segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Sergio Ferrari: O protesto social desafia uma Europa em crise

Por várias semanas, crescentes protestos sociais têm desafiado uma Europa enfraquecida por sua própria crise econômica e social. E também revelam o impacto da guerra na Ucrânia, que foi “apropriada” por esse continente.

O calor de um verão sufocante tem se deslocado nas últimas semanas para um outono europeu cada vez mais quente. Passou da onda de calor climática para um protesto social massivo nas ruas, notadamente na França e na Espanha, mas também na Bélgica, na Itália, em Portugal, na Albânia e na Grécia. O efeito do “tsunami da sociedade” em um continente cada vez mais interdependente ameaça inundar outras nações da região com mais raiva e agitação.

Embora em cada país a origem do protesto tenha suas próprias nuances, existem denominadores comuns importantes.

A deterioração do sistema educacional —e de muitas instituições e infraestruturas escolares, já degradadas— acendeu o pavio na França, na terceira semana de setembro. Muito rapidamente o surto se espalhou devido ao questionamento da grave situação social e econômica que afeta os setores sociais menos favorecidos. Situação e argumentos com algumas coincidências em relação àqueles apresentados pela juventude belga desde o início do mês; a da Itália, desde meados de outubro; a de Portugal e da Grécia, nos últimos dias.

A profunda crise habitacional –agravada pelo turismo de massa descontrolado, que transforma muitas propriedades familiares em residências temporárias para visitantes– despertou amplos setores da Espanha, especialmente jovens relegados a quartos frágeis e inquilinos despejados. O caso emblemático de Maricarmen Abascal, uma mulher de 87 anos, cujo despejo acelerou sua doença e morte, incentivou ainda mais a reação dos sindicatos de inquilinos que há muito enfrentam essa situação ilógica e antissocial do mercado imobiliário.

Na pequena Albânia, a mobilização nas ruas começou em maio, quando ativistas ambientais denunciaram a construção de um resort de elite financiado em parte por Jared Kuschner, genro do presidente dos EUA, Donald Trump. Gradualmente, setores e organizações que denunciavam a corrupção governamental e o aumento desenfreado do custo de vida foram se juntando à ação.

<><> Jovens nas ruas

Além das causas e dos slogans em jogo, trata-se de um protesto social com capacidade de mobilização tão massiva quanto dinamicamente contagiosa, que já envolve seis países da União Europeia (e a Albânia, candidata a ingressar na União) e mais de 210 milhões de habitantes de um total de 452 milhões. Direta ou indiretamente, essas são mobilizações que já estão tendo um impacto total na conjuntura política desses países. Na Espanha, por exemplo, os principais sindicatos convocaram uma greve nacional em 11 de novembro com ênfase no problema da habitação. Em Portugal, os sindicatos estão considerando medidas semelhantes. Na França, a mobilização estudantil foi acompanhada por forças de esquerda, sindicatos progressistas e pelos Coletes Amarelos, um movimento nascido espontaneamente no final de 2018, quando liderou combates sociais frontais. Praticamente desaparecidos da cena política por vários anos, os Coletes Amarelos retornaram com vigor.

A principal força motriz por trás dessas mobilizações, embora não a única, é a juventude, com uma participação marcante de adolescentes. Um elemento geracional significativo em um momento histórico em que não poucos analistas e intelectuais falavam, com certa miopia, da falta de interesse ou de participação dos jovens na vida política. Em sua análise, uma nuance de particular importância lhes escapou: para grandes setores da juventude europeia, a “política”, como sinônimo de identidade tradicional e participação partidária, não reflete sua própria interpretação de como vivê-la e desempenhar um papel de liderança. Para esses jovens, a política é uma realidade vivida a partir do cotidiano e de suas necessidades e reivindicações específicas, incorporando de perto condimentos culturais e comunicações quase indecifráveis para os partidos tradicionais e para o poder institucionalizado.

Dentro desse panorama, um elemento quase anedótico, mas de qualquer forma relevante: os jovens que se mobilizam atualmente preferem expressar suas ideias e reivindicações por meio de faixas improvisadas, muitas vezes muito pessoais e escritas à mão com marcadores coloridos em papelão simples. Ou previamente discutidas em reuniões de grupo. Sem dúvida, um exemplo sintomático de uma nova concepção de participação distanciada dos cartazes habituais e quase profissionais trazendo, quase sempre, conteúdos que não necessariamente representam essa juventude.

