Vorcaro
orquestrou venda de bens da Igreja Lagoinha e prometeu expansão de R$ 100
milhões
Uma
fungada forte próxima ao microfone para não restarem dúvidas sobre o nível de
emoção e uma caprichada na voz embargada: “Ô, Daniel, que o senhor te dê
sabedoria, te cubra, te guarde, que ele nos guie e guie você nesse momento a
voz de Deus, sempre”. Outra fungada. “É no mundo todo, Dani. É no mundo todo
que tá acontecendo, é muito forte, irmão”. E outra fungada. A voz chorosa
mineira é do pastor André Valadão, líder da Igreja Lagoinha Global. Essa emoção
toda é uma resposta a uma felicitação de aniversário que também faria você
chorar.
“Deus
me incomodou para uma ação junto contigo. Vou colocar 100mm de reais de doação
para abrir novas igrejas”, disse, sem rodeios, ninguém menos que Daniel
Vorcaro, então dono do Banco Master e de um sem número de empresas. “Queria que
pensasse e orasse e depois me passasse um plano pra implementarmos”, instruiu
naquele 16 de abril de 2024.
Depois
das prisões de Vorcaro em novembro de 2025 e março de 2026, quando o escândalo
Master-BRB já estava em todas as manchetes, Valadão reconheceu que os dois se
conhecem há décadas, mas frisou que o relacionamento dos dois se restringia à
igreja e não envolvia negócios. Conversas interceptadas pela Polícia Federal
(PF) no âmbito da Operação Compliance Zero, às quais a Agência Pública teve
acesso, contam outra história.
Em meio
a orações, viagens em jatos executivos, convites para Fórmula 1 e declarações
de amor (há pelo menos 44 “eu te amo”), os diálogos entre o banqueiro e o
pastor revelam uma intrincada rede de influência e a proteção de Vorcaro em
círculos de poder evangélicos. Os diálogos entre “Dede” e “Dan Dan”, ou “Dani”,
como se chamavam mostram que a relação passava longe de se restringir a
doações, mas envolvia também conselhos sobre a gestão dos ativos da Igreja
Lagoinha e formas inteligentes de aproveitar o potencial de operações
financeiras e imobiliárias na própria rede de igrejas, com especial preocupação
em continuar evitando impostos no ecossistema que, segundo Valadão, deve
movimentar R$ 1 bilhão até 2030.
As
mensagens do WhatsApp do ex-banqueiro mostram uma intensa troca de
aconselhamento – espiritual, no caso de Valadão, e financeiro, do lado de
Vorcaro. Com muitas citações a Deus e a Jesus, eles faziam articulações com
lideranças da direita para viabilizar negócios de interesse comum e contornar
crises de imagem – como no episódio em que Vorcaro pediu a intervenção de
Valadão para falar com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) após uma postagem
que enfureceu o banqueiro. É a pedido de Valadão que Nikolas busca “Dani” para
se desculpar e diz que nem teria falado se soubesse que o negócio era dele.
A troca
de favores tem duas vias. Em pelo menos dois episódios, Valadão pede ajudas,
condicionando o atendimento a se “Deus tocasse no coração” do amigo. Apenas nos
eventos de virada de ano da Lagoinha, o toque divino solicitado foi de US$ 350
mil e US$ 450 mil, em 2023 e 2024. Não há registros na mensagens se os
gloriosos depósitos chegaram a abençoar as referidas celebrações.
<><>
Vende-se e aluga-se
No site
vinculado à Igreja da Lagoinha, há 14 imóveis à venda em três municípios
mineiros. A avaliação apresentada ao público é de R$ 38,2 milhões no conjunto
de prédios comerciais e até fazendas para hospedagem com lazer. O que quem
visita o catálogo da Lagoinha desconhece é que a ideia de vender os bens da
rede de igrejas partiu do ex-dono do Banco Master.
