segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Reação alérgica alimentar: quais os sintomas e o que fazer

Imunologista e alergista do Hospital Santa Lúcia Sul, Franciane de Paula explica que reações alérgicas alimentares apresentam diversas manifestações e a gravidade delas não pode ser prevista com segurança. "Uma pessoa que já apresentou sintomas leves pode ter uma reação grave em uma exposição posterior", afirma.

Nos casos mais amenos, coceira na boca, urticária, vermelhidão na pele ou inchaço dos lábios — esse, o mais comum — são algumas reações possíveis. Sintomas gastrointestinais, como dor abdominal e vômitos, também podem surgir.

Os quadros de maior gravidade podem evoluir para anafilaxia, que compromete diferentes órgãos e sistemas ao mesmo tempo. Nesse caso, lesões de pele, urticária, dificuldade para respirar, tosse, espirros, queda da pressão arterial, perda de consciência e até parada cardiorrespiratória podem ocorrer.

<><> Como proceder

Como até pequenas quantidades de alimento podem ser suficientes para desencadear uma reação, a orientação médica é que aqueles que já tenham a confirmação de alergia evitem o alimento responsável. Franciane também destaca a importância de conhecer os sinais de alerta e como agir em emergências.

"A primeira medida é interromper o consumo e avaliar imediatamente a presença de sintomas e utilizar o seu plano de ação em caso de reação. Entretanto, não se deve esperar que os sintomas se agravem para procurar ajuda quando houver sinais de uma reação sistêmica", detalha.

Caso haja dificuldade para respirar, sensação de garganta fechando, alteração da voz, inchaço da língua, tontura intensa, desmaio ou sintomas que evoluam rapidamente, o paciente deve suspeitar de anafilaxia e aplicar imediatamente adrenalina autoinjetável, prescrita pelo médico, conforme avaliação. "Pacientes com histórico de alergia alimentar e risco de reações graves devem portar a caneta de adrenalina autoinjetável", reforça Franciane.

Apesar de muitas crises terem início minutos depois da exposição, a anafilaxia apresenta um período maior para manifestação. "O intervalo entre a refeição e o início dos sintomas não exclui, por si só, uma reação alérgica grave", avisa a alergista. "A principal mensagem é que a anafilaxia é uma emergência tempo-dependente: reconhecer os sinais e administrar adrenalina precocemente podem salvar vidas", conclui.

<><> Tragédia

A família de Amanda Marinho Nascimento, de 29 anos, que morreu na lua de mel em Portugal, conseguiu arrecadar o dinheiro necessário para custear as despesas, trazer o corpo da enfermeira ao Brasil e realizar o sepultamento. Agora, aguarda a realização da autópsia forense, prevista para ser feita até segunda-feira (26/10).

De acordo com Tiago Nascimento, marido de Amanda, ela sofreu uma reação alérgica grave a frutos do mar após almoçar em um restaurante na cidade de Leiria, em Portugal, na última quarta-feira (21/10). O quadro evoluiu para uma parada cardiorrespiratória. A enfermeira foi atendida inicialmente em um hospital da cidade. Depois, foi transferida para o Hospital Universitário de Coimbra, onde a morte foi constatada.

Casados há apenas 11 dias, os dois realizavam o sonho de oficializar a união e conhecer o Vaticano. Depois de percorrerem a Itália, partiram para Portugal para visitar parentes de Amanda. Eles voltariam nesta sexta-feira (23/10) para o Brasil.

Ao Correio, Tiago compartilhou sua admiração e amor por Amanda. "Ela sempre foi dedicada em tudo o que fazia. Era uma excelente enfermeira, uma mulher incrível, doce, meiga, de uma humildade extrema. Infelizmente, veio a falecer tão nova", lamentou. Ele aguarda o laudo para organizar o traslado do corpo ao Brasil.

•        Quando o corpo rejeita: o mistério das alergias tardias

Essenciais para a defesa do organismo, as reações do sistema imunológico têm como função proteger o corpo contra agentes nocivos. No entanto, quando essa resposta acontece de forma exagerada diante de substâncias comuns, como alimentos, medicamentos, poeira ou cosméticos, surgem as alergias. Já as intolerâncias alimentares, apesar de frequentemente confundidas com alergias, têm outra origem e exigem abordagens diferentes. Entender essas distinções é fundamental para evitar riscos à saúde e restrições desnecessárias.

Segundo a médica alergologista e imunologista do Instituto Nutrindo Ideais Camilee Tostes, as alergias podem se manifestar em qualquer fase da vida, embora muitas tenham início na infância. "Elas se desenvolvem quando o sistema imunológico passa a reagir de forma exagerada a certas substâncias que, geralmente, não representam perigo", explica. Nesse processo, o organismo produz anticorpos específicos, principalmente a IgE e, a partir do contato com o agente desencadeador, ocorre a liberação de mediadores inflamatórios, como a histamina, responsável pelos sintomas alérgicos, que podem variar de leves a graves.

