O
Apocalipse contra a idolatria do dinheiro, os despejos e os poderes que nos
governam
A
verdadeira solução começa quando a dignidade humana prevalece sobre o
lucro, a justiça sobre o privilégio e o serviço sobre a dominação. Começa
quando deixamos de considerar inevitável que alguém perca a sua casa por não
poder pagar, quando a política assume a sua responsabilidade e quando a Igreja
não se limita a consolar as vítimas, mas ousa questionar as estruturas que as
deixam desprotegidas.
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Eis o artigo.
“Saiam
dela, povo meu!” (Apocalipse 18,4). A ordem é
dirigida àqueles que vivem em um sistema cuja prosperidade se baseia na
injustiça e cujo poder sedutor dificulta o reconhecimento de suas contradições.
A Babilônia se sustenta não apenas pela força de seus governantes, mas também
pelos interesses que protege, pelos privilégios que distribui e pela
cumplicidade que cultiva. Sua denúncia levanta uma questão incômoda para
qualquer época: como podemos viver sem participar daquilo que degrada a
dignidade humana? Hoje, a questão se estende à economia, que transforma
necessidades básicas em oportunidades de negócios; à política, que tolera
desigualdades persistentes; e às instituições religiosas, quando priorizam sua
influência em detrimento das exigências do Evangelho.
De qual
cidade precisamos sair? De qual sistema? De quais cumplicidades? O que
significa atender a esse chamado hoje, quando a riqueza se acumula, a moradia
se torna um bem inacessível para muitos e uma pessoa idosa pode terminar seus
dias longe da casa onde viveu por décadas?
O livro do Apocalipse não oferece uma
resposta técnica para os problemas políticos e econômicos de nossa época.
Oferece algo mais perturbador: um critério pelo qual podemos julgá-los.
Denuncia uma sociedade que confunde prosperidade com justiça, poder com
legitimidade e acumulação com bem-estar. Uma sociedade na qual governantes,
mercadores e aqueles que se beneficiam da ordem estabelecida lamentam sua
queda, mas mal parecem notar as vidas sacrificadas para mantê-la.
A
Babilônia é a imagem desse mundo. E sua advertência se estende hoje à economia,
à política e também à Igreja.
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A Babilônia não desapareceu
Em
Apocalipse 17-18, Babilônia representa um poder que seduz governantes,
enriquece mercadores e estende sua influência por meio do luxo, do comércio e
da dominação. A referência alude a Roma, o centro do poder imperial, mas o
símbolo transcende as circunstâncias históricas em que foi escrito.
A
Babilônia não é apenas uma cidade. É uma lógica de poder: uma lógica que
transforma seus interesses particulares em necessidades coletivas, apresenta
seus privilégios como inevitáveis e considera aceitável
o sofrimento que lhe permite manter sua prosperidade.
Sua
grandeza tem um preço. Os governantes lucram com suas alianças; os mercadores
prosperam com seus negócios; aqueles que compartilham de suas vantagens temem
perdê-las. Quando a cidade cai, todos choram. Mas quem chora por aqueles que
foram explorados para tornar essa riqueza possível?
O
capítulo 18 contém uma das denúncias mais poderosas de toda a Escritura. A
enumeração das mercadorias comercializadas pela Babilônia culmina em uma
expressão arrepiante: “escravos, isto é, vidas humanas” (Ap 18,13).
O
problema não é o comércio em si, nem toda riqueza é inerentemente injusta. O
problema surge quando a acumulação se torna ilimitada e as pessoas acabam sendo
meros instrumentos de lucro. A questão ressoa ao longo dos tempos: o que
acontece quando o dinheiro deixa de ser um meio de sustentar a vida e se torna
a medida que determina quais vidas merecem ser sustentadas?
Não é
necessário identificar a Babilônia com um país, um partido ou uma ideologia
para reconhecer sua presença. Ela pode se manifestar onde quer que o poder
econômico dite as decisões políticas, onde a lucratividade se sobreponha à
dignidade e onde o sofrimento dos mais vulneráveis seja aceito como um
custo inevitável do progresso.
