Cuba
anuncia medidas sociais em meio à crise econômica provocada pelo bloqueio dos
EUA
O governo cubano anunciou nesta
sexta-feira (23/10) uma série de medidas destinadas a proteger as parcelas mais
vulneráveis da população cubana. O programa prevê a entrega de ferramentas e
equipamentos de trabalho a famílias em situação de vulnerabilidade social, com
o objetivo de facilitar a criação de pequenas atividades econômicas que lhes
permitam gerar renda própria.
Em
consonância com as transformações econômicas pelas quais o país vem passando,
as iniciativas também buscam incentivar o trabalho por conta própria, um setor
em expansão na ilha. Ao apresentar o programa, Maily Morejón Concepción,
diretora do Observatório Social e Laboral, explicou que, entre os grupos
prioritários, estão as pessoas que exercem o trabalho de cuidado —
especialmente mulheres com filhos menores sob sua responsabilidade e baixa
renda —, os jovens que não estudam e não trabalham, as pessoas com deficiência
que possam desenvolver uma atividade econômica e os trabalhadores que atuam na
informalidade.
O
governo também anunciou um programa voltado a jovens de 18 a 30 anos que não
estudam e não trabalham. A iniciativa permitirá que eles recebam uma renda
mensal equivalente ao salário mínimo, enquanto participam de programas de
capacitação com duração de um a seis meses.
As
medidas são anunciadas em um contexto no qual Cuba enfrenta uma guerra
econômica por parte dos Estados Unidos. Desde o fim de janeiro, Washington intensificou o estrangulamento
energético contra a ilha, ameaçando impor sanções a terceiros países que vendam
ou forneçam petróleo a Cuba. Desde maio, além disso, ampliou as chamadas
“sanções secundárias”, direcionadas a setores que geram divisas para a economia
cubana, como o turismo, a produção mineral e os serviços de biotecnologia.
Cuba
precisa importar aproximadamente 65% da energia que consome. A escassez de
combustível tem graves consequências tanto para o cotidiano da população,
marcado pelos apagões e pelas dificuldades de acesso a serviços básicos, quanto
para a atividade produtiva, pois limita o funcionamento das indústrias e de
outros setores da economia. Nesse cenário, a Comissão Econômica para a América
Latina e o Caribe (Cepal) estima que a economia cubana terá uma retração de
10,3% neste ano.
Paralelamente,
a ilha atravessa profundas transformações sociais e econômicas. Em meados de
junho, o governo anunciou a implementação de um pacote de 176 medidas
destinadas a dinamizar a economia por meio da expansão
do setor privado. Embora esse processo tenha contribuído para o crescimento de
um setor privado emergente, que conseguiu ampliar a produção e as importações
do país, também aprofundou as desigualdades. Esse cenário impõe novos desafios
às políticas sociais, que buscam passar de um modelo de subsídios universais
para outro que concentre os recursos naqueles que mais precisam.
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Novos desafios
Em
entrevista ao Brasil de Fato, o comunicador cubano José Enrique González
Calvo relaciona essa mudança a um processo iniciado na década de 1990, após o
colapso da União Soviética, quando a crise econômica obrigou o governo a abrir
espaço para o capital estrangeiro, o setor privado e o turismo.
“Desde
aquele momento, começa a ficar comprometida a capacidade de manter aquelas
políticas igualitaristas que existiram nas décadas de 1970 e 1980 na economia e
na sociedade cubanas”, explica.
O
reconhecimento das desigualdades responde a uma realidade em que a distribuição
uniforme dos recursos já não é suficiente para atender às necessidades de toda
a população. Enquanto alguns setores contam com rendas mais altas, recebem
remessas ou trabalham em atividades econômicas mais dinâmicas, outros enfrentam
dificuldades cada vez maiores para garantir o próprio sustento.
“Em uma
sociedade em que já não somos todos iguais, continuar sustentando políticas
igualitaristas estava criando desigualdade”, afirma González Calvo. Ele
considera positivo que o governo reconheça explicitamente grupos
vulneráveis,
entre eles pessoas trans, pessoas com deficiência, mães com vários filhos e
jovens que vivem em bairros empobrecidos.
