segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O Apocalipse contra a idolatria do dinheiro, os despejos e os poderes que nos governam

A verdadeira solução começa quando a dignidade humana prevalece sobre o lucro, a justiça sobre o privilégio e o serviço sobre a dominação. Começa quando deixamos de considerar inevitável que alguém perca a sua casa por não poder pagar, quando a política assume a sua responsabilidade e quando a Igreja não se limita a consolar as vítimas, mas ousa questionar as estruturas que as deixam desprotegidas.

<><> Eis o artigo.

“Saiam dela, povo meu!” (Apocalipse 18,4). A ordem é dirigida àqueles que vivem em um sistema cuja prosperidade se baseia na injustiça e cujo poder sedutor dificulta o reconhecimento de suas contradições. A Babilônia se sustenta não apenas pela força de seus governantes, mas também pelos interesses que protege, pelos privilégios que distribui e pela cumplicidade que cultiva. Sua denúncia levanta uma questão incômoda para qualquer época: como podemos viver sem participar daquilo que degrada a dignidade humana? Hoje, a questão se estende à economia, que transforma necessidades básicas em oportunidades de negócios; à política, que tolera desigualdades persistentes; e às instituições religiosas, quando priorizam sua influência em detrimento das exigências do Evangelho.

De qual cidade precisamos sair? De qual sistema? De quais cumplicidades? O que significa atender a esse chamado hoje, quando a riqueza se acumula, a moradia se torna um bem inacessível para muitos e uma pessoa idosa pode terminar seus dias longe da casa onde viveu por décadas?

O livro do Apocalipse não oferece uma resposta técnica para os problemas políticos e econômicos de nossa época. Oferece algo mais perturbador: um critério pelo qual podemos julgá-los. Denuncia uma sociedade que confunde prosperidade com justiça, poder com legitimidade e acumulação com bem-estar. Uma sociedade na qual governantes, mercadores e aqueles que se beneficiam da ordem estabelecida lamentam sua queda, mas mal parecem notar as vidas sacrificadas para mantê-la.

A Babilônia é a imagem desse mundo. E sua advertência se estende hoje à economia, à política e também à Igreja.

<><> A Babilônia não desapareceu

Em Apocalipse 17-18, Babilônia representa um poder que seduz governantes, enriquece mercadores e estende sua influência por meio do luxo, do comércio e da dominação. A referência alude a Roma, o centro do poder imperial, mas o símbolo transcende as circunstâncias históricas em que foi escrito.

A Babilônia não é apenas uma cidade. É uma lógica de poder: uma lógica que transforma seus interesses particulares em necessidades coletivas, apresenta seus privilégios como inevitáveis ​​e considera aceitável o sofrimento que lhe permite manter sua prosperidade.

Sua grandeza tem um preço. Os governantes lucram com suas alianças; os mercadores prosperam com seus negócios; aqueles que compartilham de suas vantagens temem perdê-las. Quando a cidade cai, todos choram. Mas quem chora por aqueles que foram explorados para tornar essa riqueza possível?

O capítulo 18 contém uma das denúncias mais poderosas de toda a Escritura. A enumeração das mercadorias comercializadas pela Babilônia culmina em uma expressão arrepiante: “escravos, isto é, vidas humanas” (Ap 18,13).

O problema não é o comércio em si, nem toda riqueza é inerentemente injusta. O problema surge quando a acumulação se torna ilimitada e as pessoas acabam sendo meros instrumentos de lucro. A questão ressoa ao longo dos tempos: o que acontece quando o dinheiro deixa de ser um meio de sustentar a vida e se torna a medida que determina quais vidas merecem ser sustentadas?

Não é necessário identificar a Babilônia com um país, um partido ou uma ideologia para reconhecer sua presença. Ela pode se manifestar onde quer que o poder econômico dite as decisões políticas, onde a lucratividade se sobreponha à dignidade e onde o sofrimento dos mais vulneráveis ​​seja aceito como um custo inevitável do progresso.