A
Babilônia não precisa que todos os seus habitantes sejam maus. Basta que muitos
considerem seus privilégios normais, suas consequências inevitáveis e mudar as regras
custoso demais.
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Uma cidade que expulsa seus habitantes
Uma
cidade deveria ser um lugar para se viver. No entanto, nossas cidades correm o
risco de se tornarem espaços onde é cada vez mais difícil permanecer. Moradia é uma
necessidade humana fundamental, mas também um ativo financeiro, um
investimento e uma fonte de lucro. O conflito começa quando sua dimensão
econômica acaba se sobrepondo à sua função social.
Uma
casa deixa então de ser apenas um lugar onde alguém dorme, cria os filhos,
cuida dos parentes idosos e constrói relacionamentos. Ela se torna, acima de
tudo, um ativo cujo valor deve aumentar. O bairro se transforma em uma
oportunidade de negócio; seus habitantes, em variáveis numa transação
econômica; a presença contínua
de uma família, em um obstáculo para o aumento
da lucratividade.
A
contradição é evidente: os valores dos imóveis podem subir enquanto as chances
de possuir uma casa diminuem. O investimento imobiliário pode crescer enquanto
jovens empregados lutam para se tornarem independentes, famílias gastam uma
parcela desproporcional de sua renda com aluguel e idosos temem perder as casas
onde viveram por décadas.
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O que significa progresso quando aqueles que sustentam uma cidade com seu
trabalho não têm condições de morar nela?
A crise
habitacional não é apenas um problema de preços. Ela afeta a verdadeira
liberdade, a segurança pessoal, a saúde, as relações familiares e a
possibilidade de construir um futuro. Quem não tem um lar estável não perde
apenas um teto sobre a cabeça: pode também perder a continuidade dos seus
relacionamentos, a sua autonomia e o seu lugar na comunidade.
Portanto,
a habitação não pode ser tratada como uma mera mercadoria. Sua regulamentação
deve conciliar os direitos legítimos dos proprietários com a necessidade de
garantir o acesso digno e razoável a um recurso essencial. Nem todos os
proprietários têm os mesmos recursos financeiros, nem todas as situações de
inadimplência são iguais. Além disso, nem todos os despejos decorrem das mesmas
circunstâncias. Precisamente por essa razão, são necessárias políticas que
diferenciem as situações, protejam os mais vulneráveis e ofereçam
alternativas quando a situação de sem-teto for
evitável.
Uma
cidade pode enriquecer-se e empobrecer seus habitantes simultaneamente. A
Babilônia começa quando o crescimento econômico deixa de questionar para quem
cresce e à custa de quem.
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Maricarmen: a face humana da injustiça
O caso
de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos
despejada em 23 de setembro de 2016 da casa em Madri onde morava há mais de
sete décadas, trouxe à tona a dimensão humana da crise habitacional. Ela
faleceu em 7 de outubro, após ser hospitalizada desde o despejo. Sua história
provocou indignação pública generalizada e reacendeu o debate sobre despejos e
a proteção de pessoas vulneráveis.
Não é
necessário atribuir uma causa médica ao despejo, o que não cabe estabelecer,
para compreender a gravidade do ocorrido. Basta observar a situação: uma idosa
com deficiência, despejada da casa que fora seu lar por décadas e que faleceu
sem jamais poder retornar.
Uma
vida inteira pode ser condensada em uma única cena: uma porta se fechando, uma
maca sendo levada para a rua, uma pessoa perdendo o lugar onde construiu suas
memórias.
A
linguagem jurídica pode descrever o procedimento. A linguagem econômica,
calcular os custos. A linguagem administrativa, determinar a jurisdição. Mas
que linguagem expressa a perda de um lar quando esse lugar guarda décadas de
pertencimento, afeto e memórias?
É
importante distinguir entre a legalidade de um procedimento e a justiça de suas
consequências. O fato de uma ação ser legal não elimina a obrigação de examinar
seu impacto humano, especialmente quando afeta pessoas vulneráveis. Tampouco
significa que todos os despejos sejam ilegítimos ou que os direitos dos
proprietários estejam desprotegidos. Significa que uma sociedade deve se
perguntar quais salvaguardas estabelece para evitar que alguém fique em
situação de indigência.
