Mais
eleitoras, menos eleitas: por que as mulheres ainda são minoria no poder?
Apesar
de representarem a maioria do eleitorado brasileiro, as mulheres ainda são
minoria nos espaços de poder. A baixa presença feminina em cargos eletivos e
nas estruturas de comando dos partidos revela obstáculos que vão desde a falta
de oportunidades e recursos até a violência política de gênero.
Como
maneira de combater essa distância de gênero nos espaços de poder, a legislação
eleitoral determina que partidos e federações preencham o mínimo de 30% e o
máximo de 70% das candidaturas de cada sexo nas eleições proporcionais.
Mesmo
com a regra, a presença feminina entre as eleitas ainda é inferior à dos
homens. Nas eleições de 2022, 91 mulheres foram eleitas para a Câmara dos
Deputados, o equivalente a 17,7% das 513 cadeiras. No Senado Federal, 15
senadoras ocupam parte das 81 cadeiras (18,5%).
O
cenário também segue parecido no Executivo. As mulheres são prefeitas em 727
dos 5.570 municípios do Brasil, o que representa cerca de 13%. Nos estados,
cinco mulheres estão no comando entre as 27 unidades federativas (18%). No
entanto, três dessas eram vicem e assumiram após saídas dos governadores
eleitos.
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Falta de oportunidades começa antes das eleições
Para a
vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, muitas mulheres já exercem
liderança em suas comunidades, mas encontram dificuldades para transformar essa
atuação em participação política institucional.
“Nós
mulheres já fazemos política todos os dias, muitas nas suas comunidades,
organizando, escutando e encontrando soluções para as pessoas ao seu redor. O
desafio é conseguir transformar essa liderança em espaço de decisão no poder
público”, afirma.
A
vice-prefeita da capital baiana, que também já foi candidata a vice-presidente
nas eleições de 2022, avalia que a sobrecarga com trabalho e família, a falta
de oportunidades nos partidos, os custos de campanha e a violência política são
alguns dos obstáculos. Ela também apontou mulheres negras como maiores vítimas
da situação.
“Para
as mulheres negras, essas barreiras são ainda maiores. Precisamos abrir
caminhos para que elas possam entrar, permanecer e liderar”, acrescenta.
A
advogada especialista em Direito Político Maria Eduarda Pessoa também aponta a
falta de incentivo e suporte financeiro, a violência política e uma estrutura
social patriarcal como fatores que dificultam a entrada feminina na política.
“Somos
maioria de votantes e minoria em votadas. Mesmo com a cota de gênero para
candidaturas, poucas são as mulheres eleitas tanto na Bahia quanto no Brasil”,
explica.
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Estruturas partidárias ainda são majoritariamente masculinas
A
vereadora de Salvador, Isabela Sousa (União Brasil), afirma que a falta de
oportunidades começa antes do período eleitoral e defende maior participação
feminina nos espaços de decisão dos partidos.
“A
gente tem maioria de homens. A maior parte dos partidos políticos são
presididos por homens. Se você pegar as executivas estaduais, as executivas
nacionais também”, afirma.
Para a
vereadora, mulheres precisam ocupar posições de liderança dentro das próprias
legendas, e não ficar restritas aos movimentos femininos partidários. “As
mulheres precisam ser enxergadas também como grandes lideranças, que podem
assumir, inclusive, presidências de partido municipal, estadual e nacional”,
destaca.
Outro
desafio é o uso de candidaturas femininas apenas para cumprir a cota exigida
pela legislação. Maria Eduarda afirma que algumas mulheres acabam sendo
colocadas nas chapas sem receber estrutura adequada para uma campanha efetiva.
“Muitas
mulheres acabam se tornando candidatas apenas para compor a chapa e cumprir a
cota estabelecida em lei. Sem investimentos, incentivos e, por vezes, sem
conhecimento da própria candidatura”, explica.
“Eu
acho que a gente não pode generalizar. A gente sabe que tem partidos que fazem
um trabalho sério, que fazem um trabalho bacana, que têm grupo de mulheres.
Mas, infelizmente, existe”, afirma.
Ana
Paula Matos também defende que a participação seja efetiva. “Uma mulher não
pode estar ali apenas para aparecer na foto, ela precisa ter voz,
responsabilidade e condições de trabalhar”, diz.
A
Justiça Eleitoral pode reconhecer fraude à cota de gênero quando há elementos
que indiquem que candidaturas foram lançadas apenas formalmente, sem
participação eleitoral efetiva. A Súmula 73 do TSE estabelece consequências
para os casos reconhecidos.
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Violência política também afasta mulheres
A
trajetória política brasileira registra avanços, mas também evidencia a
desigualdade histórica. Dilma Rousseff foi a primeira e, até o momento, única
mulher a ocupar a Presidência da República, tendo sido eleita em 2010 e
reeleita em 2014.
A Lei
nº 14.192/2021 estabeleceu normas para prevenir e combater a violência política
contra a mulher. Entre as condutas previstas estão ações destinadas a impedir,
dificultar ou restringir os direitos políticos femininos.
Para
Maria Eduarda, a violência política é um dos principais obstáculos às
candidaturas femininas.
Ana
Paula Matos afirma que mulheres podem ser interrompidas, descredibilizadas e
atacadas por se posicionarem. “Isso machuca e pode fazer com que muitas pensem
duas vezes antes de ocupar um espaço público. Nenhuma mulher deveria ter de
escolher entre participar da política e proteger a si mesma e à sua família”,
afirma.
Isabela
Sousa defende que a presença de mulheres nos espaços de decisão partidária
também pode contribuir para enfrentar esse problema. “Quando mulheres estão na
liderança, isso melhora bastante para a gente”, afirma.
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Mais mulheres no poder
Para
Isabela, ampliar a representação feminina também passa pelo voto e pela
construção de uma rede de apoio. “Votar em mulheres é um ponto. A partir do
momento que a gente assume esse controle, a gente vai ter mais mulheres
ocupando esses espaços”, afirma. Ela também defende formação política e apoio
de partidos, movimentos sociais e associações para preparar novas lideranças.
As
redes sociais são outro instrumento citado pela vereadora. Segundo ela, as
plataformas permitem que candidatas apresentem seu trabalho e alcancem
eleitores mesmo diante dos altos custos das campanhas.
Mesmo
com avanços legais, a presença feminina ainda é reduzida nos espaços de
decisão. Para mudar esse cenário, as entrevistadas apontam caminhos como maior
acesso a recursos, formação política, participação nas estruturas partidárias,
combate à violência de gênero e fortalecimento das redes de apoio.
Como
resume Ana Paula Matos: “Política é lugar de mulher, com respeito à sua voz.”
Fonte:
Por Evellyn Teixeira, em A Tarde

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