sábado, 24 de outubro de 2026

Derrotar a extrema direita mundial nas urnas não basta

Nas próximas duas semanas, Brasil, Israel e Estados Unidos enfrentarão decisões eleitorais capazes de alterar a correlação internacional das forças políticas. Embora suas histórias, instituições e conflitos sejam distintos, os três países vivem disputas que colocam em questão a capacidade das instituições democráticas de conter projetos autoritários. Uma derrota simultânea dessas forças não encerraria o ciclo político da última década, mas poderia interromper sua expansão e enfraquecer a confiança de seus aliados na inevitabilidade do avanço da extrema direita. A possibilidade é especialmente relevante porque o resultado está longe de ser garantido. No Brasil, a disputa envolve a continuidade de um governo progressista diante do bolsonarismo. Em Israel, Benjamin Netanyahu depende de uma composição parlamentar marcada por conflitos institucionais e alianças com setores religiosos ultranacionalistas. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump e seus aliados enfrentam eleições legislativas capazes de alterar a relação entre Executivo e Congresso. O que aproxima essas disputas não é a identidade entre seus protagonistas nem a existência de um comando internacional que coordene suas ações. É a convergência de métodos, interesses e práticas políticas. Lideranças de diferentes países aprenderam a explorar inseguranças sociais, transformar adversários em ameaças existenciais e apresentar os limites institucionais ao exercício do poder como obstáculos à vontade popular. Suas diferenças nacionais não impedem que compartilhem referências, adaptem estratégias e reforcem mutuamente seus projetos. No entanto, como contradição central, uma derrota simultânea poderia conter a expansão internacional da extrema direita, mas a ameaça de perder posições também pode intensificar a mobilização dos recursos econômicos, midiáticos, digitais e institucionais de que esses movimentos dispõem. A oportunidade democrática traz consigo o risco de uma reação destinada não apenas a recuperar votos, mas a enfraquecer as regras que tornam possível a alternância de poder.

<><> Uma internacional reacionária sem quartel-general

A extrema direita contemporânea não pode ser compreendida como uma coleção de fenômenos nacionais isolados. Redes de financiamento, fundações privadas, centros de formulação política, grupos religiosos, consultorias eleitorais e plataformas digitais permitem que estratégias desenvolvidas em um país sejam adaptadas a outro. Essa circulação não exige uma direção única. Ocorre por meio de alianças formais, intercâmbios entre organizações, interesses convergentes e imitação política. Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Viktor Orbán, Marine Le Pen e a família Bolsonaro pertencem a tradições políticas nacionais distintas. Seus programas econômicos e suas posições diplomáticas tampouco são idênticos. Compartilham, porém, traços importantes: nacionalismo excludente, personalismo, hostilidade aos mecanismos de fiscalização e disposição para aceitar a pluralidade democrática apenas enquanto ela não ameaça sua permanência no poder. Essa convergência também tem uma dimensão econômica. A defesa de políticas ultraliberais, a desregulamentação ambiental, o enfraquecimento da proteção social e a restrição dos direitos trabalhistas favorecem a concentração da riqueza e ampliam a influência política dos grupos que já a detêm. Quando uma mudança de governo ameaça privilégios consolidados, o poder econômico dispõe de diversos meios para condicionar as decisões públicas. O financiamento de campanhas, a pressão de grupos de interesse, a influência sobre os meios de comunicação e as reações dos mercados podem estreitar o campo de escolhas à disposição de eleitores e governantes. O voto atribui a cada cidadão o mesmo peso formal, mas não garante a todos os mesmos recursos para influenciar a política entre uma eleição e outra.

As plataformas digitais ampliam essa assimetria. Sistemas que favorecem conteúdos capazes de provocar reações intensas oferecem condições propícias à circulação de medo, ressentimento e hostilidade. Uma acusação pode alcançar milhares de pessoas antes que sua veracidade seja examinada. Quem a divulga pode abandoná-la sem reparar os danos, enquanto a correção exige tempo, contexto e disposição do público para rever convicções. A desinformação não precisa convencer a maioria: basta produzir desconfiança suficiente para enfraquecer referências comuns sobre os fatos.

