segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Universidade pública e tecnociência solidária

A universidade pública participa da produção da sociedade quando imagina ocupar um lugar exterior às suas contradições. Forma profissionais, legitima critérios de competência, seleciona problemas de pesquisa e estabelece quais conhecimentos merecem reconhecimento. Cada uma dessas atividades incide sobre a distribuição do poder e sobre as condições de existência da população.

Por isso, defender seu caráter público exige interrogar a orientação social do conhecimento que produz. A defesa da universidade perde força quando deixa intocada a neutralidade da tecnociência e aceita que a empresa privada seja a destinatária privilegiada de uma capacidade científica construída com o trabalho e os recursos da sociedade.

O problema alcança a concepção de universidade. Recursos públicos, acesso gratuito e autonomia institucional são indispensáveis, mas não resolvem a pergunta sobre quem define suas finalidades. Uma instituição pode ser financiada pela sociedade e organizar suas prioridades segundo demandas de segmentos que concentram renda e propriedade. A contradição atravessa seu cotidiano: a sociedade sustenta a instituição, enquanto parcelas dessa sociedade hoje encontram dificuldades para transformar suas necessidades em problemas reconhecidos pela pesquisa.

A formação universitária participa desse processo em diferentes posições sociais. Dela saem dirigentes empresariais, profissionais que administram instituições públicas e trabalhadores diplomados cujas expectativas de reconhecimento encontram limites materiais. Não se trata de atribuir à universidade uma causalidade exclusiva sobre seus percursos.

As relações de propriedade, o mercado de trabalho e a organização do Estado também os condicionam. Cabe, porém, reconhecer sua responsabilidade específica: ela fornece linguagens, instrumentos e justificativas com os quais esses sujeitos compreenderão os problemas sociais e tomarão decisões que afetam outras pessoas.

<><> Uma herança que organiza o presente

A universidade brasileira se constituiu numa sociedade marcada pela escravidão, pela concentração da propriedade e pela subordinação de amplas parcelas da população. Essa formação histórica ajuda a compreender a distância entre excelência acadêmica e atendimento das necessidades coletivas. Não autoriza, contudo, uma explicação linear que transforme cada universidade em simples prolongamento das classes proprietárias.

A universidade também abriga conflitos, experiências de democratização e conhecimentos que contrariam interesses dominantes. Sua história deve ser compreendida como disputa realizada em condições desiguais, cuja materialidade precisa aparecer na análise.

A condição periférica acrescenta uma dificuldade. Modelos de organização científica formulados em outros contextos tendem a chegar acompanhados do prestígio das instituições que os consagraram. Sua adoção pode deslocar a pergunta sobre as necessidades locais para a pergunta sobre como alcançar um padrão externo de reconhecimento. Comparações internacionais são úteis quando tornam diferenças inteligíveis.

Tornam-se obstáculos quando convertem uma experiência histórica particular em destino obrigatório. Uma universidade inserida numa economia dependente não transforma essa condição apenas imitando procedimentos de uma instituição situada no centro da acumulação.

A relação entre universidade e empresa ilustra o problema. Parte significativa do discurso institucional supõe que o principal desafio consiste em transferir conhecimento acadêmico para o setor produtivo. Nesse enunciado, o setor produtivo aparece frequentemente identificado com a empresa privada. Desaparecem da linguagem os empreendimentos autogestionários, as associações de trabalhadores e outras formas de produzir bens e serviços.

O vocabulário já realiza uma seleção: uma forma histórica de organização econômica representa o conjunto da produção, enquanto as demais comparecem como exceções ou experiências de alcance restrito.

O transferencismo imagina que o conhecimento pode atravessar a fronteira institucional conservando intactos seus atributos e encontrando, no outro lado, uma demanda pronta para recebê-lo. Entretanto, a própria demanda depende de decisões empresariais sobre custos, mercados e apropriação dos resultados.

Nem toda capacidade científica interessa à empresa, e nem todo interesse empresarial corresponde a uma necessidade social prioritária. A insistência em corrigir apenas a comunicação entre os dois ambientes pode ocultar essa divergência. A questão deixa de ser o volume de encontros entre pesquisadores e empresários e passa a envolver os objetivos que orientam o encontro.

O empreendedorismo acadêmico acrescenta outra camada. O pesquisador é estimulado a converter sua atividade em oportunidade de negócio, e o estudante aprende a apresentar sua trajetória como empreendimento individual. A universidade pode oferecer apoio técnico valioso a iniciativas produtivas.