A Babilônia não precisa que todos os seus habitantes sejam maus. Basta que muitos considerem seus privilégios normais, suas consequências inevitáveis ​​e mudar as regras custoso demais.

<><> Uma cidade que expulsa seus habitantes

Uma cidade deveria ser um lugar para se viver. No entanto, nossas cidades correm o risco de se tornarem espaços onde é cada vez mais difícil permanecer. Moradia é uma necessidade humana fundamental, mas também um ativo financeiro, um investimento e uma fonte de lucro. O conflito começa quando sua dimensão econômica acaba se sobrepondo à sua função social.

Uma casa deixa então de ser apenas um lugar onde alguém dorme, cria os filhos, cuida dos parentes idosos e constrói relacionamentos. Ela se torna, acima de tudo, um ativo cujo valor deve aumentar. O bairro se transforma em uma oportunidade de negócio; seus habitantes, em variáveis ​​numa transação econômica; a presença contínua de uma família, em um obstáculo para o aumento da lucratividade.

A contradição é evidente: os valores dos imóveis podem subir enquanto as chances de possuir uma casa diminuem. O investimento imobiliário pode crescer enquanto jovens empregados lutam para se tornarem independentes, famílias gastam uma parcela desproporcional de sua renda com aluguel e idosos temem perder as casas onde viveram por décadas.

<><> O que significa progresso quando aqueles que sustentam uma cidade com seu trabalho não têm condições de morar nela?

A crise habitacional não é apenas um problema de preços. Ela afeta a verdadeira liberdade, a segurança pessoal, a saúde, as relações familiares e a possibilidade de construir um futuro. Quem não tem um lar estável não perde apenas um teto sobre a cabeça: pode também perder a continuidade dos seus relacionamentos, a sua autonomia e o seu lugar na comunidade.

Portanto, a habitação não pode ser tratada como uma mera mercadoria. Sua regulamentação deve conciliar os direitos legítimos dos proprietários com a necessidade de garantir o acesso digno e razoável a um recurso essencial. Nem todos os proprietários têm os mesmos recursos financeiros, nem todas as situações de inadimplência são iguais. Além disso, nem todos os despejos decorrem das mesmas circunstâncias. Precisamente por essa razão, são necessárias políticas que diferenciem as situações, protejam os mais vulneráveis ​​e ofereçam alternativas quando a situação de sem-teto for evitável.

Uma cidade pode enriquecer-se e empobrecer seus habitantes simultaneamente. A Babilônia começa quando o crescimento econômico deixa de questionar para quem cresce e à custa de quem.

<><> Maricarmen: a face humana da injustiça

O caso de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada em 23 de setembro de 2016 da casa em Madri onde morava há mais de sete décadas, trouxe à tona a dimensão humana da crise habitacional. Ela faleceu em 7 de outubro, após ser hospitalizada desde o despejo. Sua história provocou indignação pública generalizada e reacendeu o debate sobre despejos e a proteção de pessoas vulneráveis.

Não é necessário atribuir uma causa médica ao despejo, o que não cabe estabelecer, para compreender a gravidade do ocorrido. Basta observar a situação: uma idosa com deficiência, despejada da casa que fora seu lar por décadas e que faleceu sem jamais poder retornar.

Uma vida inteira pode ser condensada em uma única cena: uma porta se fechando, uma maca sendo levada para a rua, uma pessoa perdendo o lugar onde construiu suas memórias.

A linguagem jurídica pode descrever o procedimento. A linguagem econômica, calcular os custos. A linguagem administrativa, determinar a jurisdição. Mas que linguagem expressa a perda de um lar quando esse lugar guarda décadas de pertencimento, afeto e memórias?

É importante distinguir entre a legalidade de um procedimento e a justiça de suas consequências. O fato de uma ação ser legal não elimina a obrigação de examinar seu impacto humano, especialmente quando afeta pessoas vulneráveis. Tampouco significa que todos os despejos sejam ilegítimos ou que os direitos dos proprietários estejam desprotegidos. Significa que uma sociedade deve se perguntar quais salvaguardas estabelece para evitar que alguém fique em situação de indigência.