O caso
de Maricarmen nos obriga a fazer uma pergunta fundamental: pode uma sociedade
ser considerada justa se possui mecanismos para despejar uma idosa de sua casa,
mas não garante uma solução oportuna que preserve sua dignidade?
A
indignação pública é compreensível, mas não basta. Tampouco basta transformar
uma tragédia em símbolo por alguns dias e depois voltar ao normal. A verdadeira
homenagem consistiria em impedir que outros passassem por situações
semelhantes. A compaixão que não muda nada corre o risco de se tornar uma forma
respeitável de indiferença. Segundo dados do Conselho Geral da Magistratura
(CGPJ) do primeiro trimestre de 2016, foram realizados 4.005 despejos judiciais
na Espanha, o que equivale a uma média de 44,5 por dia. Esse número inclui
despejos por falta de pagamento de aluguel, execuções hipotecárias e outras
causas.
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Leão XIV: Não basta atender às emergências
Em 28
de setembro de 2026, durante a conferência de imprensa no voo de regresso da
França para Roma, Leão XIV foi
questionado sobre o problema da habitação e sobre o despejo de Maricarmen.
Sua
resposta merece atenção porque ele mudou o foco do caso específico para as
causas subjacentes. O Papa afirmou que o problema da habitação não pode ser
resolvido apenas por uma paróquia, uma diocese ou a Igreja. Ele também pediu
que os líderes políticos e as autoridades sejam instados a encontrar soluções
para um problema que, como observou, está se agravando.
A
importância desta intervenção reside numa distinção crucial: atender aqueles
que sofrem as consequências de um problema é uma coisa, mas modificar as
condições que o produzem é outra bem diferente. Uma paróquia pode fornecer
alojamento temporário. Uma diocese pode mobilizar recursos. Uma comunidade pode
apoiar uma família que enfrenta um despejo. Todas estas ações são necessárias.
Mas nenhuma delas substitui a responsabilidade das autoridades públicas de
desenvolver políticas habitacionais eficazes. A assistência imediata não pode
servir de desculpa para deixar intocadas as causas profundas do problema dos
sem-abrigo.
Leão
XIV aponta, portanto, para uma questão que transcende a situação imediata:
quando uma injustiça se repete, as estruturas que a tornam possível devem ser
examinadas. Não basta reagir a cada emergência como se cada caso fosse uma
desgraça isolada. É necessário perguntar por que essas situações ocorrem, quais
interesses estão envolvidos, quais decisões as incentivam e quais alternativas
poderiam evitá-las.
Aqui
encontramos a voz do Papa e a denúncia do Apocalipse. Ambos nos obrigam a olhar
além das aparências e a examinar a lógica que rege a realidade quando seus
resultados conflitam com a dignidade humana.
A
Igreja não precisa ditar uma solução técnica única nem se tornar um partido
político. Mas também não pode se refugiar na caridade para se esquivar da
dimensão pública da justiça. Sua responsabilidade inclui acompanhar as vítimas,
desafiar os que detêm o poder e examinar criticamente as estruturas econômicas
e sociais. A caridade é essencial, mas não substitui a justiça.
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Quando a habitação se torna um ídolo
A
crítica de Babylon torna-se particularmente relevante quando aplicada a
uma economia onde o acesso à moradia depende cada vez mais do poder aquisitivo.
Não se trata de demonizar o mercado imobiliário ou culpar todos os
proprietários de imóveis. Trata-se de questionar o que acontece quando um bem
essencial à vida é submetido a uma lógica que pode recompensar a escassez,
incentivar o acúmulo e negligenciar as necessidades daqueles com menos
recursos.
Uma
casa pode legitimamente ser propriedade privada. Mas também é, ao mesmo tempo,
um bem com função social. A tradição cristã preserva ambos os aspectos sem
reduzir um ao outro.
O
Catecismo da Igreja Católica nos lembra que a propriedade privada está
subordinada à destinação universal dos bens (n. 2403). Paulo VI, na Populorum Progressio (n. 23), questionou
a concepção da propriedade como um direito incondicional e absoluto. Francisco
retomou essa tradição na Laudato si' (n. 93), insistindo que o direito à
propriedade não pode ser separado das necessidades dos outros.
