segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Segundo maior doador nacional do PL em 2025 comanda empresa investigada no caso Master

O segundo maior doador nacional do Partido Liberal em 2025 comanda uma multinacional investigada pela Polícia Federal por suspeita de envolvimento nas fraudes financeiras do Banco Master. Marcus Vinícius Almeida Silveira, presidente global da Ambipar, transferiu R$ 250 mil à legenda do candidato à presidente Flávio Bolsonaro em 10 de junho daquele ano, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A Ambipar, multinacional que diz atuar na gestão de resíduos e resposta a emergências ambientais, é alvo da investigação no âmbito da Operação Compliance Zero. A PF suspeita de participação da companhia nas fraudes do banco controlado por Daniel Vorcaro, preso desde o último mês de março. O Master foi liquidado extrajudicialmente por decisão do Banco Central, em novembro do ano passado.

O fundador da companhia, Tércio Borlenghi Júnior, foi citado pela área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como integrante de uma “ação orquestrada” com o empresário Nelson Tanure e o Banco Master para elevar o preço das ações da Ambipar.

A apuração, anterior à Operação Compliance Zero, identificou uma “relação comercial estreita” entre Borlenghi, Tanure, a Trustee DTVM e o banco de Daniel Vorcaro. Nos autos, a diretora da CVM Marina Copola afirmou que os envolvidos “obviamente se mostram bastante confortáveis em fazerem negócios apoiando-se mutuamente”.

As relações comerciais também aparecem em conversas extraídas do celular de Vorcaro e obtidas pelo “Valor Econômico”. Em agosto de 2024, Maurício Quadrado, ex-sócio do banqueiro, afirmou ter acertado com Tércio a divisão de um ganho potencial de R$ 1 bilhão em uma operação envolvendo ações da Ambipar: R$ 550 milhões ficariam com Tércio, R$ 285 milhões com Vorcaro e R$ 165 milhões com Quadrado. Segundo o jornal, essas transações ajudaram a elevar o patrimônio líquido do Master de R$ 2,4 bilhões, em 2023, para R$ 4,7 bilhões em 2024.

Silveira já ocupava um cargo de alto escalão na Ambipar durante o período das operações da companhia com o Master. Segundo seu perfil no LinkedIn, ele é presidente global institucional da empresa desde setembro de 2023. Em relatório publicado pelo B20 Brasil em setembro de 2024, aparece identificado como diretor institucional do grupo.

<><> Rede alcança contador que pagou R$ 500 mil a escritório de Flávio

A rede de relações em torno da Ambipar também alcança Rogério Lourenço Novo, integrante do conselho fiscal da companhia desde abril de 2026. O contador é sócio da Contábil Corrêa, que pagou R$ 500 mil ao escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, e assumiu em 2025 a administração da Copenhagen Assessoria e Consultoria, empresa que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master.

Novo também assumiu, em julho de 2025, a administração da Copenhagen e Assessoria e Consultoria, que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master. Em abril daquele ano, o escritório do senador havia emitido duas notas de R$ 500 mil para a Copenhagen, canceladas no mesmo dia. Dois dias depois, emitiu outra nota de R$ 500 mil para a Contábil Corrêa.

Há registro de vínculo entre Rogério Novo e a família Borlenghi ao menos desde 2009, conforme mostrou o núcleo investigativo do ICL Notícias. Naquele ano, o contador abriu uma transportadora em sociedade com Tércio Patini Borlenghi, filho do presidente da Ambipar. A parceria foi encerrada em 2016, de acordo com informações da Junta Comercial de São Paulo.

<><> Doação direta a deputado do PL

Silveira também doou R$ 32.550 à campanha do deputado federal  Vinicius Carvalho (PL-SP) em 2026, que não foi reeleito.  O então deputado é autor do PL 4035/2021, que estimava incentivos tributários à cadeia de reciclagem, área de atuação da Ambipar.

Um documento do Instituto Atmos, do qual Silveira é diretor-executivo, classificou a proposta como uma “solução de curto prazo” para o setor. O projeto passou a tramitar em conjunto com o PL 1800/2021, que acabou sancionado em abril de 2026 como a Lei 15.394, com com benefícios fiscais para a compra e a venda de materiais recicláveis.

Vinicius Carvalho está no final de seu quarto mandato como deputado federal. Em 2026, filiou-se ao PL e tentou a reeleição, mas ficou na suplência: recebeu 12.773 votos, uma queda de 89% em relação aos 113.009 obtidos quatro anos antes.

<><> Outro lado

Em resposta ao ICL Notícias, Marcus Vinícius Almeida Silveira informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não comentaria o caso.

Procuradas por e-mail e telefone, as assessorias de Flávio Bolsonaro e do PL não responderam aos contatos da reportagem.

Rogério Lourenço Novo também não respondeu às mensagens enviadas pelo ICL.

O espaço segue aberto para manifestação.

