Como
Flávio abafaria o caso Master
As
eleições do dia 04 de outubro de 2026 foram marcadas por uma votação expressiva
em políticos do Partido Liberal (PL), o qual se consolidou como a maior bancada
do Congresso Nacional. Para termos uma ideia, o partido terá um terço do total
de vagas do Senado, sendo que dos 81 senadores a ampla maioria será alinhada
com as pautas da extrema-direita, enquanto que apenas 15 serão da esquerda.
Cabe
destacar que muitos senadores eleitos pela direita apresentaram como principal
pauta o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tal
proposição para 2027 tornar-se-á uma possibilidade real, já que o bolsonarismo
terá ampla maioria para aprovar, praticamente sozinho, qualquer pauta da
extrema-direita, inclusive, possíveis pedidos de impeachment contra membros do
STF.
Diante
da existência de indícios que fazem com que alguns juízes da Corte sejam
suspeitos de envolvimento no escândalo de corrupção do Banco Master existe uma
possibilidade real de que alguns processos de impeachment possam tramitar no
Senado. Contudo, a primeira questão que merece atenção é se a possível abertura
desses processos atingirá todos os ministros do STF que podem ter recebido
vantagens econômicas de Daniel Vorcaro, ou se ficará restrita apenas àqueles
que não são alinhados com o bolsonarismo.
A
aprovação de impeachment de membros do STF, de maneira seletiva, certamente
representaria uma ameaça real ao funcionamento do órgão, já que a medida
representaria uma grave intimidação a qualquer juiz que desejasse manter um
posicionamento independente para julgar casos de corrupção envolvendo políticos
alinhados com o bolsonarismo. Ou seja, no cenário projetado para 2027, qualquer
ministro do Supremo que tentar julgar, de maneira séria, os políticos da
direita envolvidos nos escândalos do Banco Master conviverá com o fantasma da
perda de seus cargos. Isso porque, a eleição de candidatos comprometidos com a
pauta de combate à atuação do STF transformou o Senado em um ambiente
predominantemente hostil aos magistrados da Corte.
Outra
questão a ser pensada é se a promessa de campanha dos senadores da
extrema-direita de pautar o impeachment dos juízes do STF que, por ventura,
cometeram ilegalidades será concretizada, ou se estes utilizarão outra
estratégia já adotada pela direita em contextos parecidos, a saber: a busca de
um acordo com o Supremo para enfraquecer o combate à corrupção. Para
compreender essa possibilidade, precisamos resgatar o cenário brasileiro de
março de 2016, quando a operação Lava Jato sinalizava o grande envolvimento dos
políticos da direita em escândalos de corrupção e o Congresso Nacional discutia
a possibilidade da abertura de um processo de impeachment contra Dilma
Rousseff.
No dia
23 de março de 2026, a Folha de São Paulo divulgou trechos da gravação de uma
conversa entre Sérgio Machado do PMDB, então ex-presidente da Transpetro, e
Romero Jucá, senador que havia sido eleito pelo PMDB e que se tornaria, mais
tarde, ministro do Planejamento de Temer. A seguir, transcrevo alguns trechos
do diálogo em questão1:
Machado:
“Tem que ter um impeachment”.
Jucá:
“Tem que ter impeachment, não tem saída”.
Machado:
“E quem segurar, segura”.
Jucá:
“Foi boa a conversa, mas vamos ter outras pela frente”.
Machado:
“Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez
[autorização de prisão logo após decisões em segunda instância], vai todo mundo
delatar”.
Jucá:
“Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Oderbrecht vão fazer”.
Machado:
“[…] estou muito preocupado porque eu acho que…O Janot (procurador-geral da
República) está a fim de pegar vocês […]”.
Jucá:
“[…] Tem que resolver essa porra…tem que mudar o governo para poder estancar a
sangria”.
A
primeira questão evidenciada pela gravação é a articulação visando a retirada
de Dilma Roussef da presidência como uma forma de tentar intervir nas
investigações que podiam culminar na prisão de lideranças da direita. Mais
tarde, o próprio Temer, em entrevista dada à TV Bandeirantes2, afirmou que o
impeachment de Dilma só teria ocorrido porque ela se recusou a orientar que os
políticos do Partido dos Trabalhadores (PT), que faziam parte do Conselho de
Ética, votassem contra a abertura da investigação de Eduardo Cunha, na época
presidente da Câmara dos Deputados, acusado de corrupção. Ou seja, os políticos
da direita tinham plena convicção de que para barrar as investigações contra
eles era necessário, para além da maioria no Legislativo, controlar também o
Executivo.
Retomando
o diálogo entre Machado e Jucá, apresentarei a transcrição de outros trechos:
Machado:
“É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional”.
Jucá:
“Com o Supremo, com tudo”.
Machado:
“Com tudo, aí parava tudo”.
Jucá:
“É, delimitava onde está e pronto”.
A
análise dos trechos deixa clara a articulação da direita para utilizar a
maioria que possuía no Legislativo para aprovar o impeachment de Dilma, assumir
o Executivo e articular um grande acordo com o STF para pôr fim às
investigações e julgamentos que afetavam seus interesses. Jucá ainda afirmou
que havia conversado com alguns ministros do Supremo e Machado sugeriu que
seria necessário “buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator
da Lava Jato], mas parece que ninguém tem”. Em seguida, Jucá afirmou: “Não tem.