Essas
referências não fornecem uma resposta automática para todas as controvérsias
relativas a aluguéis, regulamentação, construção ou habitação pública. Elas, no
entanto, impedem que a defesa dos direitos de propriedade se torne um argumento
que exclua qualquer obrigação para com aqueles que precisam de um lar.
O
problema surge quando o valor de um imóvel é considerado mais importante do que
a segurança de seus habitantes; quando o aumento da lucratividade é apresentado
como um objetivo suficiente; ou quando a vulnerabilidade econômica é
interpretada como uma falha individual, sem examinar as condições sociais que a
agravam.
A idolatria do
dinheiro
começa quando lhe é concedida a autoridade para decidir quais necessidades
humanas merecem ser atendidas e quais podem ser deixadas desprotegidas. Nem
todo lucro é injusto. Nem todo investimento é especulação. Mas nenhum retorno
econômico pode ser considerado moralmente suficiente se suas consequências
humanas forem sistematicamente excluídas da análise.
A
questão cristã não é se os proprietários têm direitos. Eles têm. A questão é se
esses direitos podem ser exercidos sem qualquer consideração pelo bem comum e
por aqueles que não têm alternativas de moradia. Quando a propriedade é
completamente separada de sua função social, ela deixa de ser uma questão
puramente privada e se torna uma questão de justiça.
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Até mesmo os governantes choram quando a Babilônia cai
Em
Apocalipse 18, os reis da terra, os mercadores e os marinheiros lamentam a
queda da cidade. Cada grupo observa a ruína sob a perspectiva de seus próprios
interesses. Os governantes perdem uma fonte de influência; os mercadores, seus
lucros; os marinheiros, o centro de seus negócios. A cena revela uma forma de
cegueira moral: aqueles que se beneficiavam daquela ordem percebem, acima de
tudo, suas próprias perdas.
A
crítica à política surge quando o poder deixa de ser entendido como um serviço
e se torna um instrumento de preservação, privilégio ou dominação. No problema
da habitação, essa responsabilidade não pode ser examinada por meio de slogans
partidários. Requer a análise dos poderes de cada nível de governo, das
decisões tomadas, dos recursos alocados, dos resultados obtidos e das medidas
que foram rejeitadas ou adiadas. Requer também a distinção entre
responsabilidades judiciais, econômicas, municipais, regionais e nacionais, sem
atribuir todos os males de um problema complexo a um único ator.
Essa
complexidade não pode servir de desculpa para a inação. Quando uma necessidade
fundamental afeta persistentemente grandes segmentos da população, as políticas
públicas devem demonstrar sua capacidade de abordar as causas profundas, e não
apenas gerenciar as consequências. A habitação exige políticas sustentáveis para construção
e reabilitação, disponibilidade de moradias acessíveis,
proteção social, segurança
jurídica e medidas mensuráveis que permitam
verificar seu impacto.
A
questão não é escolher entre o mercado e o Estado como se um deles pudesse
resolver todos os problemas. Trata-se de determinar qual combinação de
responsabilidades, regras e instrumentos melhor garante o acesso à moradia e
protege os direitos das pessoas.
O livro
do Apocalipse não oferece um programa de governo. Ele oferece um critério pelo
qual se pode julgar qualquer governo: a prosperidade de alguns não pode, por si
só, justificar o sofrimento evitável de outros.
E esse
critério também deve ser aplicado às instituições religiosas. Quando uma igreja
busca manter sua influência por meio da proximidade com o poder, protege seus
privilégios ou evita certas acusações para não desagradar seus aliados, ela
corre o risco de se entrincheirar no próprio sistema que deveria desafiar. A fé
não pode se tornar uma justificativa sagrada para a ordem vigente.
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"Para que vocês não se tornem cúmplices dos pecados deles"
Esta é
a frase decisiva de Apocalipse 18,4. O chamado para sair da Babilônia não se
trata apenas de evitar o castigo que possa vir. Trata-se de impedir a
cumplicidade. A questão deixa de ser o que os poderosos estão fazendo e passa a
ser também o que nós mesmos aceitamos.