Quanto ao espaço físico, todas essas mobilizações ocorrem em um cenário único, comum e inegociável: as ruas das principais cidades, incluindo as das capitais, como Paris, Madri, Lisboa, Bruxelas, Roma, Tirana ou Atenas. Acontecem fora do tradicional enquadramento de espaços fechados, eventos partidários, campanhas políticas e instalações eleitorais. Ocupam áreas muito maiores, fortalecendo-se nos espaços públicos, como se quisessem reivindicar seu pertencimento coletivo. São geografias urbanas em disputa e, portanto, sempre correndo o risco de cruzar a estreita fronteira que separa o protesto de rua da violência “descontrolada”, como aconteceu em 17 de outubro na França devido ao extraordinário volume expansivo da mobilização, às constantes provocações policiais e à total improvisação do governo francês.

Naquele dia, realizou centenas de desfiles e marchas em mais de vinte cidades, com uma convocatória que, segundo seus organizadores, alcançou 800 mil manifestantes. Embora a destruição de empresas e prédios públicos, principalmente em Paris, Limoges, Marselha, Toulouse e Lyon, tenha monopolizado a cobertura jornalística nacional e internacional —estimulada pelo instinto sensacionalista da mídia—, o maior número de mobilizações cidadãs foi pacífica e com expressões artísticas e culturais criativas que foram ecoadas quase exclusivamente pelas mesmas redes sociais ligadas ao movimento juvenil.

Tudo isso no contexto de um ambiente repressivo que, no caso da França, se intensificou nas últimas semanas. Somente em 17 de outubro, a polícia prendeu mais de 2.300 pessoas. Segundo o sociólogo Sebastian Roché, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, nos quinze dias que antecederam o dia 17 de outubro, houve 8.000 interrogatórios e prisões de jovens, muitos deles de escolas de ensino médio, e quatro adolescentes foram mutilados por granadas explosivas ou balas de borracha que viajavam a 300 quilômetros por hora. Roché atribuiu a principal responsabilidade pelos eventos ocorridos naquele dia à incapacidade do governo.

A repressão estatal foi a resposta quase comum contra o movimento estudantil e seus aliados em quase todos os países onde se realizaram manifestações, com exceção da Espanha, onde as desqualificações contra os “acampados” foram promovidas por Isabel Ayuso, dirigente do Partido Popular e presidenta da Comunidade de Madri.

Portanto, não é surpreendente que, à medida que o protesto, assim como a repressão, aumentava, os slogans antifascistas e antipolícias se multiplicassem, como de fato aconteceu, por exemplo, na França e na Bélgica. Isso reflete a crescente preocupação de grandes setores da juventude europeia –atualmente muito polarizados– com a ascensão das forças pró-nazistas na grande cena.

<><> A crise, a mãe da raiva

Significativamente, as maiores e mais intensas mobilizações ocorreram na França, um país que enfrenta uma crise política que pode explicar, ainda que parcialmente, a crescente perda de credibilidade do Estado e das forças que o governam. A origem mais próxima dessa última fase da crise institucional são as eleições legislativas de junho de 2024 convocadas pelo presidente Emmanuel Macron. Embora o vencedor tenha sido a Nova Frente Popular de Esquerda, à frente do partido presidencialista Renascença e da Agrupação Nacional, de extrema direita, Macron ignorou os resultados e foi destituindo instituições e nomeando ministros segundo a sua vontade, em um processo de enfraquecimento institucional acelerado. Sem oferecer respostas concretas às principais reivindicações em jogo, como melhorias na educação, saúde e salários.

Por outro lado, os números da economia não se encaixam no Estado francês, que, atualmente, enfrenta problemas econômicos quase insolúveis, o que empalidece seu papel como segunda “locomotiva”, atrás apenas da Alemanha, da agora debilitada União Europeia.

As projeções de crescimento para este ano, de, originalmente, quase 1%, tiveram que ser revisadas para baixo após um primeiro trimestre modesto e da óbvia estagnação no segundo. Ao mesmo tempo, a inflação continua subindo (com 2,9% no final do ano), o que penaliza ainda mais o orçamento mensal das pessoas e seu poder de compra. O desemprego também continua crescendo (quase 9% até o final do ano, segundo cálculos oficiais). E a dívida pública já representa 119% do Produto Interno Bruto, o que coloca a França entre os países mais endividados da Zona do Euro.