É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara burocrata […]”. Ou seja,
os interlocutores do diálogo consideravam que a atuação de Teori Zavascki
estaria dificultando a articulação do acordo, já que o ministro em questão,
provavelmente, não aceitaria nenhum acordo visando o fim do combate à corrupção
revelada pela Lava Jato.
Contudo,
em 19 de janeiro de 2017 Zavascki faleceu, vítima de um trágico acidente aéreo,
o que culminou com a indicação de Alexandre de Moraes para substituí-lo, por
escolha de Michel Temer, já empossado definitivamente após o impeachment de
Dilma Roussef. Nota-se, assim, que a conspiração da direita ganhou força a
partir desses eventos, já que após conseguir o controle do Legislativo e do
Executivo, a morte de Zavascki eliminou um dos principais entraves, apontados
por Machado e Jucá, para que o acordo com o Judiciário avançasse. O fato é que,
após esses eventos, a operação Lava Jato perdeu força e muitos políticos da
direita investigados por corrupção na época ficaram impunes.
Uma
década depois dos eventos mencionados, o Brasil encontra-se em um contexto
muito parecido com o que narramos até aqui. Isso porque, diversos políticos do
núcleo duro bolsonarista e seus aliados estão sendo acusados de envolvimento no
escândalo de corrupção do Banco Master, como Flávio Bolsonaro (PL), Ciro
Nogueira (PP), Hugo Motta (Republicanos), entre outros. Ao mesmo tempo,
conforme citamos anteriormente, também existem suspeitas contra ministros do
Supremo, como Alexandre de Moraes, Kássio Nunes Marques, André Mendonça, Dias
Toffoli e Luiz Fux.
Cabe
destacar que no contexto atual o fenômeno do bolsonarismo tornou o bloco da
direita muito mais coeso do que era em 2016, já que as eleições de 2026
demonstraram que nenhuma alternativa de direita não bolsonarista teve alguma
projeção. Enquanto que em 2016 a direita constituía um grupo mais plural e
muitas vezes dividida sobre diversas pautas, em 2027 a tendência é que ela
forme um bloco muito mais homogêneo, em torno das pautas da extrema-direita,
que encontraram um cenário muito favorável no Congresso Nacional.
Dentro
desse contexto, é possível conjecturar que, assim como ocorreu em 2016, a
direita poderá utilizar a maioria construída no Legislativo para intervir no
curso de um escândalo de corrupção que a afeta diretamente, no caso, o do Banco
Master. Novamente, essa possível articulação para acabar com as investigações e
evitar a condenação dos envolvidos pode contar com alguns personagens que foram
centrais para o “acordo nacional” de 2016.
O
primeiro deles é Michel Temer, aliado de Jair Bolsonaro, que, em 2021, escreveu
uma carta endereçada ao Supremo, em nome do ex-presidente, intermediando também
uma ligação entre Bolsonaro e Alexandre de Moraes no contexto da crise
institucional gerada pelos ataques contra o STF3. Do mesmo modo em que apoiou o
pai, Temer já declarou apoio para o filho, Flávio Bolsonaro, no segundo turno
da eleição de 2026.
Considerando
que no governo de Temer existem indícios de que possa ter ocorrido um acordo
com o STF para evitar a punição de políticos da direita investigados na Lava
Jato, é possível que a interlocução do ex-presidente possa ser colocada à
serviço de Flávio, bastante implicado no escândalo do Master. Além disso, Temer
já mostrou disposição para tentar diminuir o desgaste entre a família Bolsonaro
e o Supremo no episódio de 2021, demonstrando capacidade de interlocução com a
Corte.
Desse
modo, a expectativa dos eleitores bolsonaristas de que o amplo controle do
Legislativo possa ser utilizado para punir ministros do Supremo que estejam
envolvidos com corrupção, pode ser utilizado, na verdade, como um elemento de
coação para pressionar os juízes do STF a aceitar um novo acordo. Dentro dessa
hipótese, o objeto do acordo seria o fim das investigações e da aplicação de
punições para os envolvidos no escândalo do Master, o que pode beneficiar tanto
os políticos quanto os membros do Tribunal que, eventualmente, tenham recebido
vantagens econômicas de Daniel Vorcaro em troca de favores ilegais. Assim, o
controle bolsonarista do Senado, ao invés de representar uma possibilidade
efetiva para punir membros do STF que tenham cometido crimes, pode representar
um impedimento para que as investigações realmente avancem e para que as
punições sejam realmente aplicadas.
Por
outro lado, essa ampla maioria no Senado pode ser utilizada como um elemento
eficaz para pressionar todo o STF a trocar julgamentos sérios pela manutenção
de seus cargos, já que os ministros que não aceitarem os termos do acordo
estarão expostos à possibilidade real de sofrerem um processo de impeachment.