O caso de Maricarmen nos obriga a fazer uma pergunta fundamental: pode uma sociedade ser considerada justa se possui mecanismos para despejar uma idosa de sua casa, mas não garante uma solução oportuna que preserve sua dignidade?

A indignação pública é compreensível, mas não basta. Tampouco basta transformar uma tragédia em símbolo por alguns dias e depois voltar ao normal. A verdadeira homenagem consistiria em impedir que outros passassem por situações semelhantes. A compaixão que não muda nada corre o risco de se tornar uma forma respeitável de indiferença. Segundo dados do Conselho Geral da Magistratura (CGPJ) do primeiro trimestre de 2016, foram realizados 4.005 despejos judiciais na Espanha, o que equivale a uma média de 44,5 por dia. Esse número inclui despejos por falta de pagamento de aluguel, execuções hipotecárias e outras causas.

<><> Leão XIV: Não basta atender às emergências

Em 28 de setembro de 2026, durante a conferência de imprensa no voo de regresso da França para Roma, Leão XIV foi questionado sobre o problema da habitação e sobre o despejo de Maricarmen.

Sua resposta merece atenção porque ele mudou o foco do caso específico para as causas subjacentes. O Papa afirmou que o problema da habitação não pode ser resolvido apenas por uma paróquia, uma diocese ou a Igreja. Ele também pediu que os líderes políticos e as autoridades sejam instados a encontrar soluções para um problema que, como observou, está se agravando.

A importância desta intervenção reside numa distinção crucial: atender aqueles que sofrem as consequências de um problema é uma coisa, mas modificar as condições que o produzem é outra bem diferente. Uma paróquia pode fornecer alojamento temporário. Uma diocese pode mobilizar recursos. Uma comunidade pode apoiar uma família que enfrenta um despejo. Todas estas ações são necessárias. Mas nenhuma delas substitui a responsabilidade das autoridades públicas de desenvolver políticas habitacionais eficazes. A assistência imediata não pode servir de desculpa para deixar intocadas as causas profundas do problema dos sem-abrigo.

Leão XIV aponta, portanto, para uma questão que transcende a situação imediata: quando uma injustiça se repete, as estruturas que a tornam possível devem ser examinadas. Não basta reagir a cada emergência como se cada caso fosse uma desgraça isolada. É necessário perguntar por que essas situações ocorrem, quais interesses estão envolvidos, quais decisões as incentivam e quais alternativas poderiam evitá-las.

Aqui encontramos a voz do Papa e a denúncia do Apocalipse. Ambos nos obrigam a olhar além das aparências e a examinar a lógica que rege a realidade quando seus resultados conflitam com a dignidade humana.

A Igreja não precisa ditar uma solução técnica única nem se tornar um partido político. Mas também não pode se refugiar na caridade para se esquivar da dimensão pública da justiça. Sua responsabilidade inclui acompanhar as vítimas, desafiar os que detêm o poder e examinar criticamente as estruturas econômicas e sociais. A caridade é essencial, mas não substitui a justiça.

<><> Quando a habitação se torna um ídolo

A crítica de Babylon torna-se particularmente relevante quando aplicada a uma economia onde o acesso à moradia depende cada vez mais do poder aquisitivo. Não se trata de demonizar o mercado imobiliário ou culpar todos os proprietários de imóveis. Trata-se de questionar o que acontece quando um bem essencial à vida é submetido a uma lógica que pode recompensar a escassez, incentivar o acúmulo e negligenciar as necessidades daqueles com menos recursos.

Uma casa pode legitimamente ser propriedade privada. Mas também é, ao mesmo tempo, um bem com função social. A tradição cristã preserva ambos os aspectos sem reduzir um ao outro.

O Catecismo da Igreja Católica nos lembra que a propriedade privada está subordinada à destinação universal dos bens (n. 2403). Paulo VI, na Populorum Progressio (n. 23), questionou a concepção da propriedade como um direito incondicional e absoluto. Francisco retomou essa tradição na Laudato si' (n. 93), insistindo que o direito à propriedade não pode ser separado das necessidades dos outros.

