais conhecidas lideranças conservadoras evangélicas nunca fecharam em bloco em torno de um nome em uma eleição para presidente no país. Nas eleições de 2010, por exemplo, os bispos Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, e Robson Rodovalho, da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, apoiaram Dilma Rousseff, do PT. Já  Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e Manoel Ferreira, da Assembleias de Deus, apoiaram José Serra, do PSDB. Silas Malafaia, aliás, pediu voto para Lula em 2002 e 2006.

Essa  realidade durou até 2018, quando Jair Messias Bolsonaro dava o pontapé inicial no bolsonarismo, e atraía praticamente todas as lideranças evangélicas conservadoras.

Com o apoio de lideranças que abriram as portas de suas igrejas e mobilizaram seus fiéis para a “pregação” do bolsonarismo que surgia, as igrejas evangélicas conservadoras deram o aval necessário para que o maior projeto de instrumentalização das igrejas e dos evangélicos neste país tivesse início.

<><> A estratégia do bolsonarismo

Jair Bolsonaro não conseguiu todo apoio de lideranças conservadoras por conta do seu  rostinho bonito, voz pastoral e capacidade de persuasão missionária. Isso foi feito com estratégia, que teve ao menos cinco  movimentos relevantes.

>>> 1 – Usou a Bíblia. Bolsonaro transformou um versículo em mote de campanha: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Nenhum outro candidato à presidência (esqueça Cabo Daciolo) fez isso com tanta ênfase. Nisso havia uma aposta: o nível de engajamento e de endosso de eleitores cristãos a um candidato que colocasse a Bíblia no centro faria dele uma caricatura para os descrentes, e um “homem de Deus” para os evangélicos e católicos “genuínos”. 

>>> 2 – Politizou a Marcha pra Jesus. Bolsonaro transformou a marcha em palanque, a ponto de, em 2018, ser muito difícil distinguir o que era Marcha pra Jesus e o que era comício. Em 2019, os evangélicos tiveram de encontrar uma forma de justificar como um presidente eleito subiu num trio da Marcha para Jesus e fez o sinal de uma arma, atirando, como se isso fosse um ato de louvor.

>>> 3 – Cultos viraram programa eleitoral. Bolsonaro visitou igrejas evangélicas como nenhum outro candidato na história do país. Pastores o apresentavam como “o” escolhido, “o” ungido, “o” enviado, alguém que romperia com a política tradicional, e governaria priorizando a tradição cristã e os princípios bíblicos. Veja, com a ajuda destes pastores, quaisquer outros critérios foram ignorados para alegar que ele defenderia… a igreja.

>>> 4 – Nacionalismo cristão. Bolsonaro prometeu às igrejas poder e supremacia. Você pode não estar familiarizado, mas “nacionalismo cristão” é como jornalistas, ativistas e analistas políticos chamam hoje o que eles consideram uma das grandes ameaças à democracia nos Estados Unidos. E sabe por quê? Porque faz exatamente isso que o bolsonarismo fez: instrumentaliza as igrejas e o segmento evangélico, usando o ódio e a crítica destrutiva e exclusivista, que considera só a visão da Bíblia que eles têm como a única certa e válida.

Esse é  o projeto do bolsonarismo, que  inclusive garantiu uma vaga no Supremo Tribunal Federal para um ministro que fosse “terrivelmente evangélico”. Eis que surge André Mendonça.

>>> 5 – Demonização dos adversários. Bolsonaro ignorou completamente a ideia do estado laico e um debate pautado em propostas. O único discurso válido era descrever adversários como inimigos. Não inimigos seus, obviamente. Inimigos de Deus, da igreja, da bíblia e dos cristãos “verdadeiros”.

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<><> Como o bolsonarismo coagiu o eleitor evangélico

Em 2018,  eu escrevi aqui no Intercept sobre o resultado de duas semanas de escuta do famoso “Debate Melodia”, da rádio de mesmo nome – uma das mais populares entre os evangélicos no país. Uma semana antes e uma depois das eleições de primeiro turno, pude ver a instrumentalização de um espaço de grande apreço e afeto para o segmento evangélico, que foi usado sistematicamente para demonizar Fernando Haddad, então candidato do PT, e a esquerda, enquanto enaltecia Bolsonaro como, você já sabe, “o” escolhido, “o” ungido, “o” enviado.

É por isso que, ao invés de falar de uma identificação quase automática do segmento evangélico com a direita, e, em especial, com o bolsonarismo, eu prefiro chamar isso de assédio eleitoral. Porque na prática, é o que acontece.

Pense nesse nível de assédio diariamente, não apenas em anos eleitorais, mas cotidianamente, ao longo do tempo. Pense nos evangélicos que querem apenas seguir a sua fé sendo expostos a essas imposições tidas como bíblicas e da parte de Deus, quase todos os dias.

