Neurologia:
O alarme que não desliga ante qualquer sinal de ameaça
O medo
é uma das respostas mais importantes para a sobrevivência das espécies. Diante
de uma ameaça, o cérebro precisa reconhecer o perigo rapidamente e preparar o
corpo para agir. Podemos lutar, fugir ou apenas congelar. Embora essa reação
seja essencial para proteger a vida, o medo nem sempre desaparece quando a
ameaça acaba. Estudos recentes abordam como esse ele se desenvolve e por que,
em algumas situações, o cérebro permanece em estado de alerta, fazendo com que
essa emoção se transforme em ansiedade persistente.
Durante
muito tempo, a amígdala cerebral foi considerada uma das principais estruturas
responsáveis pela resposta ao medo. Ela participa do reconhecimento de
situações ameaçadoras e dispara rapidamente quando um perigo é identificado.
Entretanto, novas pesquisas mostram que a reação ao medo é muito mais complexa.
Cientistas
do Instituto Salk, nos Estados Unidos, identificaram, em camundongos, uma
pequena região próxima à amígdala chamada zona de transição amigdaloestriatal,
ou ASt. Essa área parece ajudar a explicar por que algumas respostas defensivas
permanecem mesmo depois do surgimento inicial do perigo. Enquanto os neurônios
da amígdala apresentam uma resposta rápida e breve, as estruturas da ASt
permanecem ativas por mais tempo.
Experimentos
mostraram que a ativação da ASt pode provocar comportamentos como congelamento
e esquiva. Já a inibição de determinados neurônios dessa região reduziu
respostas relacionadas ao medo. Os resultados sugerem que o ASt pode funcionar
como uma espécie de ponte entre a identificação emocional de uma ameaça e a
manutenção das ações necessárias para enfrentá-la.
Thiago
Taya, neurologista e neuroimunologista do Hospital Brasília Águas Claras, da
Rede Américas, destaca que o mecanismo de persistência de uma memória, sensação
ou estímulo é extremamente complexo e envolve nuances bem específicas de cada
pessoa e mecanismos neuronais comuns a todo mundo. "Então, só a
intervenção na região da ASt talvez não seja a solução para transtornos
psiquiátricos como fobias e transtorno de estresse pós-traumático."
Outra
pesquisa, realizada por cientistas do St. Jude Children's Research Hospital,
também nos Estados Unidos, acrescenta uma nova peça a esse complexo circuito.
Os pesquisadores estudaram os chamados neurônios C1, células produtoras de
epinefrina localizadas em uma região do cérebro conhecida como RVLM. Essas
estruturas também parecem participar da maneira como o cérebro mantém o estado
de alerta depois de uma experiência estressante.
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Resposta ao estresse
Em
situações de estresse, os neurônios C1 normalmente aumentam sua atividade por
um período limitado. Porém os cientistas descobriram, em modelos animais, que
quando são ativados de maneira prolongada, podem contribuir para uma resposta
de ansiedade que permanece por vários dias — em alguns experimentos, por até
uma semana. Esses neurônios também aumentam a atividade da substância cinzenta
periaquedutal, uma região envolvida na coordenação das respostas ao estresse e
ao medo.
Os
trabalhos ajudam a mostrar que o medo não é apenas um instante de reação diante
de uma ameaça. Ele envolve uma rede de regiões cerebrais que identifica o
perigo, prepara o organismo para responder e, em determinadas circunstâncias,
mantém o cérebro em estado de vigilância mesmo depois que a situação já passou.
Os
cientistas acreditam que essa permanência pode ser útil quando existe uma
ameaça real e contínua. No entanto, quando o sistema de alerta continua ativado
por tempo excessivo, pode contribuir para problemas relacionados à ansiedade,
ao pânico, a fobias e ao estresse pós-traumático. É justamente por isso que
eles insistem na necessidade de compreender os circuitos responsáveis pelo
medo, abrindo assim, caminhos para o desenvolvimento de tratamentos mais
específicos.
Apesar
dos trabalhos terem sidos realizados em modelos animais, eles revelam que o
medo, portanto, não está concentrado em uma única região do cérebro. Ele surge
da interação entre diferentes circuitos que trabalham para detectar ameaças,
organizar respostas defensivas e determinar por quanto tempo o estado de alerta
deve permanecer.
Taya
diz que os modelos animais apresentam diversas limitações, porque a
complexidade estrutural e principalmente sociocomportamental do cérebro humano
tem suas muitas diferenças em relação ao cérebro de um rato, mas tem grande
valia como protótipo para criação de hipóteses. "Pesquisas translacionais
são necessárias, que tentam plotar e reproduzir estes achados em tecidos
organoides humanos, em tecidos cerebrais cultivados em laboratório, e depois o
caminho natural são estudos in vivo, com pessoas reais, e as fases de ensaios
clínicos, sempre avaliando riscos, efeitos adversos e benefícios."
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Tratamento personalizado
As
mulheres têm o dobro da probabilidade dos homens de desenvolver transtorno de
estresse pós-traumático (TEPT). Um estudo da Virginia Tech, nos Estados Unidos,
revela que o cérebro feminino forma memórias de medo usando um processo
molecular não observado nos homens. O trabalho foi publicado na revista
Behavioural Brain Research.
Os
resultados sugerem que os tratamentos para o TEPT precisar ser adaptados de
forma diferente para pacientes do sexo feminino e masculino, afirmou o
pesquisador principal do estudo, Timothy Jarome, professor associado de
neurobiologia. "As mulheres têm maior probabilidade de desenvolver TEPT do
que os homens, mas não relatam vivenciar mais eventos traumáticos. Isso aponta
para um mecanismo neurobiológico que é acionado nas mulheres durante um evento
traumático e pode ajudar a explicar a diferença que observamos no
transtorno."
O
estudo identificou uma marca molecular no cérebro, até então não estudada,
conhecida como poliubiquitinação K27, que parece desempenhar um papel
fundamental na forma como o órgão feminino armazena memórias de medo.
Utilizando
ratos, os pesquisadores examinaram duas regiões do cérebro ligadas ao medo e à
memória: o hipocampo, que ajuda a conectar experiências a lugares, e a
amígdala, que processa o medo e a emoção. A equipe descobriu que os níveis de
poliubiquitinação K27 aumentaram no hipocampo de fêmeas após uma experiência de
aprendizagem relacionada ao medo, mas não em machos.
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Processos diferentes
Quando
os pesquisadores reduziram a ubiquitinação K27 usando uma técnica de edição
genética, descobriram que as fêmeas tinham dificuldade em reter a memória,
enquanto os machos não foram afetados. "Só porque homens e mulheres
conseguem aprender ou lembrar a mesma experiência não significa que o processo
cerebral que leva a isso seja o mesmo", disse Jarome.
Na
amígdala, a equipe não observou nenhuma mudança significativa nos níveis de
poliubiquitinação K27 após a tarefa de aprendizagem do medo. Para os
cientistas, esse resultado foi surpreendente. "Normalmente, esperaríamos
que a amígdala fosse o local onde isso aconteceria, porque é muito importante
para as emoções. Mas vimos isso em uma região de memória mais ampla, e era
específico para um dos sexos."
Os
pesquisadores também descobriram que a poliubiquitinação K27 se liga a uma
proteína chamada ACAT1 no hipocampo durante a formação da memória em mulheres.
A ACAT1 tem sido associada à doença de Alzheimer, o que levanta a possibilidade
de que ela possa desempenhar um papel tanto na formação quanto na perda da
memória.
Para
Maciel Pontes, médico neurologista em Brasília, o estudo abre uma porta para
uma futura medicina mais individualizada, mas ainda não oferece um tratamento
para TEPT baseado em K27. "É uma possibilidade futura e essa é uma das
implicações levantadas pelos próprios pesquisadores. Eles sugerem que
tratamentos voltados à memória ou ao transtorno talvez precisem considerar
mecanismos biológicos específicos de cada sexo."
"Porém,
estamos muito longe de transformar esse achado em medicamento. Primeiro, seria
necessário demonstrar que a mesma diferença de poliubiquitinação K27 ocorre no
cérebro humano. Depois, compreender quais proteínas são modificadas, como
hormônios, idade e outras variáveis interferem nesse processo e,
principalmente, verificar se modificar essa via consegue diminuir memórias
traumáticas sem prejudicar memórias normais importantes. Só depois viriam
estudos de segurança e ensaios clínicos em seres humanos", completou.
PALAVRA
DE ESPECIALISTA - Natalia Nasser Ximenes, neurologista do Hospital Santa Lúcia
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Resposta neurobiológica
"O
medo é uma resposta de proteção coordenada por uma rede cerebral. A amígdala
participa da identificação de possíveis ameaças; o hipocampo ajuda a
contextualizar a situação; e o córtex pré-frontal contribui para avaliar e
regular essa resposta. Essas estruturas também ativam circuitos autonômicos,
responsáveis por manifestações como aumento dos batimentos cardíacos, sudorese
e aumento da frequência respiratória. É importante lembrar que o medo não é
apenas uma sensação psicológica: é uma resposta neurobiológica que envolve
cérebro e corpo. Ele é fundamental para nossa sobrevivência. O problema surge
quando essa resposta é ativada de forma excessiva ou inadequada, mesmo na
ausência de uma ameaça real. Por isso, sintomas de medo intenso devem ser
compreendidos dentro do contexto clínico, sem atribuí-los automaticamente a uma
doença neurológica."
Fonte:
Correio Braziliense

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