A contestação antecipada das eleições é uma das aplicações mais graves desse método. A liderança prepara seus apoiadores para rejeitar o resultado antes mesmo de conhecer a apuração. A vitória confirma a vontade popular; a derrota, segundo a mesma narrativa, comprova a fraude. A eleição deixa, assim, de ser um mecanismo para resolver disputas e passa a ser aceita apenas quando confirma a permanência dos vencedores no poder. O Brasil conhece as consequências dessa estratégia. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, a contestação eleitoral alimentou manifestações que pediam uma ruptura institucional. Em 8 de janeiro de 2023, apoiadores do movimento golpista invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília. A sequência mostrou que a deslegitimação das urnas não precisa convencer a maioria para ameaçar a democracia. Pode bastar mobilizar uma parcela organizada da sociedade e encontrar apoio, omissão ou conivência em pontos estratégicos do Estado. A circulação internacional dessas práticas permite que os movimentos aprendam com vitórias e derrotas alheias. Acusações de fraude, ataques à imprensa e denúncias de perseguição judicial podem ser adaptados a diferentes contextos. Uma derrota simultânea da extrema direita teria, por isso, efeitos que ultrapassariam os resultados nacionais. Não eliminaria as redes que sustentam esses movimentos, mas enfraqueceria a narrativa de que o autoritarismo representa um caminho sem alternativa.

<><> Israel e os limites da maioria

A trajetória de Benjamin Netanyahu concentra conflitos sobre o Executivo, o Judiciário, a identidade nacional e os limites do poder governamental. Sua permanência na política israelense tornou-se cada vez mais dependente de alianças com partidos religiosos e ultranacionalistas, alguns dos quais defendem restrições aos direitos dos palestinos e a expansão dos assentamentos. A controvérsia em torno da reforma judicial proposta em 2023 tornou explícita uma questão fundamental das democracias: até onde pode ir a autoridade de uma maioria parlamentar? O conflito não opõe simplesmente a vontade popular a um Judiciário sem legitimidade eleitoral. Envolve a possibilidade de impedir que uma maioria circunstancial enfraqueça os mecanismos destinados a fiscalizar suas decisões e proteger os direitos daqueles que não a apoiam. A mobilização contra a reforma reuniu amplos setores da sociedade israelense, inclusive grupos de direita que consideravam essencial preservar a independência judicial. As ameaças à segurança de Israel e as tensões regionais ajudam a compreender o contexto, mas não justificam qualquer medida adotada em seu nome. A segurança coletiva é uma responsabilidade legítima do Estado; convertê-la em autorização permanente para enfraquecer controles institucionais é outra coisa. Quando a sobrevivência de uma coalizão depende do apoio de grupos religiosos e ultranacionalistas, a necessidade de conservar uma maioria parlamentar pode ampliar a influência de forças cujo peso eleitoral isolado seria insuficiente para determinar a agenda nacional. Uma derrota de Netanyahu, caso permita formar uma alternativa parlamentar viável, demonstraria que a longevidade no poder não assegura sua continuidade. Também poderia reduzir a influência dos setores que associam a segurança nacional ao nacionalismo religioso. Seria precipitado, porém, esperar uma transformação profunda apenas com a troca de governo. Parte da oposição pertence à direita, e uma nova coalizão continuaria sujeita a divergências sobre os palestinos, os assentamentos, a religião e a organização do Estado

A questão ultrapassa a composição do Parlamento. Os palestinos vivem sob políticas de ocupação, restrições de direitos e expansão territorial dos assentamentos. Os cidadãos árabes de Israel enfrentam problemas próprios de representação e igualdade política. São realidades distintas, mas ambas precisam integrar uma avaliação séria dos compromissos democráticos do Estado israelense. A qualidade de uma democracia não pode ser medida apenas pela competição entre seus principais partidos, sem considerar os direitos daqueles cuja participação política permanece limitada. Uma mudança de governo não resolveria essas questões. Poderia, contudo, alterar as condições em que serão enfrentadas. A eventual derrota de Netanyahu teria significado para além de sua carreira: colocaria em debate um projeto de poder que depende de alianças com setores dispostos a subordinar direitos e controles institucionais a uma concepção excludente da nação. A alternância de governo abriria uma possibilidade; a disposição de enfrentar as exclusões persistentes definiria seu alcance.