•        Nikolas omitiu nova conversa e pressão sob Vorcaro para negócio sobre ativo minerário

Mensagens mostram que, dois dias após o áudio em que o deputado pediu ajuda para “liberar” uma mina, o dono do Master disse ter atendido Nikolas

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) omitiu uma nova conversa com o banqueiro Daniel Vorcaro sobre um ativo minerário representado por seu advogado e ex-assessor Thiago Rodrigues de Faria. Mensagens obtidas pelo ICL Notícias mostram que, em 2 de abril de 2025, Vorcaro relatou a Luiz Rennó, um de seus advogados, que “atendeu” o deputado por “10 minutos”.

Em 2 de abril, às 14:02, Luiz Rennó, perguntou ao banqueiro: “confirma uma informação, Nicolas deputado, Thiago adv e mineração Capão!”. Vorcaro respondeu: “Nikolas me pediu atendi 10 min aqui”. Na mesma conversa, Rennó disse que já tinha “análise dessa área”. À noite, deu a Vorcaro sua análise sobre o pedido de Nikolas e de seu então assessor: “Nao vale a pena ok!”.

Alguns dias se passaram e, em 8 de abril, Rennó contou a Vorcaro que seguia sendo pressionado pelo assunto: “Turma desse lado me cobrando! Falei que não tive tempo de olhar com vc! Negócio é ruim e entendo que não é o momento! Se pensar diferente me avise”. Vorcaro não respondeu. As mensagens não informam o pedido exato feito por Nikolas e seu advogado e também não deixam claro se eles foram atendidos. O ICL procurou Thiago Rodrigues Faria, advogado de Nikolas, mas ele não retornou.

As mensagens contradizem o que Thiago Faria disse ao ICL em outubro. Na época, ele afirmou que nem ele nem o deputado pediram a Vorcaro para destravar o ativo minerário.

A mina do Capão, ou Capão do Lana, fica a cerca de 2 km do distrito de Rodrigo Silva, em Ouro Preto. Explorada desde o início do século 19, é apontada pelo Instituto Gemológico da América (GIA) como uma das mais antigas e produtivas minas de topázio imperial do mundo. A mina pertence à Topázio Imperial Mineração, Comércio e Indústria, dona dos direitos minerários que Thiago Faria tentava negociar, segundo a PF.

Na mesma área fica a barragem Água Fria, construída da mesma forma que as de Mariana e Brumadinho e está em nível de emergência 1. Em 2023, o MPF entrou com uma ação civil pública para obrigar a empresa a adotar medidas de segurança. Em janeiro de 2025, a Agência Nacional de Mineração (ANM) multou a Topázio em autos de infração relativos à barragem. Em fevereiro, embargou a estrutura.

Em 3 de setembro, a coluna da jornalista Juliana Dal Piva, no ICL Notícias, publicou com exclusividade o áudio que Nikolas enviou a Vorcaro em 30 de março de 2025, um domingo. Nele, o deputado chama o banqueiro de “Dani” e diz querer ter mais proximidade com ele. Pede ajuda para seu advogado e ex-assessor, a quem chama de “irmão meu”, e conta que Faria tinha um “ativo minerário” pendente que já teria passado pela área técnica da empresa. Nikolas diz não saber “nem do que se trata”.

<><> “Dani”

No áudio, Nikolas diz: “Ei Dani, tudo bom? Como você está? Como estão as coisas aí? Desculpa te incomodar num domingo aí, é jogo rápido, também não quero tomar muito seu tempo. É o seguinte, meu amigo, meu advogado, enfim, irmão meu aqui, comentou comigo e falou daqui do seu nome. Eu falei: ‘não conheço o Dani, enfim, não tenho a proximidade assim, até mesmo a que eu queria ter, enfim, de conversar e trocar ideia, mas eu o conheço.’ Ele falou: ‘cara, tô com um ativo minerário lá, inclusive já passou pela ficha técnica, o pessoal técnico dele, enfim, tá pendente lá, tem algumas pessoas que sabem disso lá na empresa.’ E eu falei: ‘não, ué, eu posso dar um toque nele’. Então assim, não sei nem do que se trata, mas enfim é como é uma pessoa, enfim, que eu confio totalmente, tô passando aí pra você, pra se for do teu interesse, passar o contato dele aqui pra vocês tocarem isso, beleza? No mais, qualquer coisa tô aqui à disposição”.

Vorcaro respondeu com um áudio de visualização única e depois escreveu: “Amém irmão. Estamos na guerra juntos”. Pediu ainda que Thiago o procurasse. Em 1º de abril, Nikolas avisou que Faria estaria em Brasília, disponível “a qualquer horário”. No dia seguinte, Vorcaro respondeu: “Deixa comigo”.

Depois da publicação, Nikolas pediu ao TRE-MG a censura da reportagem. Em 6 de setembro, o juiz eleitoral Jair Francisco Santos mandou retirar o texto. No dia seguinte, após manifestação da defesa do ICL, liberou a reportagem, mas manteve vetado o termo “lindão”, que constava da transcrição oficial do áudio nos autos.

Em abril de 2024, Vorcaro escreveu a Ana Mattos, a chefe de marketing do Master: “eu me dou muito bem com ele (Nikolas)”. Na ocasião, eles comentavam críticas ao banco pelo patrocínio a um evento em Londres.

