segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Jung Mo Sung: Por que tão poucos padres/pastores trabalham com e/ou em favor dos pobres?

Em um mundo socialmente tão desigual, onde não é possível evitar olhar os corpos dos pobres – e muitas vezes o olhar deles –, por que não há muitos padres e pastores que trabalham com eles ou fazem algo em favor deles? É claro que há comunidades cristãs em que seus membros são basicamente de classe média ou alta, mas os padres ou pastores/as dessas igrejas poderiam, pelo menos, ensinar que faz parte da missão e da identidade do cristianismo ajudar os pobres ou socialmente mais vulneráveis. Isto é, não estou falando de pregações na linha da teologia da libertação ou grandes mudanças sociais, mas pelo menos defender, em nome da fé cristã, a dignidade humana de todos os seres humanos e, com isso, o direito dos pobres de viver com dignidade.

Nesse mundo marcado pela aporofobia – o medo e/ou desprezo aos pobres –, não pregar explicitamente que Deus, que se revela em Jesus, defende a dignidade humana e o direito de viver de todos os seres humanos (cf. Gal 3,28) é se omitir ou negar um dos pilares da fé cristã.

Pior é que estamos vendo também o aumento do discurso de pastores e padres contra os pobres e os que defendem publicamente políticas sociais em favor dos socialmente vulneráveis. Podemos entender que, com a hegemonia da cultura neoliberal no capitalismo, uma grande parte da sociedade seja contra os programas sociais que buscam realizar os direitos sociais (educação, saúde, moradia...), e que, entre essa parte, haja muitos cristãos. Porém, o aumento desse tipo de discurso, explícito ou implícito, por parte dos padres e pastores/as é algo sobre o que devemos refletir.

Em primeiro lugar, eu penso que esse discurso contra os pobres não é só dos que abraçaram a teologia da prosperidade ou semelhante. Com certeza, há pessoas que se tornaram padres/pastores sem boa intenção, isto é, que escolheram esse caminho sem o verdadeiro objetivo de servir às comunidades e a Deus. Com pessoas mal-intencionadas não é possível fazer um diálogo frutífero. Mas há muitas que realmente se sentiam chamadas por Deus e, por algum motivo, se distanciaram ou se desviaram do caminho de servir a Deus e às comunidades de fé.

Ao invés de irmos pelo caminho das análises das ciências sociais ou do que a teologia diz sobre o que deveria ser a vocação de um padre ou pastor/a, eu quero propor uma reflexão a partir da noção de experiência de vocação ou de chamamento de Deus. Eu sei que há diferenças importantes entre as características de vocação de padres católicos e de pastores/as protestantes, evangélicos e pentecostais, mas eu quero focar em uma imagem genérica de uma pessoa que se sente chamada por Deus e que é social e eclesialmente reconhecida como padre/pastor(a).

Um aspecto importante da identidade pessoal do padre/pastor(a) é a experiência de ser chamado. Esse chamado não necessariamente está ligado com o trabalho pastoral junto com pobres ou de outros grupos socialmente vulneráveis, mas, seja no processo de formação bíblico-teológica ou na convivência com as comunidades, os pobres se tornam partes desse processo. A questão central é como essa pessoa vai lidar com a relação entre os pobres e a vocação.

Para a comunidade religiosa, a figura de padre ou de pastor/a é central. A maioria das comunidades gira em torno do padre/pastor(a) e ele costuma estar no topo da hierarquia da comunidade. Isto é, essa pessoa é reconhecida pelos membros da comunidade como representante de Deus ou algo semelhante. E na medida em que essa igreja é reconhecida pela sociedade, o seu líder é também reconhecido socialmente. E, nesse processo de reconhecimento no campo religioso e social, uma questão importante são os símbolos usados para explicitar a importância dessa pessoa.

Sem os símbolos especiais reconhecidos pela comunidade religiosa e pela sociedade, essa pessoa não é reconhecida como alguém importante e, com isso, nem ela se sente assim. Mesmo que ela ainda tenha dentro de si a experiência espiritual marcante de ser chamada por Deus e ter sido confirmada pelo ritual de ordenação na igreja, ela, como ser humano, precisa da confirmação constante de que é importante porque foi chamada por Deus. Afirmar, para si própria e para a comunidade, que é uma pessoa escolhida por Deus é um dos aspectos essenciais da sua identidade de pessoa "sagrada" – separada – e do seu lugar especial na comunidade e na sociedade. A questão é: que tipo de símbolos são usados para confirmar que uma pessoa é reconhecida como sendo um "ministro de Deus"?

Quero trazer aqui um exemplo que aconteceu em uma igreja de comunidade coreana em São Paulo. Momentos antes de um culto dominical, o pastor principal da igreja chegou em um carro, sentado no banco de trás, e parecia que alguém deveria abrir a porta para ele. Um jovem que estava perto do carro tomou a iniciativa e foi abrir a porta para o pastor. Nesse momento, um dos leigos dirigentes da igreja parou esse jovem e lhe disse que ele não era digno para isso, e ele mesmo abriu a porta para o pastor. O dirigente tomou essa iniciativa para ter o "privilégio" ou a "missão" de abrir a porta do carro do pastor para confirmar que ele é importante, porque tem acesso a essa pessoa mais importante e que tem acesso a Deus.