No
entanto, o comunicador diferencia as ajudas econômicas direcionadas dos
serviços que, em sua avaliação, devem continuar sendo universais e gratuitos,
como a saúde e a educação, devido à sua importância para garantir os direitos
de toda a população.
González
Calvo também relaciona o direcionamento das políticas sociais às dificuldades
financeiras do Estado cubano, agravadas pelo bloqueio estadunidense. “Se o
governo não tem dinheiro, é simplesmente quase impossível implementar esse tipo
de política, que exige recursos, que exige dinheiro”, observa.
O
desafio, alerta, será garantir que as medidas alcancem seus objetivos, corrigir
aquelas que não produzam os resultados esperados e obter os recursos
necessários para mantê-las no longo prazo. “A questão é como essas políticas
podem funcionar, como podem ser corrigidas, porque haverá políticas que talvez
não apresentem o resultado esperado”, pondera.
Dessa
forma, as iniciativas refletem uma nova lógica de intervenção estatal, na qual
as ajudas iniciais buscam fornecer ferramentas para que os beneficiários gerem
a própria renda e alcancem maior autonomia econômica, em um contexto no qual o
mercado assume um peso cada vez maior na economia cubana.
“Concentrar-me
em quem realmente precisa, garantir que essas pessoas que precisam do meu apoio
possam recebê-lo e buscar uma maneira de fazer com que, no longo prazo, elas
não dependam tanto do governo”, resume González Calvo.
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Cuba rejeita ‘falsas acusações’ dos EUA de envolvimento na guerra da Ucrânia
O
Ministério das Relações Exteriores de Cuba reiterou sua “absoluta rejeição” às
“falsas acusações” que o governo dos Estados Unidos tenta impor ao
construir uma narrativa sobre uma suposta participação do país caribenho na
guerra na Ucrânia. Em comunicado, a chancelaria cubana destacou que o objetivo
de Washington é “confundir e desinformar” a comunidade internacional.
“Nenhum
dos cidadãos cubanos que participaram ou estão participando de qualquer uma das
partes deste conflito” tem o “incentivo, apoio ou consentimento de qualquer
Estado ou instituição governamental cubana”, esclareceu o governo cubano, em
resposta à versão norte-americana que busca implementar a matriz de uma
presença oficial da ilha no conflito russo-ucraniano.
“Na
grande maioria, o recrutamento desses cidadãos cubanos, como o de muitas outras
nacionalidades, foi realizado a partir do exterior”, acrescentou.
O
governo de Cuba enfatizou que apoia a solução pacífica das guerras, por meio do
diálogo e das negociações, incluindo o caso da Ucrânia, de acordo com o direito
internacional e a Carta das Nações Unidas (ONU).
De
acordo com a nota do Ministério das Relações Exteriores, desde 2023, 17
processos da fase preparatória foram investigados pelo crime de mercenarismo,
com 49 réus, dos quais 43 foram apresentados ao Tribunal, com pedidos de
sanções entre cinco e 16 anos de prisão. Até o momento, foram realizados 10
julgamentos orais e dois estão pendentes.
“Ao
contrário dos Estados Unidos, Cuba tem um histórico limpo na luta contra a
grave praga do mercenarismo, contra o qual existe uma política de tolerância
zero no país. Por isso, Cuba processa e pune criminalmente o mercenarismo de
acordo com as disposições de sua legislação nacional e suas obrigações
internacionais”, recordou a pasta.
As
acusações de suposto envolvimento na guerra entre Rússia e Ucrânia fazem parte
de uma ofensiva unilateral sem precedentes e um bloqueio petrolífero por parte
de Washington contra a ilha, promovidos pelo governo de Donald Trump no começo
de 2026, que agravaram a crise humanitária no país.
Além de
ameaças de intervenção, sanções contra setores críticos, ataques à cooperação
médica internacional e acusações e sanções contra líderes cubanos, nas últimas
semanas, o governo cubano denunciou uma campanha de pressão norte-americana
sobre outros países para alterar a próxima votação sobre o bloqueio de Cuba,
que ocorrerá em 28 de outubro na Assembleia Geral.
