Derrotar
a extrema direita mundial nas urnas não basta
Nas
próximas duas semanas, Brasil, Israel e Estados Unidos enfrentarão decisões
eleitorais capazes de alterar a correlação internacional das forças políticas.
Embora suas histórias, instituições e conflitos sejam distintos, os três países
vivem disputas que colocam em questão a capacidade das instituições
democráticas de conter projetos autoritários. Uma derrota simultânea dessas
forças não encerraria o ciclo político da última década, mas poderia
interromper sua expansão e enfraquecer a confiança de seus aliados na
inevitabilidade do avanço da extrema direita. A possibilidade é especialmente
relevante porque o resultado está longe de ser garantido. No Brasil, a disputa
envolve a continuidade de um governo progressista diante do bolsonarismo. Em
Israel, Benjamin Netanyahu depende de uma composição parlamentar marcada por
conflitos institucionais e alianças com setores religiosos ultranacionalistas.
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump e seus aliados enfrentam eleições
legislativas capazes de alterar a relação entre Executivo e Congresso. O que
aproxima essas disputas não é a identidade entre seus protagonistas nem a
existência de um comando internacional que coordene suas ações. É a
convergência de métodos, interesses e práticas políticas. Lideranças de
diferentes países aprenderam a explorar inseguranças sociais, transformar
adversários em ameaças existenciais e apresentar os limites institucionais ao
exercício do poder como obstáculos à vontade popular. Suas diferenças nacionais
não impedem que compartilhem referências, adaptem estratégias e reforcem
mutuamente seus projetos. No entanto, como contradição central, uma derrota
simultânea poderia conter a expansão internacional da extrema direita, mas a
ameaça de perder posições também pode intensificar a mobilização dos recursos
econômicos, midiáticos, digitais e institucionais de que esses movimentos
dispõem. A oportunidade democrática traz consigo o risco de uma reação
destinada não apenas a recuperar votos, mas a enfraquecer as regras que tornam
possível a alternância de poder.
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Uma internacional reacionária sem quartel-general
A extrema
direita contemporânea não pode ser compreendida como uma coleção de fenômenos
nacionais isolados. Redes de financiamento, fundações privadas, centros de
formulação política, grupos religiosos, consultorias eleitorais e plataformas
digitais permitem que estratégias desenvolvidas em um país sejam adaptadas a
outro. Essa circulação não exige uma direção única. Ocorre por meio de alianças
formais, intercâmbios entre organizações, interesses convergentes e imitação
política. Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Viktor Orbán, Marine Le Pen e a
família Bolsonaro pertencem a tradições políticas nacionais distintas. Seus
programas econômicos e suas posições diplomáticas tampouco são idênticos.
Compartilham, porém, traços importantes: nacionalismo excludente, personalismo,
hostilidade aos mecanismos de fiscalização e disposição para aceitar a
pluralidade democrática apenas enquanto ela não ameaça sua permanência no
poder. Essa convergência também tem uma dimensão econômica. A defesa de
políticas ultraliberais, a desregulamentação ambiental, o enfraquecimento da
proteção social e a restrição dos direitos trabalhistas favorecem a
concentração da riqueza e ampliam a influência política dos grupos que já a
detêm. Quando uma mudança de governo ameaça privilégios consolidados, o poder
econômico dispõe de diversos meios para condicionar as decisões públicas. O
financiamento de campanhas, a pressão de grupos de interesse, a influência
sobre os meios de comunicação e as reações dos mercados podem estreitar o campo
de escolhas à disposição de eleitores e governantes. O voto atribui a cada
cidadão o mesmo peso formal, mas não garante a todos os mesmos recursos para
influenciar a política entre uma eleição e outra.
As
plataformas digitais ampliam essa assimetria. Sistemas que favorecem conteúdos
capazes de provocar reações intensas oferecem condições propícias à circulação
de medo, ressentimento e hostilidade. Uma acusação pode alcançar milhares de
pessoas antes que sua veracidade seja examinada. Quem a divulga pode
abandoná-la sem reparar os danos, enquanto a correção exige tempo, contexto e
disposição do público para rever convicções. A desinformação não precisa
convencer a maioria: basta produzir desconfiança suficiente para enfraquecer
referências comuns sobre os fatos.