<><> Estados Unidos e os limites do trumpismo

A disputa legislativa estadunidense possui importância que ultrapassa suas fronteiras. O peso econômico, militar, tecnológico e cultural do país repercute sobre alianças diplomáticas, mercados, instituições multilaterais e movimentos políticos que procuram reproduzir métodos associados ao trumpismo. O resultado não determina o destino de outras democracias, mas altera o ambiente internacional em que seus conflitos se desenvolvem. Desde 2016, Donald Trump consolidou uma atuação baseada na confrontação permanente, na exploração de conflitos culturais, na hostilidade à imprensa e na desconfiança sistemática em relação às instituições que limitam sua autoridade. A recusa em aceitar a derrota presidencial de 2020 e a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, expuseram a gravidade de transformar uma derrota eleitoral em pretexto para contestar a ordem constitucional.

O trumpismo oferece a seus aliados internacionais um repertório de estratégias para deslegitimar adversários e apresentar os limites institucionais como obstáculos à vontade de um líder que se considera representante exclusivo da população. Outros movimentos podem adaptar esses métodos às disputas nacionais sem reproduzir integralmente o programa estadunidense. A influência internacional opera menos pela cópia exata de um modelo do que pela circulação de táticas que podem ser ajustadas a diferentes sociedades. Uma derrota republicana nas eleições legislativas não retiraria Trump da Presidência. Poderia, entretanto, reduzir sua margem de atuação, ampliar a fiscalização parlamentar e dificultar a aprovação de determinadas políticas.  O resultado teria também valor simbólico. Uma derrota expressiva do campo trumpista enfraqueceria a ideia de que a radicalização e os ataques às instituições asseguram vitórias sucessivas. Para movimentos semelhantes em outros países, seria uma demonstração de que esse repertório não garante o êxito eleitoral. Mas o efeito simbólico não deve ser confundido com uma mudança automática nas relações de poder. Lideranças derrotadas podem preservar suas bases, controlar canais de comunicação e apresentar a própria derrota como prova de perseguição.

<><> A reação começa antes e continua depois da votação

Aproximidade de uma derrota não conduz necessariamente à moderação. Para lideranças que se consideram representantes exclusivas da vontade popular, aceitar o resultado pode significar reconhecer limites que passaram anos tentando abolir. A reação pode envolver questionamentos à apuração, ataques às autoridades eleitorais e acusações de perseguição política. Quando a permanência no poder se confunde com a legitimidade do próprio projeto, perder uma eleição passa a ser apresentado como uma ameaça à nação. Margens estreitas podem facilitar a disseminação de suspeitas, mas não constituem evidência de fraude. A legitimidade do resultado depende das regras aplicáveis, da transparência da apuração, dos mecanismos de fiscalização e de provas verificáveis para eventuais contestações. O problema começa quando a dúvida deixa de ser objeto de investigação e se transforma em conclusão antecipada. Nesse ambiente, qualquer divergência pode ser apresentada como conspiração e qualquer decisão contrária pode confirmar, para os apoiadores mais mobilizados, que as instituições estão comprometidas. A experiência brasileira demonstra a importância de instituições dispostas a cumprir suas responsabilidades sob pressão. A Justiça Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal, as forças de segurança, os representantes políticos e a sociedade civil têm funções diferentes, mas complementares na proteção da ordem democrática. Nenhuma dessas instituições deve ser idealizada. Todas estão sujeitas a pressões, interesses e erros; sua credibilidade depende da aplicação das regras, da fiscalização e da responsabilização.

O mesmo vale para Israel e os Estados Unidos. Uma derrota de Netanyahu não garantiria a aceitação do resultado por todos os integrantes de sua coalizão, assim como uma derrota republicana não impediria a propagação de acusações infundadas contra o sistema eleitoral estadunidense. No Brasil, uma vitória progressista tampouco eliminaria as redes políticas e digitais que favoreceram a ascensão do bolsonarismo.

