segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Sob Milei, renda de 2 em cada 3 argentinos não chega ao fim do mês

A renda de grande parte dos argentinos não chega ao fim do mês. Segundo levantamento da consultoria argentina Zentrix, os rendimentos de dois em cada três argentinos (65,3%) se esgotam antes do dia 20. Entre os mais pobres, mais de 83% ficam sem recursos até essa data. O problema afeta até integrantes da classe alta: apenas 61,9% conseguem atravessar todo o período e ainda poupar.

"A desigualdade é vivida no calendário. A classe social não define apenas quanto se ganha, mas também quanto dura o mês", afirma o relatório "Monitor de Opinião Pública", da consultoria.

Entre os menores de 40 anos, o percentual dos que ficam sem dinheiro antes do final do mês chega a 72% da população argentina. A pesquisa ouviu 1.438 pessoas em todo o país.

Mas o presidente argentino, Javier Milei, colocou os resultados em dúvida e gerou polêmica. "Se realmente ficam sem dinheiro no dia 20, como vivem dez dias sem comer nem beber?", questionou.

A resposta vem de Claudio Montiel, diretor da consultoria responsável pelo estudo. Em entrevista à DW, ele afirma que as pessoas recorrem ao endividamento. "As pessoas se endividam", diz. E fazem isso "para pagar despesas básicas; usam o endividamento para cobrir gastos correntes", detalha. Mais da metade dos entrevistados pegou dinheiro emprestado nos últimos seis meses.

"Sobrevive-se com dívida, fiado, ajuda da família, deixando de pagar contas ou comendo pior", afirma a economista Mercedes D'Alessandro, em entrevista à DW.

<><> Milei já relatou dificuldades financeiras

D'Alessandro lembra que o próprio Milei relata em seu livro El camino del libertario que, após perder o emprego, precisou administrar sua indenização para sobreviver durante quatro anos e limitar seus gastos ao equivalente a uma pizza por dia.

"Quando aconteceu com ele, isso mereceu um capítulo de seu livro. Quando acontece com os outros, ele zomba", afirma a economista. "Ele vai discutir com a própria autobiografia?", questiona.

"Milei briga com os dados", sustenta Montiel. Para o diretor da Zentrix, existe "uma forte separação entre o que acontece na realidade e o que Milei acredita que acontece na realidade". "Colocamos o dedo na ferida de uma realidade que é óbvia para todas as pessoas que vivem na Argentina".

<><> Discurso político que nega a realidade?

O economista Martín Kalos, da consultoria EPyCA, também questiona a reação do presidente. "A negação de Milei em relação a essa frase é diretamente grosseira", afirma.

Na avaliação dele, trata-se de "um discurso político que nega a realidade". E questiona como o presidente pode enfrentar, por meio de políticas públicas, o problema daqueles que não conseguem chegar ao fim do mês "se sequer reconhece o problema".

Por sua vez, o economista Juan Massot faz uma ponderação e diz ser preciso distinguir percepções sociais de fatos. "Parece mais uma controvérsia política do que técnica: as pessoas sentem que, a partir de determinado dia, estão quebradas, que lutam por cada peso e que há coisas que não podem comprar". A isso, soma-se a frustração, que pode levá-las a afirmar que o dinheiro só dura até o dia 20.

"Mas elas chegam ao fim do mês no limite, abrindo mão de alguns prazeres", observa.

Massot ressalta, no entanto, que essa distinção não implica ignorar os problemas enfrentados por grande parte da população, mas sim "interpretar os dados com cuidado, já que uma superinterpretação gera erros de diagnóstico e de comunicação".

Mas quais dados permitem retratar as dificuldades econômicas das famílias?

Um deles é o custo da cesta básica alimentar. Montiel, porém, questiona a forma como esse indicador é calculado.

Segundo o próprio Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (INDEC), sua composição se baseia em uma pesquisa de despesas das famílias realizada entre 1996 e 1997 e validada com dados de 2004 e 2005. Embora os preços sejam atualizados mensalmente, os padrões de consumo utilizados como referência têm várias décadas.