A
contestação antecipada das eleições é uma das aplicações mais graves desse
método. A liderança prepara seus apoiadores para rejeitar o resultado antes
mesmo de conhecer a apuração. A vitória confirma a vontade popular; a derrota,
segundo a mesma narrativa, comprova a fraude. A eleição deixa, assim, de ser um
mecanismo para resolver disputas e passa a ser aceita apenas quando confirma a
permanência dos vencedores no poder. O Brasil conhece as consequências dessa
estratégia. Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2022, a contestação
eleitoral alimentou manifestações que pediam uma ruptura institucional. Em 8 de
janeiro de 2023, apoiadores do movimento golpista invadiram e depredaram as
sedes dos Três Poderes, em Brasília. A sequência mostrou que a deslegitimação
das urnas não precisa convencer a maioria para ameaçar a democracia. Pode
bastar mobilizar uma parcela organizada da sociedade e encontrar apoio, omissão
ou conivência em pontos estratégicos do Estado. A circulação internacional
dessas práticas permite que os movimentos aprendam com vitórias e derrotas
alheias. Acusações de fraude, ataques à imprensa e denúncias de perseguição
judicial podem ser adaptados a diferentes contextos. Uma derrota simultânea da
extrema direita teria, por isso, efeitos que ultrapassariam os resultados
nacionais. Não eliminaria as redes que sustentam esses movimentos, mas
enfraqueceria a narrativa de que o autoritarismo representa um caminho sem
alternativa.
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Israel e os limites da maioria
A trajetória
de Benjamin Netanyahu concentra conflitos sobre o Executivo, o Judiciário, a
identidade nacional e os limites do poder governamental. Sua permanência na
política israelense tornou-se cada vez mais dependente de alianças com partidos
religiosos e ultranacionalistas, alguns dos quais defendem restrições aos
direitos dos palestinos e a expansão dos assentamentos. A controvérsia em torno
da reforma judicial proposta em 2023 tornou explícita uma questão fundamental
das democracias: até onde pode ir a autoridade de uma maioria parlamentar? O
conflito não opõe simplesmente a vontade popular a um Judiciário sem
legitimidade eleitoral. Envolve a possibilidade de impedir que uma maioria
circunstancial enfraqueça os mecanismos destinados a fiscalizar suas decisões e
proteger os direitos daqueles que não a apoiam. A mobilização contra a reforma
reuniu amplos setores da sociedade israelense, inclusive grupos de direita que
consideravam essencial preservar a independência judicial. As ameaças à
segurança de Israel e as tensões regionais ajudam a compreender o contexto, mas
não justificam qualquer medida adotada em seu nome. A segurança coletiva é uma
responsabilidade legítima do Estado; convertê-la em autorização permanente para
enfraquecer controles institucionais é outra coisa. Quando a sobrevivência de
uma coalizão depende do apoio de grupos religiosos e ultranacionalistas, a
necessidade de conservar uma maioria parlamentar pode ampliar a influência de
forças cujo peso eleitoral isolado seria insuficiente para determinar a agenda
nacional. Uma derrota de Netanyahu, caso permita formar uma alternativa
parlamentar viável, demonstraria que a longevidade no poder não assegura sua
continuidade. Também poderia reduzir a influência dos setores que associam a
segurança nacional ao nacionalismo religioso. Seria precipitado, porém, esperar
uma transformação profunda apenas com a troca de governo. Parte da oposição
pertence à direita, e uma nova coalizão continuaria sujeita a divergências
sobre os palestinos, os assentamentos, a religião e a organização do Estado
A
questão ultrapassa a composição do Parlamento. Os palestinos vivem sob
políticas de ocupação, restrições de direitos e expansão territorial dos
assentamentos. Os cidadãos árabes de Israel enfrentam problemas próprios de
representação e igualdade política. São realidades distintas, mas ambas
precisam integrar uma avaliação séria dos compromissos democráticos do Estado
israelense. A qualidade de uma democracia não pode ser medida apenas pela
competição entre seus principais partidos, sem considerar os direitos daqueles
cuja participação política permanece limitada. Uma mudança de governo não
resolveria essas questões. Poderia, contudo, alterar as condições em que serão
enfrentadas. A eventual derrota de Netanyahu teria significado para além de sua
carreira: colocaria em debate um projeto de poder que depende de alianças com
setores dispostos a subordinar direitos e controles institucionais a uma
concepção excludente da nação. A alternância de governo abriria uma
possibilidade; a disposição de enfrentar as exclusões persistentes definiria
seu alcance.