Nesta
quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores Bruno Rodríguez denunciou que
o plano de “pressões brutais e ameaças dos Estados Unidos contra os
Estados-membros” é dirigido “pessoalmente” pelo secretário de Estado
norte-americano Marco Rubio e pelo representante norte-americano na ONU.
“Seus
métodos de persuasão incluem ameaças contra governos de impor tarifas
punitivas, suspender programas de cooperação, negar vistos a funcionários do
governo e suas famílias, apoiar forças de oposição nas próximas eleições e até
desestabilizar politicamente países”, disse o ministro.
“Eles
chegaram ao extremo ridículo de propor que certos países se abstenham ou, como
último recurso, se abstenham da votação caso não obtenham um voto contra Cuba.
É uma forma nova e perigosa de conduzir a diplomacia multilateral. Isso reflete
a impotência daqueles que não têm a verdade de seu lado e cujo único recurso é
a força”, acrescentou.
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Protestos na Venezuela cobram eleições livres e
pressionam governo interino
Milhares
de pessoas foram às ruas da Venezuela na quinta-feira (22/10) para pressionar
as autoridades por eleições e mudanças no sistema político. A mobilização,
liderada por setores da oposição ao governo interino de Delcy Rodríguez,
ocorreu em várias cidades e representa o primeiro protesto oposicionista de
alcance nacional em quase dois anos.
Os atos
acontecem em um momento de incerteza sobre o futuro político venezuelano. Desde
o sequestro do presidente
Nicolás Maduro
por forças norte-americanas, em janeiro, a presidente interina Delcy Rodríguez passou a manter uma
relação de cooperação com os Estados Unidos.
Apesar
de Donald Trump e Rodríguez terem declarado que haverá eleições, ainda não
existe uma data anunciada para a realização das disputas legislativas e
presidenciais.
María
Corina Machado, principal liderança da oposição e laureada com o Nobel da Paz,
defende que o processo eleitoral ocorra antes de julho de 2027. A mobilização
foi articulada pelo Vente Venezuela e teve manifestações em Caracas, Valência,
Maracay, San Cristóbal e Maracaibo.
Em
Maracay, a jovem Leosmary Hernández, de 18 anos, afirmou acreditar na
possibilidade de transformação política. Estudante de cosmetologia, ela relatou
as dificuldades econômicas e os obstáculos para estudar e disse manter
expectativas positivas em relação ao futuro do país.
A
disputa ocorre após décadas de confrontos entre o governo venezuelano e grupos
opositores. O movimento socialista governa o país desde 1999, quando Hugo
Chávez assumiu a Presidência, permanecendo no poder posteriormente com Nicolás
Maduro. Nesse período, protestos motivados pela crise econômica, pela inflação,
pela deterioração dos serviços públicos e por denúncias de repressão política
foram, em diferentes ocasiões, alvo de ações das forças de segurança.
No
mesmo dia das manifestações oposicionistas, o Partido Socialista mobilizou seus
apoiadores na capital venezuelana. A marcha percorreu o trajeto entre a Plaza
Venezuela e uma área próxima ao palácio presidencial, sob a justificativa de
promover a conscientização sobre o câncer de mama. Diosdado Cabello, ministro
do Interior e figura influente no aparato de segurança do país, participou do ato
exibido pela televisão estatal. Para evitar a concentração dos dois grupos no
mesmo local, os opositores transferiram sua manifestação para uma área próxima.
As
perspectivas de mudança também dependem das negociações em andamento entre o
governo interino e representantes de setores da oposição, com apoio de
Washington. As discussões envolvem possíveis alterações na Suprema Corte de
Justiça e no Conselho Nacional Eleitoral, com a proposta de criar condições
mais equilibradas para futuras eleições. A rodada mais recente ocorreu neste
mês.
O grupo político de Machado, contudo, não
participa das conversas. A dirigente afirmou que não pretende impedir o avanço
das negociações, embora ainda existam incertezas sobre a implementação das
reformas e seus prazos.
