Ronilso
Pacheco: Insatisfação de fiéis mostra que apoio evangélico ao bolsonarismo foi
fruto de assédio
O
segmento evangélico é diverso. Ponto. Essa é uma questão importante quando o assunto é o já desgastado “voto
evangélico”, e a premissa de que isso significa um voto em bloco. É uma ideia
que ainda circula e segue sendo
equivocada, visto que ninguém é “só” evangélico.
Na
política, mesmo as mais conhecidas lideranças conservadoras evangélicas nunca
fecharam em bloco em torno de um nome em uma eleição para presidente no país.
Nas eleições de 2010, por exemplo, os bispos Edir Macedo, da Igreja Universal
do Reino de Deus, e Robson Rodovalho, da Comunidade Evangélica Sara Nossa
Terra, apoiaram Dilma Rousseff, do PT. Já
Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e Manoel
Ferreira, da Assembleias de Deus, apoiaram José Serra, do PSDB. Silas Malafaia,
aliás, pediu voto para Lula em 2002 e 2006.
Essa realidade durou até 2018, quando Jair Messias
Bolsonaro dava o pontapé inicial no bolsonarismo, e atraía praticamente todas
as lideranças evangélicas conservadoras.
Com o
apoio de lideranças que abriram as portas de suas igrejas e mobilizaram seus
fiéis para a “pregação” do bolsonarismo que surgia, as igrejas evangélicas
conservadoras deram o aval necessário para que o maior projeto de
instrumentalização das igrejas e dos evangélicos neste país tivesse início.
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A estratégia do bolsonarismo
Jair
Bolsonaro não conseguiu todo apoio de lideranças conservadoras por conta do
seu rostinho bonito, voz pastoral e
capacidade de persuasão missionária. Isso foi feito com estratégia, que teve ao
menos cinco movimentos relevantes.
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1 – Usou a Bíblia. Bolsonaro transformou um versículo em mote de campanha:
“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Nenhum outro candidato à
presidência (esqueça Cabo Daciolo) fez isso com tanta ênfase. Nisso havia uma
aposta: o nível de engajamento e de endosso de eleitores cristãos a um
candidato que colocasse a Bíblia no centro faria dele uma caricatura para os
descrentes, e um “homem de Deus” para os evangélicos e católicos
“genuínos”.
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2 – Politizou a Marcha pra Jesus. Bolsonaro transformou a marcha em palanque, a
ponto de, em 2018, ser muito difícil distinguir o que era Marcha pra Jesus e o
que era comício. Em 2019, os evangélicos tiveram de encontrar uma forma de
justificar como um presidente eleito subiu num trio da Marcha para Jesus e fez
o sinal de uma arma, atirando, como se isso fosse um ato de louvor.
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3 – Cultos viraram programa eleitoral. Bolsonaro visitou igrejas evangélicas
como nenhum outro candidato na história do país. Pastores o apresentavam como
“o” escolhido, “o” ungido, “o” enviado, alguém que romperia com a política
tradicional, e governaria priorizando a tradição cristã e os princípios
bíblicos. Veja, com a ajuda destes pastores, quaisquer outros critérios foram
ignorados para alegar que ele defenderia… a igreja.
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4 – Nacionalismo cristão. Bolsonaro prometeu às igrejas poder e supremacia.
Você pode não estar familiarizado, mas “nacionalismo cristão” é como
jornalistas, ativistas e analistas políticos chamam hoje o que eles consideram
uma das grandes ameaças à democracia nos Estados Unidos. E sabe por quê? Porque
faz exatamente isso que o bolsonarismo fez: instrumentaliza as igrejas e o
segmento evangélico, usando o ódio e a crítica destrutiva e exclusivista, que
considera só a visão da Bíblia que eles têm como a única certa e válida.
Esse
é o projeto do bolsonarismo, que inclusive garantiu uma vaga no Supremo
Tribunal Federal para um ministro que fosse “terrivelmente evangélico”. Eis que
surge André Mendonça.
