Refugiados
climáticos: qual a relação entre mudanças climáticas, racismo ambiental e
desigualdade?
Uma
enchente pode alcançar bairros diferentes de uma mesma cidade. Uma seca pode se
estender por municípios inteiros. Ainda assim, seus moradores não enfrentam
esses eventos nas mesmas condições. Há quem consiga sair antes de uma
emergência, pagar por uma moradia temporária e reconstruir o que perdeu. Outros
vivem em áreas mais expostas, dependem de serviços públicos precários e podem
perder casa, trabalho e renda ao mesmo tempo.
Essa
diferença está no centro da discussão sobre refugiados climáticos. A expressão
ganhou espaço para descrever pessoas que deixam seus territórios diante de
enchentes, secas, incêndios, avanço do mar e outras transformações ambientais
associadas ou agravadas pelas mudanças climáticas.
O
deslocamento, porém, começa antes da mudança de endereço. Renda, raça, acesso à
terra, moradia, saneamento, infraestrutura e políticas públicas interferem na
exposição ao risco e nas alternativas disponíveis depois de um desastre. A
experiência dos retirantes nordestinos mostra que essa relação também atravessa
a história brasileira.
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O que são refugiados climáticos?
A
expressão refugiados climáticos costuma ser usada para designar pessoas
obrigadas a deixar suas casas porque eventos climáticos ou mudanças ambientais
ameaçam sua segurança, renda ou condições de vida. Isso pode ocorrer
rapidamente, depois de uma enchente ou tempestade, ou ao longo dos anos.
Secas
prolongadas, desertificação, erosão, salinização de terras e elevação do nível
do mar podem reduzir gradualmente o acesso à água, a produção de alimentos e as
possibilidades de trabalho. Nesses casos, não existe necessariamente um único
dia em que o desastre acontece. O território perde, pouco a pouco, condições
para sustentar parte de sua população.
A
relação também envolve fatores sociais. O Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Refugiados (ACNUR) relaciona a crise climática ao aumento da pobreza, à
perda de meios de subsistência e às disputas por recursos como água e terra.
Essas condições podem criar novos deslocamentos e dificultar o retorno de quem
já precisou sair.
Em
2025, desastres provocaram 29,9 milhões de deslocamentos internos em 140 países
e territórios, segundo o Relatório Global sobre Deslocamento Interno de 2026.
Tempestades responderam por 17,9 milhões desses movimentos e enchentes, por
quase 7,9 milhões.
O
número não corresponde automaticamente a refugiados climáticos. O Centro de
Monitoramento de Deslocamento Interno (IDMC, na sigla em inglês), principal
autoridade mundial em dados, análises e relatórios sobre pessoas que foram
forçadas a deixar suas casas dentro de seus próprios países devido a conflitos,
violência ou desastres naturais, registra deslocamentos provocados por
desastres, categoria que também abrange fenômenos sem relação com o clima, como
terremotos.
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Refugiados climáticos ainda não têm reconhecimento jurídico
Apesar
de difundida, a expressão refugiado climático não corresponde a uma categoria
jurídica reconhecida internacionalmente. O Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Refugiados (ACNUR) recomenda maior precisão no uso do termo. A maior
parte das pessoas forçadas a sair por desastres relacionados ao clima permanece
dentro do próprio país.
No
Brasil, a Lei 9.474, de 1997 reconhece como refugiada a pessoa que deixa seu
país por temor de perseguição relacionado a raça, religião, nacionalidade,
grupo social ou opiniões políticas, além de quem é obrigado a sair devido a
grave e generalizada violação de direitos humanos. A mudança climática não
aparece como hipótese autônoma.
As
palavras, portanto, descrevem situações diferentes:
• Migrante ambiental: é uma expressão
abrangente para movimentos relacionados a alterações ambientais;
• Deslocado interno: é quem precisa
abandonar sua residência, mas permanece dentro das fronteiras nacionais;
• Refugiado: possui uma definição jurídica
ligada à proteção internacional.