Esse assédio estava nos cultos, de púlpito, estava nos grupos de orações, estava nas rádios evangélicas, estava nas conferências de juventude evangélicas e nos eventos missionários. Estava nos grupos de whatsapp das irmãs de oração.

A instrumentalização da igreja evangélica brasileira pelo bolsonarismo transformou muitas delas em terra arrasada, separou famílias, confundiu a mente de muita gente. Muito da alta porcentagem de votos dos Bolsonaros e bolsonaristas oriundos dos evangélicos não corresponde a reais identificações, mas sim ao assédio eleitoral que sofreram por anos. Mas a fatura está chegando. Muita gente não aguenta mais. A fatura está chegando e o bolsonarismo tem muito a pagar.

•        Estudo mapeia pedidos de voto em igrejas pelo Brasil

"Agora o assunto é muito difícil", avisa o pastor. Ele guia os momentos finais do culto de uma igreja Assembleia de Deus num conjunto habitacional na zona leste de São Paulo. No púlpito, ele avisa que está prestes a fazer algo inédito: pedir votos para políticos. E emenda: é inaceitável "cinco milhões de crentes" terem votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição passada.

"Pastor, cuidado, está transmitindo", alerta alguém ao líder religioso. Ele não se importa e continua exaltando a "força dos evangélicos", que estão proibidos "de votar no PT". Na sequência, o pastor nomeia candidatos a deputados, governador, senadores, presidente e pede que todos apoiem o "sistema de direita".

A cena transmitida às vésperas do primeiro turno das eleições é uma das milhares analisadas pela pesquisa Fé e Voto. O levantamento é liderado pela More in Common, organização sem fins lucrativos que usa a ciência para entender o que separa grupos sociais – e o que pode uni-los.

Nos dois domingos que antecederam o 4 de outubro, mais de 7,5 mil cultos e missas das igrejas Católica, Batista (protestante) e Assembleia de Deus (neopentecostal) foram gravados. O estudo inédito no Brasil queria medir o quanto a política invade o púlpito religioso.

<><> Pedidos para políticos locais

Apesar da disputa acirrada, os nomes de Lula e do senador Flávio Bolsonaro não são os que mais aparecem na boca de pastores e padres. Quando os fiéis foram convocados a votar em candidatos específicos durante as celebrações religiosas, os pedidos foram feitos mais para deputados estadual e federal.

"No final das contas, o que está em jogo são as relações comunitárias", pontua Rodrigo Toniol, professor da Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ) que liderou o estudo.  

Na mesma noite de domingo em que o pastor em São Paulo mostrava no púlpito de seus candidatos, uma outra cena de campanha menos explícita era registrada em Goiás. Logo após as crianças cantarem um hino ao Rei Davi, uma mulher anuncia ao microfone a chegada do candidato Henrique Cesar, apresentado como "nosso deputado". 

Não é possível ver o político pedindo votos no vídeo. Dias depois, o nome dele é confirmado como um dos eleitos pelo Partido Social Cristão (PSC).

<><> "Campanha não é majoritária"

Os pesquisadores selecionaram missas católicas, cultos batistas e das Assembleias de Deus em igrejas localizadas em todos os estados do país. Das 7453 transmissões analisadas, a campanha eleitoral foi identificada em 237 delas – o equivalente a 3%.

"A campanha eleitoral é presente, é um problema, mas não é majoritária", afirma Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common Brasil e professor na Universidade de São Paulo, USP.

O pedido de voto explícito, quando ocorreu, foi registrado em maior número nas Assembleias de Deus, contabilizando 8,3% do total, mostra o levantamento. Igrejas batistas (1,4%) e católicas (0,7%) vêm na sequência.

Os pesquisadores estimam que tenham analisado cerca de 10% das missas e cultos dessas confissões no Brasil, segundo os registros administrativos das igrejas católica e batista, que reúne as duas maiores tradições religiosas.  

"Por meio da tecnologia, a gente conseguiu olhar para um número de casos sem paralelo", afirma Toniol.

<><> Crimes eleitorais

Apesar de minoritários, crimes eleitorais foram identificados pelos pesquisadores. Em algumas ocasiões, os líderes religiosos pediam que a transmissão fosse interrompida para falarem mais livremente sobre candidatos no púlpito.

"A gente não colocou uma câmera escondida em nenhum lugar. Tudo aquilo estava sendo dito e transmitido ao vivo pelo YouTube para quem quisesse ouvir. Inclusive o TSE (Tribunal Superior Eleitoral)", pontua Toniol.

Num culto ao vivo em Rio Bonito, estado do Rio de Janeiro, o pastor faz um longo discurso sobre a importância do voto e pede cuidado aos fiéis quando estiverem de frente para a urna. 

"Eu vou botar no grupo do WhatsApp a minha colinha lá, irmão. E se você quiser seguir, amém. Eu só não acho conveniente que a gente tenha gente aqui gente que vote no partido do PT, meu irmão", diz, ao microfone. 