A ordem das eleições acrescenta outra dimensão à disputa. Como o Brasil vota primeiro, a reação ao resultado poderá influenciar as narrativas empregadas nas votações seguintes. Uma apuração transparente, acompanhada de resposta institucional proporcional e aceitação efetiva do resultado, ofereceria uma referência favorável. Uma campanha de desinformação bem-sucedida poderia fornecer argumentos e métodos a grupos dispostos a reproduzir a contestação. Essa influência é possível, mas não automática: cada país possui suas próprias condições políticas, institucionais e sociais. A defesa da democracia exige proteger a apuração, assegurar a transmissão regular do poder, investigar ameaças concretas e responsabilizar os autores de crimes. Exige também que o combate ao autoritarismo não seja usado como justificativa para arbitrariedades. Uma democracia que abandona seus princípios para se defender compromete a legitimidade da própria defesa. É preciso distinguir a divergência política legítima das tentativas de impedir a alternância de poder, sem transformar a proteção institucional em licença para restringir direitos. A democracia não se protege pela eliminação do conflito, mas pela garantia de que ele possa ocorrer sem que uma das partes reivindique para si o direito de decidir quem pode participar e quais resultados merecem ser aceitos. Por isso, a resposta ao autoritarismo precisa combinar firmeza diante das tentativas de ruptura com o respeito às liberdades que dão sentido à ordem democrática.

<><> Vencer a eleição não basta

Mesmo uma sequência favorável de resultados deixaria em aberto a questão mais difícil: por que projetos autoritários continuam encontrando apoio? A extrema direita não cresce apenas por dominar técnicas de comunicação ou contar com aliados economicamente poderosos. Também se beneficia de problemas sociais concretos, expectativas frustradas e da percepção de que a política institucional oferece respostas insuficientes às necessidades cotidianas. A precarização do trabalho, a desigualdade, a deterioração dos serviços públicos e a dificuldade de construir uma vida material estável alimentam a desconfiança nas instituições. Quando o emprego não oferece segurança, a moradia consome parcela excessiva da renda e os serviços públicos falham, a promessa de estabilidade perde credibilidade. Nesse ambiente, discursos que identificam culpados e oferecem soluções simples podem conquistar apoio, mesmo quando suas propostas agravam os problemas que prometem resolver. Isso não significa que a pobreza conduza necessariamente ao autoritarismo. Pessoas submetidas a dificuldades semelhantes podem chegar a conclusões políticas opostas. Algumas atribuem seus problemas à concentração de renda e à insuficiência das políticas públicas; outras são convencidas de que os responsáveis são imigrantes, minorias, movimentos sociais ou adversários ideológicos. As condições materiais influenciam as escolhas, mas não determinam sozinhas a interpretação que cada pessoa fará delas. Entre a experiência social e a decisão política atuam organizações, identidades, disputas culturais e narrativas que procuram explicar quem é responsável pelo sofrimento e quais mudanças são possíveis.

Melhorar a renda, o emprego e os serviços públicos é indispensável, mas não basta. É necessário apresentar uma explicação convincente sobre as causas dos problemas e os caminhos para enfrentá-los. Um governo que entrega resultados, mas não consegue tornar compreensíveis suas escolhas, corre o risco de deixar a interpretação da vida cotidiana nas mãos de adversários mais eficazes na exploração do medo e do ressentimento. O inverso também vale. Uma narrativa eficiente não substitui políticas capazes de melhorar a vida. Quando governos autoritários aprofundam a insegurança econômica ou restringem direitos sem entregar os benefícios prometidos, abrem espaço para a contestação. Aproveitar essa oportunidade exige organização política, alternativas concretas e capacidade de demonstrar que as mudanças propostas respondem às necessidades da população.

A crítica ao capitalismo precisa reconhecer que a liberdade formal pode coexistir com uma distribuição profundamente desigual das condições necessárias para exercê-la. A concentração de riqueza e o enfraquecimento da capacidade de negociação dos trabalhadores limitam as possibilidades de participação política de parcelas da população. Ter o direito de escolher não significa dispor dos mesmos recursos para influenciar as escolhas coletivas. A desigualdade não anula automaticamente a democracia, mas restringe seu alcance quando o poder econômico impõe limites persistentes às decisões tomadas pela maioria. Isso não justifica abandonar as instituições representativas. Eleições competitivas, liberdades civis, direitos trabalhistas, organização sindical e mecanismos de controle do poder são conquistas que permitem disputar a distribuição da riqueza. A tarefa progressista consiste em defender essas instituições e, simultaneamente, promover mudanças materiais que ampliem a autonomia da população, reduzam desigualdades e fortaleçam os serviços públicos. A democracia precisa oferecer mais do que proteção contra a arbitrariedade: deve assegurar condições para que a liberdade política tenha consequências na vida concreta. Essa tarefa envolve conflitos que uma vitória eleitoral não resolve. Uma coalizão ampla pode ser necessária para derrotar um governo autoritário, mas seus integrantes nem sempre concordarão sobre as reformas a realizar depois da vitória. A aliança entre Lula e Geraldo Alckmin em 2022 reuniu forças com trajetórias e programas diferentes para enfrentar o bolsonarismo. Uma eventual coalizão contrária a Netanyahu também poderia depender de partidos com divergências profundas. Nos Estados Unidos, uma maioria legislativa contrária a Trump reuniria democratas com diferenças relevantes sobre economia, direitos sociais e política externa.