“Uma
das coisas que eu estou pensando é de internacionalizar os bens da Lagoinha
toda, sabe? Porque o dinheiro nos EUA, o crédito é muito fácil, né, muito menos
juros, né. O juros tá alto hoje, mas ainda assim é baixo. Então seria um
ministério sem fins lucrativos, non for profit americano, que detém bens no
mundo todo, Europa, África, Brasil, Estados Unidos também, Canadá. Tô fazendo
essa mudança, sabe”, conta animadamente André Valadão, em áudio enviado a
Vorcaro, que responde: “Acho excelente
ideia”.
“Como você me aconselhou, eu coloquei vários
bens nossos à venda”, continua o pastor. “Tem um pessoal que me procurou também
pra gente, tipo, criar um fundo com a quantidade de bens que a gente tem da
Lagoinha, sabe? Mas eu acho que, como a maioria deles a gente nem paga imposto,
acho que fazer um fundo, coisa assim, podia acabar sendo pior, né? Não sei o
que você me aconselha a respeito”, indaga. “Fundo não é vantagem pra você.
Legal é fazer base USA e virar global mesmo”, recomenda o empresário, enquanto
falam do interesse de acionar advogados “de fora”.
A
imunidade tributária das igrejas no Brasil bebe na fonte da Inglaterra moderna,
que visava proteger os templos dado seu trabalho de acolhimento de doentes e
desempregados, como explica o jurista Francisco Tenório, autor do livro
“Direito das Igrejas”: “No Brasil, o artigo 150, inciso VI alínea b, prevê que
é proibido instituir imposto sobre ‘entidades religiosas e templos de qualquer
culto, inclusive suas organizações assistenciais e beneficentes’. […] Basta a
igreja ter um CNPJ regular, e a fiscalização sobre as igrejas, na prática, é
inexistente. Além do que, esse benefício constitucional não exige nenhuma
contrapartida da igreja, como deveria ser devido a história de origem da
imunidade como contrapartida pelo labor social.”
A ideia
do fundo referente aos bens da Lagoinha continuou sendo uma grande questão nas
conversas entre Valadão e Vorcaro. O pastor diz ao amigo que está levantando
quanto as igrejas de sua rede pagam de aluguel, na intenção de negociar imóveis
com as próprias afiliadas. A ideia era criar um fundo imobiliário voltado para
a aquisição e construção de imóveis próprios, convertendo o custo do aluguel
pago pelas igrejas em amortização de patrimônio.
“Acho
que deve ser um valor relevante e certo todo mês, às vezes dá pra acessar
possibilidade de compra de imóveis e as igrejas pagarem direto, mas em compra
do imóvel semelhante ao invés de aluguel”, disse Valadão. “O valor que pagamos
talvez conseguiríamos de alguma formar um fundo para até construir prédio
próprio e alugar para as igrejas. Ou comprar algo semelhante… ?” Vorcaro rebate
que no Brasil não haveria fundo “com apetite pra isso.”
O
jurista Francisco Tenório explica que, mesmo em imóvel alugado, igrejas não
pagam IPTU, por exemplo, e que bens de luxo de líderes religiosos, se ocultados
em nome da igreja, seriam um caminho para a sonegação. Quanto aos fundos
imobiliários envolvendo templos, o advogado desconhece planos semelhantes no
Brasil, mas explica que esta seria uma forma de transformar um ativo
imobiliário em capital com liquidez imediata e classifica a ideia de
“escandalosa”. “Condenaria perpetuamente a membresia a ser inquilina e pagar
aluguel dos templos que foram adquiridos com seus dízimos e ofertas. Moralmente
essa conduta é absurda e inaceitável”, opina.
A
igreja ter imóveis alugados gerando renda que é revertida para os fins da
própria igreja não tem problema algum. Agora, criar FII com templos é outra
questão. […] Seria um atestado de que a igreja deixou o conceito bíblico de
comunidade de salvos, lavados e remidos pelo sangue de Jesus para se tornar uma
corporação capitalista cuja finalidade é dinheiro e poder para seus ‘donos’.”