Há
situações em que clima, violência e perseguição se sobrepõem e as normas de
refúgio podem ser aplicáveis. O ACNUR, porém, recomenda falar em pessoas
deslocadas no contexto de mudanças climáticas e desastres quando essas
condições jurídicas não estão presentes.
O
Brasil ainda discute uma legislação específica. O PL 1.594/2024 propõe criar a
Política Nacional dos Deslocados Ambientais e Climáticos, com medidas
relacionadas à moradia, saúde, educação, trabalho, assistência e acesso à
Justiça.
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Desastres climáticos expõem desigualdades sociais
As
enchentes do Rio Grande do Sul ajudam a visualizar essa diferença. Entre abril
e maio de 2024, as águas provocaram cerca de 775 mil deslocamentos, segundo o
IDMC. Mais de três quartos ocorreram na região metropolitana de Porto Alegre, e
478 dos 497 municípios gaúchos foram afetados.
A
dimensão da tragédia não dependeu somente do volume de chuva. O IDMC relaciona
sua escala às mudanças climáticas e a deficiências no desenvolvimento e na
manutenção da infraestrutura.
Isso
ajuda a entender por que um fenômeno meteorológico não explica sozinho um
desastre social. Sistemas de drenagem, diques, moradia, ocupação do solo,
transporte, alertas, serviços de emergência e planejamento urbano interferem na
exposição da população.
O mesmo
problema aparece em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Antes das
enchentes e deslizamentos em 2022, o município já possuía um Plano Municipal de
Redução de Riscos, elaborado em 2017, que identificava dezenas de áreas
classificadas como de risco alto e muito alto. Depois da tragédia, novos
relatórios voltaram a indicar praticamente os mesmos territórios como
prioritários para intervenções.
O caso
mostra como a exposição a chuvas intensas também depende do que acontece antes
da emergência: identificação das áreas ameaçadas, execução de obras, políticas
habitacionais e medidas capazes de reduzir a vulnerabilidade de quem vive
nesses locais.
Os
efeitos também continuam depois que a chuva termina. Petrópolis registrou
moradores que ainda relatavam medo de novos temporais, perdas econômicas,
sofrimento psicológico e dificuldades para reconstruir a vida três anos depois
da catástrofe. A permanência desses impactos amplia a discussão sobre
deslocamento climático: sair de uma área de risco é apenas uma etapa para quem
perde moradia, renda ou condições de retornar ao território. Em cidades onde os
riscos já foram mapeados, a discussão passa ainda pela execução das medidas de
prevenção e pela responsabilidade diante de tragédias anunciadas.
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A renda define as possibilidades de fugir e reconstruir
Renda
também altera as opções disponíveis antes e depois de uma emergência. Uma
família com recursos pode pagar transporte, deixar preventivamente uma área
ameaçada, alugar outro imóvel, substituir documentos e bens e permanecer meses
longe de casa. Para famílias de baixa renda, esses custos podem tornar a saída
mais difícil.
Por
isso, migração nem sempre significa maior vulnerabilidade e permanência nem
sempre significa segurança. Pessoas extremamente pobres podem continuar em
territórios ameaçados porque não dispõem de dinheiro, transporte, moradia
alternativa ou redes de apoio suficientes para sair.
Perder
uma casa pode significar perder patrimônio acumulado durante décadas. Para
trabalhadores rurais, a perda de terra, animais ou produção afeta também a
renda. Trabalhadores informais podem ficar sem atividade durante a emergência.
O desastre, assim, pode aprofundar uma situação de pobreza que já aumentava a
exposição ao risco.
Adaptação
às mudanças climáticas depende, portanto, de condições que ultrapassam decisões
individuais. Habitação, saneamento, regularização fundiária, sistemas de
alerta, proteção social e recursos para reconstrução ampliam ou restringem as
alternativas disponíveis.
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O racismo ambiental amplia a exposição aos desastres
As
diferenças de exposição têm uma dimensão racial. O conceito de racismo
ambiental ajuda a explicar por que populações negras, indígenas, quilombolas e
comunidades periféricas podem estar mais sujeitas a riscos ambientais e ter
menos acesso à infraestrutura necessária para enfrentá-los.
O
esgotamento sanitário oferece uma medida dessa desigualdade. Segundo o Censo
Demográfico 2022 do IBGE, 83,5% das pessoas brancas viviam em domicílios com
esgotamento por rede coletora, pluvial ou fossa séptica. Entre pessoas pretas,
a proporção era de 75%; entre pardas, 68,9%; e entre aquelas declaradas
indígenas no quesito de cor ou raça, 29,9%. As diferenças revelam desigualdades
raciais no acesso à infraestrutura sanitária, um dos fatores que interferem nas
condições de enfrentamento dos riscos ambientais.
A
discussão sobre eventos climáticos extremos e racismo ambiental também
relaciona vulnerabilidade às desigualdades sociais acumuladas e à forma como
cidades e territórios foram ocupados.
Por
isso, dizer que uma família mora em uma área de risco explica pouco. É
necessário observar quem consegue pagar pela terra e pela moradia em áreas não
vulneráveis, onde o Estado instalou drenagem e saneamento, quais populações
vivem em encostas, margens de rios ou territórios sem infraestrutura e quais
recursos estão disponíveis para quem precisa sair.
A
desigualdade de infraestrutura também passa pela forma como os recursos
públicos são distribuídos e executados. Redes de drenagem, saneamento, obras de
contenção, habitação e sistemas de prevenção de desastres dependem de
investimentos continuados. Quando esses serviços são insuficientes,
interrompidos ou não chegam a determinados territórios, populações que já
convivem com maior vulnerabilidade ficam mais expostas a enchentes,
contaminação da água e outros riscos ambientais.
O
racismo ambiental ajuda a analisar justamente essa distribuição desigual tanto
dos riscos quanto da proteção oferecida pelo Estado.
Essa
relação também permite aproximar o racismo ambiental e a justiça climática. A
discussão envolve observar quais bairros e comunidades recebem investimentos
capazes de reduzir sua exposição e quais permanecem com infraestrutura precária
diante de eventos extremos.
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Deslocamentos provocados pela natureza também têm causas sociais
A
relação entre fenômenos ambientais, desigualdade e migração antecede o debate
atual sobre mudanças climáticas. Ao longo da história, secas, enchentes e
outras alterações do ambiente provocaram deslocamentos, mas as condições
econômicas e sociais influenciaram quem conseguia permanecer e quem precisava
partir.
No
Brasil, a experiência dos retirantes nordestinos ajuda a compreender essa
relação. Durante as grandes secas, a falta de chuvas comprometia a produção
agrícola e o abastecimento de água, enquanto a concentração da terra, as
relações de trabalho e o acesso desigual à assistência pública limitavam as
alternativas de parte da população.
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Retirantes: seca e desigualdade social
A
história dos retirantes nordestinos oferece uma ponte para compreender essa
relação sem transformar fenômenos de épocas diferentes em equivalentes.
A seca
afetava o Semiárido, mas nem todos os habitantes se tornaram retirantes.
Propriedade da terra, renda, relações de trabalho, acesso à água, assistência
pública e capacidade de manter a produção interferiam em quem conseguia
permanecer.
A
história das políticas públicas para as secas mostra que a própria
interpretação do problema mudou. Depois da seca de 1877, as políticas
concentraram-se em obras hidráulicas. Em 1909, foi criada a Inspetoria de Obras
Contra as Secas. Décadas depois, o debate passou a incorporar desenvolvimento
regional, estrutura econômica e pobreza. Na seca de 1958, mesmo com açudes,
estradas e instituições públicas, cerca de 500 mil sertanejos precisaram ser
atendidos por frentes de serviço.
A
Grande Seca de 1877 também revela o papel do Estado nos deslocamentos. Em
novembro de 1878, mais de 200 mil migrantes vindos do Sertão buscavam auxílio
em Fortaleza. A concentração dos socorros públicos na capital influenciou as
rotas de migração, enquanto localidades mais distantes recebiam menos
assistência. Diante da dificuldade de sustentar uma população tão numerosa em
Fortaleza, o próprio governo provincial também passou a facilitar a saída de
retirantes para outros destinos.
A
estiagem também encontrava uma população marcada por condições muito diferentes
de sobrevivência. Os grupos situados nas posições mais frágeis da estrutura
social eram atingidos primeiro pela falta prolongada de chuvas, porque tinham
menos recursos para manter a alimentação, o trabalho e a permanência no
território. A concentração da terra, as relações de trabalho e o acesso
desigual à água, aos meios de produção e à assistência pública ajudavam a
determinar quem conseguia atravessar a seca e quem precisava partir.
O livro
Vidas Secas, de Graciliano Ramos, tornou-se um marco da literatura nacional
justamente por mostrar como fatores sociais influenciam na forma como fenômenos
climáticos são experienciados. Na obra, Fabiano e sua família fogem da seca,
mas convivem também com fome, exploração do trabalho, pobreza e falta de acesso
a direitos. O romance é associado justamente ao descaso social e às relações de
exploração enfrentadas pelos personagens.
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A crise climática aprofunda as desigualdades existentes
O
presente acrescenta outra escala ao problema. Enchentes, secas, calor extremo,
incêndios e alterações graduais nos territórios podem comprometer moradia,
renda, produção de alimentos e acesso à água. Seus efeitos encontram sociedades
nas quais terra, infraestrutura e recursos econômicos já estão distribuídos de
maneira desigual.
A
desigualdade também atravessa gênero. A discussão sobre justiça climática e
mulheres relaciona a exposição de mulheres negras e periféricas a enchentes,
deslizamentos, insegurança alimentar e dificuldades de acesso a recursos para
adaptação.
A
capacidade de permanecer também depende dessas condições. Para povos indígenas,
por exemplo, a adaptação climática envolve a possibilidade de continuar
ocupando e protegendo seus territórios. Por isso, demarcação e gestão
territorial entraram no debate sobre as metas climáticas brasileiras.
Essas
diferenças ajudam a explicar por que mudanças climáticas podem aprofundar
desigualdades existentes. A ameaça ambiental atinge territórios onde renda,
raça, propriedade da terra e infraestrutura já determinavam diferentes
condições de vida.
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Justiça climática também significa poder permanecer
Falar
em refugiados climáticos costuma direcionar a atenção para quem partiu. Há
outra pergunta necessária: quem possui condições para permanecer com segurança?
Entre
sair antes de uma enchente, ser retirado durante uma emergência e abandonar
definitivamente um território, existem situações muito diferentes. Algumas
pessoas conseguem planejar uma mudança. Outras são forçadas a fugir sem saber
onde irão morar. Há ainda quem permaneça em uma área ameaçada porque sair custa
mais do que sua renda permite.
A
experiência dos retirantes nordestinos ajuda a enxergar essa diferença. A chuva
podia faltar para todos, mas a propriedade da terra, trabalho, água e
assistência definiam as possibilidades disponíveis. Hoje, infraestrutura
urbana, moradia, renda, proteção territorial e políticas de adaptação cumprem
papel semelhante diante de novos riscos.
Compreender
os refugiados climáticos passa, então, por acompanhar secas, enchentes,
tempestades e transformações ambientais, mas também por observar as condições
encontradas por esses fenômenos. É nessa combinação que se define quem consegue
permanecer, quem pode migrar com segurança e quem precisa reconstruir a vida
depois de partir.
Quando
a ação humana agrava as mudanças climáticas, muita gente sofre. Mas há
populações inteiras com um alvo já cravado nas costas. Diferentemente da chuva
e do calor, a desigualdade não é natural: ela ajuda a definir quem encontra
proteção, quem consegue sair e quem fica porque não tem outra escolha.
Pode
parecer que as coisas “sempre foram assim”. Mas a desigualdade é construída por
decisões políticas e relações de poder — e pode ser transformada.
Fonte:
ICL Notícias

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