Avanço
da extrema direita acende alerta em ONGs que defendem direitos e ambiente
Lideranças
do terceiro setor se dizem preocupadas com possíveis retrocessos em pautas
sociais e ambientais diante do avanço da extrema direita e o fortalecimento de
governos estaduais mais conservadores após o resultado do 1º turno das eleições
no Brasil.
Entre
os temores, avanço do desmatamento, volta do Brasil ao Mapa da Fome, violência
policial em comunidades, além do próprio desmonte do terceiro setor e
enfraquecimento institucional de ONGs.
Um
sinal de alerta seria a escalada de incêndios florestais no Amazonas desde o
final de setembro. O presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
e dos Recursos Naturais Renováveis), Jair Schmitt, declarou que a disputa
política nas redes sociais sobre responsabilidades no combate aos incêndios
estaria incitando pessoas a colocar fogo na floresta por motivos ideológicos.
“Há
suspeita de motivação política no caso de Santarém [PA], com a explosão das
queimadas no dia seguinte ao primeiro turno, comprovada inclusive por
satélites”, diz Caetano Scannavino, coordenador-geral do Projeto Saúde &
Alegria, ONG de referência que atua no Pará.
Em
2019, a organização foi alvo de buscas pela Polícia Civil sob a acusação de que
brigadistas —um deles colaborador da ONG— teriam provocado incêndios florestais
em Alter do Chão (PA). A motivação política ficou clara quando os voluntários
foram inocentados em 2020, com o arquivamento do inquérito pela Polícia
Federal.
“Fomos
exemplo de perseguição e acusações sem sentido, situações que tendem a se
agravar com a hipótese de termos uma nova gestão Bolsonaro”, afirma Scannavino.
Hipótese
também levantada por Laís de Figueirêdo Lopes, titular do Confoco (Conselho
Nacional de Fomento e Colaboração), que vê um fenômeno global de encolhimento
do espaço cívico em governos de extrema direita.
“O
início da gestão [Bolsonaro] foi marcado pela extinção de diversos colegiados
da administração pública federal. O decreto 9.759/2019 ficou conhecido como o
decreto do desmonte da participação social”, afirma.
Isso
porque, segundo ela, o Poder Executivo é quem define prioridades, direciona
recursos, formula e implementa políticas públicas. E, por isso, “pode criar
condições para a atuação ou sufocar quem fiscaliza, denuncia e apresenta
caminhos”.
O líder
do Saúde & Alegria considera crítico o avanço bolsonarista em toda a
Amazônia Legal, com a eleição de candidaturas que defendem abertamente anistia
a fazendeiros que desmatam, reversão de demarcações de territórios para
populações tradicionais e grandes empreendimentos de infraestrutura.
Flávio
Bolsonaro (PL) tem entre suas bandeiras eleitorais críticas às leis de proteção
ambiental e a defesa da exploração de recursos naturais em terras indígenas,
inclusive com a legalização do garimpo.
“É uma
maioria gigantesca para passar toda essa boiada na câmara, no senado, nos
governos subnacionais e até na pan-amazônia”, afirma Scannavino, em referência
ao recente alinhamento de governos da América Latina a Donald Trump (EUA).
À
frente da Ação da Cidadania, ONG criada por Betinho para combater a insegurança
alimentar, Rodrigo ‘Kiko’ Afonso prevê que, caso Flávio ocupe a presidência em
2027, o Brasil volte ao Mapa da Fome da ONU, do qual saiu em 2025, após
regresso de 2022.
“Temo
que volte ao mapa porque alimentação para a extrema-direita não é segurança
alimentar, é negócio. Se está exportando milho, soja e cana, está tudo bem, e
abandona políticas que fomentam o pequeno produtor, que é quem faz chegar
alimentos na nossa mesa”, afirma ele.
Em
2022, a organização financiou pesquisa que revelou 33 milhões de pessoas
passando fome no Brasil após a pandemia de Covid-19.
“Fomos
ameaçados de morte nos territórios durante a divulgação da pesquisa”, lembra
Kiko, que, à época, não mediu palavras contra Jair Bolsonaro, ao dizer que o
governo era a causa da escalada da fome no país.
No
sertão da Paraíba, produtores rurais se reúnem periodicamente para discutir
projetos de fortalecimento da agricultura familiar. E o tema das eleições não
passa batido.
“Estão
todos com medo do que possa acontecer com os direitos que conquistamos, se a
extrema direita avançar. Será um governo a favor dos mais ricos, um rolo
compressor, desastre dos grandes”, diz José Dias, coordenador do Cepfs (Centro
de Educação Popular e Formação Social).