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5 – Demonização dos adversários. Bolsonaro ignorou completamente a ideia do
estado laico e um debate pautado em propostas. O único discurso válido era
descrever adversários como inimigos. Não inimigos seus, obviamente. Inimigos de
Deus, da igreja, da bíblia e dos cristãos “verdadeiros”.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
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Como o bolsonarismo coagiu o eleitor evangélico
Em
2018, eu escrevi aqui no Intercept sobre
o resultado de duas semanas de escuta do famoso “Debate Melodia”, da rádio de
mesmo nome – uma das mais populares entre os evangélicos no país. Uma semana
antes e uma depois das eleições de primeiro turno, pude ver a
instrumentalização de um espaço de grande apreço e afeto para o segmento
evangélico, que foi usado sistematicamente para demonizar Fernando Haddad,
então candidato do PT, e a esquerda, enquanto enaltecia Bolsonaro como, você já
sabe, “o” escolhido, “o” ungido, “o” enviado.
É por
isso que, ao invés de falar de uma identificação quase automática do segmento
evangélico com a direita, e, em especial, com o bolsonarismo, eu prefiro chamar
isso de assédio eleitoral. Porque na prática, é o que acontece.
Pense
nesse nível de assédio diariamente, não apenas em anos eleitorais, mas
cotidianamente, ao longo do tempo. Pense nos evangélicos que querem apenas
seguir a sua fé sendo expostos a essas imposições tidas como bíblicas e da
parte de Deus, quase todos os dias.
Esse
assédio estava nos cultos, de púlpito, estava nos grupos de orações, estava nas
rádios evangélicas, estava nas conferências de juventude evangélicas e nos
eventos missionários. Estava nos grupos de whatsapp das irmãs de oração.
A
instrumentalização da igreja evangélica brasileira pelo bolsonarismo
transformou muitas delas em terra arrasada, separou famílias, confundiu a mente
de muita gente. Muito da alta porcentagem de votos dos Bolsonaros e
bolsonaristas oriundos dos evangélicos não corresponde a reais identificações,
mas sim ao assédio eleitoral que sofreram por anos. Mas a fatura está chegando.
Muita gente não aguenta mais. A fatura está chegando e o bolsonarismo tem muito
a pagar.
• Estudo mapeia pedidos de voto em igrejas
pelo Brasil
"Agora
o assunto é muito difícil", avisa o pastor. Ele guia os momentos finais do
culto de uma igreja Assembleia de Deus num conjunto habitacional na zona leste
de São Paulo. No púlpito, ele avisa que está prestes a fazer algo inédito:
pedir votos para políticos. E emenda: é inaceitável "cinco milhões de
crentes" terem votado no presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição
passada.
"Pastor,
cuidado, está transmitindo", alerta alguém ao líder religioso. Ele não se
importa e continua exaltando a "força dos evangélicos", que estão
proibidos "de votar no PT". Na sequência, o pastor nomeia candidatos
a deputados, governador, senadores, presidente e pede que todos apoiem o
"sistema de direita".
A cena
transmitida às vésperas do primeiro turno das eleições é uma das milhares
analisadas pela pesquisa Fé e Voto. O levantamento é liderado pela More in
Common, organização sem fins lucrativos que usa a ciência para entender o que
separa grupos sociais – e o que pode uni-los.
Nos
dois domingos que antecederam o 4 de outubro, mais de 7,5 mil cultos e missas
das igrejas Católica, Batista (protestante) e Assembleia de Deus
(neopentecostal) foram gravados. O estudo inédito no Brasil queria medir o
quanto a política invade o púlpito religioso.
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Pedidos para políticos locais
Apesar
da disputa acirrada, os nomes de Lula e do senador Flávio Bolsonaro não são os
que mais aparecem na boca de pastores e padres. Quando os fiéis foram
convocados a votar em candidatos específicos durante as celebrações religiosas,
os pedidos foram feitos mais para deputados estadual e federal.