Essas referências não fornecem uma resposta automática para todas as controvérsias relativas a aluguéis, regulamentação, construção ou habitação pública. Elas, no entanto, impedem que a defesa dos direitos de propriedade se torne um argumento que exclua qualquer obrigação para com aqueles que precisam de um lar.

O problema surge quando o valor de um imóvel é considerado mais importante do que a segurança de seus habitantes; quando o aumento da lucratividade é apresentado como um objetivo suficiente; ou quando a vulnerabilidade econômica é interpretada como uma falha individual, sem examinar as condições sociais que a agravam.

A idolatria do dinheiro começa quando lhe é concedida a autoridade para decidir quais necessidades humanas merecem ser atendidas e quais podem ser deixadas desprotegidas. Nem todo lucro é injusto. Nem todo investimento é especulação. Mas nenhum retorno econômico pode ser considerado moralmente suficiente se suas consequências humanas forem sistematicamente excluídas da análise.

A questão cristã não é se os proprietários têm direitos. Eles têm. A questão é se esses direitos podem ser exercidos sem qualquer consideração pelo bem comum e por aqueles que não têm alternativas de moradia. Quando a propriedade é completamente separada de sua função social, ela deixa de ser uma questão puramente privada e se torna uma questão de justiça.

<><> Até mesmo os governantes choram quando a Babilônia cai

Em Apocalipse 18, os reis da terra, os mercadores e os marinheiros lamentam a queda da cidade. Cada grupo observa a ruína sob a perspectiva de seus próprios interesses. Os governantes perdem uma fonte de influência; os mercadores, seus lucros; os marinheiros, o centro de seus negócios. A cena revela uma forma de cegueira moral: aqueles que se beneficiavam daquela ordem percebem, acima de tudo, suas próprias perdas.

A crítica à política surge quando o poder deixa de ser entendido como um serviço e se torna um instrumento de preservação, privilégio ou dominação. No problema da habitação, essa responsabilidade não pode ser examinada por meio de slogans partidários. Requer a análise dos poderes de cada nível de governo, das decisões tomadas, dos recursos alocados, dos resultados obtidos e das medidas que foram rejeitadas ou adiadas. Requer também a distinção entre responsabilidades judiciais, econômicas, municipais, regionais e nacionais, sem atribuir todos os males de um problema complexo a um único ator.

Essa complexidade não pode servir de desculpa para a inação. Quando uma necessidade fundamental afeta persistentemente grandes segmentos da população, as políticas públicas devem demonstrar sua capacidade de abordar as causas profundas, e não apenas gerenciar as consequências. A habitação exige políticas sustentáveis ​​para construção e reabilitação, disponibilidade de moradias acessíveis, proteção social, segurança jurídica e medidas mensuráveis ​​que permitam verificar seu impacto.

A questão não é escolher entre o mercado e o Estado como se um deles pudesse resolver todos os problemas. Trata-se de determinar qual combinação de responsabilidades, regras e instrumentos melhor garante o acesso à moradia e protege os direitos das pessoas.

O livro do Apocalipse não oferece um programa de governo. Ele oferece um critério pelo qual se pode julgar qualquer governo: a prosperidade de alguns não pode, por si só, justificar o sofrimento evitável de outros.

E esse critério também deve ser aplicado às instituições religiosas. Quando uma igreja busca manter sua influência por meio da proximidade com o poder, protege seus privilégios ou evita certas acusações para não desagradar seus aliados, ela corre o risco de se entrincheirar no próprio sistema que deveria desafiar. A fé não pode se tornar uma justificativa sagrada para a ordem vigente.

<><> "Para que vocês não se tornem cúmplices dos pecados deles"

Esta é a frase decisiva de Apocalipse 18,4. O chamado para sair da Babilônia não se trata apenas de evitar o castigo que possa vir. Trata-se de impedir a cumplicidade. A questão deixa de ser o que os poderosos estão fazendo e passa a ser também o que nós mesmos aceitamos.