Para quem não conhece a cultura coreana, essa cena parece sem sentido, mas, para quem conhece a cultura confucionista coreana, faz sentido. Esses rituais expressam e reproduzem a organização cultural, de raiz confucionista, dessa comunidade cristã – que mostra a relação hierárquica entre Deus, o pastor (a pessoa sagrada) e o povo da comunidade. O jovem que foi advertido pela sua ousadia de abrir a porta do carro do pastor decidiu sair dessa igreja e me contou esse fato.

Esse exemplo é mais um entre tantos outros nas igrejas cristãs em que se vive a contradição de duas imagens de Deus e da vocação dos seus ministros. Em sociedades em que o cristianismo é culturalmente a religião oficial ou é a majoritária, muitos padres/pastores(as) assumem a sua vocação de estar a serviço de Deus e reconfirmam a sua identidade de ser "ministro de Deus" com símbolos compatíveis com a cultura dominante. E, como na cultura capitalista o principal símbolo para mostrar a importância e o valor de uma pessoa é $, o dinheiro, muitas igrejas e teologias cristãs usam a riqueza ou ostentação de riqueza como o "sacramento", o símbolo visível da sacralidade dos seus padres/pastores e sua relação com Deus.

Assumindo esses valores do "mundo", as lideranças dessas igrejas não somente não querem trabalhar com pobres ou ajudá-los, mas não podem, pois isso as faria entrar em contradição com a sua teologia de sacramento (os símbolos da ação de Deus no mundo). Mas, como disse antes, todos que estudaram Bíblia e teologia sabem que Jesus disse que veio para anunciar a boa-nova para os pobres, a boa-nova de que o sofrimento deles não é uma punição de Deus, mas sim fruto do pecado de ações pessoais e sistemas sociais injustos. Por isso, ao invés de se arrependerem, se converterem e voltarem ao caminho original de Jesus, muitos preferem acusar os pobres e aqueles que, em nome da fé cristã, ajudam ou trabalham junto com os pobres. Acusar de quê? No fundo, eles acusam os pobres e os que mantêm a fé de serem uma luz na escuridão que revela como eles traíram a si próprios.

Um caminho alternativo de reconhecimento de ser chamado por Deus é a experiência de "face a face" nas comunidades de fé e lutas por uma sociedade mais justa, humana e solidária. Um reconhecimento que não é medido pela riqueza, poder ou por rituais de privilégios, mas sim pela experiência mútua de gratuidade. Isto é, de reconhecer e ser reconhecido pelo outro sem exigir nada, pois sabemos que já somos todos seres de dignidade.

Essa fé, que é feita de esperança e luta, pode ser a grande contribuição da tradição cristã para a construção de uma nova civilização nesse mundo tão conturbado.

•        Anticlericalismo. Por Fernando Nogueira da Costa

O anticlericalismo é definido fundamentalmente como oposição à interferência do poder religioso na sociedade civil e no Estado, e não simplesmente como oposição à religião ou à fé. O verbete a respeito foi escrito pelo historiador italiano Guido Verucci, encontra-se em BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 11ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.

Nesta fase pré-eleitoral, é importante conhecer seu significado político. Segundo Verucci, o anticlericalismo reúne ideias e comportamentos críticos em relação ao clero, ao clericalismo e ao confessionalismo, especialmente quando autoridades religiosas procuram estender sua influência institucional sobre o Estado e a sociedade.

Cabe fazer as distinções fundamentais entre Religião (sistema de crenças, valores e práticas espirituais), Clericalismo (pretensão de autoridades ou organizações religiosas de exercer influência ou domínio sobre instituições políticas e civis), Anticlericalismo (reação crítica a essa pretensão, defendendo a autonomia da política diante da autoridade religiosa), Laicismo (princípio político de separação entre o Estado e as confissões religiosas, com garantia de liberdade de consciência).

O anticlericalismo, portanto, pode ser defendido tanto por ateus quanto por pessoas religiosas. Ambos devem rejeitar a utilização da fé como instrumento de poder político.

Quanto à sua origem e evolução histórica, identifica-se três grandes momentos.

Primeiro, surgiu da crítica religiosa ao próprio clero. Desde a Idade Média, surgiram críticas à corrupção, à riqueza, à hipocrisia e ao comportamento de autoridades eclesiásticas, consideradas distantes dos princípios evangélicos. Assim, o anticlericalismo também teve origens cristãs.

Segundo, emergiu durante o Iluminismo e a Revolução Francesa. A crítica racionalista ampliou o questionamento da autoridade religiosa sobre a política. No século XIX, o anticlericalismo tornou-se um movimento de massas em países predominantemente católicos, defendendo o casamento civil, a educação laica e a liberdade de consciência.