Além da
realização de eleições, os manifestantes cobraram a libertação de pessoas
detidas por motivos políticos. O Foro Penal, organização que oferece
assistência jurídica a presos e integrantes da oposição, estima que mais de 320
pessoas continuem nessa situação no país. O número permanece elevado apesar das
libertações promovidas neste ano com base em uma lei de anistia aprovada pelo
Poder Legislativo.
O
governo venezuelano contesta as acusações de manter presos políticos e
considera a anistia uma medida generosa. A divergência sobre as detenções,
somada à falta de datas para as eleições, mantém a pressão da oposição sobre as
autoridades interinas.
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Petro diz que Equador vive 'ditadura' após prisão de
Luisa González
O
presidente do Equador, Daniel Noboa, acusou nesta quinta-feira (22/10) o
ex-mandatário colombiano Gustavo Petro de pertencer a uma “grande estrutura de
tráfico de drogas e lavagem de dinheiro”, em declarações à revista Semana.
A acusação ocorreu logo após o político do Pacto Histórico denunciar, por meio
de rede social, que Quito vive uma “verdadeira ditadura” referindo-se à prisão
de Luisa González, ex-candidata presidencial presidencial pelo partido Revolução Cidadã (RC), no âmbito de uma
investigação sobre supostas irregularidades no financiamento de campanhas
eleitorais
“Uma
verdadeira ditadura está se desenvolvendo no Equador, que começa com fraude
eleitoral. O chamado escudo não é um escudo contra o tráfico de drogas, mas um
escudo contra a democracia”, escreveu Petro.
Noboa
logo reagiu e destacou que seu governo está “desestabilizando uma grande
estrutura de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro que inclui o ex-presidente
Petro”. Também nesta mesma quinta-feira, o equatoriano alegou à rádio Caracol
que o ex-presidente colombiano e González trabalham juntos há anos, alegando
que passaportes colombianos haviam sido entregues a supostos “criminosos”
ligados ao Correismo, o movimento político de Rafael Correa. Vale lembrar que
foram diversas as vezes que Noboa acusou Petro, sem provas, de ter ligações com
organizações criminosas.
Nesta
quinta-feira, González que sofre de uma perseguição política promovida pelo que
chamou de “ditadura de [Daniel] Noboa”, bem criticou o ataque sistemático às
liberdades democráticas e pediu unidade das forças progressistas contra essa
situação. Tratou-se do primeiro pronunciamento feito pela líder política, por
meio das redes sociais, após ter sido presa pelas agências de segurança do
regime equatoriano.
Na
plataforma X, a González descreveu a situação institucional do país como
insustentável e rejeitou as acusações proferidas contra ela. “Hoje é minha vez
de ser presa por uma acusação absurda. Responderei com a dignidade dos
equatorianos que nada devem e que estão comprometidos em alcançar a liberdade
do Equador e um futuro melhor para o país”, afirmou, alertando também sobre os
maus-tratos e torturas perpetrados contra presos políticos pela gestão
governamental.
As
investigações estariam baseadas no depoimento de uma testemunha chamada
Estefanía Molina Freire, que teria trabalhado na gestão financeira da campanha
presidencial de González em 2023, e que alega o recebimento de recursos
ilícitos de “fontes da Venezuela”, de entre US$ 300 mil e US$ 500 mil.
Após o
procedimento, parentes da líder denunciaram incerteza sobre seu paradeiro,
apontando que as autoridades administrativas não especificaram se ela está
detida em Manabí ou transferida para Quito para a audiência judicial.
O
partido Revolução Cidadã está atualmente suspenso pelo Tribunal Contencioso
Eleitoral do Equador (TCE). González tentava se candidatar ao cargo de
governadora da província de Manabí – cujo pleito acontecerá em 29 de novembro
–, com apoio do partido Pachakutik, mas foi impedida pelo mesmo tribunal.
“Aos
meus camaradas da Revolução Cidadã e de todas as forças progressistas digo: é
hora da unidade, unidade e unidade para alcançar liberdade e democracia no
país”, declarou González, em sua mensagem, também reiterando a determinação do
povo em superar a censura do regime.
Fonte: Brasil
de Fato/Telesur/Opera
Mundi

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