A cumplicidade pode manifestar-se na indiferença ao sofrimento alheio, na defesa de privilégios injustificáveis, na aceitação da exclusão de algumas pessoas ou na convicção de que a nossa responsabilidade termina onde começam as decisões dos governantes.

Também pode assumir a forma de uma neutralidade que favorece sistematicamente os mais fortes, uma prudência que nunca se compromete ou uma moralidade privada que se recusa a examinar as consequências públicas de suas próprias decisões.

Na área da habitação, abandonar a Babilônia significa rejeitar a ideia de que a falta de moradia é uma consequência inevitável da vida econômica. Significa defender políticas que possibilitem o acesso digno à moradia, apoiar aqueles que enfrentam despejo e exigir que as instituições ajam antes que a vulnerabilidade leve à miséria.

Mas isso também significa reconhecer as limitações das respostas individuais. A solidariedade entre vizinhos pode impedir que alguém fique sozinho; a ajuda material pode proporcionar alívio emergencial; uma comunidade pode oferecer abrigo temporário. No entanto, nenhuma dessas iniciativas substitui uma política pública capaz de abordar as dimensões estruturais do problema.

Compaixão sem justiça atenua as consequências. Justiça sem compaixão pode se tornar uma abstração administrativa. Uma sociedade digna precisa de ambas.

O livro do Apocalipse não autoriza a divisão do mundo em uma minoria de puros e uma maioria de culpados. Ele se dirige ao povo de Deus, que também pode ser encontrado na Babilônia. Ninguém está isento de examinar suas próprias práticas, interesses e silêncios simplesmente por pertencer a uma comunidade religiosa.

A Igreja não pode alegar indiferença às contradições que denuncia. Deve questionar-se sobre o que faz com seus bens, como utiliza seus recursos e em que medida suas prioridades se alinham à sua missão. Deve acompanhar os pobres sem transformá-los em objetos de caridade, defender a justiça sem selecionar suas denúncias com base na filiação política dos responsáveis ​​e exigir transparência das autoridades públicas, ao mesmo tempo que aceita o escrutínio de sua própria conduta.

A saída começa quando a fé deixa de ser uma declaração de identidade e se torna uma forma concreta de responsabilidade.

<><> Partir sem abandonar as vítimas

Existe uma interpretação dessa exortação que deve ser descartada: a ideia de que a única resposta cristã a um mundo injusto é se afastar dele, proteger a própria consciência e esperar que suas estruturas desmoronem.

Essa interpretação confunde romper com indiferença. Se a ordem é partir para não ser cúmplice, isso não pode significar que aqueles com recursos abandonam os que não têm. Não se liberta da lógica da exclusão descartando os já excluídos. Não se combate a injustiça deixando sozinhos aqueles que a sofrem.

Para sair da Babilônia, é preciso resistir aos seus mecanismos e, ao mesmo tempo, construir alternativas. Significa apoiar pessoas ameaçadas de despejo, exigir soluções habitacionais, promover políticas eficazes, defender direitos fundamentais e rever práticas que transformam uma necessidade básica em fonte de exclusão.

Significa também recuperar uma dimensão comunitária da vida que a lógica do lucro tende a enfraquecer. Uma casa não é meramente um espaço privado. É o lugar a partir do qual uma pessoa participa da sociedade, estabelece conexões, cuida dos outros e encontra um certo grau de estabilidade. Quando alguém perde sua casa, nem sempre é apenas uma propriedade ou um contrato que se perde: uma rede de relacionamentos pode ser rompida, e nenhuma quantia de ajuda financeira pode restaurá-la completamente.

O Evangelho não propõe uma sociedade sem conflitos, nem oferece soluções imediatas para todas as desigualdades. Mas estabelece uma exigência: as instituições e as decisões humanas devem ser julgadas também pelas suas consequências para aqueles que menos podem se defender.

A esperança cristã não consiste em aguardar passivamente o colapso da Babilônia. Consiste em recusar aceitar como definitivo aquilo que desumaniza e em trabalhar para organizar a vida em comum de uma maneira diferente.