O problema surge quando a criação de empresas se transforma em horizonte geral da formação e em demonstração suficiente de utilidade pública. A possibilidade de vender uma solução passa a anteceder a investigação de sua necessidade. Demandas socialmente urgentes, mas pouco rentáveis, ocupam posição secundária, apesar de sua complexidade científica e de sua relevância humana.

Essa orientação combina-se com o produtivismo. A publicação, que deveria comunicar e submeter resultados à crítica, torna-se também unidade de desempenho. O projeto passa a ser dimensionado pelo prazo de entrega, pela possibilidade de gerar produtos contabilizáveis e pela conveniência curricular.

Não se deve opor, de maneira simplista, produção acadêmica e compromisso social. O problema está na substituição do julgamento substantivo por uma contabilidade que premia resultados facilmente registráveis. Atividades essenciais, como estabelecer confiança com uma comunidade ou acompanhar a apropriação de uma técnica, podem consumir anos e aparecer pouco nos instrumentos de avaliação.

<><> A neutralidade como problema

A crença na neutralidade ajuda a justificar esse funcionamento. Segundo sua versão mais difundida, a ciência produziria conhecimentos universais, enquanto os valores ingressariam somente no momento de sua aplicação tecnológica. A universidade responderia pela descoberta; outros atores responderiam pelos usos.

Essa divisão tranquiliza porque permite reconhecer consequências destrutivas sem examinar as escolhas que participaram da constituição do conhecimento e dos artefatos. A responsabilidade é deslocada para uma etapa posterior, como se os caminhos anteriores não contivessem decisões sobre prioridades, riscos e beneficiários.

A crítica exige distinguir objetividade e neutralidade. A objetividade exige procedimentos que permitam examinar evidências, confrontar interpretações e corrigir resultados. Sua defesa é indispensável. A neutralidade supõe ausência de interesses e valores na definição das agendas e na configuração dos meios técnicos.

Questionar essa segunda pretensão não autoriza abandonar a primeira. Um resultado não se torna verdadeiro porque atende a uma causa considerada justa. Tampouco sua consistência empírica demonstra que o problema investigado era socialmente prioritário ou que a utilização projetada seja desejável. São planos relacionados, mas não intercambiáveis.

A tecnociência reúne processos de conhecimento e intervenção cuja separação se tornou insuficiente para compreender o modo como se organizam. Instrumentos, programas, materiais e sistemas de produção incorporam decisões realizadas durante sua concepção. Uma máquina pode exigir que o ritmo de todos seja determinado externamente.

Um sistema de informação pode distribuir acesso ou concentrá-lo na administração. Uma plataforma pode facilitar a cooperação e, simultaneamente, reservar a terceiros o controle dos dados. A técnica possui propriedades materiais verificáveis, mas sua configuração envolve escolhas entre possibilidades socialmente distintas.

Dizer que uma tecnologia incorpora relações sociais não significa afirmar que cada detalhe tenha sido deliberadamente planejado para dominar. Há contingências, limitações de conhecimento e consequências imprevistas. Há também usos que escapam à intenção original.

O argumento é mais preciso: os processos de concepção selecionam soluções sob condições determinadas e tendem a estabilizar algumas relações em detrimento de outras. Depois de instaladas, essas soluções tornam certas mudanças mais caras e outras mais acessíveis. O poder pode persistir no equipamento e no procedimento mesmo quando as pessoas encarregadas de operá-los são substituídas.

Imaginemos a seguinte situação de trabalho coletivo. O grupo recebe um equipamento concebido para uma fábrica organizada por supervisão hierárquica. A propriedade passa ao coletivo, mas o acesso aos controles permanece concentrado, o ritmo de operação dificulta decisões compartilhadas e a manutenção depende de um fornecedor exclusivo.

A mudança jurídica é relevante, porém insuficiente para instaurar autogestão. Será necessário revisar o funcionamento, distribuir conhecimentos e talvez modificar componentes. A experiência demonstra por que democratizar o acesso à tecnologia e democratizar sua configuração são tarefas relacionadas, mas distintas.

A crítica à neutralidade alcança, portanto, o ensino. Uma disciplina técnica precisa examinar as alternativas que desaparecem quando um problema é formulado exclusivamente em termos de rentabilidade. Uma disciplina das humanidades precisa enfrentar a materialidade dos processos que critica. A separação entre quem compreenderia a sociedade e quem dominaria os instrumentos de intervenção empobrece ambos os campos.

Não basta acrescentar uma reflexão ética ao final de um projeto já definido. As perguntas sobre organização do trabalho e distribuição dos benefícios precisam participar da formulação inicial e acompanhar o desenvolvimento das soluções.

