Como
Daniel Vorcaro foi envolvido no sumiço de obra de Tarsila do Amaral de R$ 250
milhões
Considerado
desaparecido pela Justiça, o quadro O Sol Poente, um dos mais importantes de
Tarsila do Amaral, foi oferecido ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master,
por R$ 120 milhões — menos da metade dos R$ 250 milhões pelo qual havia sido
avaliado pelas autoridades —, em 2024.
Havia
uma condição: a de que ele mantivesse sigilo por ao menos cinco anos caso
efetuasse a compra. Isto porque a obra — uma das mais valiosas da artista,
feita na mesma época de O Abaporu — nem sequer pode ser vendida, por integrar
um espólio cujo inventário não foi concluído.
A
informação consta das mensagens extraídas do WhatsApp do banqueiro pela Polícia
Federal e obtidas pela BBC News Brasil.
A
oferta a Vorcaro foi feita em 8 de abril de 2024, poucos meses antes de o
quadro aparecer no chão da casa de Roberto Setúbal, ex-CEO do Itaú, que
desistiu da compra devido aos impedimentos jurídicos.
O caso
foi revelado pelo jornal Folha de S.Paulo no fim de 2025 e confirmado à BBC por
pessoas próximas a Setúbal.
Embora
nem Vorcaro nem Setúbal tenham concluído a compra, a BBC apurou que O Sol
Poente continuou a circular ilegalmente no mercado até pelo menos o fim de
2025.
Naquele
período, pessoas próximas ao espólio de Tarsila teriam sido procuradas para
intermediar a venda do quadro.
A
revelação de que o quadro estaria circulando no mercado é vista como
preocupante por analistas do mercado de arte e pesquisadores da obra de Tarsila
ouvidos pela BBC em caráter reservado.
Primeiro,
por contrariar a ordem judicial que impede a venda; segundo, porque O Sol
Poente é uma das obras mais importantes da história da arte brasileira e, mesmo
sendo propriedade privada, há um grau de interesse público em saber seu
paradeiro.
Embora
integrem coleções privadas, obras desse porte costumam ser emprestadas para
exposições — O Sol Poente esteve em cartaz em uma retrospectiva de Tarsila
realizada em 2018 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, uma das
instituições mais importantes do mundo dedicadas à arte moderna.
Além de
O Sol Poente, também estão desaparecidos outros dois quadros centrais da obra
da modernista — O Sono, avaliado pela Justiça em R$ 300 milhões, e Pont Neuf,
que pode custar R$ 150 milhões.
A
oferta a Vorcaro foi feita pela designer de interiores Luciana Gontijo, que
ajudava o banqueiro na construção e decoração de casas no Brasil e no exterior
e atuava como sua interlocutora com artistas plásticos e galerias de arte.
A BBC
enviou mensagens ao WhatsApp de Gontijo e tentou ligar para seu telefone, mas
não obteve retorno até a publicação deste texto.
O
banqueiro tinha um apetite voraz pela compra de obras de arte, reunindo
trabalhos de artistas internacionais consagrados, como o espanhol Pablo
Picasso, o americano Jean-Michel Basquiat e a japonesa Yayoi Kusama, além de
brasileiros, de Emiliano Di Cavalcanti às contemporâneas Adriana Varejão e
Beatriz Milhazes, as duas artistas brasileiras vivas com obras mais caras no
mercado.
Já a
oferta a Setúbal veio a público em dezembro de 2025, depois que sua ex-mulher,
Daniela Fagundes, publicou no Instagram um vídeo em que respondia a perguntas
de seguidores. Ao fundo, aparecia O Sol Poente, emoldurado e apoiado no chão de
mármore da mansão em que vivia. A publicação foi excluída.
Fagundes
afirmou no Instagram que a obra havia chegado à sua casa por intermédio da
galeria Almeida & Dale, uma das mais poderosas do Brasil. A galeria, por
sua vez, nega ter tido qualquer envolvimento com o quadro.
É
prática comum no mercado de arte que galerias emprestem obras de alto valor a
grandes colecionadores para que eles possam avaliar se gostam das peças antes
de concluir a compra.
A BBC
entrou em contato com representantes de Setúbal, que não quis se pronunciar.
Fagundes não foi localizada pela reportagem.
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De quem são os quadros?
O Sol
Poente foi comprado décadas atrás pelo marchand Eugene Boghici, um dos maiores
colecionadores de arte do país, que morreu em 2015. Jean Boghici, como era
conhecido, também adquiriu ao longo de sua carreira Pont Neuf, O Sono e dezenas
de outras joias da arte brasileira.
Após a
morte de Jean, sua mulher, Geneviève, e as filhas do casal, Sabine e Muriel,
ficaram com as obras. A família, porém, entrou em crise quando Sabine enganou a
mãe com a ajuda de sua namorada, Rosa Stanesco, que se passou por cartomante e
abordou a idosa na rua.