Uma realidade que o diário Le Monde descreveu em um artigo de setembro da seguinte forma: “A economia francesa em total desacoplamento do resto da Europa: crescimento fraco, inflação e aumento do desemprego”. Segundo o Le Monde, “o veredito é severo, a comparação é dolorosa: enquanto a França está para trás, o resto da Europa avança”. Com essa perspectiva de crescimento de apenas 0,4%, este ano a França geraria, em 2026, três vezes menos do que a média das grandes economias da União Europeia… Luz vermelha para as grandes economias europeias, a França também é o único país cuja economia desaceleraria.

<><> França e guerras, especialmente a da Ucrânia

Nestes quatro anos e oito meses desde a explosão do conflito entre Rússia e Ucrânia, em fevereiro de 2022, a França apoiou bilateralmente Kiev com somas significativas que enfraquecem seu próprio orçamento e, em particular, ameaçam o Estado social, cujos cortes e enfraquecimento estão hoje no centro do amplo protesto cidadão.

A falta de transparência governamental não é menos preocupante. Como diz a Conflits, uma revista especializada em geopolítica, o debate atual no país “é marcado por discrepâncias em termos de números”. Números que variam dependendo de como são calculados –seja como ajuda prometida ou distribuída, seja militar ou civil. De qualquer forma, o valor varia entre 6,5 bilhões e 26 bilhões de euros.

Além dessa ajuda direta, a economia francesa, conforme indicado por várias fontes, continua sofrendo este ano com as repercussões estruturais e orçamentárias da guerra na Ucrânia, agravadas ainda mais pelo conflito no Oriente Médio e seu impacto adicional no aumento dos preços dos combustíveis.

Os gastos públicos quase astronômicos desde o início do conflito na Ucrânia já representam cerca de 30 bilhões de euros em energia e cerca de 10 bilhões em combustível para a França, o que pesa significativamente sobre as finanças do Estado. Esses valores referem-se, em particular, a medidas econômicas para limitar ou congelar o preço de certos bens e serviços essenciais, como eletricidade ou gás, para proteger os consumidores contra fortes aumentos de preços e a tendência inflacionária resultante daquela guerra.

Por outro lado, a União Europeia como um todo tem permanecido como principal provedora de ajuda financeira à Ucrânia desde o início do conflito. Até o momento, 117,3 bilhões de euros foram mobilizados do orçamento da UE, pagos pelos países membros a partir de cortes nacionais. Em outras palavras, fundos da UE para Kiev, que têm impacto direto na redução da cooperação internacional e dos projetos sociais e produtivos da própria União Europeia. A guerra custa muito e os cidadãos continuam pagando por ela com seus impostos e sacrifícios.

<><> Rua e votos

As crises internas dos países europeus; o impacto da guerra na Ucrânia e no Irã em suas economias e programas sociais; o significativo aumento orçamentário da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para defesa e segurança, condicionado por Washington, e o enfraquecimento geopolítico da Europa no contexto internacional, muito distante dos Estados Unidos, da China e até mesmo da Rússia, tudo isso pinta um quadro complexo para o Velho Mundo e seus atuais governantes. Por isso, não é surpreendente que, nesse contexto, a extrema-direita continental afie suas garras com discursos populistas. E que, ao mesmo tempo, atores sociais importantes, como os jovens, cada vez mais punidos em seus direitos cotidianos, estão indo às ruas, desafiando instituições enfraquecidas que, por enquanto, só conseguem reprimir mesmo levando o exército às ruas, como em Milão, Itália.

Uma questão central permanece e só o tempo poderá esclarecê-la: como os protestos sociais atuais impactarão o cenário político de cada país e da própria União Europeia?

Na Espanha, diante das mobilizações por moradias dignas, o presidente Pedro Sánchez dissolveu o parlamento que bloqueou duas leis que tentavam oferecer soluções parciais, e convocou eleições antecipadas para 29 de novembro. Na França, as eleições presidenciais em seis meses permitirão avaliar a relação entre as ruas e os votos. Por enquanto, os jovens, principais protagonistas dessa já histórica mobilização, parecem estar se afastando dos cálculos políticos eleitorais e preferem continuar apostando em sua própria agenda de direitos essenciais para exigir e conquistar.

¨      Europa em protestos: insatisfação social acirra disputas políticas

Manifestações cada vez maiores tomam o coração da Europa e desafiam governos diante do aumento do custo de vida, agravado pela alta do preço da energia. A insatisfação econômica geral se soma a protestos estudantis e contra a situação de moradia em países como Espanha, França, Itália e Portugal e passa a ser usada como arma política.

A pressão sobre o custo de vida em países da Europa está diretamente relacionada às consequências das guerras na Ucrânia e no Irã, que provocaram dois grandes choques energéticos em menos de cinco anos. A invasão russa da Ucrânia, em 2022, comprometeu o abastecimento de gás natural russo, do qual o continente era fortemente dependente.

Antes da guerra, a Rússia respondia por aproximadamente 45% das importações de gás da União Europeia. Com a redução dos fornecimentos, os países europeus precisaram buscar alternativas, principalmente gás natural liquefeito (GNL) transportado por navios, além de acelerar investimentos em energias renováveis. Em outubro de 2026, a participação russa nas importações de gás havia caído para cerca de 12%, segundo a Comissão Europeia.

Em 2026, a guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã levou a uma nova escalada dos preços, principalmente devido às restrições à circulação de petróleo e gás pelo Estreito de Ormuz, uma das principais rotas energéticas do mundo. Mas agora, a Europa está sujeita às interrupções no transporte marítimo. Segundo dados apresentados pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em outubro, o preço do gás subiu 140% desde o fim de fevereiro, enquanto o diesel dobrou de preço.

O impacto chega ao orçamento das famílias por meio das contas de energia e combustíveis, mas também pressiona os custos de produção e transporte das empresas, alimentando a preocupação com a inflação.

A crise do custo de vida se somou às dificuldades de acesso à moradia e aos serviços públicos e se tornou o estopim que tem levado milhares de pessoas às ruas em diferentes países europeus. Embora as reivindicações variem, as manifestações refletem, também, a insatisfação crescente com as respostas dos governos.

Na França, protestos iniciados por estudantes contra a falta de professores e a precariedade das escolas ganharam força com a adesão de setores da sociedade pressionados pela alta dos combustíveis e pelo ajuste fiscal. Na Itália, estudantes e trabalhadores também se mobilizam por melhores salários, investimentos em educação e saúde e medidas contra a precarização do emprego, enquanto o governo de Giorgia Meloni responde aos episódios de violência com o endurecimento das medidas de segurança.

Na Espanha e em Portugal, a crise habitacional ocupa o centro das manifestações. O despejo da espanhola Maricarmen Abascal, de 87 anos, em Madri desencadeou uma mobilização nacional que aprofundou a crise política do governo de Pedro Sánchez. No país vizinho, os portugueses passaram a ocupar praças e organizar acampamentos para denunciar os preços elevados dos imóveis e aluguéis.

Antes de destrinchar as particularidades de cada país, vale destacar que essas manifestações já estão sendo exploradas eleitoralmente. Em razão da crise, o governo espanhol apresentou medidas para restringir a especulação imobiliária – que foram rejeitadas pelo Congresso – e acabou antecipando as eleições legislativas para o dia 29 de novembro. A França terá eleições presidenciais em abril do ano que vem e a Itália também terá eleições legislativas em 2027, à princípio em outubro.

¨      Usos políticos

Na França, o governo de Emmanuel Macron acusa o partido da extrema esquerda França Insubmissa, liderado por Jean-Luc Mélenchon, de incentivar a radicalização das manifestações, enquanto a extrema direita de Marine Le Pen explora os episódios de violência para reforçar seu discurso de defesa da ordem pública.

Na Itália, Giorgia Meloni adotou uma estratégia semelhante ao concentrar sua resposta no endurecimento das medidas de segurança, especialmente contra adolescentes envolvidos nos confrontos, e destacar a origem estrangeira de parte dos detidos. Nos dois países, a violência registrada durante os protestos abriu espaço para que o debate político se deslocasse das reivindicações sobre educação, salários e custo de vida para temas como segurança, imigração e responsabilidade dos movimentos de oposição.

Em Portugal, o governo de centro-direita atribui a escalada dos preços dos imóveis à falta de investimentos e de respostas estruturais dos governos anteriores do Partido Socialista, enquanto movimentos sociais e partidos de oposição cobram medidas imediatas para enfrentar a crise. O Executivo também passou a questionar a legitimidade das assembleias populares organizadas pelos manifestantes. Embora os contextos sejam diferentes, os protestos mostram como a insatisfação com as condições de vida passou a influenciar a agenda política europeia, colocando em disputa tanto as respostas econômicas dos governos quanto os limites da atuação do Estado diante das mobilizações sociais.

 

Fonte: Brasil 247/Carta Global

 

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