Ele
relembra o governo bolsonarista: “Não teve projeto de fortalecimento da
agricultura familiar, de combate à desertificação, de convivência com o
semiárido”.
E não
esquece que, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, o candidato do PL
disse que “a melhor forma que nós temos de proteger o meio ambiente é
oferecendo saneamento básico”. “É um despreparo”, critica José Dias.
Em sua
proposta de governo, Flávio não menciona, nenhuma vez, termos como “aquecimento
global” ou “mudança climática”.
Já no
maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, o Complexo da Maré, o risco de
aumento da violência e de violação de direitos é avaliado como provável pela
organização Redes de Maré, que desde 2007 atua na comunidade.
“Estamos
em alerta diante de candidaturas que trabalham em perspectiva antidemocrática e
alinhados a pautas conservadoras”, diz Eliana Sousa Silva, fundadora da ONG.
Para a
educadora, quando chegam ao poder, agem a partir de relações de violência com
quem reside em favelas.
“A
violação de direitos acontece muitas vezes pelo próprio estado, e já vivemos
situações em que direitos básicos, para uma população que já vive no limite
deles, foram interrompidos”, afirma Eliana.
O
cenário não é favorável em quaisquer instâncias, reforça ela, que teve
parcerias da ONG interrompidas de forma brusca após os cortes de Trump sobre a
Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).
“Afetaram
nosso trabalho, mas não vamos fugir da luta”, afirma a empreendedora social.
• No Senado, Flávio propôs fim de proteção
à área onde pai foi multado por pesca ilegal
Ao
longo de sua carreira no Senado, iniciada em 2019, Flávio Bolsonaro (PL)
colocou sua assinatura em ao menos 12 projetos que esbaram na esfera ambiental.
Os textos prõpoem, por exemplo, a flexibilização de regras, a redução de um
parque no Rio e a extinção de uma reserva onde seu pai recebeu uma multa por
pesca ilegal.
Este
último projeto remete a um episódio de 25 de janeiro de 2012. O Ibama autou
Jair Bolsonaro por pescar dentro da Estação Ecológica de Tamoios, na região de
Angra dos Reis. A atividade é proibida na região.
O
projeto de Flávio designa a região como de interesse turístico, o que na
prática permitiria pescar ali. O texto está na Comissão de Meio Ambiente do
Senado desde 2023.
Outros
projetos apoiados pelo peelista buscam alterações na demarcação de terras
indígenas —a instituição dessas áreas contribui para a sua preservação,
coibindo, por exemplo, o desmate— a criação de um fundo climático e a
designação do pantanal sul-mato-grossense como patrimônio.
Abaixo,
confira as 12 propostas de cunho socioambiental ou climático assinadas pelo
senador, que disputa com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o segundo turno para a
Presidência da República.
>>>>
Conheça 12 projetos assinados por Flávio Bolsonaro (PL) no Senado
• Extinção da Estação Ecológica de
Tamoios (RJ)
• Extinção das reservas legais no país
• Criação do marco temporal para terras
indígenas
• Alteração de competência para criação de
terras indígenas
• Redução do Parque Nacional da Tijuca
• Flexibilização da proteção ambiental de
terras indígenas
• Simplificação da alocação de recursos
para desastres ambientais
• Criação do Fundo Nacional para
Emergências Climáticas
• Instituição do pantanal de Mato Grosso
do Sul como patrimônio nacional
• Flexibilização da proteção ambiental de
terras indígenas
• Mudança da competência do Executivo para
criar áreas protegidas
• Substituição do termo ‘agrotóxicos’ por
‘pesticidas’
#
Extinção da Estação Ecológica de Tamoios (RJ)
PL n°
6479, de 2019: a proposta institui uma área de interesse turístico na Costa
Verde do Rio de Janeiro, onde ficam Angra dos Reis, Itaguaí, Mangaratiba,
Paraty e Rio Claro. Para isso, revoga o decreto que criou a Estação Ecológica
de Tamoios, de 1990, fragilizando a proteção a estações ecológicas (onde não
pode haver atividades econômicas).
Justificativa
apresentada: mudança orientaria “uma política voltada ao desenvolvimento
turístico com viés de assegurar a preservação e valorização [do] patrimônio
cultural e natural da região”.
Status:
em tramitação na Comissão de Meio Ambiente do Senado.