A
cumplicidade pode manifestar-se na indiferença ao sofrimento alheio, na defesa
de privilégios injustificáveis, na aceitação da exclusão de algumas pessoas ou
na convicção de que a nossa responsabilidade termina onde começam as decisões
dos governantes.
Também
pode assumir a forma de uma neutralidade que favorece sistematicamente os mais
fortes, uma prudência que nunca se compromete ou uma moralidade privada que se
recusa a examinar as consequências públicas de suas próprias decisões.
Na área
da habitação, abandonar a Babilônia significa rejeitar a ideia de que a falta
de moradia é uma consequência inevitável da vida econômica. Significa defender
políticas que possibilitem o acesso digno à moradia, apoiar aqueles que
enfrentam despejo e exigir que as instituições ajam antes que a vulnerabilidade
leve à miséria.
Mas
isso também significa reconhecer as limitações das respostas individuais. A
solidariedade entre vizinhos pode impedir que alguém fique sozinho; a ajuda
material pode proporcionar alívio emergencial; uma comunidade pode oferecer
abrigo temporário. No entanto, nenhuma dessas iniciativas substitui uma
política pública capaz de abordar as dimensões estruturais do problema.
Compaixão
sem justiça atenua as consequências. Justiça sem compaixão pode se tornar uma
abstração administrativa. Uma sociedade digna precisa de ambas.
O livro
do Apocalipse não autoriza a divisão do mundo em uma minoria de puros e uma
maioria de culpados. Ele se dirige ao povo de Deus, que também pode ser
encontrado na Babilônia. Ninguém está isento de examinar suas próprias
práticas, interesses e silêncios simplesmente por pertencer a uma comunidade
religiosa.
A
Igreja não pode alegar indiferença às contradições que denuncia. Deve
questionar-se sobre o que faz com seus bens, como utiliza seus recursos e em
que medida suas prioridades se alinham à sua missão. Deve acompanhar os pobres
sem transformá-los em objetos de caridade, defender a justiça sem selecionar
suas denúncias com base na filiação política dos responsáveis e exigir transparência
das autoridades públicas, ao mesmo tempo que aceita o escrutínio de sua
própria conduta.
A saída
começa quando a fé deixa de ser uma declaração de identidade e se torna uma
forma concreta de responsabilidade.
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Partir sem abandonar as vítimas
Existe
uma interpretação dessa exortação que deve ser descartada: a ideia de que a
única resposta cristã a um mundo injusto é se afastar dele, proteger a própria
consciência e esperar que suas estruturas desmoronem.
Essa
interpretação confunde romper com indiferença. Se a ordem é partir para não ser
cúmplice, isso não pode significar que aqueles com recursos abandonam os que
não têm. Não se liberta da lógica da exclusão descartando os já excluídos. Não
se combate a injustiça deixando sozinhos aqueles que a sofrem.
Para
sair da Babilônia, é preciso resistir aos seus mecanismos e, ao mesmo tempo,
construir alternativas. Significa apoiar pessoas ameaçadas de despejo, exigir
soluções habitacionais, promover políticas eficazes, defender direitos
fundamentais e rever práticas que transformam uma necessidade básica em fonte
de exclusão.
Significa
também recuperar uma dimensão comunitária da vida que a lógica do lucro tende a
enfraquecer. Uma casa não é meramente um espaço privado. É o lugar a partir do
qual uma pessoa participa da sociedade, estabelece conexões, cuida dos outros e
encontra um certo grau de estabilidade. Quando alguém perde sua casa, nem
sempre é apenas uma propriedade ou um contrato que se perde: uma rede de
relacionamentos pode ser rompida, e nenhuma quantia de ajuda financeira pode
restaurá-la completamente.
O
Evangelho não propõe uma sociedade sem conflitos, nem oferece soluções
imediatas para todas as desigualdades. Mas estabelece uma exigência: as
instituições e as decisões humanas devem ser julgadas também pelas suas
consequências para aqueles que menos podem se defender.
A
esperança cristã não consiste em aguardar passivamente o colapso da Babilônia.
Consiste em recusar aceitar como definitivo aquilo que desumaniza e em
trabalhar para organizar a vida em comum de uma maneira diferente.