"No
final das contas, o que está em jogo são as relações comunitárias", pontua
Rodrigo Toniol, professor da Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ) que
liderou o estudo.
Na
mesma noite de domingo em que o pastor em São Paulo mostrava no púlpito de seus
candidatos, uma outra cena de campanha menos explícita era registrada em Goiás.
Logo após as crianças cantarem um hino ao Rei Davi, uma mulher anuncia ao
microfone a chegada do candidato Henrique Cesar, apresentado como "nosso
deputado".
Não é
possível ver o político pedindo votos no vídeo. Dias depois, o nome dele é
confirmado como um dos eleitos pelo Partido Social Cristão (PSC).
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"Campanha não é majoritária"
Os
pesquisadores selecionaram missas católicas, cultos batistas e das Assembleias
de Deus em igrejas localizadas em todos os estados do país. Das 7453
transmissões analisadas, a campanha eleitoral foi identificada em 237 delas – o
equivalente a 3%.
"A
campanha eleitoral é presente, é um problema, mas não é majoritária",
afirma Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common Brasil e professor
na Universidade de São Paulo, USP.
O
pedido de voto explícito, quando ocorreu, foi registrado em maior número nas
Assembleias de Deus, contabilizando 8,3% do total, mostra o levantamento.
Igrejas batistas (1,4%) e católicas (0,7%) vêm na sequência.
Os
pesquisadores estimam que tenham analisado cerca de 10% das missas e cultos
dessas confissões no Brasil, segundo os registros administrativos das igrejas
católica e batista, que reúne as duas maiores tradições religiosas.
"Por
meio da tecnologia, a gente conseguiu olhar para um número de casos sem
paralelo", afirma Toniol.
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Crimes eleitorais
Apesar
de minoritários, crimes eleitorais foram identificados pelos pesquisadores. Em
algumas ocasiões, os líderes religiosos pediam que a transmissão fosse
interrompida para falarem mais livremente sobre candidatos no púlpito.
"A
gente não colocou uma câmera escondida em nenhum lugar. Tudo aquilo estava
sendo dito e transmitido ao vivo pelo YouTube para quem quisesse ouvir.
Inclusive o TSE (Tribunal Superior Eleitoral)", pontua Toniol.
Num
culto ao vivo em Rio Bonito, estado do Rio de Janeiro, o pastor faz um longo
discurso sobre a importância do voto e pede cuidado aos fiéis quando estiverem
de frente para a urna.
"Eu
vou botar no grupo do WhatsApp a minha colinha lá, irmão. E se você quiser
seguir, amém. Eu só não acho conveniente que a gente tenha gente aqui gente que
vote no partido do PT, meu irmão", diz, ao microfone.
Em
Sorocaba, interior paulista, um padre alertou o público presente na missa sobre
a entrega de propaganda eleitoral na porta de saída. "Esse panfletinho
você leva para casa, guarda e usa no dia da eleição para votar com
consciência", afirmou o líder no microfone.
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Os limites da lei
A lei
das eleições, de 1997, diz que igreja e templos religiosos, classificados na
legislação como bens do poder público ou de uso comum, não podem ser usados
para veicular propagandas eleitorais. A norma também veta expressamente que
partidos políticos ou candidatos recebam doação em dinheiro de qualquer
entidade beneficente ou religiosa.
As
regras não são claras quanto ao discurso, quais são os limites entre uma fala
de cunho moral e um pedido de voto, por exemplo.
Ciente
dessa lacuna, o Ministério Público Federal recomendou que as igrejas não
promovessem propagandas eleitorais em seus espaços. O órgão também pediu aos
líderes religiosos que não usassem o espaço de fé para prejudicar candidaturas.
Em
muitos casos registrados no estudo da More in Common, pastores foram flagrados
tentando driblar a legislação. Eles pediam, por exemplo, que fiéis procurassem
membros autorizados da igreja ao fim da celebração para que soubessem em quem
votar. Alguns se ofereceram até para adesivar veículos dos fiéis com o nome de
candidatos.
