segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Documento obtido pela PF contradiz Flávio e aponta dinheiro ilegal de Vorcaro para ‘Dark Horse

Parte do dinheiro que Daniel Vorcaro enviou para os Estados Unidos para bancar o filme “Dark Horse”, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, saiu de uma empresa de Fabiano Zettel ligada diretamente à fraude do banco Master. A conclusão é da Polícia Federal, em um despacho de 15 de outubro de 2026, obtido pelo Intercept Brasil.

A descoberta desmonta a justificativa dada pelo senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, de que os R$ 134 milhões que negociou com Vorcaro para custear o filme seriam dinheiro “privado” e “totalmente lícito” – ou seja, sem origem nos cofres públicos, ao contrário da maioria dos recursos movimentados pela fraude bilionária do Master. Também aponta que o dinheiro não saiu diretamente de Vorcaro para a empresa que intermediou o envio aos Estados Unidos.

O documento da PF cita uma planilha de controle entregue por Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, dono da Entre Investimentos. O arquivo detalha que a empresa dele recebeu, em uma conta no Bradesco, um depósito de R$ 12 milhões da Super Empreendimentos — que pertence a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, seu braço direito nas fraudes, ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha e atualmente preso.

Esse repasse foi feito em 12 de fevereiro de 2025, na véspera do primeiro aporte de 2 milhões de dólares enviado pela Entre Investimentos ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, para custear o filme. O Intercept já havia revelado, em maio passado, o comprovante bancário dessa transferência, realizada em 13 de fevereiro do ano passado.

A planilha de Mineiro revela que R$ 11,7 milhões foram liquidados em câmbio em 12 de fevereiro de 2025. No dia seguinte, houve a remessa de 2 milhões de dólares da Entre Investimentos ao Havengate. Para a PF, a cronologia dos fatos é compatível com as mensagens de Vorcaro de 11 de fevereiro de 2025, quando exigiu a resolução imediata do câmbio para o filme. “Preciso resolver HOJE”, escreveu Vorcaro a Zettel naquele dia, segundo registros revelados pelo Intercept na série Vaza Flávio.

A Polícia Federal aponta que a Super Empreendimentos funciona como uma engrenagem do “circuito financeiro de Daniel Vorcaro”. A empresa captava empréstimos fraudulentos do Master, que eram vendidos a fundos para limpar o balanço da instituição. O dinheiro era usado em investimentos que acabavam por retroalimentar o próprio banco de Vorcaro.

O esquema também envolvia a compra de bens. Foi a Super que adquiriu um apartamento no Itaim Bibi onde, segundo mensagens encontradas no celular de Vorcaro, teria ocorrido um encontro do ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques com prostitutas. A empresa de Zettel também financiava “A Turma”. O grupo liderado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, executava serviços de espionagem, invasões cibernéticas, ameaças e extorsões a mando de Vorcaro.

O despacho da PF também cita um documento, entregue à investigação pelo próprio Mineiro, que reforça o envolvimento da rede do Master na operação de financiamento do filme. Trata-se de uma carta-acordo emitida pela Calixsan Capital Management – empresa de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro e responsável pelo Havengate – para a Entre Investimentos, que indica como investidora na operação a Storm Empreendimentos e Participações Ltda, outra companhia de Zettel.

Para a PF, a Entre atuou como “interposta na operação” para substituir a firma de Zettel. Isso indica que o “financiamento do filme foi originalmente estruturado em nome de pessoa jurídica ligada ao círculo de Daniel Vorcaro”.

Os contratos de repasse da Entre Investimentos para o Havengate “não seguem classificação uniforme da natureza da operação nem do vínculo com o recebedor no exterior” – parte foi registrada como “investimento direto” e parte como “mercado financeiro e de capitais – ações”.

A investigação também pontua que ao menos um contrato para o envio de dinheiro ao exterior, de 25 de abril de 2025, usou o código de vínculo 40, exclusivo para “operação entre empresas do mesmo grupo econômico”. De acordo com a PF, isso é uma “indicação incompatível com a condição de mero cotista alegada pelo colaborador [Mineiro]”.

O documento da PF também menciona um depoimento que Mineiro deu após fechar acordo de delação premiada, no qual ele confirma que a Entre Investimentos fez sete repasses entre fevereiro e setembro de 2025 ao Havengate Development Fund LP, a pedido de Zettel e com o aval direto de Vorcaro, totalizando 12,3 milhões de dólares.

Em depoimento, Mineiro justificou o uso da Entre: a empresa de Zettel enfrentava entraves cadastrais para investir no exterior. A versão bate com as mensagens reveladas pelo Intercept em maio. Em 5 de fevereiro de 2025, Zettel reclamou a Vorcaro de dificuldades operacionais para fazer a remessa internacional dos recursos, já que o “câmbio do Master” estaria “criando caso”. Vorcaro, então, ordenou “fazer via Entre”, ao que Zettel respondeu: “meu sonho”.