Essas alianças são valiosas para proteger a democracia, mas não constituem, por si sós, programas de transformação social. A amplitude que facilita a vitória pode limitar as reformas posteriores. O desafio consiste em preservar a unidade necessária para defender as instituições sem converter essa unidade em veto permanente a mudanças. Isso exige prioridades claras, negociação pública e disposição para enfrentar interesses que resistem à redistribuição de poder e riqueza. Uma vitória defensiva é necessária porque preserva as condições para a disputa política. É insuficiente porque não resolve as razões pelas quais parcelas da população se afastam das alternativas democráticas. Se os governos eleitos não melhorarem as condições de vida, não enfrentarem privilégios e não ampliarem a participação social, a derrota eleitoral dos autoritários poderá ser apenas uma interrupção temporária.

<><> A oportunidade e seu preço

As três eleições não resolverão os conflitos que atravessam Brasil, Israel e Estados Unidos, nem determinarão sozinhas a direção política do mundo. Sua importância está na possibilidade de enfraquecer simultaneamente projetos que compartilham métodos, referências internacionais e estratégias de concentração de poder. Uma derrota em cada país teria consequências próprias; em conjunto, poderia reduzir a confiança internacional na capacidade da extrema direita de transformar sua presença eleitoral em domínio duradouro. Isso não significaria seu desaparecimento. Redes de financiamento, grupos de pressão, canais de comunicação e bases sociais continuariam existindo. Seus dirigentes poderiam reorganizar alianças, buscar novos representantes e atribuir as derrotas a inimigos internos ou externos. Ainda assim, perder em países de tamanha relevância reduziria sua capacidade de apresentar o avanço autoritário como uma tendência sem alternativa e abriria espaço para que outras forças disputassem a interpretação do momento político. O efeito mais importante seria a possibilidade de recuperar a iniciativa democrática. As forças progressistas poderiam demonstrar que a radicalização não é uma exigência inevitável do eleitorado e que a proteção das instituições pode coexistir com mudanças sociais profundas. Para isso, precisariam evitar a confusão entre vitória eleitoral e superioridade moral, preservar a autonomia dos movimentos sociais e oferecer resultados concretos à população. Derrotar os adversários não dispensaria a crítica aos limites dos próprios vencedores. A oportunidade só terá valor duradouro se as forças vencedoras souberem aproveitá-la. Será necessário respeitar os resultados, impedir rupturas institucionais, reduzir desigualdades, ampliar direitos e reconstruir a confiança pública por meio de políticas verificáveis. Também será necessário reconhecer que as instituições democráticas não se sustentam apenas pela defesa de procedimentos: dependem da participação de cidadãos que encontrem nelas meios efetivos de influenciar a vida coletiva.

A possibilidade de uma derrota simultânea da extrema direita é promissora justamente porque não elimina o perigo. Os grupos ameaçados dispõem de recursos, experiência e incentivos para resistir. Reconhecer essa realidade não exige pessimismo, mas clareza sobre a dimensão da tarefa. A resposta democrática precisa combinar proteção institucional, mobilização social e transformação material, sem supor que qualquer uma dessas frentes possa substituir as demais. Uma sequência favorável no Brasil, em Israel e nos Estados Unidos não encerraria a disputa entre democracia e autoritarismo. Poderia, porém, retirar da extrema direita parte da iniciativa acumulada nos últimos anos e ampliar o espaço para projetos comprometidos com direitos, participação e justiça social. A vitória eleitoral abre uma possibilidade; não garante seu aproveitamento. Se as forças democráticas preservarem as instituições, mas deixarem intactas as condições que tornam o autoritarismo atraente, a derrota de hoje poderá preparar o terreno para o retorno de amanhã. Derrotar a extrema direita nas urnas é decisivo. Impedir que ela volte a se apresentar como resposta ao fracasso da democracia exige transformar a própria vida democrática.

 

Fonte: Por Edward Magro, em Jacobin Brasil

 

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