segunda-feira, 26 de outubro de 2026

André Barbieri: Uma juventude contra a época contemporânea

Uma rebelião da juventude digna do nome sempre traz consigo frases memoráveis. “Queremos terminar com a época contemporânea”, em referência à Revolução Francesa de 1789, é uma das mais notáveis expressões criadoras da juventude na França, cuja rebelião espalhou o rastilho de pólvora pela Europa. É acompanhada por lutas de massas da juventude na Espanha, na Itália e na Albânia. Depois de décadas de neoliberalismo, voltam à cena dos enfrentamentos de rua e das barricadas slogans que evocam ódio contra o conjunto dos poderes constituídos. Pôr fim à época contemporânea parece se aproximar cada vez mais de outras frases daquele 1789, como o “não se pode fazer uma revolução, sem a revolução”, citado por Albert Soboul. A revista The Economist prefere chamar de “agonia da Europa liberal”.

São muitos os símbolos. O chefe da repressão estatal francesa, Laurent Nuñez, confessou que suas armas perderam o controle de certas partes da França, algo que lembra a revolta dos gilets jaunes, os Coletes Amarelos, em 2018. Jovens estudantes franceses, marcados pela precariedade da vida, galopante desigualdade social, repressão policial, desemprego e pobreza, estão retribuindo nas ruas os frutos de quarenta anos de neoliberalismo. O decreto anti-manifestações de Macron vem desabando em chamas como a torre da prefeitura de Limoges, e tanto mais bela a imagem na Place de la République, de jovens escalando Marianne, o monumento à república, com bandeiras da Palestina e da Argélia, portais a algumas das lutas anti-imperialistas, antimilitaristas e anticoloniais mais importantes da nossa era.

Colocar “fim à época contemporânea” significa enterrar as agruras e misérias do capitalismo militarista e genocida que marcou profundamente as vidas dessa nova geração. No Estado espanhol, multidões de jovens estudantes e trabalhadores seguem nas ruas em memória de Maricarmen Abascal e contra o aumento dos aluguéis de custos de vida; surgem comitês unitários em bairros, centros de estudo e locais de trabalho para preparar a greve geral de 5 de novembro. Na Itália, jovens estudantes ocupam escolas em Roma, Turim, Nápoles, Milão e Florença, contra a precarização das condições de ensino e estudo nos colégios, deixados às traças em detrimento dos crescentes gastos militares de Giorgia Meloni. Na Albânia, jovens nas ruas se explicam com uma só frase: “Queremos a revolução”. Poderíamos estender os postais a Portugal, Grécia e outros países, inclusive aos Estados Unidos: 43% dos adultos estadunidenses têm uma visão positiva do socialismo, algo que na juventude é superior a 66%.

As novas expressões políticas da juventude europeia são uma certa quebra com os idos de 2008. A juventude nas ruas francesas é parte de uma geração temperada nos horrores do genocídio em Gaza, da guerra da Ucrânia, das angústias do desemprego e dos efeitos não resolvidos da catástrofe sanitária da COVID-19. É o que leva a declarações como esta, captadas no auge dos conflitos: “Nunca tive tanto medo na minha vida. Eu estava na frente deles e tinha medo de morrer. No entanto, aqui estou! Porque prefiro morrer assim a viver mais um ano neste regime de merda!”, ou que leva os estudantes em Florença a dizer que ocupam escolas porque “não aceitamos que o governo Meloni use dinheiro público para a militarização em vez da educação", e que ali, “nenhum estudante é estrangeiro” (contra a política de perseguição a imigrantes, cerceados do direito de estudar).

A radicalização das ruas tem como desafio encontrar um caminho à radicalização programática e à aliança com a classe trabalhadora para uma eficaz luta comum. Dito isso, é imprescindível lembrar que eras de grandes comoções sociais costumam ser tempos de gênese de grandes partidos. Em especial, os grandes partidos que fizeram história revolucionária.

Os jacobinos surgiram em tais contextos turbulentos e confusos, que catalisaram uma tempestade de muitas crises. Em 1789 o Clube Bretão passou a se chamar Sociedade dos Amigos da Constituição, reunindo-se em Paris em um antigo convento dos frades dominicanos, na Rue Saint-Honoré - donde terminaram com o nome de Clube dos Jacobinos, em referência a Sanctus Jacobus. Dali surgiam as ideias que pariram a "época contemporânea" tão citada nas ruas francesas, e que causaram horror à própria burguesia que dela se beneficiava. Em resposta a Camille Desmoulins (“A liberdade é uma palavra que fez o mundo virar de cabeça para baixo”), dizia Robespierre: “o governo da revolução é o despotismo da liberdade contra a tirania”.