Francisco
Tenório
<><
jurista e autor de “Direito das Igrejas”
Clava
Forte Bank, a fintech cristã que caiu quando Vorcaro foi preso
A
inadimplência de instituições religiosas e o controle sobre sua própria rede de
afiliadas fez André Valadão investir, contra a recomendação de Vorcaro, na
primeira fintech cristão do país. Entre a primeira conversa entre os dois sobre
o assunto e a inauguração do Clava Forte Bank se passaram menos de oito meses
até a inauguração da iniciativa, em 31 de julho de 2024. A fintech se definia
como “um banco para impulsionar os projetos do Reino de Deus”. O site da
iniciativa ofertava serviços de contas digitais, cartões, maquininhas,
financiamentos, seguros, marketplace e programas de cashback.
Fazia
tempo que Valadão tinha interesse em seguir os passos do amigo em negócios
bancários e meios de pagamento. Em 2019, ele usou um culto para promover um
cartão de crédito consignado com a marca “Fé”, voltado a pensionistas e
aposentados. Na época, chamou o cartão “uma coisa de Deus”. Pegou tão mal que o
projeto foi engavetado.
A ideia
do Clava Forte Bank – o nome vem do trecho do hino nacional – foi mencionada na
conversa com Vorcaro pela primeira vez em 9 de dezembro de 2023, quando Valadão
convidou o amigo a patrocinar um show na virada daquele ano na Lagoinha de
Orlando. “Ano que vem eu quero lançar um banco interno também da Lagoinha,
principalmente para os pastores e para a igreja, não pro público diretamente
primeiro”, disse em áudio.
Meses
depois, em abril de 2024, o pastor pede orientação jurídica do amigo sobre um
sistema para unir o sistema financeiro das igrejas do seu grupo, que estimava
movimentar R$ 300 a 350 milhões internamente. Em vários momentos, Valadão diz
temer “perder o foco” da igreja frente às possibilidades financeiras, ao mesmo
tempo em que se mostra deslumbrado com a chance de aumentar as posses da
Lagoinha. “Ano que vem vamos dobrar, se Deus quiser”, complementou. “Até 2030
fato só brasil vms passar de 1B ano. em ano de jesus.” Segundo Valadão, o
negócio do banco era um negócio dele e da esposa, e “não da igreja”.
Dias
antes da inauguração do Clava Forte, em 23 de julho de 2024, ele anunciou ao
amigo o “sistema ‘pay’ próprio Lagoinha Global” junto com a empresa de
pagamentos Dock. O público estimado era de 2 a 4 mil clientes. Mas, em seguida,
demonstra como o projeto poderia crescer: “só no ecossistema da Lagoinha hoje
tem : igrejas, pastores, funcionários, livrarias, seminário (só hoje, 12 mil
alunos ativos), fundação oasis filantrópica que recebe recursos federais… tipo
tudo que envolve o mundo da Lagoinha pra dentro do CLAVA.”
Meses
depois, Valadão pede ajuda a Vorcaro sobre pacotes de serviços para acoplar no
sistema e de FIDC – tipo de investimento em renda fixa que compra dívidas de
empresas que têm a receber no futuro. “Depois me explica o que precisa”,
responde o ex-banqueiro. Em 17 de setembro, ele pede para falar com o amigo
sobre alguns assuntos, entre eles “a fintech, que por sinal tá indo super bem e
sem dúvida é algo que pode ficar grande demais”. Os dois fazem duas ligações
que duram 15 minutos.
O
sistema do Clava Forte Bank saiu do ar logo após a primeira prisão de Daniel
Vorcaro no âmbito da operação Compliance Zero, no Aeroporto Internacional de
Guarulhos (SP), enquanto se preparava para embarcar em um jato particular com
destino a Dubai, em 18 novembro de 2025. Com o sistema da fintech fora do ar
desde o dia 21, Valadão justificou a indisponibilidade como uma manutenção
temporária para evitar ataques hackers.
Vorcaro
foi preso numa investigação a respeito de suspeita de fraudes bancárias,
emissões irregulares de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e títulos de
crédito falsos pelo Banco Master, que chegou a ser comprado pelo Banco de
Brasília (BRB). Paralelamente, uma outra polêmica passou a ligar o Clava Forte
Bank, Valadão e Vorcaro. Durante os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de
Inquérito (CPMI) do INSS, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apontou o
ecossistema da Lagoinha e a fintech cristã como possíveis envolvidas no
escândalo dos descontos indevidos nas contas de aposentados.