Mineiro também declarou à PF que “os aportes [para o Havengate] foram custeados por saques da conta garantida [da Entre] no Banco Master, venda de ativos ou caixa próprio, com câmbio nos Bancos BS2 e Topázio e remessa à conta do fundo no JP Morgan Chase”. O documento da PF, no entanto, aponta que essa rota do dinheiro não foi usada no primeiro aporte ao Havengate, que veio diretamente da Super.

Por fim, o empresário alegou aos investigadores que jamais soube que o dinheiro financiaria um filme. No entanto, um documento obtido pela PF põe em dúvida essa versão. A carta-acordo emitida pela Calixsan Capital Management para a Entre estabelece um compromisso total de 24 milhões de dólares, com repasses a partir de 20 de janeiro de 2025.

No texto do acordo, consta a seguinte justificativa: “time is of the essence to the production of the film” (“o tempo é essencial para a produção do filme”, em tradução literal). Para a PF, a frase e o valor milionário indicam que Mineiro teria conhecimento sobre o motivo do envio dos recursos para os EUA.

O Intercept entrou em contato com Flávio Bolsonaro, Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, e com os advogados de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro – o ex-pastor e o ex-banqueiro estão presos. A defesa de Vorcaro disse que não vai comentar o assunto. Já os outros citados não responderam até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

<><> Próximos passos da investigação

A Go Up Entertainment LLC, produtora de “Dark Horse com sede nos Estados Unidos, recusou-se a fornecer à PF documentos sobre as operações do filme sem que fosse formalizado um acordo de cooperação jurídica internacional entre Brasil e EUA.

Diante disso, a polícia traçou como próximos passos da investigação concluir a análise de “dados telemáticos” de Zettel e Mineiro, finalizar a perícia contábil-financeira sobre documentos apresentados pelo braço brasileiro da Go Up e acionar a cooperação jurídica internacional. O objetivo é obter os registros financeiros do Havengate e da Go Up nos EUA para “identificar a origem, o trânsito e a destinação final dos recursos”.

Os investigadores também planejam ouvir Zettel, Calixto, Altieris Santana – sócio de Calixto no Havengate – e os responsáveis pela produtora Go Up, Karina Ferreira da Gama e Michael Brian Davis.

A reportagem procurou a Go Up, Karina Ferreira da Gama e Michael Brian Davis para questionar sobre a cooperação com as investigações e a prestação de contas do filme.

•        PF acha nota de Willer Tomaz citando indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil dólares”. Por Caio de Freitas

Uma anotação salva no aplicativo de notas usado pelo advogado Willer Tomaz de Souza, amigo do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), chamou a atenção dos investigadores da Polícia Federal (PF). A nota continha um valor de “180 mil dólares” (R$ 908 mil, na cotação atual) atrelado às palavras “Corregedoria”, “Agosto/21” e ao nome Paulo Maurício Fortunato.

Naquele mesmo mês, Paulo Fortunato havia deixado o comando do Departamento de Operações de Inteligência (DOINT) da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) do governo de Jair Bolsonaro, em um período de atividade da chamada “Abin Paralela”, como ficou conhecido o grupo que fazia uso, principalmente, do DOINT para comandar buscas contra adversários políticos, e até mesmo aliados, de Jair Bolsonaro (PL) por meio do software israelense de espionagem First Mile – o que a PF classificou como “organização criminosa”.

Ao resumir as acusações contra Paulo Fortunato, o relatório final da PF no caso “Abin Paralela” aponta que “o DOINT, sob sua direção [Fortunato], era a unidade central para a execução de buscas no sistema First Mile”, com “uso da estrutura para fins políticos e a perseguição de servidores”. A PF apontou que Fortunato teria sido “a autoridade demandante e o principal gestor da aquisição do sistema First Mile” em 26 de dezembro de 2018, nos últimos dias de governo Michel Temer (MDB) – imputação negada pela defesa de Fortunato, segundo apurado pela Agência Pública.

Para os investigadores, o ex-diretor da Abin “omitiu-se dolosamente no seu dever de implementar controles efetivos sobre o uso do First Mile e evitar a execução de ações clandestinas no DOINT. Sua omissão foi crucial para a continuidade das atividades clandestinas” e que “havia conhecimento, desde a origem, da ‘real natureza’ e das ‘características intrusivas’ da ferramenta, que permitiam a localização de dispositivos móveis sem autorização judicial por meio de interceptação de sinais, explorando vulnerabilidades do sistema de telefonia nacional”.