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Estados Unidos e os limites do trumpismo
A disputa
legislativa estadunidense possui importância que ultrapassa suas fronteiras. O
peso econômico, militar, tecnológico e cultural do país repercute sobre
alianças diplomáticas, mercados, instituições multilaterais e movimentos
políticos que procuram reproduzir métodos associados ao trumpismo. O resultado
não determina o destino de outras democracias, mas altera o ambiente
internacional em que seus conflitos se desenvolvem. Desde 2016, Donald Trump
consolidou uma atuação baseada na confrontação permanente, na exploração de
conflitos culturais, na hostilidade à imprensa e na desconfiança sistemática em
relação às instituições que limitam sua autoridade. A recusa em aceitar a
derrota presidencial de 2020 e a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021,
expuseram a gravidade de transformar uma derrota eleitoral em pretexto para
contestar a ordem constitucional.
O
trumpismo oferece a seus aliados internacionais um repertório de estratégias
para deslegitimar adversários e apresentar os limites institucionais como
obstáculos à vontade de um líder que se considera representante exclusivo da
população. Outros movimentos podem adaptar esses métodos às disputas nacionais
sem reproduzir integralmente o programa estadunidense. A influência
internacional opera menos pela cópia exata de um modelo do que pela circulação
de táticas que podem ser ajustadas a diferentes sociedades. Uma derrota
republicana nas eleições legislativas não retiraria Trump da Presidência.
Poderia, entretanto, reduzir sua margem de atuação, ampliar a fiscalização
parlamentar e dificultar a aprovação de determinadas políticas. O resultado teria também valor simbólico. Uma
derrota expressiva do campo trumpista enfraqueceria a ideia de que a
radicalização e os ataques às instituições asseguram vitórias sucessivas. Para
movimentos semelhantes em outros países, seria uma demonstração de que esse
repertório não garante o êxito eleitoral. Mas o efeito simbólico não deve ser
confundido com uma mudança automática nas relações de poder. Lideranças
derrotadas podem preservar suas bases, controlar canais de comunicação e
apresentar a própria derrota como prova de perseguição.
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A reação começa antes e continua depois da votação
Aproximidade
de uma derrota não conduz necessariamente à moderação. Para lideranças que se
consideram representantes exclusivas da vontade popular, aceitar o resultado
pode significar reconhecer limites que passaram anos tentando abolir. A reação
pode envolver questionamentos à apuração, ataques às autoridades eleitorais e
acusações de perseguição política. Quando a permanência no poder se confunde
com a legitimidade do próprio projeto, perder uma eleição passa a ser
apresentado como uma ameaça à nação. Margens estreitas podem facilitar a
disseminação de suspeitas, mas não constituem evidência de fraude. A
legitimidade do resultado depende das regras aplicáveis, da transparência da
apuração, dos mecanismos de fiscalização e de provas verificáveis para eventuais
contestações. O problema começa quando a dúvida deixa de ser objeto de
investigação e se transforma em conclusão antecipada. Nesse ambiente, qualquer
divergência pode ser apresentada como conspiração e qualquer decisão contrária
pode confirmar, para os apoiadores mais mobilizados, que as instituições estão
comprometidas. A experiência brasileira demonstra a importância de instituições
dispostas a cumprir suas responsabilidades sob pressão. A Justiça Eleitoral, o
Supremo Tribunal Federal, as forças de segurança, os representantes políticos e
a sociedade civil têm funções diferentes, mas complementares na proteção da
ordem democrática. Nenhuma dessas instituições deve ser idealizada. Todas estão
sujeitas a pressões, interesses e erros; sua credibilidade depende da aplicação
das regras, da fiscalização e da responsabilização.
O mesmo
vale para Israel e os Estados Unidos. Uma derrota de Netanyahu não garantiria a
aceitação do resultado por todos os integrantes de sua coalizão, assim como uma
derrota republicana não impediria a propagação de acusações infundadas contra o
sistema eleitoral estadunidense. No Brasil, uma vitória progressista tampouco
eliminaria as redes políticas e digitais que favoreceram a ascensão do
bolsonarismo.
A ordem
das eleições acrescenta outra dimensão à disputa. Como o Brasil vota primeiro,
a reação ao resultado poderá influenciar as narrativas empregadas nas votações
seguintes. Uma apuração transparente, acompanhada de resposta institucional
proporcional e aceitação efetiva do resultado, ofereceria uma referência
favorável. Uma campanha de desinformação bem-sucedida poderia fornecer
argumentos e métodos a grupos dispostos a reproduzir a contestação. Essa
influência é possível, mas não automática: cada país possui suas próprias
condições políticas, institucionais e sociais. A defesa da democracia exige
proteger a apuração, assegurar a transmissão regular do poder, investigar
ameaças concretas e responsabilizar os autores de crimes. Exige também que o
combate ao autoritarismo não seja usado como justificativa para arbitrariedades.