Nesse enredo, outro personagem de 2016 também pode cumprir um papel central em
toda essa trama: Alexandre de Morais, bastante citado nos vazamentos sobre a
investigação do escândalo do Banco Master. Isso porque, diante do cenário
decorrente das eleições de 2026, o magistrado pode se ver pressionado a aceitar
um acordo para acabar com as investigações em troca de sua manutenção no cargo
de ministro, o que pode contribuir para o roteiro de 2016 se repetir em 2026.
Assim
como em 2016, a direita também já percebeu a importância do controle do
Executivo para que o plano em questão possa ser efetivado. Isso porque, a
vitória de Lula poderia representar um entrave para a concretização do acordo
desejado pelos políticos alinhados com o bolsonarismo. Isso porque, o
presidente poderia pautar uma resistência contra o fim das investigações junto
à opinião pública, além de garantir uma atuação independente por parte do
Procurador Geral da República (PGR) e dos delegados da Polícia Federal (PF).
Vale lembrar que somente nos dois primeiros anos de seu mandato, Bolsonaro
trocou mais de 20 delegados da PF de cargos de chefia, muitas vezes pelo fato
de esses realizarem investigações que desagradavam o Planalto4. Além disso, o
Bolsonaro mudou quatro vezes o diretor-geral da PF, demonstrando clara intenção
de aparelhamento do órgão. O próprio ministro da Justiça da época, Sérgio Moro,
afirmou em depoimento que teria recebido a seguinte mensagem de Bolsonaro:
“Moro, você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de
Janeiro”5. Vale lembrar que naquele período havia suspeitas contra filhos de
Jair Bolsonaro que seriam investigadas pela Superintendência em questão,
demonstrando a interferência do ex-presidente em investigações que combatiam a
corrupção.
Portanto,
no caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, seu grupo político estabeleceria um
controle sem precedentes, desde a redemocratização, sobre as instituições da
República. Isso porque, além de o PL ter a maior bancada do Congresso em 2027,
a direita não bolsonarista perdeu muita representatividade, dando ao
bolsonarismo amplo controle do Legislativo. Convém ressaltar que enquanto o
governo de Bolsonaro dependeu da aliança política com o centrão, que por vezes
barrava pautas da extrema direita, um eventual governo de Flávio terá um
ambiente muito mais favorável às suas pautas. Ao mesmo tempo, o STF vive o
período de maior fragilidade de sua história, enfrentando a perda de
credibilidade junto à população devido às suspeitas de envolvimento em escândalos
de corrupção. Além disso, a votação expressiva de senadores comprometidos com a
pauta de enfraquecimento da Corte contribui para agravar a fragilização dessa
instituição da República que outrora cumpriu um papel importante na defesa da
Democracia. Ou seja, a eleição de Flávio daria ao bolsonarismo um contexto
extremamente favorável para uma escalada autoritária, já que o grupo teria o
controle do Executivo e do Legislativo, além de encontrar o Judiciário em uma
situação em que esse Poder da República teria pouca capacidade de representar
uma resistência contra qualquer intento totalitário. Além disso, esse cenário
também geraria uma possibilidade concreta da imposição de inúmeros obstáculos
para a realização de qualquer investigação ou julgamento de políticos alinhados
com o bolsonarismo.
Vale
lembrar que o grupo político em questão é declaradamente entusiasta do período
da Ditadura Civil-Militar e que planejou a trama golpista de janeiro de 2023,
que visava assassinar Lula, Alckimin e ministros do Supremo, todos considerados
entraves para a interrupção da ordem democrática no Brasil. Para a sorte da
frágil democracia brasileira, parte do comando das Forças Armadas, na época,
não aceitou levar o plano golpista adiante e a vitória de Lula em 2022 deu uma
sobrevida ao Estado Democrático de Direito. Contudo, se Flávio for eleito, é
muito provável que o controle das instituições da República aspirado pelos
golpistas de 2023 seja conquistado pelos bolsonaristas eleitos em 2026. Nesse
sentido, a eleição de Flávio representa o aval da maioria do povo brasileiro
para uma escalada autoritária, que produzirá como efeito o controle das
instituições da República pelo grupo que fracassou na tentativa de golpe
materializada pelo ato terrorista de 8 de janeiro de 2023. Certamente, esse
controle encerrará qualquer possibilidade de passar o país a limpo e de punir
políticos, banqueiros e juízes envolvidos em um dos maiores escândalos de
corrupção da história do Brasil.
Por
outro lado, novamente, a eleição de Lula pode dar nova sobrevida à democracia
brasileira, evitando que os objetivos do golpe de 2023 sejam conquistados a
partir de 2027. Portanto, cabe ao povo brasileiro ter a real dimensão do que
está em jogo no segundo turno da eleição presidencial de 2026. Chegou o momento
de escolher entre a defesa do Estado Democrático de Direito brasileiro ou ao
risco concreto do país viver a maior escalada autoritária desde a Ditadura
Civil-Militar. Portanto, o resultado do pleito de 25 de outubro pode ser o mais
importante da história da Democracia brasileira, o que exigirá muita reflexão e
cuidado por parte de cada eleitor.
Fonte:
Por Diogo Comitre, em Outras Palavras

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