Lênin considerava os bolcheviques como "jacobinos operários" do século XX. Em seu famoso panfleto de 1904, "Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás", Lênin escreveu: “O jacobino indissoluvelmente ligado à organização do proletariado consciente de seus interesses de classe é precisamente o social-democrata revolucionário.” O bolchevismo desenvolveu-se em cinco fases cruciais entre 1903 e 1917, segundo Lênin, e após uma primeira fase de retração, foi impulsionado pelas próprias conclusões de massas sobre as misérias da guerra. Iniciou-se com os anos de preparação ideológica, seguidos pelo ensaio revolucionário de 1905 e pela dura resistência nos anos de reação czarista. Posteriormente, o partido viveu uma nova ascensão do movimento operário, culminando na crise da Primeira Guerra Mundial. Mas até fevereiro de 1917, era uma ala minoritária no interior do movimento operário. A combinação de todas as crises - a fome, a guerra, a miséria, o desemprego e a paralisia econômica, os problemas no cultivo da terra - levou à queda de Nicolau II e uma compressão dos tempos na formação de partidos. Com sagacidade estratégica e amadurecimento tático, o que foi construído em anos anteriores deu origem a uma nova fase de influência política de massas, em que Lênin e Trótski cumpriram um papel decisivo.

Exemplos históricos dessa magnitude não são replicáveis em seus detalhes, porque as circunstâncias divergem. Apesar disso, a importância de tais analogias é entender as possibilidades históricas abertas quando segmentos sociais amplos decidem fazer da política um assunto seu, e quando há uma decisão subjetiva em aproveitar o momento.

Situações dessa natureza costumam atuar como incubadoras de organizações políticas que buscam dar expressão radical ou revolucionária a estas angústias. Na França, o já citado ministro do Interior Laurent Nuñez acusou os trotskistas do Révolution Permanente e do Le Poing Levé, nossos companheiros de partido, como os impulsionadores de “atos de violência”, buscando criminalizá-los como fazem com o La France Insoumise. Isso é assim porque se nota o crescimento dos trotskistas do Révolution Permanente, que tem o orgulho de dedicar suas energias a apoiar os estudantes secundaristas mobilizados, de defendê-los da repressão policial e de dar voz às suas reivindicações, impulsionando a autoorganização e a conexão com o movimento operário francês. Já no Estado espanhol, o periódico El Mundo menciona o Movimiento Socialista e a Corriente Revolucionária de Trabajadores y Trabajadoras (CRT), nossos companheiros espanhóis, entre as organizações que mais ganharam protagonismo nos acampamentos da Puerta del Sol, em Madri, contra o alto preço dos aluguéis (o jornal de Sevilha, ABC, cita a organização de juventude Contracorriente, ligada à CRT, como responsável por “converter as universidades em trincheiras de luta”). São sinais interessantes.

Sem ir mais longe, na Argentina mencionamos diversas vezes o enorme fenômeno político da esquerda que é Myriam Bregman. Dirigente do PTS e deputada federal pela Frente de Esquerda, Myriam é a figura política com maior avaliação positiva em todo o país, superando Javier Milei e Cristina Kirchner, e reconhecida como principal opositora à extrema direita nas ruas. Um resultado significativo, revelador de que um programa anticapitalista e revolucionário pode alcançar segmentos de massas. Entre a juventude, Myriam tem um grande apelo, mostrando que a radicalidade da nova geração não tem nada a ver com a direita, e sim com a esquerda.

Esses sintomas de momento são inspiradores. Dão um novo sentido (ou uma via possível) à quebra da época contemporânea, enlameada pela miséria capitalista. Podemos estar chegando a tempos que superem a “ilusão do político e a ilusão do social” do último Mario Tronti (a política como “âmbito exclusivo da esfera estatal”, e os movimentos sociais isolados como “âmbitos de emancipação que evitam a questão do Estado”), e conectem a juventude e os importantes movimentos sociais ligados a ela com a potência estrutural da classe dos produtores. Algo disso vemos na aliança entre os secundaristas, os professores e os ferroviários franceses de Châtillon. Tempos que, assim também, corrijam em grande escala a apreciação de Perry Anderson, no ensaio “Regime Change?”, sobre o “desaparecimento de qualquer movimento político significativo que apele vigorosamente quer à abolição quer à transformação radical do capitalismo”.