“Eu
tenho comprovações de que tanto o Vorcaro como o Pastor [Fabiano] Zettel
[cunhado de Vorcaro], André Valadão e a Clava Forte Bank também receberam
recursos que vieram de pessoas aposentadas. Nós precisamos investigar isso,
fazer a quebra [de sigilo], para ver se isso era dízimo ou se era lavagem de
dinheiro”, sintetizou Correia.
O
Congresso acabou apontando ainda a proximidade entre André Valadão e Felipe
Machado Gomes, presidente de uma das associações suspeitas da fraude no INSS e
já investigado no STF por organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Conhecido por sua vida de luxo, Gomes é amigo de Valadão e foi um dos
patrocinadores do réveillon da Lagoinha de 2024 – o mesmo em que o pastor pediu
para Vorcaro ajudar com o que Deus tocasse o seu coração.
<><>
O sonho de US$ 20 milhões em Orlando
Em 14
de julho de 2024, Vorcaro avisa Valadão que iria fazer um bate e volta para
jantar em Miami e chamou o amigo para ir junto no avião e dormir na casa dele.
Os dois fazem uma breve ligação de voz. Em seguida, o pastor envia fotos de um
terreno à venda em Orlando, que descreve como “inacreditável”. Ele passa uma
foto de anúncio com a oferta de US$ 10,8 milhões e diz que o lugar fica “no
miolo” da cidade, em uma região comparável aos bairros nobres Savassi ou
Lourdes, em Belo Horizonte – os dois são mineiros.
“Dede,
vamos pra cima.” O pastor diz que estaria disposto a vender um terreno que
tinha na capital mineira para comprarem o terreno juntos. “Aquele valor que te
falei tá comprometido”, responde o banqueiro, mencionando os R$ 100 milhões que
prometeu doar à igreja, e esclarece os cálculos: “Você tem que ver como melhor
usar. São 20mm usd [US$ 20 milhões]”.
“Faria
a sede aqui com esses 20 com certeza. A compra e a construção”, responde
Valadão. “Então vamos fazer”, resume Vorcaro. O pastor responde com 38 emojis
de “aos prantos”, com um de “mãos em prece” no meio. “Se for isso que Deus
colocar no seu coração, pra gente montar proposta aqui, você me fala que
proposta que eu faço. Dani, você não tá entendendo”, ele continua com mais
emojis “aos prantos”, antes de encaminhar mensagens do corretor do terreno e
fotos feitas com inteligência artificial para simular o uso do terreno.
Dois
dias depois, o ex-banqueiro tranquiliza o amigo: “Pode seguir com a aquisição.
Eu tô já movimentando. Pra te mandar o recurso”. Ao que o pastor responde com
um textão de gratidão sem limites e doses de “Amém Dani” e “Tô aqui Dani”.
O
assunto voltou em 31 de julho. Valadão relata que, se assinar o contrato, teria
que depositar US$ 200 mil [cerca de R$ 1 milhão] em cinco dias. Vorcaro não
respondeu. Segue-se mais uma leva de mensagens melosas de Valadão, enfatizando
que o amigo é um “escolhido de Deus” que “nada nem ninguém vai derrubar”. E
continua pedindo por um telefonema: “Tô sempre à disposição com telefone na
mão.” Vorcaro só respondeu quando Valadão anunciou que um processo que
respondia por homofobia havia sido arquivado. “Que showwwwwww. Parabéns!!!”,
disse.
Em 15
de agosto, Valadão cobra uma resposta. “Dani sobre o terreno estamos
finalizando e precisamos de 200k de dólares pra amarrar a proposta … e
prosseguir com due diligence de até 80 dias para ter toda liberação da
prefeitura para o projeto ou não”, escreveu. Até o dia 17 de setembro, os dois
trocam dados de contas e instruções, como um modelo de “proof of funds”, que
Vorcaro se compromete a preencher com os dados de suas empresas para viabilizar
a compra do terreno para a igreja do amigo. O valor indicado é de US$ 11,8
milhões, o que, considerando o sinal de US$ 200 mil, sugere um compromisso de
compra de US$ 12 milhões – aproximadamente R$ 60 milhões.