#
Extinção das reservas legais no país
PL n°
2362, de 2019: assinado também por Marcio Bittar (PL), o projeto tinha como
objetivo extinguir as reservas legais no país. Essas áreas de vegetação nativa
são obrigatórias em propriedades rurais, ajudando a frear o desmate.
Justificativa
apresentada: “garantir o direito constitucional de propriedade” e “ocupar mais
ainda a região amazônica e explorar os seus recursos naturais”.
Status:
arquivado a pedido do autor.
#
Criação do marco temporal para terras indígenas
PEC n°
48, de 2023: assinado por 27 congressistas, o texto altera a Constituição para
definir um marco temporal para a demarcação de terras indígenas. Com isso,
poderiam ser homologadas só aquelas que estivessem ocupadas por indígenas em
outubro de 1988. A medida limita o reconhecimento de regiões tradicionalmente
ocupadas por esses povos e de onde eles foram expulsos.
Justificativa
apresentada: o projeto, afirmam os congressistas, evitaria “conflitos e
incertezas que prejudicam tanto as comunidades indígenas quanto outros setores
da sociedade”.
Status:
aprovada no plenário do Senado, aguarda decisão da Câmara.
#
Alteração de competência para criação de terras indígenas
PEC n°
61, de 2023: o texto, que tem Flávio entre seus 29 coautores, reduz a autonomia
do Executivo, dando ao Congresso a competência de aprovar a demarcação de
terras indígenas e ratificar as demarcações já homologadas.
Justificativa
apresentada: a decisão do mérito deve ficar a cargo do Legislativo “de forma a
proteger os interesses nacionais estratégicos”.
Status:
em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
#
Redução do Parque Nacional da Tijuca
PL n°
3490, de 2024: o projeto, criado por Flávio em coautoria com Carlos Portinho
(PL) e Romário (sem partido), exclui dos limites do Parque Nacional da Tijuca,
no Rio de Janeiro, a área do Alto Corcovado, onde fica o Cristo Redentor. Com
isso, a gestão da área deixaria de ser do ICMBio (Instituto Chico Mendes de
Conservação da Biodiversidade).
Justificativa
apresentada: a Igreja Católica teria “liberdade para administrar o complexo sem
as amarras burocráticas que envolvem a gestão de uma unidade de conservação de
proteção integral”.
Status:
em tramitação na Comissão de Meio Ambiente do Senado.
#
Flexibilização da proteção ambiental de terras indígenas
PEC n°
10, de 2024: assinado por 27 senadores, o texto quer “permitir aos índios (sic)
produzir e comercializarem livremente sua produção e prever a obrigação da
União de prestar-lhes auxílio técnico”. Na prática, flexibiliza a legislação
para permitir atividades extrativas e agropecuárias em terras indígenas
—indiretamente dificultando a fiscalização de invasões nas áreas mais
preservadas do país.
Justificativa
apresentada: segundo os autores, o modelo atual “condena os povos originários a
viver eternamente sua pobreza ‘tradicional’, mesmo sentados em cima de riquezas
inestimáveis”.
Status:
em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
#
Simplificação da alocação de recursos para desastres ambientais
PEC n°
15, de 2024: criado durante as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, o
projeto é assinado por 37 senadores. Autoriza um regime extraordinário fiscal e
financeiro para atender necessidades decorrentes de calamidades públicas
ambientais regionais e locais, como secas, inundações, incêndios florestais e
deslizamentos de terra e rompimentos de barragens.
Justificativa
apresentada: o objetivo é “dar uma resposta célere às infelizmente constantes
emergências ambientais que têm ocorrido no país”.
Status:
em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
#
Criação do Fundo Nacional para Emergências Climáticas
PEC n°
16, de 2024: protocolada em meio ao desastre no Sul do país, a proposta é
assinada por 28 senadores e quer criar o Fundo Nacional para Emergências
Climáticas. O mecanismo vigoraria até 2049, provendo recursos e facilitando o
crédito durante desastres naturais. A verba viria de acréscimos a impostos,
além de dotações orçamentárias e doações.
Justificativa
apresentada: “é preciso garantir a alocação consistente de verbas públicas para
o socorro às vítimas, a recuperação e a reconstrução das áreas atingidas”,
argumentam os autores.
Status:
em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
#
Instituição do pantanal de Mato Grosso do Sul como patrimônio nacional
PEC n°
18, de 2024: o texto, criado diante do aumento dos incêndios no bioma, inclui o
pantanal de Mato Grosso do Sul entre os patrimônios nacionais. Com isso,
cria-se um precedente jurídico para que as atividades desenvolvidas no bioma
assegurem a preservação do meio ambiente.