Para a juventude brasileira, este cenário mundial vem em boa hora. Uma conclusão inescapável do contexto político é que existem forças sociais dispostas a enfrentar nas ruas Flávio Bolsonaro e toda a escumalha da extrema direita. Vemos estudantes que se levantam nas escolas para fazer atos espontâneos de repúdio a tudo o que representa o bolsonarismo. As manifestações de ruas maciças contra a ingerência imperialista, as “fake news”, as distorções algorítmicas das big techs, a intervenção da Meta (todos combates concretos), são sintomas muito importantes. Especialmente porque também abriram entre muitos a oportunidade para o questionamento da moderação e a conciliação com a direita, próprias à Frente Ampla de Lula. Segmentos da juventude mostram interesse em fazer algo e se organizar, fruto do cansaço com uma estratégia de ajuste fiscal administrado com doses de progressismo fraco, em que cada concessão feita pelo governo Lula uma parcela extra de desencanto. Com características próprias, temos aqui a força social para colocar em xeque nossa “época contemporânea”: uma vida cotidiana encarcerada em dívidas, na generalização do emprego precário e no subemprego, na corrosão da legislação trabalhista e na metástase da uberização do trabalho, nas reformas neoliberais e no silêncio total das burocracias sindicais.

Superar pela esquerda a moderação petista e sua proteção estrutural da governabilidade burguesa é a tarefa da nossa geração. Novas cristalizações na esquerda podem surgir em breve. Hoje, os franceses antecipam um caminho disruptivo com envergadura internacional. Nada mais inspirador que saber que esta geração que quer acabar com a contemporaneidade capitalista ergue o punho e, com bandeiras penduradas nos muros de suas escolas, ameaçam a classe dominante: se nos enganam, jogamos um novo Maio de 68 sobre vocês. Uma geração que entende que não podemos esperar nada deste sistema, e esta revolta coloca que o problema não é apenas uma lei, o problema é o sistema.

¨      Jovens e trabalhadores se reúnem em Madri para construir uma nova organização revolucionária

A Casa Marx, em Vallecas, ficou pequena. Por volta de 300 pessoas, centenas delas jovens, foram ao locam junto de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes categorias em uma assembleia aberta para organizar a greve geral e debater como "tomar partido" em um momento em que um novo ciclo da luta de classes tomou as ruas.

A proposta da CRT e da Corriente Roja - IV se encontra neste manifesto , com o objetivo de avançar nos próximos meses à fundação de uma nova organização revolucionária. Na assembleia de 18/10 na Casa Marx, foi apresentado o projeto e foi feito o convite a novos companheiros e companheiras a se somar. A assembleia aberta também pautou como intervir em comum com novos companheiros e companheiras rumo à greve geral.

Natalia Lago, da agrupação juvenil Contracorriente na Universidade Complutense, abriu a mesa com uma emocionante saudação. "As que estamos aqui viemos de três meses de acampamento e de mobilizações. A polícia se lançou contra nós por estarmos nos piquetes junto aos professores na greve da educação, mas não vão nos amedrontar", afirmou. "Há uma rebelião juvenil que percorre a Europa e somos parte dessa juventude que se ergue, não contra uma lei nem por um decreto, mas contra todo um sistema."

<><> A um novo partido revolucionário

Diego Lotito explicou que a assembleia surgiu do acordo entre a CRT e a Corriente Roja - IV para impulsionar um novo partido revolucionário no Estado Espanhol. Um projeto que, destacou, se acelera e se torna mais real frente ao enorme movimento surgido desde baixo em um mundo convulsivo. A conclusão, acrescentou, é que a classe trabalhadora e a juventude precisam de uma organização revolucionária própria.

No manifesto "Tomar Partido" se propõe: "Os capitalistas têm seus partidos, seu Estado, seus meios e sua polícia. A classe trabalhadora precisa do seu: um partido que tenha aprendido as lições das derrotas anteriores e que se prepare para atuar como estado maior da luta revolucionária. Sabemos que esse partido não surgirá do crescimento de uma só corrente. Por isso nós da CRT e da Corriente Roja - Cuarta Internacional decidimos avançar à nossa fusão e abrir um processo constituinte de uma nova organização socialista revolucionária, que seja muito mais que a soma de nossas forças."