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De qual cidade devemos partir?
A
questão permanece em aberto. Cada era constrói suas próprias Babilônias e
desenvolve uma linguagem particular para justificar seus privilégios. A nossa
conhece a linguagem da eficiência, da competitividade, da segurança, do
crescimento e da inovação. Todos esses conceitos podem expressar bens reais.
Tornam-se problemáticos quando apresentados como argumentos absolutos, imunes a
quaisquer considerações éticas.
Vivemos
também rodeados de informações sobre o sofrimento alheio. Temos consciência das
guerras, dos deslocamentos, da precariedade e da exclusão. Contudo, a
visibilidade da injustiça não garante a sua responsabilização. Podemos
observá-la, comentá-la e partilhar imagens sem alterar as nossas prioridades
nem questionar as estruturas que contribuem para a sua produção.
A
Babilônia não precisa que ignoremos tudo o que acontece. Para ela, basta que a
informação não se transforme em consciência, que a indignação não leve ao
comprometimento e que a crítica jamais alcance nossos próprios interesses.
Portanto, "sair dela" não pode ser simplesmente um chamado para
abandonar as convicções alheias. Deve se tornar um exercício de autoexame
coletivo.
Que
injustiças consideramos toleráveis por beneficiarem nosso bem-estar? Que privilégios
defendemos sem questionar como são mantidos? Que
sofrimentos aceitamos como inevitáveis? Que silêncios
protegem nossa posição? Que imagem de Deus usamos para justificar
decisões que o Evangelho deveria desafiar?
A
questão se estende à economia, à política, à cultura e às instituições
religiosas. Estende-se também à nossa compreensão de propriedade, sucesso e
segurança. Não porque toda prosperidade seja suspeita, mas porque nenhuma
prosperidade pode estar isenta de responsabilidade moral.
Leão
XIV nos lembrou que a crise habitacional exige uma análise de suas causas e um
apelo por soluções por parte das autoridades. O Livro do Apocalipse acrescenta
uma questão mais radical: estamos preparados para abandonar a cumplicidade que
permite que o problema persista?
Não
basta que Babilônia caia. É necessário que ela deixe de governar nossa
consciência. Uma cidade pode cair e deixar intacta a lógica que a sustentava.
Um império pode desaparecer e a idolatria do poder sobreviver. Um governo pode
mudar e a indiferença para com os fracos permanecer. Até mesmo uma instituição
religiosa pode ser reformada sem que sua necessidade de privilégios desapareça.
A
verdadeira solução começa quando a dignidade humana prevalece sobre o lucro, a
justiça sobre o privilégio e o serviço sobre a dominação. Começa quando
deixamos de considerar inevitável que alguém perca a sua casa por não poder
pagar, quando a política assume a sua responsabilidade e quando a Igreja não se
limita a consolar as vítimas, mas ousa questionar as estruturas que as deixam
desprotegidas.
"Saiam
dela, meu povo." Não se trata de abandonar o mundo àqueles que o governam,
mas de deixar de aceitar que seu domínio seja inevitável. Não se trata de nos
proclamarmos superiores aos outros, mas de reconhecermos nossa própria
cumplicidade. Não se trata de nos refugiarmos em uma fé sem história, mas de
impedir que a fé se torne apenas mais uma engrenagem na máquina da ordem que
deveria desafiar.
O
Evangelho não pode proclamar a dignidade humana enquanto aceita que o direito a
uma moradia digna seja subordinado, sem limites, à capacidade de pagamento. Não
pode falar de fraternidade enquanto a falta de moradia é tratada como uma
inevitabilidade econômica. E não pode proclamar a justiça de Deus sem perguntar
que tipo de sociedade permite que uma senhora idosa seja despejada da casa onde
viveu por mais de setenta anos.
A
questão crucial não é se veremos a Babilônia cair, mas sim se estamos dispostos
a parar de cooperar com sua lógica enquanto ela ainda persiste. A questão mais
perturbadora em Apocalipse não é quando a cidade cairá, mas o quanto dela já
incorporamos em nossa maneira de pensar, governar, crer e viver.
Fonte:
Por Rafael Lázcano, para Religión
Digital

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