<><> Pagamentos de sócio da família Vorcaro

No início de outubro, o ICL Notícias revelou 18 notas fiscais emitidas por Faria. Elas somam R$ 105 mil, pagos entre setembro de 2024 e dezembro de 2025 por empresas do empresário Fernando Alves Vieira. Vieira é sócio de Natália e Henrique Vorcaro, irmã e pai do banqueiro, em diferentes firmas.

O liquidante do Master acusa Vieira, em ação civil nos Estados Unidos, de atuar como “laranja” de Henrique Vorcaro. Vieira nega. Ele não está entre os indiciados no primeiro inquérito da PF sobre o caso.

Os pagamentos ocorreram enquanto Faria coordenava a assessoria jurídica do gabinete de Nikolas na Câmara, com salário de R$ 17,2 mil. Ele foi nomeado em março de 2023 e ficou no cargo até 30 de março de 2026. Continua como advogado do deputado.

Em agosto de 2024, Faria abriu a Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia, em Nova Lima (MG). Vinte e dois dias depois, emitiu a primeira nota para a Eagle & Shark, de Vieira. A empresa pagou R$ 50.340 em 17 parcelas mensais.

Em 17 de dezembro de 2025, outra empresa de Vieira, a Health Enterprises (2V Life), pagou de uma só vez R$ 55 mil ao assessor. A nota foi emitida 29 dias depois de o Banco Central decretar a liquidação do Master e de Vorcaro ser preso.

Ou seja: quando Nikolas apresentou Faria a Vorcaro, em março de 2025, o assessor já recebia havia seis meses de uma empresa de um sócio da família do banqueiro.

<><> Operação Rejeito

Thiago Rodrigues de Faria teve seu nome exposto por envolvimento com empresas e investigados que foram presos na Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025, alguns meses depois da troca de mensagens.

A PF prendeu 22 pessoas preventivamente em meio a uma investigação de um esquema criminoso de extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Segundo uma reportagem do jornal O Estado de Minas, Thiago Rodrigues de Faria atuou como intermediário, por meio de um contrato de confiabilidade, de uma negociação envolvendo uma lavra de minério e empresas investigadas pela PF nessa operação. Uma delas é a Gmais Ambiental. Pelo trabalho do assessor de Nikolas, os verdadeiros donos não teriam os nomes publicizados.

De acordo com os investigadores, a Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia  tinha um contrato, assinado em janeiro de 2025 com a Gmais, e a empresa receberia 25% do lucro total, estimado entre de US$ 30 e US$ 45 milhões, caso a autorização para que uma área pudesse voltar a minerar e uma lavra fosse vendida.

No inquérito da PF, está descrito: “chamaram a atenção os valores prováveis da negociação sobre os quais os apresentantes seriam remunerados. O valor inicial era de US$ 30.000.000,00 podendo ultrapassar os US$ 45M, valor que geraria 20% de comissão aos parceiros Gmais, Estabil escritório contábil e Thiago Rodrigues advocacia”, diz um trecho do inquérito.

Esse contrato entre a Gmais e a empresa do assessor de Nikolas também tinha como sócia a mineração Topázio Imperial, que detém os direitos minerários da lavra onde está localizada uma das barragens de maior risco de Minas Gerais, a barragem Água Fria, considerada um dos sete barramentos com maior risco de rompimento no Brasil. Na época, estava sem operação por ação do MPF.

Ainda de acordo com a PF, o grupo queria vender a lavra da Topázio para exploração. No entanto, era necessário liberar a empresa, detentora dos direitos minerários de lavra em Ouro Preto, no Distrito de Rodrigo Silva.

<><> Resposta do advogado de Nikolas Ferreira

Em setembro, Thiago Faria informou ao ICL Notícias que recebeu dinheiro de Fernando Alves Vieira e que, apesar de ter sido o assessor do Nikolas Ferreira, “não há impedimento legal para que eu exerça a advocacia”. “Eu advogo para o senhor Fernando Alves Vieira, isso é verdade”, afirmou. Ele disse que Nikolas não sabia que Vieira era seu cliente. “Não são todas que ele sabe. Eu não tenho como ficar atualizando ele de tudo. Tá? Eu sou advogado criminalista e exerço a minha função”, disse.

Ele disse que ele e o deputado não pediram ao Daniel Vorcaro para destravar ativo minerário. “Nós não sabíamos que Daniel Vorcaro era esse sujeito enrolado nesse tanto de confusão e eu estava vendendo um ativo para vários empresários, que é uma prática regular de advocacia que o estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil me permite, e em determinado momento eu comentei com o Nikolas e ele mandou um áudio para o Daniel que era um cara que ele não sabia que tinha problema”, disse o assessor de Nikolas. “Em relação ao Fernando e Vorcaro, se ele era laranja e tudo, eu não tenho essa informação”, finalizou.

O empresário Fernando Alves Vieira foi procurado por intermédio das suas duas empresas que aparecem citadas nestas reportagem (Eagle & Shark Participações e 2V Life), mas não retornou os questionamentos feitos. O espaço segue aberto para manifestação.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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