Por sua vez, Josefina Martinez situou o momento no cenário internacional. "Há alguns meses, o que ocupava o cenário era o crescimento das direitas e a crise dos governos de centro, conservadores e social-liberais", recordou. Uma polarização assimétrica, inclinada à direita, com a ascensão da Alternativa para a Alemanha, Reform UK, Vox no Estado Espanhol ou Vannacci, até a direita de Meloni, na Itália. "São direitas que querem acabar com tudo".

"E isso está gerando do outro lado um novo movimento que questiona tudo, um ’grande rechaço’ que vai mais além do pontual". Ilustrou isso com as palavras de uma assembleia em Turim: "A única coisa que nos oferecem é a precarização ou a chegada de um fuzil no ombro. Não queremos nem suas guerras nem seu mundo". E também o fez com um vídeo que circula as redes sociais: "Se semeiam precarização, exploração, repressão e guerras, colherão tempestades."

Lucía Nistal, da CRT, discutiu qual é a resposta: "Desde a CRT apostamos em ser a organização capaz de contribuir para que esse grande movimento que estamos vendo nas ruas se desenvolva até uma greve geral que pare tudo e uma luta que continue depois do 11N". "O PSOE tenta nos vender uma falsa dilema: ou votamos neles ou vem a direita. Mas governaram por 30 dos últimos 44 anos, aplicaram as reformas neoliberais. sustentaram os bancos, aprovaram os gastos militares mais importantes da última década. A saída não passa por um governo progressista 3.0, mas por construir uma organização própria independente de todos os que querem gerir o capitalismo".

Apareceram dezenas de intervenções. Estudantes da Contracorriente transmitiram a energia das últimas semanas. Um estudante da UAM apontou sobre a campanha de 29N: quem esteve no governo "não nos deu nada, e agora nos chamam a votar contra a direita. E o que acontece no dia seguinte? Segue tudo igual?".

Natalia Lago retomou a ideia de que a juventude tem o desafio de se unir à classe trabalhadora nesta greve geral: "A juventude consegue impor essa greve geral". E advertiu que o 11N não é um ponto final: "É um dia de preparação e de ensaio para enfrentar o que virá em seguida, porque, governe quem governe, os capitalistas vão conduzir ataques contra a juventude e a classe trabalhadora".

"Este governo aumentou de forma descomunal os gastos militares, enquanto despedaçam nossa educação e precarizam nossas vidas". "Eles só nos oferecem guerras e genocídios. Nós nos propomos a construir uma juventude de combate por outro futuro: que batalhe pela revolução socialista".

Pablo Castilla, porta-voz da Contracorriente em Barcelona, saudou a assembleia e destacou: "Precisamos construir uma alternativa política revolucionária e, ao mesmo tempo, fortalecer a auto organização da classe trabalhadora e da juventude. Frente à repressão e ao desvio eleitoral, a chave está em organizar a força coletiva em cada bairro, local de estudo e trabalho".

Também falaram estudantes e trabalhadores que participaram pela primeira vez de uma assembleia. Foi especialmente emotivo escutar Carmen Triviño, ex trabalhadora têxtil desde os 14 anos (agora com 78) e fundadora da Corriente Roja - IV. Carmen foi detida em 1977 e sofreu as torturas de Billy o Menino. Neste domingo, saudou com enorme alegria a juventude que está na linha de frente, retomando esse legado de combates. O mesmo fez León, ex grevista da EMT nos anos 90, protagonista de uma greve que paralisou toda Madri. Ambos expressaram a emoção de poder transmitir essa experiência a uma nova geração que começa a lutar e projeta um horizonte revolucionário.

Ángel Luis Parras, da Corriente Roja - IV, fez uma intervenção que sacudiu a sala em defesa da estratégia revolucionária: "As coisas estão mudando. Nós sim podemos dizer a gritos e com orgulho: somos socialistas, somos comunistas, queremos a revolução". Frente ao discurso de que o socialismo fracassou, respondeu que fracassaram "os que em nome do comunismo impuseram regimes totalitários".

E propôs uma tarefa: "Tem que ser construído um partido socialista e revolucionário, um partido que tenha como ’infantaria ligeira’ a sua juventude, pela via da auto organização operária, porque a emancipação dos trabalhadores tem que ser obra dos próprios trabalhadores".

 

Fonte: Esquerda Diário

 

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