<><> Conhecimento situado e participação social

O conhecimento situado permite reconhecer que toda investigação começa em condições determinadas. Isso não significa restringir sua validade ao lugar de origem nem abandonar a possibilidade de generalização. Significa explicitar a posição de quem pergunta, as relações que tornam a pesquisa possível e os limites de suas categorias. Um diagnóstico elaborado sem contato com o trabalho efetivo pode confundir o procedimento prescrito com a atividade realizada.

O trabalhador que ajusta uma máquina, a cuidadora que organiza uma rotina e a comunidade que conhece seu território possuem saberes cuja ausência pode comprometer a própria qualidade da investigação.

Esses saberes não precisam ser romantizados. A experiência contém aprendizado, mas também pode reproduzir hierarquias, erros e formas de exclusão. O diálogo entre conhecimentos exige crítica recíproca e critérios adequados ao objeto. A participação social tampouco elimina o trabalho especializado ou torna todas as afirmações equivalentes.

Ela amplia a capacidade de identificar problemas, examinar consequências e reconhecer condições de uso que um grupo restrito não perceberia. O encontro se torna fecundo quando nenhum participante é reduzido a fornecedor de dados e quando a autoridade de uma afirmação pode ser discutida.

Uma pesquisa participativa começa antes da coleta. Seus participantes precisam discutir o que será investigado, quais resultados são esperados e como serão enfrentadas divergências. Devem conhecer as condições de acesso às informações e participar das decisões sobre circulação dos conhecimentos produzidos. Sem isso, a participação pode resumir-se à presença em reuniões cujo resultado já está decidido.

Uma consulta que apenas confirma o projeto não altera a relação entre universidade e sociedade. O critério substantivo está na possibilidade de os sujeitos envolvidos modificarem perguntas, procedimentos e decisões que afetam sua vida.

Essa perspectiva modifica a extensão universitária. A imagem de uma instituição que leva conhecimento a quem não o possui estabelece uma assimetria anterior ao encontro. Uma extensão comprometida com a produção compartilhada parte do reconhecimento de capacidades existentes e de necessidades que exigem investigação.

Seus resultados devem retornar ao ensino e à pesquisa, alterando conteúdos e métodos. Caso contrário, a aproximação social permanece confinada a uma atividade lateral, valorizada nos discursos e subordinada na carreira. A indissociabilidade se realiza quando o contato com a sociedade transforma o núcleo acadêmico da instituição.

<><> A tecnociência solidária

A economia solidária coloca um problema que a transferência convencional não resolve. Empreendimentos organizados pela propriedade coletiva dos meios de produção e pela autogestão necessitam de conhecimentos compatíveis com essas relações. Não basta entregar a seus integrantes tecnologias concebidas para outras finalidades e esperar que a cooperação corrija todas as incompatibilidades. Chamamos de tecnociência solidária a construção dos conhecimentos e dos meios materiais de que essa organização do trabalho necessita. Sua elaboração depende da participação dos trabalhadores nas decisões sobre o que produzir e sobre como fazê-lo.

A adequação sociotécnica oferece um caminho para essa construção. Ela envolve examinar equipamentos, processos e formas de gestão à luz das relações que se pretende desenvolver. Pode exigir alterações simples, como tornar informações acessíveis ao coletivo, ou transformações mais profundas, como redesenhar uma etapa produtiva para diminuir riscos e ampliar o domínio compartilhado.

O ponto de partida é a situação concreta. Nem toda técnica existente precisa ser descartada, nem toda adaptação será suficiente. A análise deve identificar o que pode ser apropriado, o que requer modificação e o que precisa ser desenvolvido de outra maneira.

A eficiência também muda de conteúdo. Um processo que reduz o preço de um produto transferindo danos para os trabalhadores pode parecer eficiente numa contabilidade estreita. Ao incluir saúde, manutenção, efeitos ambientais e distribuição do tempo, a comparação assume outra configuração. A tecnociência solidária precisa tornar explícitos esses critérios e submetê-los a avaliação.

Seu compromisso social não a dispensa de funcionar, cumprir requisitos de segurança e utilizar recursos de maneira responsável. Exige que o desempenho seja examinado segundo as finalidades coletivamente estabelecidas, sem ocultar custos que recaem sobre outras pessoas.

O tempo constitui uma dimensão decisiva. A organização do trabalho pode economizar minutos numa operação e multiplicar a disponibilidade exigida de quem trabalha. Pode acelerar entregas enquanto impede estudo, descanso e participação na gestão.