Em Sorocaba, interior paulista, um padre alertou o público presente na missa sobre a entrega de propaganda eleitoral na porta de saída. "Esse panfletinho você leva para casa, guarda e usa no dia da eleição para votar com consciência", afirmou o líder no microfone.

<><> Os limites da lei

A lei das eleições, de 1997, diz que igreja e templos religiosos, classificados na legislação como bens do poder público ou de uso comum, não podem ser usados para veicular propagandas eleitorais. A norma também veta expressamente que partidos políticos ou candidatos recebam doação em dinheiro de qualquer entidade beneficente ou religiosa.  

As regras não são claras quanto ao discurso, quais são os limites entre uma fala de cunho moral e um pedido de voto, por exemplo. 

Ciente dessa lacuna, o Ministério Público Federal recomendou que as igrejas não promovessem propagandas eleitorais em seus espaços. O órgão também pediu aos líderes religiosos que não usassem o espaço de fé para prejudicar candidaturas.

Em muitos casos registrados no estudo da More in Common, pastores foram flagrados tentando driblar a legislação. Eles pediam, por exemplo, que fiéis procurassem membros autorizados da igreja ao fim da celebração para que soubessem em quem votar. Alguns se ofereceram até para adesivar veículos dos fiéis com o nome de candidatos.

"A lei eleitoral não dá conta", comenta Ortellado. "Vale uma reflexão da sociedade religiosa, dos juristas, da sociedade civil sobre quais seriam as regras adequadas, tanto eleitorais quanto éticas", sugere. 

<><> Religião na política, um caso antigo 

A religião sempre apareceu nas disputas eleitorais, mas ganhou maior peso nas campanhas presidenciais nas últimas décadas, afirma Alexandre Landim, sociólogo e professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE). 

Com o livro O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil prestes a ser publicado, ele diz que políticos também recorrem de forma estratégica à retórica religiosa na disputa por votos.

A eleição de 2010 marcou um ponto de virada. O debate, impulsionado por questões como aborto e presença de símbolos religiosos em espaços públicos, teria sido usado contra Lula como ferramenta para enfraquecer seu governo que, até então, era bem avaliado.

"Lula estava batendo recordes de aprovação naquela época, na casa dos 80%. José Serra, candidato da oposição, enxergou na retórica religiosa um meio de antagonizar com a sua adversária e sucessora do presidente, Dilma Rousseff", explica Landim, que defendeu o doutorado em 2023 sobre o tema.

No contexto atual, em que o governo Lula tem aprovação de 30% e que o debate foi sequestrado pela corrupção envolvendo Banco Master e outros poderes da República, a religião também apareceu na campanha da esquerda.

"O PT tentou surfar na polêmica em torno de Nossa Senhora, mas no final das contas parece que não teve muito resultado", diz Landim, fazendo referência à fala de Flávio Bolsonaro sobre decretar que "o Brasil é do Senhor Jesus Cristo", caso eleito. 

<><> Renda influencia o voto

A pesquisa de doutorado de Landim identificou uma mudança significativa entre os eleitores de baixa renda que se dizem religiosos. De 2010 a 2022, o apoio ao PT diminuiu entre os evangélicos e aumentou entre os católicos que recebiam até dois salários mínimos. 

Segundo o professor, a diferença entre os dois grupos chegou a 26 pontos percentuais.

Uma das possíveis explicações estaria na afinidade com pautas conservadoras e a influência da chamada Teologia da Prosperidade pregada por igrejas pentecostais e neopentecostais.

De forma resumida, a Teologia da Prosperidade difunde que a conquista da casa própria, o aumento do salário ou então a entrada na universidade são bênçãos divinas na vida das pessoas, intermediadas pelo sacrifício do dízimo.

"Eu acho que isso traz para o eleitor evangélico de baixa renda uma dificuldade maior de associar esses ganhos na vida pessoal a políticas públicas, a ações governamentais", exemplifica Landim, ressaltando que há também diferenças entre grupos dentro da mesma religião. 

<><> "Falas saudáveis numa democracia"

Nas mais de 13 mil horas de áudios analisados pela pesquisa Fé e Voto, alguns discursos surpreenderam os pesquisadores. Em muitos deles, líderes pregavam a paz, pediam coesão social, responsabilidade cívica.

"São falas saudáveis numa democracia. No final das contas, somos todos membros da mesma comunidade. Houve maneiras de lidar com a situação eleitoral e seus impactos de uma maneira muito melhor no púlpito", comenta Ortellado. 

Para Toniol, da UFRJ, o conteúdo cívico registrado nos cultos e missas monitorados podem ter ajudado a promover a democracia, o voto consciente, e atenuar a polarização.

"Tudo isso aponta para o fato de que o mundo da religião e política é muito mais complexo do que uma primeira vista faz crer", afirma o pesquisador.

 

Fonte: The Intercept/DW Brasil

 

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