Dois
meses após os últimos pontos discutidos sobre a aquisição, Daniel Vorcaro foi
preso pela primeira vez, em novembro de 2025. Quase um ano depois, o anúncio do
terreno na S Apopka Vineland Road, em Orlando, na Flórida, segue no ar, ainda
sem dono.
<><>
O próspero caso da Lagoinha Belvedere
André
Valadão e Daniel Vorcaro não discutiram aquisições apenas no exterior e nem
todos os negócios discutidos deixaram de sair do papel. Em um dos contatos
entre os amigos, eles discutiram sobre um imóvel em frente ao BH Shopping, em
Belo Horizonte (MG). O espaço seria destinado à instalação de uma igreja ligada
a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. “Segunda feira vou em BH com Zettel ver o
imóvel da Jorlan, em frente o BH shopping para ser a igreja dele. Será lindo. 4
mil lugares”, escreveu Valadão. Mais tarde, a unidade seria transformada na
Lagoinha Belvedere, liderada por Zettel, e na mira do Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf).
Zettel
é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores financeiros
de Vorcaro. De acordo com as investigações, ele intermediava pagamentos,
organizava transferências e participava da estruturação de contratos que teriam
sido utilizados para justificar repasses financeiros.
Conversas
às quais a Pública teve acesso mostram que Zettel recebia ordens de Vorcaro
para movimentar grandes quantias, além de lembrar o cunhado de despesas que iam
desde IPTU a dívidas milionárias. Embora os diálogos entre os dois tratassem
predominantemente de questões financeiras, as mensagens analisadas não mostram
solicitações de Vorcaro para que Zettel realizasse repasses especificamente a
Valadão — apesar das doações expressivas que o empresário teria feito ao líder
religioso.
Em
2018, Valadão celebrou o casamento de Fabiano Zettel com Natália Vorcaro, irmã
do ex-controlador do Banco Master. A relação entre os dois pastores e Vorcaro,
no entanto, envolvia outros familiares e projetos, como mostra o Relatório de
Informações Financeiras 140.515, do Coaf, ao qual a Pública teve acesso.
Fabiano
Zetel e a esposa, que também é irmã de Vorcaro. André Valadão e a esposa. A
imagem foi encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem
foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Segundo
o documento, a unidade Belvedere tinha um faturamento presumido de R$ 950 mil
por ano. No entanto, a igreja recebeu, entre dezembro de 2024 e dezembro de
2025, um total de R$ 57,1 milhões, em movimentações classificadas com atípicas
pelo órgão regulador de finanças.
Chama a
atenção que o pastor líder da Lagoinha Belvedere, Fabiano Zettel, cunhado de
Daniel Vorcaro, por exemplo, tenha feito 26 operações, totalizando R$ 19,2
milhões para a unidade, fechada após a prisão de Zettel, em março deste ano, na
mesma operação Compliance Zero que prendeu o ex-dono do Banco Master.
A
igreja também recebeu doações da ordem de R$ 101,6 mil de Fabíola Vorcaro,
ex-esposa do banqueiro, em sete operações; de R$ 120 mil, em quatro operações
de Henrique Vorcaro, pai de Daniel; e outros R$ 22 mil, em 11 operações de Luiz
Phillipi Machado de Moraes Mourão, ninguém menos que o “Sicário” de Vorcaro,
seu braço operacional nas operações do Master, que morreu no hospital enquanto
estava custodiado.
Além
das movimentações envolvendo a Lagoinha Belvedere, Zettel também aparece ligado
a movimentações consideradas atípicas quanto à empresa Super Empreendimentos e
Participações, que já foi dirigida pelo cunhado de Vorcaro e tem movimentações
imobiliárias e financeiras investigadas pela PF. Segundo o Coaf, R$ 19,693
milhões foram movimentados em operações suspeitas no mês de junho de 2022.
A
Pública procurou André Valadão, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e a Igreja
Lagoinha para esclarecer os questionamentos apontados na reportagem. Até o
momento da publicação, apenas a defesa de Vorcaro respondeu, informando que não
iria comentar o assunto. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.