Ela
dizia que a filha estava doente, mas que poderia ajudá-la por meio de serviços
espirituais. A cartomante alegava que os quadros traziam má sorte à família e
precisavam ser levados para serem benzidos.
O Sol
Poente e outras obras de Tarsila acabaram furtados e foram recuperados pela
polícia debaixo da cama de pessoas próximas a Stanesco.
Geneviève
foi mantida em cárcere privado por cerca de um ano. Quando o caso veio à tona,
em agosto de 2022, o prejuízo foi estimado em R$ 725 milhões. A história,
amplamente noticiada na época, também é relatada nos processos judiciais aos
quais a BBC teve acesso e vai ser contado em uma série documental da HBO.
Sabine
morreu por suicídio em setembro de 2023, deixando a herança para um filho
adotivo de Stanesco, com quem havia se casado. Caso os quadros sejam
partilhados, portanto, o filho e Stanesco acabariam tendo direito a 25% do
valor obtido com a venda.
A BBC
teve acesso a documentos que mostram que Geneviève tenta anular na Justiça o
testamento da filha. Mas interlocutores da família relataram à reportagem que,
caso isso não seja possível, ela planeja fazer tudo o que estiver ao seu
alcance para impedir que os quadros — ou o dinheiro obtido com a venda — acabem
nas mãos de Stanesco.
A outra
filha, Muriel, viveria na Suíça há muitos anos. Já Geneviève é apontada por
pessoas do mercado de arte como a responsável por tentar vender os quadros da
família, contrariando a Justiça. A mensagem extraída pela Polícia Federal no
celular de Vorcaro aponta na mesma direção.
"Outra
coisa que não sei se você tem interesse como um superinvestimento é uma obra da
Tarsila do Amaral — O Sol Poente —, que esteve na mídia dois anos atrás porque
a filha tentou vender sem a autorização da mãe e foi avaliada por R$ 250
milhões. A mulher quer vender agora, mas não pode divulgação pelos próximos
cinco anos e está pedindo R$ 120 milhões. Só deixaram oferecer pra você e mais
uma pessoa no Brasil. A outra pessoa ofereceu R$ 80 milhões", escreveu a
designer Luciana Gontijo a Vorcaro.
"A
mulher" mencionada é apontada como Geneviève. A BBC procurou-a para buscar
esclarecimentos, mas ela não atendeu ao telefone nem respondeu a mensagens
enviadas via WhatsApp. Seus advogados também não responderam.
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Quando as obras foram vistas pela última vez
Apesar
de ofertas circularem no mercado, O Sol Poente está desaparecido há mais de
dois anos, desde que foi visto no chão da casa de Roberto Setúbal, em 2024. O
ex-CEO do Itaú afirmou ter devolvido o quadro a quem lhe havia oferecido a
obra, mas não revelou sua identidade.
As
demais obras de Tarsila não são vistas há ainda mais tempo, desde agosto de
2022, quando foram recuperadas pela polícia na casa de pessoas ligadas à
cartomante Rosa Stanesco e devolvidas a Geneviève.
No fim
de 2025, Geneviève disse à Folha que estava com O Sol Poente, mas se recusou a
revelar onde. "Está comigo, num lugar seguro", afirmou ao jornal por
telefone. "Não vou dizer nem se está no norte nem no sul. Está bem
cuidado."
Geneviève
também não é vista há muito tempo, nem mesmo por quem fazia parte de seu
círculo próximo. Uma pessoa que frequentava sua casa, um triplex em Copacabana,
relatou à BBC que as obras ainda estavam lá no início de 2025, mas deixaram de
ser vistas no imóvel ainda no fim do primeiro semestre.
Foi
nesse período que a Justiça impôs restrições à viúva. Em 5 de junho de 2025, a
juíza Marisa Simões Mattos Passos apontou indícios de má gestão patrimonial,
venda de obras sem autorização, movimentações financeiras suspeitas e
existência de bens que não teriam sido incluídos no inventário.
A
Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE) suspeita que, ao não
declarar a existência do acervo, a família teria cometido sonegação fiscal.
A
decisão de junho de 2025 também determinou o bloqueio das contas bancárias e
das aplicações financeiras de Geneviève. Na ocasião, porém, o saldo
remanescente era de apenas R$ 10.185,52.
Foi
quando a Justiça nomeou o advogado Fábio Picanço como um inventariante
independente para administrar o espólio.
Ele
disse à BBC que não pode se pronunciar sobre o caso. Uma pessoa próxima ao
processo, porém, contou que em agosto de 2025 foram feitas diligências em oito
endereços ligados à família, mas nem os quadros nem Geneviève ou Muriel foram
encontrados pelos oficiais de Justiça.
Diante
desse cenário, as autoridades consideram que os quadros estão desaparecidos.
Além disso, até a conclusão do inventário e da partilha dos bens, nenhuma obra
do espólio pode ser vendida sem autorização judicial.