"A
lei eleitoral não dá conta", comenta Ortellado. "Vale uma reflexão da
sociedade religiosa, dos juristas, da sociedade civil sobre quais seriam as
regras adequadas, tanto eleitorais quanto éticas", sugere.
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Religião na política, um caso antigo
A
religião sempre apareceu nas disputas eleitorais, mas ganhou maior peso nas
campanhas presidenciais nas últimas décadas, afirma Alexandre Landim, sociólogo
e professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE).
Com o
livro O Deus das urnas: evangélicos e católicos em eleições presidenciais no
Brasil prestes a ser publicado, ele diz que políticos também recorrem de forma
estratégica à retórica religiosa na disputa por votos.
A
eleição de 2010 marcou um ponto de virada. O debate, impulsionado por questões
como aborto e presença de símbolos religiosos em espaços públicos, teria sido
usado contra Lula como ferramenta para enfraquecer seu governo que, até então,
era bem avaliado.
"Lula
estava batendo recordes de aprovação naquela época, na casa dos 80%. José
Serra, candidato da oposição, enxergou na retórica religiosa um meio de
antagonizar com a sua adversária e sucessora do presidente, Dilma
Rousseff", explica Landim, que defendeu o doutorado em 2023 sobre o tema.
No
contexto atual, em que o governo Lula tem aprovação de 30% e que o debate foi
sequestrado pela corrupção envolvendo Banco Master e outros poderes da
República, a religião também apareceu na campanha da esquerda.
"O
PT tentou surfar na polêmica em torno de Nossa Senhora, mas no final das contas
parece que não teve muito resultado", diz Landim, fazendo referência à
fala de Flávio Bolsonaro sobre decretar que "o Brasil é do Senhor Jesus
Cristo", caso eleito.
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Renda influencia o voto
A
pesquisa de doutorado de Landim identificou uma mudança significativa entre os
eleitores de baixa renda que se dizem religiosos. De 2010 a 2022, o apoio ao PT
diminuiu entre os evangélicos e aumentou entre os católicos que recebiam até
dois salários mínimos.
Segundo
o professor, a diferença entre os dois grupos chegou a 26 pontos percentuais.
Uma das
possíveis explicações estaria na afinidade com pautas conservadoras e a
influência da chamada Teologia da Prosperidade pregada por igrejas pentecostais
e neopentecostais.
De
forma resumida, a Teologia da Prosperidade difunde que a conquista da casa
própria, o aumento do salário ou então a entrada na universidade são bênçãos
divinas na vida das pessoas, intermediadas pelo sacrifício do dízimo.
"Eu
acho que isso traz para o eleitor evangélico de baixa renda uma dificuldade
maior de associar esses ganhos na vida pessoal a políticas públicas, a ações
governamentais", exemplifica Landim, ressaltando que há também diferenças
entre grupos dentro da mesma religião.
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"Falas saudáveis numa democracia"
Nas
mais de 13 mil horas de áudios analisados pela pesquisa Fé e Voto, alguns
discursos surpreenderam os pesquisadores. Em muitos deles, líderes pregavam a
paz, pediam coesão social, responsabilidade cívica.
"São
falas saudáveis numa democracia. No final das contas, somos todos membros da
mesma comunidade. Houve maneiras de lidar com a situação eleitoral e seus
impactos de uma maneira muito melhor no púlpito", comenta Ortellado.
Para
Toniol, da UFRJ, o conteúdo cívico registrado nos cultos e missas monitorados
podem ter ajudado a promover a democracia, o voto consciente, e atenuar a
polarização.
"Tudo
isso aponta para o fato de que o mundo da religião e política é muito mais
complexo do que uma primeira vista faz crer", afirma o pesquisador.
Fonte:
The Intercept/DW Brasil

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