A predisposição genética tem um papel importante nesse contexto. Ter pais alérgicos aumenta significativamente o risco de desenvolver doenças atópicas, como rinite, asma, dermatite atópica e alergias alimentares. Ainda assim, Camilee destaca que genética não é destino. "O ambiente, a alimentação, o microbioma intestinal e o estilo de vida tem um papel decisivo na expressão, ou não, dessa predisposição", afirma.

Nem toda alergia, porém, é permanente. Algumas, em especial na infância, podem regredir com o tempo. Outras tendem a persistir, mas isso não significa conviver para sempre com os sintomas. "Hoje sabemos que, ao tratar o paciente de forma integral, controlando o ambiente, a inflamação e modulando o sistema imunológico, é possível reduzir ou até eliminar manifestações alérgicas", explica a especialista, sobretudo em quadros leves ou moderados.

Uma das confusões mais comuns ocorre entre alergia alimentar e intolerância alimentar. Embora possam causar sintomas semelhantes, como dor abdominal, distensão, náuseas ou manifestações na pele, os mecanismos envolvidos são diferentes. Na alergia alimentar, há participação direta do sistema imunológico e risco de reações imediatas e potencialmente graves, como urticária, dificuldade respiratória e anafilaxia. Já a intolerância alimentar não envolve o sistema imune e está relacionada, em geral, à dificuldade de digestão ou metabolização de determinados alimentos, por deficiência enzimática, alterações da microbiota intestinal ou inflamação da mucosa.

As intolerâncias também costumam apresentar sintomas dependentes da quantidade ingerida, como ocorre na intolerância à lactose. "Elas não envolvem o sistema imunológico, diferentemente das alergias", reforça Camilee. O atraso no surgimento dos sintomas e a sobreposição de sinais entre as duas condições explicam por que o diagnóstico correto é tão importante.

<><> Mitos, sinais e diagnóstico

O intestino desempenha papel central nesse processo. De acordo com o médico de família da Amparo Saúde Felipe Bruno Santos da Cunha, alterações na microbiota intestinal influenciam diretamente o surgimento de alergias e intolerâncias. "Crianças com alergia alimentar apresentam menor diversidade de bactérias benéficas, como Bifidobacteria e Clostridia, favorecendo respostas inflamatórias e reduzindo a tolerância imunológica", explica. Estratégias com probióticos e prebióticos, quando indicadas, podem ajudar a restaurar o equilíbrio intestinal.

Outro ponto de atenção são as alergias a medicamentos. Elas ocorrem quando o sistema imunológico reconhece o remédio ou seus metabólitos como uma ameaça. As manifestações podem variar desde coceira e manchas na pele até reações sistêmicas graves. Por isso, é fundamental diferenciar alergia verdadeira de efeitos colaterais ou reações adversas, que nem sempre envolvem mecanismos imunológicos.

O diagnóstico das alergias começa pela história clínica detalhada, considerada a etapa mais importante do processo. A partir dela, podem ser solicitados testes cutâneos, exames de sangue, testes de provocação e avaliações complementares. "O diagnóstico moderno vai além de identificar o agente causador. Ele busca entender por que aquele organismo está reagindo daquela forma", afirma Camilee, destacando a importância de uma abordagem individualizada.

Alguns sintomas indicam risco de anafilaxia e exigem atendimento médico imediato, como vermelhidão generalizada de início súbito, inchaço dos lábios, língua ou rosto, dificuldade respiratória, queda da pressão arterial, desmaio, vômitos persistentes e dor abdominal intensa.

No senso comum, ainda persistem mitos sobre o tema. Nem todo desconforto abdominal após comer é alergia, exames sem indicação médica não diagnosticam intolerâncias, restrições alimentares sem orientação podem causar deficiências nutricionais e detox ou testes "milagrosos" não substituem avaliação clínica, segundo Felipe Bruno Santos da Cunha.

As pessoas desenvolvem reações adversas a alimentos comuns devido a condições individuais diretamente relacionadas a fatores genéticos, ambientais e imunológicos. A predisposição atópica, as alterações na barreira da pele e a exposição precoce a alérgenos favorecem situações alérgicas comuns. Além disso, a presença de doenças de pele na infância, como o eczema ou dermatite, e o histórico familiar aumentam o risco de alergia alimentar, enquanto outros pacientes nunca apresentaram sintomas por desenvolverem tolerância oral adequada aos alimentos.

A frequência e a quantidade de consumo de um alimento podem influenciar o desenvolvimento de alergia, especialmente em indivíduos geneticamente predispostos. A introdução tardia de alimentos potencialmente alergênicos, como o ovo e o amendoim, após os 6 a 12 meses de vida, aumenta o risco de sensibilização, enquanto a exposição à janela de oportunidade, aos 6 meses de vida, pode promover tolerância imunológica. No caso de intolerâncias, os sintomas geralmente dependem da dose ingerida, como ocorre na intolerância à lactose.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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