<><> De qual cidade devemos partir?

A questão permanece em aberto. Cada era constrói suas próprias Babilônias e desenvolve uma linguagem particular para justificar seus privilégios. A nossa conhece a linguagem da eficiência, da competitividade, da segurança, do crescimento e da inovação. Todos esses conceitos podem expressar bens reais. Tornam-se problemáticos quando apresentados como argumentos absolutos, imunes a quaisquer considerações éticas.

Vivemos também rodeados de informações sobre o sofrimento alheio. Temos consciência das guerras, dos deslocamentos, da precariedade e da exclusão. Contudo, a visibilidade da injustiça não garante a sua responsabilização. Podemos observá-la, comentá-la e partilhar imagens sem alterar as nossas prioridades nem questionar as estruturas que contribuem para a sua produção.

A Babilônia não precisa que ignoremos tudo o que acontece. Para ela, basta que a informação não se transforme em consciência, que a indignação não leve ao comprometimento e que a crítica jamais alcance nossos próprios interesses. Portanto, "sair dela" não pode ser simplesmente um chamado para abandonar as convicções alheias. Deve se tornar um exercício de autoexame coletivo.

Que injustiças consideramos toleráveis ​​por beneficiarem nosso bem-estar? Que privilégios defendemos sem questionar como são mantidos? Que sofrimentos aceitamos como inevitáveis? Que silêncios protegem nossa posição? Que imagem de Deus usamos para justificar decisões que o Evangelho deveria desafiar?

A questão se estende à economia, à política, à cultura e às instituições religiosas. Estende-se também à nossa compreensão de propriedade, sucesso e segurança. Não porque toda prosperidade seja suspeita, mas porque nenhuma prosperidade pode estar isenta de responsabilidade moral.

Leão XIV nos lembrou que a crise habitacional exige uma análise de suas causas e um apelo por soluções por parte das autoridades. O Livro do Apocalipse acrescenta uma questão mais radical: estamos preparados para abandonar a cumplicidade que permite que o problema persista?

Não basta que Babilônia caia. É necessário que ela deixe de governar nossa consciência. Uma cidade pode cair e deixar intacta a lógica que a sustentava. Um império pode desaparecer e a idolatria do poder sobreviver. Um governo pode mudar e a indiferença para com os fracos permanecer. Até mesmo uma instituição religiosa pode ser reformada sem que sua necessidade de privilégios desapareça.

A verdadeira solução começa quando a dignidade humana prevalece sobre o lucro, a justiça sobre o privilégio e o serviço sobre a dominação. Começa quando deixamos de considerar inevitável que alguém perca a sua casa por não poder pagar, quando a política assume a sua responsabilidade e quando a Igreja não se limita a consolar as vítimas, mas ousa questionar as estruturas que as deixam desprotegidas.

"Saiam dela, meu povo." Não se trata de abandonar o mundo àqueles que o governam, mas de deixar de aceitar que seu domínio seja inevitável. Não se trata de nos proclamarmos superiores aos outros, mas de reconhecermos nossa própria cumplicidade. Não se trata de nos refugiarmos em uma fé sem história, mas de impedir que a fé se torne apenas mais uma engrenagem na máquina da ordem que deveria desafiar.

O Evangelho não pode proclamar a dignidade humana enquanto aceita que o direito a uma moradia digna seja subordinado, sem limites, à capacidade de pagamento. Não pode falar de fraternidade enquanto a falta de moradia é tratada como uma inevitabilidade econômica. E não pode proclamar a justiça de Deus sem perguntar que tipo de sociedade permite que uma senhora idosa seja despejada da casa onde viveu por mais de setenta anos.

A questão crucial não é se veremos a Babilônia cair, mas sim se estamos dispostos a parar de cooperar com sua lógica enquanto ela ainda persiste. A questão mais perturbadora em Apocalipse não é quando a cidade cairá, mas o quanto dela já incorporamos em nossa maneira de pensar, governar, crer e viver.

 

Fonte: Por Rafael Lázcano, para  Religión Digital

 

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