Justificativa
apresentada: o objetivo, defendem os 34 coautores da proposta, visa fortalecer
“políticas voltadas à prevenção de incêndios e queimadas e à conciliação entre
desenvolvimento econômico e proteção ambiental”.
Status:
aprovada no plenário do Senado, aguardando decisão da Câmara.
#
Flexibilização da proteção ambiental de terras indígenas
PEC n°
36, de 2024: semelhante à PEC n° 10/2024 e assinado por 28 senadores, o projeto
autoriza atividades produtivas e comerciais em terras indígenas.
Justificativa
apresentada: o texto qualifica as restrições aplicadas às terras indígenas como
uma distorção a ser corrigida, “garantindo que [os povos indígenas] possam
decidir sobre o próprio desenvolvimento econômico, como sociedades vivas que
são, e não como experimentos antropológicos”.
Status:
arquivada à pedido do autor.
#
Mudança da competência do Executivo para criar áreas protegidas
PEC n°
24, de 2025: o projeto atribui ao Congresso a responsabilidade de criar
unidades de conservação ambiental e demarcar terras indígenas, tirando essa
atribuição do Executivo. A medida criaria ainda mais obstáculos à ampliação
destas áreas, o que ambientalistas consideram essencial para frear o
desmatamento e reduzir conflitos fundiários.
Justificativa
apresentada: “Busca-se a implementação de um procedimento que seja o mais
democrático possível”, defendem os 27 coautores da PEC, acusando o Executivo de
agir por “interesses escusos de ONGs”.
Status:
em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
#
Substituição do termo ‘agrotóxicos’ por ‘pesticidas’
PEC n°
25, de 2025: com a medida, leis federais, estaduais e municipais não poderão
mais usar o termo “agrotóxico” e deverão adotar a palavra “pesticidas” para se
referir aos venenos usados contra pestes nas lavouras.
Justificativa
apresentada: o objetivo, segundo os 29 autores da proposta, seria “corrigir uma
inadequação terminológica que há anos prejudica a imagem do setor agropecuário
nacional” e restabelecer “o respeito para com o setor agro do país”.
Status:
ainda não discutida, aguardando encaminhamento no Senado.
• Inventar o Brasil: arremedo de projeto
de governo da extrema-direita levará o Brasil de volta ao século 16
Certo
Brasil parece sempre querer caminhar a passos céleres para cumprir a sua grande
vocação como empreendimento de gestão (para usar uma expressão da moda): a de
ser um engenho monocultor, com os senhores e sinhás, os mestres gestores, os
consumidores do que é gestado e os empregados cativos dos senhores.
As
notícias que chegam sobre o arremedo de projeto de governo da extrema-direita
apontam para o lançamento dos alicerces de um projeto que levará, se o
empreendimento der certo, o Brasil de volta ao século 16 em grande estilo.
Seremos,
nesse caso, o arremedo de uma colônia racista, misógina, preconceituosa,
mesquinha e doente, comandada pelos filhos de algumas das ditas boas famílias
brasileiras, herdeiras dos “homens bons” de quinhentos anos atrás: aquelas que
desde a casa-grande não conseguem conceber o mundo sem os seus escravizados,
feitores, capatazes, serviçais, capangas e capitães do mato.
O
contraponto a esse repertório de horror pressupõe uma tarefa institucional mais
urgente, a de votar em Lula, mas impõe mergulhos mais amplos e desafiadores nos
próximos anos. Não me parece que nossa tarefa tenha que se limitar,
simplesmente, a resistir a esse obsceno avanço do retrocesso.
Penso
aqui no vasto campo material e simbólico que define as culturas populares
brasileiras, minha área de reflexão, produção e ação. Resistência, por
definição, é a capacidade que uma força tem de se opor a outra; um conjunto de
atos de defesa contra determinadas ações. Por isso acho insuficiente dizer que
as culturas populares do Brasil são “de resistência”.
Mas
elas não são? Também são, mas é pouco. Pensemos nas festas da brasilidade como
exemplo. Festejar não é só resistir (opor-se ao outro). É também inventar a
vida e organizar o mundo em dimensões materiais, políticas, afetivas, poéticas
e espirituais que o oponente não alcança.
É por
isso, enfim, que gosto de falar de culturas de invenção: aquelas que resistem,
mas vão além da resistência, não se limitam a reagir e ousam construir mundos e
celebrar a vida onde, aparentemente, só a morte deveria imperar.
O
desafio está colocado.
Fonte:
Folhapress

Nenhum comentário:
Postar um comentário