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Por que Tarsila está em alta no mercado
Para a
sobrinha-neta da pintora, Tarsila do Amaral Filho, conhecida como Tarsilinha, a
obra da tia-avó vive uma fase de valorização no mercado de arte, tanto no
Brasil quanto no exterior.
Um
marco foi a aquisição de A Lua, de 1928, pelo Museu de Arte Moderna de Nova
York, anunciada em 2019. O valor da transação não foi divulgado oficialmente,
mas a cifra de US$ 20 milhões circulou à época no mercado.
O
interesse internacional pela artista também se reflete agora mesmo na Art Basel
Paris, uma das principais feiras de arte do mundo. Na edição deste ano, aberta
nesta quarta-feira (21/10), a galeria Almeida & Dale apresenta uma seleção
de obras de Tarsila, entre elas Manacá e A Feira II.
A
primeira já foi oferecida por US$ 25 milhões, equivalentes a R$ 125,8 milhões,
na edição americana da feira, em Miami, enquanto a segunda já esteve à venda
por US$ 20 milhões, ou cerca R$ 100,6 milhões, segundo a coluna Plástico, da
Folha de S.Paulo.
Embora
valores pedidos e estimativas de mercado não correspondam necessariamente aos
preços efetivamente pagos por uma obra, eles ajudam a dimensionar o potencial
econômico do espólio dos Boghici.
Para
além do prestígio de ter uma Tarsila na parede de casa, quem compra uma obra
desse tipo pode vê-la como um investimento, com a possibilidade de revendê-la
anos depois por um valor ainda mais alto.
A
perspectiva de valorização, afinal, é um dos maiores atrativos do mercado de
arte. Foi justamente nesses termos, aliás, que a designer Luciana Gontijo
ofereceu O Sol Poente a Vorcaro, classificando a obra como "um
superinvestimento".
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Por que esses quadros são tão caros
Entre
pinturas, desenhos, ilustrações, gravuras, esculturas e outros trabalhos,
Tarsila produziu mais de duas mil obras, segundo seu catálogo raisonné,
publicação que reúne e documenta as obras de autoria confirmada da artista.
Mas
apenas uma parcela reduzida pertence ao período mais reconhecido de sua
trajetória, que compreende a fase pau-brasil e a antropofágica, ainda mais
valorizada.
O site
oficial da pintora lista 18 obras na seção dedicada à fase antropofágica — e
duas integram o espólio de Jean Boghici.
A
jornalista Francesca Angiolillo, que prepara uma biografia da artista para a
Companhia das Letras, diz que a escassez de peças disponíveis desse período é
um dos principais fatores que ajudam a explicar os preços, além das exposições
internacionais recentes da artista e da aquisição de trabalhos por grandes
museus, processo conhecido como musealização.
"Quanto
mais escassa a obra de um artista, mais valiosa. As obras dela que são
valorizadas são as das décadas de 1920 e 1930. Então, o período de produção
mais valorizado é relativamente breve, o que faz cada peça individualmente ser
muito valiosa", afirma.
Depois
dos anos 1930, explica Angiolillo, Tarsila desenvolveu uma fase de temática
social, da qual Operários é a obra mais conhecida, influenciada também por seu
namoro com o médico e militante comunista Osório César e pela viagem que
fizeram à União Soviética, depois de a artista ter se separado de Oswald de
Andrade.
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Como Tarsila pintou essas obras
O
Abaporu, hoje no acervo do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o
Malba, é considerado o marco inicial da fase antropofágica.
Tarsila
pintou o quadro para presentear o então marido, Oswald de Andrade, em seu
aniversário, inspirando-o a escrever o Manifesto Antropofágico, conta
Tarsilinha, que atua como curadora de mostras da pintora no Brasil e no
exterior e escreveu uma série de livros sobre a obra da tia-avó.
O
manifesto defendia que os artistas brasileiros deveriam "devorar"
influências estrangeiras, absorvendo-as e transformando-as em algo próprio.
Tarsilinha
explica que a figura central de O Sol Poente tem origem em uma lembrança da
artista.
"Aquele
bicho antropofágico é uma pedra que havia em uma das fazendas da família, que
ela herdou, na região de Itupeva (SP). Ela costumava dizer que ia brincar ali
com os primos, e essa pedra tem uma forma muito interessante. Ela traduz isso
para um bicho antropofágico", conta.
O Sono,
de 1928, também pertence à fase antropofágica. Segundo Tarsilinha, a inspiração
veio de uma experiência da tia-avó. "Ela estava quase dormindo e essa
sensação inspirou o quadro, por isso tem todas as características
oníricas."
Já Pont
Neuf, que também integra o espólio de Jean Boghici, é anterior, de 1923. O
quadro retrata uma paisagem urbana parisiense e registra o contato de Tarsila
com a cidade onde estudou pintura e se aproximou das vanguardas artísticas
europeias.
Fonte:
BBC News Brasil

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