Uma democracia que abandona seus princípios para se defender compromete a
legitimidade da própria defesa. É preciso distinguir a divergência política
legítima das tentativas de impedir a alternância de poder, sem transformar a
proteção institucional em licença para restringir direitos. A democracia não se
protege pela eliminação do conflito, mas pela garantia de que ele possa ocorrer
sem que uma das partes reivindique para si o direito de decidir quem pode
participar e quais resultados merecem ser aceitos. Por isso, a resposta ao
autoritarismo precisa combinar firmeza diante das tentativas de ruptura com o
respeito às liberdades que dão sentido à ordem democrática.
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Vencer a eleição não basta
Mesmo
uma sequência favorável de resultados deixaria em aberto a questão mais
difícil: por que projetos autoritários continuam encontrando apoio? A extrema
direita não cresce apenas por dominar técnicas de comunicação ou contar com
aliados economicamente poderosos. Também se beneficia de problemas sociais
concretos, expectativas frustradas e da percepção de que a política
institucional oferece respostas insuficientes às necessidades cotidianas. A
precarização do trabalho, a desigualdade, a deterioração dos serviços públicos
e a dificuldade de construir uma vida material estável alimentam a desconfiança
nas instituições. Quando o emprego não oferece segurança, a moradia consome
parcela excessiva da renda e os serviços públicos falham, a promessa de
estabilidade perde credibilidade. Nesse ambiente, discursos que identificam
culpados e oferecem soluções simples podem conquistar apoio, mesmo quando suas
propostas agravam os problemas que prometem resolver. Isso não significa que a
pobreza conduza necessariamente ao autoritarismo. Pessoas submetidas a
dificuldades semelhantes podem chegar a conclusões políticas opostas. Algumas
atribuem seus problemas à concentração de renda e à insuficiência das políticas
públicas; outras são convencidas de que os responsáveis são imigrantes,
minorias, movimentos sociais ou adversários ideológicos. As condições materiais
influenciam as escolhas, mas não determinam sozinhas a interpretação que cada
pessoa fará delas. Entre a experiência social e a decisão política atuam
organizações, identidades, disputas culturais e narrativas que procuram
explicar quem é responsável pelo sofrimento e quais mudanças são possíveis.
Melhorar
a renda, o emprego e os serviços públicos é indispensável, mas não basta. É
necessário apresentar uma explicação convincente sobre as causas dos problemas
e os caminhos para enfrentá-los. Um governo que entrega resultados, mas não
consegue tornar compreensíveis suas escolhas, corre o risco de deixar a
interpretação da vida cotidiana nas mãos de adversários mais eficazes na
exploração do medo e do ressentimento. O inverso também vale. Uma narrativa
eficiente não substitui políticas capazes de melhorar a vida. Quando governos
autoritários aprofundam a insegurança econômica ou restringem direitos sem
entregar os benefícios prometidos, abrem espaço para a contestação. Aproveitar
essa oportunidade exige organização política, alternativas concretas e capacidade
de demonstrar que as mudanças propostas respondem às necessidades da população.
A
crítica ao capitalismo precisa reconhecer que a liberdade formal pode coexistir
com uma distribuição profundamente desigual das condições necessárias para
exercê-la. A concentração de riqueza e o enfraquecimento da capacidade de
negociação dos trabalhadores limitam as possibilidades de participação política
de parcelas da população. Ter o direito de escolher não significa dispor dos
mesmos recursos para influenciar as escolhas coletivas. A desigualdade não
anula automaticamente a democracia, mas restringe seu alcance quando o poder
econômico impõe limites persistentes às decisões tomadas pela maioria. Isso não
justifica abandonar as instituições representativas. Eleições competitivas,
liberdades civis, direitos trabalhistas, organização sindical e mecanismos de
controle do poder são conquistas que permitem disputar a distribuição da
riqueza. A tarefa progressista consiste em defender essas instituições e,
simultaneamente, promover mudanças materiais que ampliem a autonomia da
população, reduzam desigualdades e fortaleçam os serviços públicos. A
democracia precisa oferecer mais do que proteção contra a arbitrariedade: deve
assegurar condições para que a liberdade política tenha consequências na vida
concreta. Essa tarefa envolve conflitos que uma vitória eleitoral não resolve.