Uma inovação deve ser examinada também pelo modo como distribui o tempo liberado. Se todo ganho se converte em intensificação, a promessa de progresso técnico se separa da experiência dos trabalhadores. Em empreendimentos autogestionários, discutir a duração da jornada e o destino dos ganhos de produtividade integra a decisão técnica, porque define o sentido social da transformação.

A dimensão ambiental exige cuidado semelhante. O conceito de capitaloceno chama atenção para relações de acumulação e apropriação que organizam a exploração da natureza. Seu interesse analítico está em evitar que a responsabilidade seja distribuída indistintamente por uma humanidade abstrata. Isso não dispensa examinar processos concretos e responsabilidades diferenciadas.

Para a universidade, a consequência é investigar como a degradação se relaciona com decisões produtivas e com formas de consumo, identificando alternativas que não transfiram os custos da recuperação ambiental justamente para as populações mais expostas aos danos.

Uma técnica ambientalmente promissora pode reproduzir dependência se exige insumos inacessíveis, contratos restritivos ou manutenção que os usuários não controlam. Por isso, a avaliação deve acompanhar o ciclo de uso e as relações econômicas que sustentam a solução.

Durabilidade, reparabilidade e domínio do processo importam tanto quanto o desempenho inicial. A produção solidária pode favorecer essas finalidades, mas não possui virtudes automáticas. Seus resultados precisam ser demonstrados, e seus limites devem ser reconhecidos. A construção de alternativas ganha consistência quando abandona a idealização e transforma dificuldades reais em questões de pesquisa.

<><> Transformar a instituição por dentro

Uma universidade orientada por essas questões precisa rever seus critérios de reconhecimento. Projetos construídos com coletivos de trabalhadores exigem continuidade, acompanhamento e possibilidade de corrigir caminhos. Não cabem facilmente em calendários que encerram a responsabilidade quando termina o financiamento.

A instituição pode criar formas de sustentar equipes, preservar registros e garantir que a saída de um estudante não interrompa compromissos assumidos. A permanência da relação integra a qualidade do trabalho. A descontinuidade, quando previsível e evitável, transfere à comunidade o custo de uma organização acadêmica que permanece voltada para si.

O financiamento precisa considerar a desigualdade entre os interlocutores. Empresas podem manter equipes especializadas para apresentar demandas e negociar projetos, enquanto grupos de trabalhadores nem sempre dispõem de condições semelhantes. Tratar ambos como parceiros formalmente iguais pode reproduzir essa assimetria.

A universidade deve criar meios para construir demandas com aqueles que não chegam a seus editais. Isso envolve presença continuada, escuta e apoio à formulação dos problemas. A necessidade coletiva não se apresenta espontaneamente na linguagem exigida por uma agência de pesquisa, e essa distância não diminui sua relevância.

Essa orientação traz uma exigência para a autonomia universitária. Ela protege a liberdade de investigar e de criticar, mas também deve assegurar condições para que diferentes necessidades sociais disputem legitimamente espaço na instituição. A vinculação à sociedade não pode converter-se em submissão a interesses imediatos, sejam eles empresariais ou comunitários.

Há pesquisas de longo prazo e investigações fundamentais cujo alcance não se deixa antecipar. Uma universidade pública deve preservá-las e, simultaneamente, justificar a composição de suas prioridades. A pluralidade exige mecanismos de decisão transparentes e capacidade de tornar públicas as razões das escolhas.

A proposta de tecnociência solidária não oferece um modelo pronto para substituir, de uma vez, a organização existente. Sua base material ainda precisa ser desenvolvida em muitos campos, e os empreendimentos que poderiam utilizá-la enfrentam restrições econômicas concretas. Reconhecer essa condição evita promessas vazias.

A tarefa é construir capacidades cumulativas, articulando experiências, identificando problemas recorrentes e compartilhando soluções passíveis de adaptação. A universidade pode contribuir decisivamente porque reúne especialidades e recursos que dificilmente estariam disponíveis a cada empreendimento isoladamente.

A mudança poderá ser reconhecida quando uma necessidade coletiva hoje ignorada alterar uma agenda de pesquisa, um currículo ou o uso de um laboratório, com a participação de quem enfrenta o problema. Isso exige deslocamentos institucionais verificáveis, sustentados por recursos e por critérios de avaliação coerentes.

A universidade pública fortalece sua legitimidade ao ampliar a capacidade social de conhecer e decidir. Seu futuro depende também da disposição de interrogar as relações que seus próprios instrumentos ajudam a conservar. Produzir conhecimento com os trabalhadores, para que possam governar as condições de sua existência, é uma tarefa científica à altura de sua responsabilidade histórica.

 

Fonte: Por Renato Dagnino e João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda 

 

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