Terceiro, apareceu a diferenciação ideológica. Surgiram anticlericalismos liberais, democráticos, radicais, socialistas, anarquistas e até católicos e protestantes. O fenômeno não pertence exclusivamente à esquerda nem pressupõe ateísmo.

Anticlericalismo não implica necessariamente em ateísmo. Este é, em seu sentido mais amplo, a ausência de crença na existência de divindades. A palavra vem do grego clássico atheos, com significado de “sem Deus”.

Ateísmo prático refere-se a uma postura de indiferença religiosa, onde a pessoa vive o dia a dia de forma materialista, sem levar em conta a transcendência, mesmo sem fazer uma negação teórica formal. Ateísmo filosófico envolve argumentos racionais, científicos e críticos elaborados por pensadores, como os filósofos iluministas, contra a ideia de seres sobrenaturais. Por exemplo, a impossibilidade lógica de haver um ser ao mesmo tempo onipresente, onipotente e onisciente, porque se ele previr o futuro perderá o poder de o alterar.

Verucci também reconhece uma contradição histórica: movimentos anticlericais em defesa da liberdade acabaram, em determinadas circunstâncias, recorrendo à intolerância, à perseguição e a intervenções estatais contra instituições religiosas.

Aplicando o conceito ao debate brasileiro atual, é possível distinguir a participação democrática de religiosos na política da tentativa de subordinar o poder público à autoridade de dirigentes religiosos.

Uma igreja, seja católica, seja evangélica, ao organizar assistência social, reunir fiéis, participar de debates públicos ou apoiar candidatos está exercendo atividades compatíveis com uma sociedade democrática. Outra questão surge quando uma liderança reivindica autoridade religiosa para impor obediência eleitoral, restringir direitos de outras crenças ou obter privilégios estatais.

Nesse contexto, defender a laicidade não significa combater os evangélicos ou os católicos. Significa preservar a liberdade religiosa, inclusive a liberdade de cada fiel para discordar politicamente de seu pastor ou sacerdote.

Essa distinção também é importante para o apólogo A Lulista e o Pobre de Direita: a personagem Luliana pode reconhecer o papel de acolhimento social da igreja, frequentada pelo motorista, e, simultaneamente, defender a autonomia de sua consciência política.

A principal contribuição do verbete de Guido Verucci é demonstrar o anticlericalismo ter nascido de conflitos históricos entre autoridade religiosa, sociedade civil e poder político, assumindo diferentes orientações ideológicas.

Sua expressão democrática mais consistente é a defesa da laicidade do Estado e da liberdade de consciência, sem transformar a crítica ao poder clerical em hostilidade contra os fiéis. Em uma frase: o anticlericalismo democrático não combate o direito de alguém seguir sua religião; combate sim a pretensão de transformar a autoridade religiosa em autoridade obrigatória sobre todos os cidadãos.

A interferência do evangelismo na política brasileira é marcada por um expressivo crescimento demográfico, pela consolidação de uma bancada parlamentar influente e pela forte atuação em pautas de costumes e disputas eleitorais. Os evangélicos representam cerca de 26% a 33% da população brasileira, com forte presença de vertentes pentecostais e neopentecostais, especialmente nas periferias.

A “bancada evangélica” no Congresso Nacional é uma articulação política formal e ganhou força desde a Assembleia Constituinte de 1987-1988. Hoje, conta com dezenas de deputados federais e senadores organizados em defesa de pautas específicas, em geral, conservadoras diante das pautas identitárias (ou políticas de identidade). São reivindicações e pautas de luta voltadas para grupos sociais específicos, porque compartilham características ou experiências de opressão e marginalização, como raça, etnia, gênero, orientação sexual, religião ou deficiência física.

A atuação legislativa e ideológica concentra-se em pautas conservadoras, como a oposição ao aborto, a defesa de uma concepção tradicional de família e pautas comportamentais. Infelizmente, em campanha eleitoral no Brasil, deixou-se de discutir programa econômico e só se debate a agenda de costumes.

Nas eleições recentes (como em 2018 e 2022), o eleitorado evangélico teve papel central na condução de candidaturas de direita e extrema-direita, destacando-se o apoio expressivo ao clã miliciano Bolsonaro, embora o segmento não seja homogêneo. Esse alinhamento eleitoral provoca polarização e tensões nos debates atuais.

Há contradição com o uso político dos templos. Pesquisas do Instituto de Estudos da Religião (ISER) apontam a grande maioria dos fiéis (cerca de 82% a 90%) rejeita campanhas eleitorais, discussões partidárias ou orientações de voto feitas por pastores dentro dos templos. Há progressivo desgaste das lideranças: especialistas e levantamentos indicam um desgaste de parte do eleitorado em relação à instrumentalização política excessiva da fé, gerando divisões internas nas comunidades religiosas.

Diante do peso desse eleitorado, partidos e figuras de diferentes espectros políticos — incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — buscam aproximações cuidadosas com o segmento evangélico. Tentam evitar tanto a pecha de instrumentalização da religião quanto o distanciamento de pautas sociais e familiares.

 

Fonte: IHU/GGN

 

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