Documento
obtido pela PF contradiz Flávio e aponta dinheiro ilegal de Vorcaro para ‘Dark
Horse
Parte
do dinheiro que Daniel Vorcaro enviou para os Estados Unidos para bancar o
filme “Dark Horse”, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, saiu de
uma empresa de Fabiano Zettel ligada diretamente à fraude do banco Master. A
conclusão é da Polícia Federal, em um despacho de 15 de outubro de 2026, obtido
pelo Intercept Brasil.
A
descoberta desmonta a justificativa dada pelo senador Flávio Bolsonaro,
candidato do PL à Presidência, de que os R$ 134 milhões que negociou com
Vorcaro para custear o filme seriam dinheiro “privado” e “totalmente lícito” –
ou seja, sem origem nos cofres públicos, ao contrário da maioria dos recursos
movimentados pela fraude bilionária do Master. Também aponta que o dinheiro não
saiu diretamente de Vorcaro para a empresa que intermediou o envio aos Estados
Unidos.
O
documento da PF cita uma planilha de controle entregue por Antônio Carlos
Freixo Júnior, o Mineiro, dono da Entre Investimentos. O arquivo detalha que a
empresa dele recebeu, em uma conta no Bradesco, um depósito de R$ 12 milhões da
Super Empreendimentos — que pertence a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, seu
braço direito nas fraudes, ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha e atualmente
preso.
Esse
repasse foi feito em 12 de fevereiro de 2025, na véspera do primeiro aporte de
2 milhões de dólares enviado pela Entre Investimentos ao fundo Havengate, nos
Estados Unidos, para custear o filme. O Intercept já havia revelado, em maio
passado, o comprovante bancário dessa transferência, realizada em 13 de
fevereiro do ano passado.
A
planilha de Mineiro revela que R$ 11,7 milhões foram liquidados em câmbio em 12
de fevereiro de 2025. No dia seguinte, houve a remessa de 2 milhões de dólares
da Entre Investimentos ao Havengate. Para a PF, a cronologia dos fatos é
compatível com as mensagens de Vorcaro de 11 de fevereiro de 2025, quando
exigiu a resolução imediata do câmbio para o filme. “Preciso resolver HOJE”,
escreveu Vorcaro a Zettel naquele dia, segundo registros revelados pelo
Intercept na série Vaza Flávio.
A
Polícia Federal aponta que a Super Empreendimentos funciona como uma engrenagem
do “circuito financeiro de Daniel Vorcaro”. A empresa captava empréstimos
fraudulentos do Master, que eram vendidos a fundos para limpar o balanço da
instituição. O dinheiro era usado em investimentos que acabavam por
retroalimentar o próprio banco de Vorcaro.
O
esquema também envolvia a compra de bens. Foi a Super que adquiriu um
apartamento no Itaim Bibi onde, segundo mensagens encontradas no celular de
Vorcaro, teria ocorrido um encontro do ministro do Supremo Tribunal Federal
Kassio Nunes Marques com prostitutas. A empresa de Zettel também financiava “A
Turma”. O grupo liderado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o
“Sicário”, executava serviços de espionagem, invasões cibernéticas, ameaças e
extorsões a mando de Vorcaro.
O
despacho da PF também cita um documento, entregue à investigação pelo próprio
Mineiro, que reforça o envolvimento da rede do Master na operação de
financiamento do filme. Trata-se de uma carta-acordo emitida pela Calixsan
Capital Management – empresa de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro e
responsável pelo Havengate – para a Entre Investimentos, que indica como
investidora na operação a Storm Empreendimentos e Participações Ltda, outra
companhia de Zettel.
Para a
PF, a Entre atuou como “interposta na operação” para substituir a firma de
Zettel. Isso indica que o “financiamento do filme foi originalmente estruturado
em nome de pessoa jurídica ligada ao círculo de Daniel Vorcaro”.
Os
contratos de repasse da Entre Investimentos para o Havengate “não seguem
classificação uniforme da natureza da operação nem do vínculo com o recebedor
no exterior” – parte foi registrada como “investimento direto” e parte como
“mercado financeiro e de capitais – ações”.
A
investigação também pontua que ao menos um contrato para o envio de dinheiro ao
exterior, de 25 de abril de 2025, usou o código de vínculo 40, exclusivo para
“operação entre empresas do mesmo grupo econômico”. De acordo com a PF, isso é
uma “indicação incompatível com a condição de mero cotista alegada pelo
colaborador [Mineiro]”.
O
documento da PF também menciona um depoimento que Mineiro deu após fechar
acordo de delação premiada, no qual ele confirma que a Entre Investimentos fez
sete repasses entre fevereiro e setembro de 2025 ao Havengate Development Fund
LP, a pedido de Zettel e com o aval direto de Vorcaro, totalizando 12,3 milhões
de dólares.