<><>Inadimplência em alta

Para além das percepções e das controvérsias em torno dos indicadores econômicos, um dado-chave é o aumento da inadimplência, que reflete a crescente incapacidade das famílias de quitar os empréstimos contraídos.

Segundo dados do Banco Central da Argentina, em julho, 12,94% do crédito bancário concedido às famílias encontrava-se em situação irregular, praticamente o dobro dos 6,6% registrados em agosto de 2025. Em agosto de 2026, a inadimplência recuou levemente para 12,81%.

Ainda assim, Massot destaca que a deterioração econômica da Argentina não começou com o atual governo. O PIB per capita do país apresenta "uma tendência negativa há cerca de 15 anos", assinala, razão pela qual as dificuldades enfrentadas pelas famílias também decorrem de "problemas de longa data".

As perspectivas também não são animadoras, segundo Martín Kalos, da consultoria EPyCA.

O economista adverte que "não há, no horizonte, perspectiva de melhora". Mesmo que a renda das famílias aumente temporariamente, explica, parte desse dinheiro seria destinada ao pagamento de dívidas em atraso, e não ao aumento do consumo.

<><> 'Isso é besteira', diz Milei ao debochar da dificuldade financeira dos argentinos

O presidente da Argentina, Javier Milei, negou que uma parcela dos argentinos tenha dificuldades para sobreviver e zombou de quem vivencia essa realidade, declarando que “é um monte de besteira”.

Em seu discurso durante uma participação na Argentina Oil & Gas Expo 2026, em Neuquén, nesta segunda-feira (19/10), ele ainda criticou a mídia, que, segundo ele, “só espalha mentiras”.

No entanto, um relatório recente do Monitor de Opinião Pública (MOP) da Zentrix Consultora revelou que dois terços dos argentinos enfrentam dificuldades para fechar as contas apenas com a renda de seus salários.

Os resultados revelam uma situação particularmente complexa entre os setores de baixa renda. De acordo com a pesquisa, 83,3% das pessoas da classe baixa ficam sem dinheiro antes do fim do mês, um problema que também afeta 72% dos menores de 40 anos.

Por sua vez, Milei seguiu defendendo o “progresso” do seu programa econômico, reafirmou o superávit fiscal e criticou duramente “a mídia corrupta” que expõe a realidade da queda do poder de compra de milhões de argentinos.

“A ideia de que as pessoas não conseguem pagar as contas é um monte de bobagens promovidas pelo kirchnerismo. A frase soa bem, mas é um completo absurdo. Se elas realmente ficarem sem dinheiro no dia 20, como vão sobreviver 10 dias sem comida ou água?”, disse.

Diante de empresários no evento, o presidente acrescentou: “não vamos nos deixar influenciar pela psicopatia dos filhos da p… que arruinaram o país”, convidando os argentinos a “refletir”.

O estudo da MOP também mostra que 56,2% dos entrevistados contraíram empréstimos nos últimos seis meses, uma tendência mais comum entre os jovens e aqueles de baixa renda.

<><> Economia da Argentina cai 1,74% em agosto e acende alerta de recessão

A economia da Argentina registrou uma queda de -1,74% em agosto deste ano, se comparado com o mesmo mês de 2025. O resultado leva especialistas a apontarem um risco de recessão no país vizinho.

Em relação a julho deste ano, a atividade econômica da 2ª maior economia da América do Sul cresceu 0,1%.

Este é o segundo mês consecutivo que os números apresentam retração. Em julho de 2026, houve uma queda de -2,8% em relação a julho de 2025 e redução de -1,5% em relação a junho.

Os dados são do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) da Argentina, instituição oficial responsável por medir os indicadores sociais e econômicos do país.

No acumulado de 2026 terminado em agosto, a economia argentina cresceu 1,2%, ante um crescimento de 1,7% registrado no acumulado do ano terminado em julho.