Uma coalizão ampla pode ser necessária para derrotar um governo autoritário,
mas seus integrantes nem sempre concordarão sobre as reformas a realizar depois
da vitória. A aliança entre Lula e Geraldo Alckmin em 2022 reuniu forças com
trajetórias e programas diferentes para enfrentar o bolsonarismo. Uma eventual
coalizão contrária a Netanyahu também poderia depender de partidos com
divergências profundas. Nos Estados Unidos, uma maioria legislativa contrária a
Trump reuniria democratas com diferenças relevantes sobre economia, direitos
sociais e política externa.
Essas
alianças são valiosas para proteger a democracia, mas não constituem, por si
sós, programas de transformação social. A amplitude que facilita a vitória pode
limitar as reformas posteriores. O desafio consiste em preservar a unidade
necessária para defender as instituições sem converter essa unidade em veto
permanente a mudanças. Isso exige prioridades claras, negociação pública e
disposição para enfrentar interesses que resistem à redistribuição de poder e
riqueza. Uma vitória defensiva é necessária porque preserva as condições para a
disputa política. É insuficiente porque não resolve as razões pelas quais
parcelas da população se afastam das alternativas democráticas. Se os governos
eleitos não melhorarem as condições de vida, não enfrentarem privilégios e não
ampliarem a participação social, a derrota eleitoral dos autoritários poderá
ser apenas uma interrupção temporária.
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A oportunidade e seu preço
As três
eleições não resolverão os conflitos que atravessam Brasil, Israel e Estados
Unidos, nem determinarão sozinhas a direção política do mundo. Sua importância
está na possibilidade de enfraquecer simultaneamente projetos que compartilham
métodos, referências internacionais e estratégias de concentração de poder. Uma
derrota em cada país teria consequências próprias; em conjunto, poderia reduzir
a confiança internacional na capacidade da extrema direita de transformar sua
presença eleitoral em domínio duradouro. Isso não significaria seu
desaparecimento. Redes de financiamento, grupos de pressão, canais de
comunicação e bases sociais continuariam existindo. Seus dirigentes poderiam
reorganizar alianças, buscar novos representantes e atribuir as derrotas a
inimigos internos ou externos. Ainda assim, perder em países de tamanha
relevância reduziria sua capacidade de apresentar o avanço autoritário como uma
tendência sem alternativa e abriria espaço para que outras forças disputassem a
interpretação do momento político. O efeito mais importante seria a
possibilidade de recuperar a iniciativa democrática. As forças progressistas
poderiam demonstrar que a radicalização não é uma exigência inevitável do
eleitorado e que a proteção das instituições pode coexistir com mudanças
sociais profundas. Para isso, precisariam evitar a confusão entre vitória
eleitoral e superioridade moral, preservar a autonomia dos movimentos sociais e
oferecer resultados concretos à população. Derrotar os adversários não
dispensaria a crítica aos limites dos próprios vencedores. A oportunidade só
terá valor duradouro se as forças vencedoras souberem aproveitá-la. Será
necessário respeitar os resultados, impedir rupturas institucionais, reduzir
desigualdades, ampliar direitos e reconstruir a confiança pública por meio de
políticas verificáveis. Também será necessário reconhecer que as instituições
democráticas não se sustentam apenas pela defesa de procedimentos: dependem da
participação de cidadãos que encontrem nelas meios efetivos de influenciar a
vida coletiva.
A
possibilidade de uma derrota simultânea da extrema direita é promissora
justamente porque não elimina o perigo. Os grupos ameaçados dispõem de
recursos, experiência e incentivos para resistir. Reconhecer essa realidade não
exige pessimismo, mas clareza sobre a dimensão da tarefa. A resposta
democrática precisa combinar proteção institucional, mobilização social e
transformação material, sem supor que qualquer uma dessas frentes possa
substituir as demais. Uma sequência favorável no Brasil, em Israel e nos
Estados Unidos não encerraria a disputa entre democracia e autoritarismo.
Poderia, porém, retirar da extrema direita parte da iniciativa acumulada nos
últimos anos e ampliar o espaço para projetos comprometidos com direitos,
participação e justiça social. A vitória eleitoral abre uma possibilidade; não
garante seu aproveitamento. Se as forças democráticas preservarem as
instituições, mas deixarem intactas as condições que tornam o autoritarismo
atraente, a derrota de hoje poderá preparar o terreno para o retorno de amanhã.
Derrotar a extrema direita nas urnas é decisivo. Impedir que ela volte a se
apresentar como resposta ao fracasso da democracia exige transformar a própria
vida democrática.
Fonte:
Por Edward Magro, em Jacobin Brasil

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