Segundo a PF, o DOINT “era o principal demandante e utilizador da ferramenta para monitorar alvos de interesse da ORCRIM [organização criminosa], incluindo políticos, jornalistas, advogados e servidores públicos, muitas vezes sem amparo em investigações formais ou finalidades institucionais legítimas”. Como já se sabe hoje, um dos alvos foi a então repórter da Agência Pública Alice Maciel.

Em agosto de 2021, o oficial de inteligência deixou a chefia do DOINT, oficialmente pedindo aposentadoria da Abin, mas retornou para o órgão de inteligência no atual governo Lula (PT), após a posse do atual diretor da agência, Luiz Fernando Corrêa. Fortunato passou a comandar a Secretaria de Planejamento e Gestão (SPG), setor responsável por aquisições de ferramentas e programas – como o First Mile – onde permaneceu até 20 de outubro de 2023. O oficial de carreira da Abin foi alvo de busca e apreensão da PF e foi afastado do cargo por suspeita de envolvimento nas atividades ilegais do órgão durante o governo Bolsonaro – como reportado pela Pública à época.

Em 2025, Fortunato foi indiciado pela PF por seu suposto envolvimento com a Abin Paralela, pelos crimes de organização criminosa, realizar interceptação de comunicações sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei, peculato, prevaricação de forma continuada e violação de sigilo funcional. Ele foi desligado oficialmente do governo somente em 9 de janeiro deste ano, com a conclusão do processo administrativo disciplinar contra ele por parte da Controladoria-Geral da União (CGU).

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<><> O que dizem Paulo Fortunato e Willer Tomaz

O advogado responsável pela defesa do ex-diretor da Abin, Oscar Luís de Morais, disse à Pública que a decisão da CGU foi “protocolar”, pois referia-se a um processo de exoneração de cargo em comissão na Abin. “O próprio senhor Paulo Maurício Fortunato pediu seu afastamento do órgão após a operação da Polícia Federal em outubro de 2023, e à época ele já estava aposentado, após 38 anos de serviço público sem qualquer registro de punição disciplinar durante sua carreira”, disse, acrescentando que ele é inocente no caso Abin Paralela e que seus atos à frente do DOINT se respaldam em um parecer técnico elaborado pelo próprio órgão de inteligência à época.

“Não tem nenhum ato que implique ele a não ser os atos de ofício, determinados por seus superiores naquele período”, afirmou. Além disso, a defesa alega que o ex-diretor da Abin “não conhece, nem tem qualquer relação com os senhores Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro” e desconhece qualquer contato do ex-diretor da Abin com o escritório de Willer Tomaz.

O advogado do ex-diretor da Abin nega o recebimento de quaisquer recursos de Willer Tomaz por seu cliente e informa que os US$ 171,8 mil [R$ 868 mil, em cotação da época] apreendidos pela PF durante as investigações do caso Abin Paralela, ainda em 2023, seriam fruto do trabalho do oficial de inteligência como adido militar na Argentina. “Foi o próprio senhor Paulo Maurício Fortunato quem mostrou aos investigadores o cofre onde os valores estavam guardados, tendo justificado a posse dos dólares e inclusive aberto, espontaneamente, seus sigilos bancário e fiscal para as autoridades”, afirmou o advogado Oscar Morais.

“A suspeita levantada pela Polícia Federal acerca de um suposto recebimento indevido de valores provenientes de Willer Tomaz exige uma análise particularmente criteriosa, sobretudo quanto à existência de provas concretas que demonstrem a origem, a natureza e a finalidade de eventual transferência de recursos. Não se pode transformar uma suspeita em afirmação de responsabilidade sem que existam elementos probatórios suficientes para sustentá-la”, afirmou.

Já Willer Tomaz respondeu à Pública por meio de nota enviada por sua assessoria. “A anotação foi feita em fevereiro de 2024, meses depois da busca realizada em 2023, e registra apenas o resumo de um caso apresentado ao escritório para avaliação: o histórico funcional do interessado e o procedimento de corregedoria a que ele respondia”.

“O advogado [Willer] não aceitou a causa, não conhece Paulo Maurício Fortunato. Não se trata de pagamento, recebimento, promessa ou transação de qualquer natureza. Willer Tomaz jamais pagou, recebeu ou intermediou qualquer valor a Paulo Maurício Fortunato ou a pessoas ou empresas ligadas a ele. Transformar o resumo de uma consulta não aceita em suspeita é desconhecer o exercício elementar da advocacia”, segundo a nota enviada pela assessoria do advogado.

 

Fonte: Por Leandro Becker, Laís Martins, Eduardo Goulart, Gisele Lobato e Thalys Alcântara, em The Intercept/Agencia Pública

 

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