Em
depoimento, Mineiro justificou o uso da Entre: a empresa de Zettel enfrentava
entraves cadastrais para investir no exterior. A versão bate com as mensagens
reveladas pelo Intercept em maio. Em 5 de fevereiro de 2025, Zettel reclamou a
Vorcaro de dificuldades operacionais para fazer a remessa internacional dos
recursos, já que o “câmbio do Master” estaria “criando caso”. Vorcaro, então,
ordenou “fazer via Entre”, ao que Zettel respondeu: “meu sonho”.
Mineiro
também declarou à PF que “os aportes [para o Havengate] foram custeados por
saques da conta garantida [da Entre] no Banco Master, venda de ativos ou caixa
próprio, com câmbio nos Bancos BS2 e Topázio e remessa à conta do fundo no JP
Morgan Chase”. O documento da PF, no entanto, aponta que essa rota do dinheiro
não foi usada no primeiro aporte ao Havengate, que veio diretamente da Super.
Por
fim, o empresário alegou aos investigadores que jamais soube que o dinheiro
financiaria um filme. No entanto, um documento obtido pela PF põe em dúvida
essa versão. A carta-acordo emitida pela Calixsan Capital Management para a
Entre estabelece um compromisso total de 24 milhões de dólares, com repasses a
partir de 20 de janeiro de 2025.
No
texto do acordo, consta a seguinte justificativa: “time is of the essence to
the production of the film” (“o tempo é essencial para a produção do filme”, em
tradução literal). Para a PF, a frase e o valor milionário indicam que Mineiro
teria conhecimento sobre o motivo do envio dos recursos para os EUA.
O
Intercept entrou em contato com Flávio Bolsonaro, Antônio Carlos Freixo Júnior,
o Mineiro, e com os advogados de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro – o ex-pastor
e o ex-banqueiro estão presos. A defesa de Vorcaro disse que não vai comentar o
assunto. Já os outros citados não responderam até a publicação desta
reportagem. O espaço segue aberto.
<><>
Próximos passos da investigação
A Go Up
Entertainment LLC, produtora de “Dark Horse com sede nos Estados Unidos,
recusou-se a fornecer à PF documentos sobre as operações do filme sem que fosse
formalizado um acordo de cooperação jurídica internacional entre Brasil e EUA.
Diante
disso, a polícia traçou como próximos passos da investigação concluir a análise
de “dados telemáticos” de Zettel e Mineiro, finalizar a perícia
contábil-financeira sobre documentos apresentados pelo braço brasileiro da Go
Up e acionar a cooperação jurídica internacional. O objetivo é obter os
registros financeiros do Havengate e da Go Up nos EUA para “identificar a
origem, o trânsito e a destinação final dos recursos”.
Os
investigadores também planejam ouvir Zettel, Calixto, Altieris Santana – sócio
de Calixto no Havengate – e os responsáveis pela produtora Go Up, Karina
Ferreira da Gama e Michael Brian Davis.
A
reportagem procurou a Go Up, Karina Ferreira da Gama e Michael Brian Davis para
questionar sobre a cooperação com as investigações e a prestação de contas do
filme.
• PF acha nota de Willer Tomaz citando
indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil dólares”. Por Caio de Freitas
Uma
anotação salva no aplicativo de notas usado pelo advogado Willer Tomaz de
Souza, amigo do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), chamou a atenção
dos investigadores da Polícia Federal (PF). A nota continha um valor de “180
mil dólares” (R$ 908 mil, na cotação atual) atrelado às palavras
“Corregedoria”, “Agosto/21” e ao nome Paulo Maurício Fortunato.
Naquele
mesmo mês, Paulo Fortunato havia deixado o comando do Departamento de Operações
de Inteligência (DOINT) da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) do governo
de Jair Bolsonaro, em um período de atividade da chamada “Abin Paralela”, como
ficou conhecido o grupo que fazia uso, principalmente, do DOINT para comandar
buscas contra adversários políticos, e até mesmo aliados, de Jair Bolsonaro
(PL) por meio do software israelense de espionagem First Mile – o que a PF
classificou como “organização criminosa”.
Ao
resumir as acusações contra Paulo Fortunato, o relatório final da PF no caso
“Abin Paralela” aponta que “o DOINT, sob sua direção [Fortunato], era a unidade
central para a execução de buscas no sistema First Mile”, com “uso da estrutura
para fins políticos e a perseguição de servidores”. A PF apontou que Fortunato
teria sido “a autoridade demandante e o principal gestor da aquisição do
sistema First Mile” em 26 de dezembro de 2018, nos últimos dias de governo
Michel Temer (MDB) – imputação negada pela defesa de Fortunato, segundo apurado
pela Agência Pública.
Para os
investigadores, o ex-diretor da Abin “omitiu-se dolosamente no seu dever de
implementar controles efetivos sobre o uso do First Mile e evitar a execução de
ações clandestinas no DOINT. Sua omissão foi crucial para a continuidade das
atividades clandestinas” e que “havia conhecimento, desde a origem, da ‘real
natureza’ e das ‘características intrusivas’ da ferramenta, que permitiam a
localização de dispositivos móveis sem autorização judicial por meio de
interceptação de sinais, explorando vulnerabilidades do sistema de telefonia
nacional”.