A economista Clara Brenck, professora adjunta no Departamento de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explicou à Agência Brasil que a Argentina pode estar entrando em uma recessão econômica.

“O desemprego também aumentou muito, o que também é indício disso [recessão]. Acho que o cenário é preocupante da Argentina. Talvez a única coisa boa que se pode tirar disso é a redução da inflação, que eles conseguiram, mas também muito dependente da variação do dólar”, comentou.

<><> Recessão técnica

As atividades que mais contribuíram para derrubar a economia argentina em agosto deste ano foram, principalmente, o setor de pesca (-15,7%); intermediação financeira (-3,8%); comércio atacadista, varejista e reparações (-3,5%), indústria manufatureira (-3,2%); transportes e comunicações (-2,9%); e construção (-2,5%).

Por outro lado, contribuíram para elevar a economia da Argentina os setores de mineração e petróleo (+11,1); eletricidade, gás e água (+4,3); e hotéis e restaurantes (+3,1%).

A professora Ana Brenck, que também é pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (Made/USP), disse que são os setores de petróleo, gás e mineração o que tem “segurado que essa recessão não fosse pior”.

“Porém, são setores que dependem muito do mercado externo, de preços internacionais. O que está crescendo são coisas que não dependem da economia doméstica, basicamente. Por isso, não acho que dá para comemorar esse resultado”, disse.

Ana Paula cita as quedas dos setores industriais e comerciais como preocupantes por empregarem mais trabalhadores. Ela avalia que as políticas de corte de gastos do presidente Javier Milei contribuíram para esse cenário.

“Os cortes de imposto que o Milei fez com a promessa de que isso iria gerar investimento e aumentar a atividade econômica no setor privado, a gente não está observando isso”, concluiu.

Para especialista, o dado mais positivo foi o crescimento do setor hoteleiro “no sentido de segurar a queda do desemprego, mas, claro, é um setor também que tem um peso muito pequeno comparado com os outros”.

<><> Governo Milei

O ministro da Economia da Argentina, Luis Caputo, destacou o crescimento de 0,1% em agosto se comparado com julho. “Com essa dinâmica, o indicador tendência-ciclo se posicionou 6,6% acima do nível de dezembro de 2023”, explicou em uma rede social.

Caputo acrescentou ainda os dados das exportações agroindustriais de setembro, que teriam alcançado um máximo histórico do mês.

“Nos primeiros 9 meses do ano, as exportações da agroindústria somaram US$ 43.206 milhões de dólares, crescendo 13% em relação ao mesmo período de 2025 e registrando também um recorde histórico em volume”, comemorou o ministro.

¨      Política de austeridade de Kast aumenta desemprego e provoca queda do PIB no Chile

Eleito com a promessa de reduzir o Estado, cortar impostos e reativar a economia, o presidente do Chile, José Antonio Kast, vem enfrentando uma crise econômica em apenas sete meses de mandato, com retração do Produto Interno Bruto (PIB) e desemprego em alta em meio a um ajuste fiscal.

No terceiro trimestre de 2026, o país registrou aumento de 1 ponto percentual (p.p.) no desemprego em 12 meses, que chegou a 9,6%. Além disso, houve queda de 0,3% no Produto Interno Bruto (PIB), depois de uma retração de 0,2% no 2º trimestre. O desempenho levou Kast a lançar, no final de setembro, um programa de investimentos públicos para tentar reativar a economia.

O plano prevê investimentos de 1,3 bilhão de pesos chilenos, com objetivo de criar empregos por meio de obras de infraestrutura, subsídios para criação de novos postos de trabalho e apoio ao financiamento de empresas.

Kast tomou posse em março deste ano, prometendo um plano de austeridade com corte de 3% das despesas do Estado e redução de impostos para empresas. A fórmula é semelhante à adotada nos Estados Unidos (EUA), por Donald Trump, e na Argentina, por Javier Milei.

Diante do choque no preço dos combustíveis nos últimos meses, motivado pelas guerras no Oriente Médio, o governo Kast decidiu não intervir para reduzir o preço, devido ao custo fiscal da medida. Com isso, o valor da gasolina e do diesel vêm crescendo com efeito inflacionário sobre toda economia.

Nesse cenário, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu a previsão de 1,8% de crescimento do PIB chileno em 2026, calculada em julho, para 0,6%, segundo projeção de outubro. Este é o segundo pior resultado da América do Sul, atrás apenas da Bolívia, onde o FMI prevê uma recessão de 3% neste ano.

O especialista em Chile e professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Fernando Henrique Lemos Rodrigues argumentou à Agência Brasil que o corte nos gastos praticado por Kast prejudica uma economia com dificuldades.

“Ele está freando a expansão dos gastos. Só isso já dá um impacto brutal sobre a economia chilena, porque ela está diante de uma conjuntura bastante precária no seu principal setor, que é do cobre”, disse.

<><> Mineração em queda

As dificuldades na exploração de cobre vêm alimentando a crise. De janeiro a agosto deste ano, a produção está 8% inferior ao mesmo período de 2025, segundo a Câmara Mineira do Chile.

O doutor em teoria econômica Fernando Rodrigues explica que o cobre representa entre 40% e 50% do total das exportações chilenas.

“O esgotamento de algumas minas e os problemas de tecnologia para extração do minério, somados a eventos climáticos extremos que impediram o escoamento da produção e a movimentos operários por aumentos salariais, têm criado entraves à economia do cobre”, avalia o professor da UFRRJ.

<><> Corte de gastos

A agenda de austeridade do presidente José Antonio Kast, um admirador da ditadura chilena de Augusto Pinochet (1973-1990), previa uma redução bruta de 3% nos gastos do Estado. Os dois primeiros informes do governo indicaram uma redução de despesas da ordem de 2 trilhões de pesos, algo em torno dos 0,6% do PIB chileno.

Um levantamento do jornal chileno The Clinic, que analisou decretos de 17 das 25 pastas do governo, calculou que o corte ultrapassou US$ 1,4 bilhão. A maior redução foi na saúde, que teve menos 413 bilhões de pesos chilenos.

Os demais ministérios mais afetados foram Habitação (corte de 200 bilhões); Educação (197 bilhões) e Trabalho (141 bilhões). Os cortes no ministério da Previdência somaram 706 milhões.

Rodrigues destacou que, ao mesmo tempo que deduz despesas em áreas sociais, o governo corta impostos das empresas. Para ele, isso se reflete em perda de receita do Estado, mas sem aumento dos investimentos privados.

“O rico faz o que nesse momento de extrema incerteza que é a crise? Ele pega esse dinheiro da redução dos impostos e retira do circuito econômico, normalmente direcionando a aplicações financeiras. É isso que ele faz”, explicou.

<><> Orçamento 2027

Para o orçamento de 2027, o governo prevê um aumento de 1,5% do PIB nas despesas, crescimento menor que o previsto anteriormente. Organizações e movimentos sociais têm denunciado a retirada de recursos de programas sociais.

A Fundação Horizonte Cidadão, criada pela ex-presidente Michelle Bachelet, apontou que os cortes no orçamento de 2027 devem prejudicar 48 programas sociais focados na população mais pobre, que somam 325 bilhões de pesos.

“Estes resultados contrastam com a promessa de campanha do presidente José Antonio Kast de que reduziria os gastos fiscais sem cortar benefícios sociais”, registrou o Centro de Investigação Jornalística (CIPER) do Chile.

Cortes anunciados na educação têm mobilizado estudantes no país em marchas que acabam em repressão policial. Nesse cenário, o recém-empossado presidente do Chile registra taxas superiores a 60% de desaprovação após apenas sete meses no poder.

 

Fonte: DW Brasil/Opera Mundi/Agencia Brasil

 

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