<><>
Conexões onipresentes
Com
bateria social quase ilimitada, acesso que vai de pequenos empresários a
jogadores de futebol e ministros do STF, Daniel Vorcaro passou a alimentar
fantasias de vários gêneros no imaginário popular do brasileiro. Mas pouca
gente lembra que antes de ser preso investigado por fraude, e antes disso um
rico banqueiro, Vorcaro era apresentador de um programa de música gospel na
Rede Super, o Supersônica, da emissora de TV que pertence à Lagoinha – logo,
ligada ao amigo André Valadão.
Em
2022, Bolsonaro visitou a Lagoinha em Orlando, onde Valadão prega. O pastor fez
uma oração pelo ex-presidente. Naquele ano, a emissora havia recebido R$ 217
mil do governo federal. Ao longo do mandato do ex-presidente, a emissora
recebeu R$ 756 mil pagos por campanhas de comunicação. O pastor já disse não
ser bolsonarista, mas já compartilhou posicionamentos ideológicos com o
ex-presidente. Valadão também tem laços estreitos com bolsonaristas expoentes,
como Nikolas Ferreira e Fábio Faria, e até já foi cicerone para o blogueiro
Allan dos Santos, foragido nos Estados Unidos. Já Vorcaro, já disse
explicitamente apoiar a direita, como revelou a Pública.
A Rede
Super é um ativo da Lagoinha obtido por meio de uma parceria antiga com a
família Vorcaro. O pai de Daniel, Henrique Vorcaro, frequentava os cultos de
Márcio Valadão, pai de André Valadão. Segundo a revista piauí, os conselhos do
pastor foram tão importantes para o empresário que, ao obter sucesso com a
corretagem de imóveis, passou a dar gordas doações para a igreja – que usou a
verba para comprar a emissora em 1997.
<><>
Lagoinha ontem e hoje
A
igreja “da parede preta” ou “que tem área VIP”. As opções de organização e a
estética reformada da Igreja Batista da Lagoinha, que bebe na fonte da
australiana Hillsong Church, podem fazer parecer que a organização é uma
espécie de novidade que vem ganhando projeção, mas ela foi fundada em 1957, em
Belo Horizonte.
A força
da organização levou, ainda nos anos 1990, Ana Paula Valadão, irmã de André, a
lançar a banda gospel Diante do Trono – que se tornou um sucesso de vendas e
projetou a Lagoinha de uma igreja regional para uma potência nacional.
A
expansão para o resto do país e até unidades internacionais veio também com a
adoção das paredes escuras, que buscava priorizar a visibilidade de paredes de
LED e projeções de luz para conquistar um público mais jovem com a estética de
espetáculo. Já a segregação de celebridades, políticos e convidados dos
pastores, que geram polêmica na unidade Alphaville – onde também há
estacionamentos privativos, entradas exclusivas e camarim com bufê – sempre foi
negada pelos pastores.
O
próprio André Valadão, aliás, diz não ser adepto de área VIP, mas de eventuais
“assentos reservados, 20, 30, sei lá” para seus convidados. “Nada além do
normal”.
A nova
geração de Valadões e Vorcaros parece seguir o mesmo caminho da amizade que, de
tempos em tempos, impulsionou os negócios ligados à Lagoinha. Stella, filha de
Daniel, estuda com um filho de André. Os dois dançaram juntos a valsa na festa
de 15 anos da menina, que não contou com Diante do Trono como atração musical,
mas com um show exclusivo do DJ Alok.
A
relevância da Lagoinha é inegável, com uma influência que chega ao Supremo
Tribunal Federal: foi Fábio Faria, hoje casado com Patrícia Abravanel, filha de
Silvio Santos, quem apresentou Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes.
Além disso, a reunião que o dono do Master participou com o ministro André
Mendonça também foi organizado por membros da igreja. Uma história de poder, fé
e fraternidade de uma congregação que nos próximos meses completa 70 anos.
Fonte:
Por Amanda Audi, Jéssica Ribeiro e Ed Wanderley, da Agencia Pública

Nenhum comentário:
Postar um comentário