segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Bolsonarismo: o empoderamento da estupidez

Em 2015, durante cerimônia em que recebeu um título de doutor honoris causa, o escritor e filólogo Umberto Eco afirmou que o drama da internet foi ter promovido o “idiota da aldeia” a portador da verdade. Segundo Eco, em outras épocas, o “idiota da aldeia” falava apenas no bar após uma taça de vinho, sem grande impacto coletivo e logo sendo interrompido. No entanto, com a rede mundial de computadores, essas vozes obscuras ganharam alcance global e passaram a ser equiparadas ao conhecimento técnico e científico.

A partir da observação acima, podemos dizer que, no Brasil atual, o bolsonarismo empoderou os estúpidos. Aqueles indivíduos que antes se envergonhavam e não podiam sair por aí disseminando todos os tipos de preconceitos ou que, em reuniões de familiares e de amigos, logo eram cortados por suas opiniões imbecis, agora se orgulham de poder vender na internet a imagem de “politizados”. Saber que são milhões os fortalece. Porém, devido à capacidade cognitiva negativa, não são capazes de construir um “argumento” em favor das ideias bolsonaristas sem citar o nome do Lula e do PT.

O chamado “tiozão do churrasco” é o caso mais clássico de empoderamento, pois sua principal referência é o próprio Jair Bolsonaro. Seu estilo é marcado pelas piadas de cunho conservador, uso de apelidos capciosos para quem pensa diferente e provocações políticas baseadas em fake news aos familiares “comunistas” – rótulo genérico que ele utiliza para definir todos aqueles que estão minimamente à esquerda. Assim como o “idiota da aldeia”, era rapidamente calado em qualquer discussão. Mas, ao abrir o grupo de WhatsApp e acreditar que as besteiras que pensa condizem com a realidade, sente-se o mais inteligente dos seres.

Geralmente o “tiozão do churrasco” é pai daquele primo ressentido – outro tipo empoderado pelo bolsonarismo –, que odeia os parentes mais inteligentes do que ele. Não que a falta de recursos econômicos ou de tempo disponível o impedisse de se dedicar aos estudos. Sua ignorância foi opcional. Ele preferia sair por aí, ouvindo sertanejo universitário no talo e tomando porres homéricos.

Via de regra, melhorou de vida via algum tipo de trambique, mas adora posar de honesto e chamar o presidente Lula de ladrão. Incapaz de vencer uma discussão política com parentes via debate racional, ele se “vinga” postando stories provocativos nas redes sociais com dizeres tipo “chora petista” e “vamos aposentar o Lula”. Aqueles que conseguem articular duas frases se orgulham de escrever “textões” no Instagram. Tal como outrora foi o papel, o smartphone aceita tudo. Mas a diferença é que agora o que ele aceita é compartilhado com o mundo.

Outro sujeito empoderado pelo bolsonarismo é aquele colega dos tempos de escola que odiava as aulas de Sociologia, Filosofia, Geografia e História, pois os professores eram “doutrinadores”. No máximo, era aprovado nessas disciplinas porque “colava”, já iniciando assim as falcatruas que realizaria com frequência na vida adulta.

Seu ídolo é Nikolas Ferreira, a quem considera exemplo de referência política, uma vez que sempre está lacrando para cima dos petistas (o equivalente ao “comunista” do “tiozão do churrasco”). Dessa forma, pode descarregar todas as suas frustrações em relação aos ex-colegas mais inteligentes. Além disso, cultiva o ódio à universidade pública, seja por sua falta de capacidade, seja porque, quando chegou a alcançar o ensino superior, foi um aluno medíocre. Portanto, ele está em êxtase com os vários ataques de políticos da extrema direita a estudantes universitários.

O “idiota da aldeia” de Umberto Eco, portanto, não apenas ganhou o mundo: ganhou eleitores, mandatos e porta-vozes com milhões de seguidores nas redes sociais. Se antes ele era interrompido no bar, hoje é aplaudido em grupo de WhatsApp, citado como “referência política” e convidado a opinar sobre tudo: do STF à vacina. A aldeia, que antes o silenciava, agora lhe dá palco, plateia e algoritmo.

Evidentemente, o bolsonarismo não inventou a estupidez; apenas descobriu que ela era um eleitorado disponível e barato. Deu-lhe um nome, um inimigo (o PT, o comunista, a universidade) e, sobretudo, um espelho no qual ela se vê como inteligência. E é justamente aí que mora o perigo: quando a ignorância deixa de se envergonhar e passa a se orgulhar de si mesma, o debate público não apenas empobrece; ele se inverte. O estúpido já não precisa vencer a discussão. Basta não precisar mais dela.

 

Fonte: Fórum

 

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