Segundo
a PF, o DOINT “era o principal demandante e utilizador da ferramenta para
monitorar alvos de interesse da ORCRIM [organização criminosa], incluindo
políticos, jornalistas, advogados e servidores públicos, muitas vezes sem
amparo em investigações formais ou finalidades institucionais legítimas”. Como
já se sabe hoje, um dos alvos foi a então repórter da Agência Pública Alice
Maciel.
Em
agosto de 2021, o oficial de inteligência deixou a chefia do DOINT,
oficialmente pedindo aposentadoria da Abin, mas retornou para o órgão de
inteligência no atual governo Lula (PT), após a posse do atual diretor da
agência, Luiz Fernando Corrêa. Fortunato passou a comandar a Secretaria de
Planejamento e Gestão (SPG), setor responsável por aquisições de ferramentas e
programas – como o First Mile – onde permaneceu até 20 de outubro de 2023. O
oficial de carreira da Abin foi alvo de busca e apreensão da PF e foi afastado
do cargo por suspeita de envolvimento nas atividades ilegais do órgão durante o
governo Bolsonaro – como reportado pela Pública à época.
Em
2025, Fortunato foi indiciado pela PF por seu suposto envolvimento com a Abin
Paralela, pelos crimes de organização criminosa, realizar interceptação de
comunicações sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei,
peculato, prevaricação de forma continuada e violação de sigilo funcional. Ele
foi desligado oficialmente do governo somente em 9 de janeiro deste ano, com a
conclusão do processo administrativo disciplinar contra ele por parte da
Controladoria-Geral da União (CGU).
Jornalismo
investigativo é antídoto contra a desinformação. Ajude a garantir informação
acessível e gratuita para mais pessoas. Faça um Pix para contato@apublica.org
ou doe em apoie.apublica.org.
<><>
O que dizem Paulo Fortunato e Willer Tomaz
O
advogado responsável pela defesa do ex-diretor da Abin, Oscar Luís de Morais,
disse à Pública que a decisão da CGU foi “protocolar”, pois referia-se a um
processo de exoneração de cargo em comissão na Abin. “O próprio senhor Paulo
Maurício Fortunato pediu seu afastamento do órgão após a operação da Polícia
Federal em outubro de 2023, e à época ele já estava aposentado, após 38 anos de
serviço público sem qualquer registro de punição disciplinar durante sua
carreira”, disse, acrescentando que ele é inocente no caso Abin Paralela e que
seus atos à frente do DOINT se respaldam em um parecer técnico elaborado pelo
próprio órgão de inteligência à época.
“Não
tem nenhum ato que implique ele a não ser os atos de ofício, determinados por
seus superiores naquele período”, afirmou. Além disso, a defesa alega que o
ex-diretor da Abin “não conhece, nem tem qualquer relação com os senhores
Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro” e desconhece qualquer contato do ex-diretor da
Abin com o escritório de Willer Tomaz.
O
advogado do ex-diretor da Abin nega o recebimento de quaisquer recursos de
Willer Tomaz por seu cliente e informa que os US$ 171,8 mil [R$ 868 mil, em
cotação da época] apreendidos pela PF durante as investigações do caso Abin
Paralela, ainda em 2023, seriam fruto do trabalho do oficial de inteligência
como adido militar na Argentina. “Foi o próprio senhor Paulo Maurício Fortunato
quem mostrou aos investigadores o cofre onde os valores estavam guardados,
tendo justificado a posse dos dólares e inclusive aberto, espontaneamente, seus
sigilos bancário e fiscal para as autoridades”, afirmou o advogado Oscar
Morais.
“A
suspeita levantada pela Polícia Federal acerca de um suposto recebimento
indevido de valores provenientes de Willer Tomaz exige uma análise
particularmente criteriosa, sobretudo quanto à existência de provas concretas
que demonstrem a origem, a natureza e a finalidade de eventual transferência de
recursos. Não se pode transformar uma suspeita em afirmação de responsabilidade
sem que existam elementos probatórios suficientes para sustentá-la”, afirmou.
Já
Willer Tomaz respondeu à Pública por meio de nota enviada por sua assessoria.
“A anotação foi feita em fevereiro de 2024, meses depois da busca realizada em
2023, e registra apenas o resumo de um caso apresentado ao escritório para
avaliação: o histórico funcional do interessado e o procedimento de
corregedoria a que ele respondia”.
“O
advogado [Willer] não aceitou a causa, não conhece Paulo Maurício Fortunato.
Não se trata de pagamento, recebimento, promessa ou transação de qualquer
natureza. Willer Tomaz jamais pagou, recebeu ou intermediou qualquer valor a
Paulo Maurício Fortunato ou a pessoas ou empresas ligadas a ele. Transformar o
resumo de uma consulta não aceita em suspeita é desconhecer o exercício
elementar da advocacia”, segundo a nota enviada pela assessoria do advogado.
Fonte:
Por Leandro Becker, Laís Martins, Eduardo Goulart, Gisele Lobato e Thalys
Alcântara, em The Intercept/Agencia Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário