André
Barbieri: Uma juventude contra a época contemporânea
Uma
rebelião da juventude digna do nome sempre traz consigo frases memoráveis. “Queremos
terminar com a época contemporânea”, em referência à Revolução Francesa de
1789, é uma das mais notáveis expressões criadoras da juventude na França, cuja
rebelião espalhou o rastilho de pólvora pela Europa. É acompanhada por lutas de
massas da juventude na Espanha, na Itália e na Albânia. Depois de décadas de
neoliberalismo, voltam à cena dos enfrentamentos de rua e das barricadas
slogans que evocam ódio contra o conjunto dos poderes constituídos. Pôr fim à
época contemporânea parece se aproximar cada vez mais de outras frases daquele
1789, como o “não se pode fazer uma revolução, sem a revolução”, citado
por Albert Soboul. A revista The Economist
prefere chamar de “agonia da Europa liberal”.
São
muitos os símbolos. O chefe da repressão estatal francesa, Laurent Nuñez,
confessou que suas armas perderam o controle de certas partes da França, algo
que lembra a revolta dos gilets jaunes, os Coletes Amarelos, em 2018.
Jovens estudantes franceses, marcados pela precariedade da vida, galopante
desigualdade social, repressão policial, desemprego e pobreza, estão
retribuindo nas ruas os frutos de quarenta anos de neoliberalismo. O decreto anti-manifestações
de Macron vem desabando em chamas como a torre da prefeitura de Limoges, e
tanto mais bela a imagem na Place de la République, de jovens escalando Marianne,
o monumento à república, com bandeiras da Palestina e da Argélia, portais a
algumas das lutas anti-imperialistas, antimilitaristas e anticoloniais mais
importantes da nossa era.
Colocar
“fim à época contemporânea” significa enterrar as agruras e misérias do
capitalismo militarista e genocida que marcou profundamente as vidas dessa nova
geração. No Estado espanhol, multidões de jovens estudantes e trabalhadores
seguem nas ruas em memória de Maricarmen Abascal e contra o aumento dos
aluguéis de custos de vida; surgem comitês unitários em bairros, centros de
estudo e locais de trabalho para preparar a greve geral de 5 de novembro. Na
Itália, jovens estudantes ocupam escolas em Roma, Turim, Nápoles, Milão e
Florença, contra a precarização das condições de ensino e estudo nos colégios,
deixados às traças em detrimento dos crescentes gastos militares de Giorgia
Meloni. Na Albânia, jovens nas ruas se explicam com uma só frase: “Queremos a
revolução”. Poderíamos estender os postais a Portugal, Grécia e outros países,
inclusive aos Estados Unidos: 43% dos adultos
estadunidenses têm uma visão positiva do socialismo, algo que na
juventude é superior a 66%.
As
novas expressões políticas da juventude europeia são uma certa quebra com os
idos de 2008. A juventude nas ruas francesas é parte de uma geração temperada
nos horrores do genocídio em Gaza, da guerra da Ucrânia, das angústias do
desemprego e dos efeitos não resolvidos da catástrofe sanitária da COVID-19. É
o que leva a declarações como esta, captadas no auge dos conflitos: “Nunca
tive tanto medo na minha vida. Eu estava na frente deles e tinha medo de
morrer. No entanto, aqui estou! Porque prefiro morrer assim a viver mais um ano
neste regime de merda!”, ou que leva os estudantes em Florença a dizer que
ocupam escolas porque “não aceitamos que o governo Meloni use dinheiro público
para a militarização em vez da educação", e que ali, “nenhum estudante é
estrangeiro” (contra a política de perseguição a imigrantes, cerceados do
direito de estudar).
A
radicalização das ruas tem como desafio encontrar um caminho à radicalização
programática e à aliança com a classe trabalhadora para uma eficaz luta comum.
Dito isso, é imprescindível lembrar que eras de grandes comoções sociais
costumam ser tempos de gênese de grandes partidos. Em especial, os grandes
partidos que fizeram história revolucionária.
Os
jacobinos surgiram em tais contextos turbulentos e confusos, que catalisaram
uma tempestade de muitas crises. Em 1789 o Clube Bretão passou a se chamar
Sociedade dos Amigos da Constituição, reunindo-se em Paris em um antigo
convento dos frades dominicanos, na Rue Saint-Honoré - donde terminaram com o
nome de Clube dos Jacobinos, em referência a Sanctus Jacobus. Dali
surgiam as ideias que pariram a "época contemporânea" tão citada nas
ruas francesas, e que causaram horror à própria burguesia que dela se beneficiava.
Em resposta a Camille Desmoulins (“A liberdade é uma palavra que fez o mundo
virar de cabeça para baixo”), dizia Robespierre: “o governo da revolução é o
despotismo da liberdade contra a tirania”.
Lênin
considerava os bolcheviques como "jacobinos operários" do século XX.
Em seu famoso panfleto de 1904, "Um Passo em Frente, Dois Passos
Atrás", Lênin escreveu: “O jacobino indissoluvelmente ligado à
organização do proletariado consciente de seus interesses de classe é
precisamente o social-democrata revolucionário.” O bolchevismo
desenvolveu-se em cinco fases cruciais entre 1903 e 1917, segundo Lênin, e após
uma primeira fase de retração, foi impulsionado pelas próprias conclusões de
massas sobre as misérias da guerra. Iniciou-se com os anos de preparação
ideológica, seguidos pelo ensaio revolucionário de 1905 e pela dura resistência
nos anos de reação czarista. Posteriormente, o partido viveu uma nova ascensão
do movimento operário, culminando na crise da Primeira Guerra Mundial. Mas até
fevereiro de 1917, era uma ala minoritária no interior do movimento operário. A
combinação de todas as crises - a fome, a guerra, a miséria, o desemprego e a
paralisia econômica, os problemas no cultivo da terra - levou à queda de
Nicolau II e uma compressão dos tempos na formação de partidos. Com sagacidade
estratégica e amadurecimento tático, o que foi construído em anos anteriores
deu origem a uma nova fase de influência política de massas, em que Lênin e
Trótski cumpriram um papel decisivo.
Exemplos
históricos dessa magnitude não são replicáveis em seus detalhes, porque as
circunstâncias divergem. Apesar disso, a importância de tais analogias é
entender as possibilidades históricas abertas quando segmentos sociais amplos
decidem fazer da política um assunto seu, e quando há uma decisão subjetiva em
aproveitar o momento.
Situações
dessa natureza costumam atuar como incubadoras de organizações políticas que
buscam dar expressão radical ou revolucionária a estas angústias. Na França, o
já citado ministro do Interior Laurent Nuñez acusou
os trotskistas do Révolution Permanente e do Le Poing Levé, nossos companheiros
de partido, como os impulsionadores de “atos de violência”, buscando
criminalizá-los como fazem com o La France Insoumise. Isso é assim porque se
nota o crescimento dos trotskistas do Révolution Permanente, que tem o orgulho
de dedicar suas energias a apoiar os estudantes secundaristas mobilizados, de
defendê-los da repressão policial e de dar voz às suas reivindicações,
impulsionando a autoorganização e a conexão com o movimento operário francês.
Já no Estado espanhol, o
periódico El Mundo
menciona o Movimiento Socialista e a Corriente Revolucionária de Trabajadores y
Trabajadoras (CRT), nossos companheiros espanhóis, entre as organizações que
mais ganharam protagonismo nos acampamentos da Puerta del Sol, em Madri, contra
o alto preço dos aluguéis (o jornal de Sevilha, ABC, cita a organização de
juventude Contracorriente, ligada à CRT, como responsável por “converter as
universidades em trincheiras de luta”). São sinais interessantes.
Sem ir
mais longe, na Argentina mencionamos diversas vezes o enorme fenômeno político da esquerda que é
Myriam Bregman.
Dirigente do PTS e deputada federal pela Frente de Esquerda, Myriam é a figura
política com maior avaliação positiva em todo o país, superando Javier Milei e
Cristina Kirchner, e reconhecida como principal opositora à extrema direita nas
ruas. Um resultado significativo, revelador de que um programa anticapitalista
e revolucionário pode alcançar segmentos de massas. Entre a juventude, Myriam
tem um grande apelo, mostrando que a radicalidade da nova geração não tem nada
a ver com a direita, e sim com a esquerda.
Esses
sintomas de momento são inspiradores. Dão um novo sentido (ou uma via possível)
à quebra da época contemporânea, enlameada pela miséria capitalista. Podemos
estar chegando a tempos que superem a “ilusão do político e a ilusão do
social”
do último Mario Tronti (a política como “âmbito exclusivo da esfera estatal”, e
os movimentos sociais isolados como “âmbitos de emancipação que evitam a
questão do Estado”), e conectem a juventude e os importantes movimentos sociais
ligados a ela com a potência estrutural da classe dos produtores. Algo disso
vemos na aliança entre os secundaristas, os professores e os ferroviários
franceses de Châtillon. Tempos que, assim também, corrijam em grande escala a
apreciação de Perry Anderson, no ensaio “Regime Change?”, sobre o
“desaparecimento de qualquer movimento político significativo que apele
vigorosamente quer à abolição quer à transformação radical do capitalismo”.
Para a
juventude brasileira, este cenário mundial vem em boa hora. Uma conclusão
inescapável do contexto político é que existem forças sociais dispostas a
enfrentar nas ruas Flávio Bolsonaro e toda a escumalha da extrema direita.
Vemos estudantes que se levantam nas escolas para fazer atos espontâneos de
repúdio a tudo o que representa o bolsonarismo. As manifestações de ruas
maciças contra a ingerência imperialista, as “fake news”, as distorções
algorítmicas das big techs, a intervenção da Meta (todos combates concretos),
são sintomas muito importantes. Especialmente porque também abriram entre
muitos a oportunidade para o questionamento da moderação e a conciliação com a
direita, próprias à Frente Ampla de Lula. Segmentos da juventude mostram
interesse em fazer algo e se organizar, fruto do cansaço com uma estratégia de
ajuste fiscal administrado com doses de progressismo fraco, em que cada
concessão feita pelo governo Lula uma parcela extra de desencanto. Com
características próprias, temos aqui a força social para colocar em xeque nossa
“época contemporânea”: uma vida cotidiana encarcerada em dívidas, na
generalização do emprego precário e no subemprego, na corrosão da legislação
trabalhista e na metástase da uberização do trabalho, nas reformas neoliberais
e no silêncio total das burocracias sindicais.
Superar
pela esquerda a moderação petista e sua proteção estrutural da governabilidade
burguesa é a tarefa da nossa geração. Novas cristalizações na esquerda podem
surgir em breve. Hoje, os franceses antecipam um caminho disruptivo com
envergadura internacional. Nada mais inspirador que saber que esta geração que
quer acabar com a contemporaneidade capitalista ergue o punho e, com bandeiras
penduradas nos muros de suas escolas, ameaçam a classe dominante: se nos
enganam, jogamos um novo Maio de 68 sobre vocês. Uma geração que entende
que não podemos esperar nada deste sistema, e esta revolta coloca que o
problema não é apenas uma lei, o problema é o sistema.
¨
Jovens e trabalhadores se reúnem em Madri para construir
uma nova organização revolucionária
A Casa
Marx, em Vallecas, ficou pequena. Por volta de 300 pessoas, centenas delas
jovens, foram ao locam junto de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes
categorias em uma assembleia aberta para organizar a greve geral e debater como
"tomar partido" em um momento em que um novo ciclo da luta de classes
tomou as ruas.
A
proposta da CRT e da Corriente Roja - IV se encontra neste manifesto , com o objetivo de
avançar nos próximos meses à fundação de uma nova organização revolucionária.
Na assembleia de 18/10 na Casa Marx, foi apresentado o projeto e foi feito o
convite a novos companheiros e companheiras a se somar. A assembleia aberta também
pautou como intervir em comum com novos companheiros e companheiras rumo à
greve geral.
Natalia
Lago, da agrupação juvenil Contracorriente na Universidade Complutense, abriu a
mesa com uma emocionante saudação. "As que estamos aqui viemos de três
meses de acampamento e de mobilizações. A polícia se lançou contra nós por
estarmos nos piquetes junto aos professores na greve da educação, mas não vão
nos amedrontar", afirmou. "Há uma rebelião juvenil que percorre a
Europa e somos parte dessa juventude que se ergue, não contra uma lei nem por
um decreto, mas contra todo um sistema."
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A um novo partido revolucionário
Diego
Lotito explicou que a assembleia surgiu do acordo entre a CRT e a Corriente
Roja - IV para impulsionar um novo partido revolucionário no Estado Espanhol.
Um projeto que, destacou, se acelera e se torna mais real frente ao enorme
movimento surgido desde baixo em um mundo convulsivo. A conclusão, acrescentou,
é que a classe trabalhadora e a juventude precisam de uma organização
revolucionária própria.
No
manifesto "Tomar Partido" se propõe: "Os capitalistas têm seus
partidos, seu Estado, seus meios e sua polícia. A classe trabalhadora precisa
do seu: um partido que tenha aprendido as lições das derrotas anteriores e que
se prepare para atuar como estado maior da luta revolucionária. Sabemos que
esse partido não surgirá do crescimento de uma só corrente. Por isso nós da CRT
e da Corriente Roja - Cuarta Internacional decidimos avançar à nossa fusão e
abrir um processo constituinte de uma nova organização socialista
revolucionária, que seja muito mais que a soma de nossas forças."
Por sua
vez, Josefina Martinez situou o momento no cenário internacional. "Há
alguns meses, o que ocupava o cenário era o crescimento das direitas e a crise
dos governos de centro, conservadores e social-liberais", recordou. Uma
polarização assimétrica, inclinada à direita, com a ascensão da Alternativa
para a Alemanha, Reform UK, Vox no Estado Espanhol ou Vannacci, até a direita
de Meloni, na Itália. "São direitas que querem acabar com tudo".
"E
isso está gerando do outro lado um novo movimento que questiona tudo, um
’grande rechaço’ que vai mais além do pontual". Ilustrou isso com as
palavras de uma assembleia em Turim: "A única coisa que nos oferecem é a
precarização ou a chegada de um fuzil no ombro. Não queremos nem suas guerras
nem seu mundo". E também o fez com um vídeo que circula as redes sociais:
"Se semeiam precarização, exploração, repressão e guerras, colherão
tempestades."
Lucía
Nistal, da CRT, discutiu qual é a resposta: "Desde a CRT apostamos em ser
a organização capaz de contribuir para que esse grande movimento que estamos
vendo nas ruas se desenvolva até uma greve geral que pare tudo e uma luta que
continue depois do 11N". "O PSOE tenta nos vender uma falsa dilema:
ou votamos neles ou vem a direita. Mas governaram por 30 dos últimos 44 anos,
aplicaram as reformas neoliberais. sustentaram os bancos, aprovaram os gastos
militares mais importantes da última década. A saída não passa por um governo
progressista 3.0, mas por construir uma organização própria independente de
todos os que querem gerir o capitalismo".
Apareceram
dezenas de intervenções. Estudantes da Contracorriente transmitiram a energia
das últimas semanas. Um estudante da UAM apontou sobre a campanha de 29N: quem
esteve no governo "não nos deu nada, e agora nos chamam a votar contra a
direita. E o que acontece no dia seguinte? Segue tudo igual?".
Natalia
Lago retomou a ideia de que a juventude tem o desafio de se unir à classe
trabalhadora nesta greve geral: "A juventude consegue impor essa greve
geral". E advertiu que o 11N não é um ponto final: "É um dia de
preparação e de ensaio para enfrentar o que virá em seguida, porque, governe
quem governe, os capitalistas vão conduzir ataques contra a juventude e a
classe trabalhadora".
"Este
governo aumentou de forma descomunal os gastos militares, enquanto despedaçam
nossa educação e precarizam nossas vidas". "Eles só nos oferecem
guerras e genocídios. Nós nos propomos a construir uma juventude de combate por
outro futuro: que batalhe pela revolução socialista".
Pablo
Castilla, porta-voz da Contracorriente em Barcelona, saudou a assembleia e
destacou: "Precisamos construir uma alternativa política revolucionária e,
ao mesmo tempo, fortalecer a auto organização da classe trabalhadora e da
juventude. Frente à repressão e ao desvio eleitoral, a chave está em organizar
a força coletiva em cada bairro, local de estudo e trabalho".
Também
falaram estudantes e trabalhadores que participaram pela primeira vez de uma
assembleia. Foi especialmente emotivo escutar Carmen Triviño, ex trabalhadora
têxtil desde os 14 anos (agora com 78) e fundadora da Corriente Roja - IV.
Carmen foi detida em 1977 e sofreu as torturas de Billy o Menino. Neste
domingo, saudou com enorme alegria a juventude que está na linha de frente,
retomando esse legado de combates. O mesmo fez León, ex grevista da EMT nos
anos 90, protagonista de uma greve que paralisou toda Madri. Ambos expressaram
a emoção de poder transmitir essa experiência a uma nova geração que começa a
lutar e projeta um horizonte revolucionário.
Ángel
Luis Parras, da Corriente Roja - IV, fez uma intervenção que sacudiu a sala em
defesa da estratégia revolucionária: "As coisas estão mudando. Nós sim
podemos dizer a gritos e com orgulho: somos socialistas, somos comunistas,
queremos a revolução". Frente ao discurso de que o socialismo fracassou,
respondeu que fracassaram "os que em nome do comunismo impuseram regimes
totalitários".
E
propôs uma tarefa: "Tem que ser construído um partido socialista e
revolucionário, um partido que tenha como ’infantaria ligeira’ a sua juventude,
pela via da auto organização operária, porque a emancipação dos trabalhadores
tem que ser obra dos próprios trabalhadores".
Fonte:
Esquerda Diário

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