Um
conceito crítico de fascismo
Até bem
pouco tempo atrás, ainda era possível sustentar a ilusão de que a história
tinha chegado ao fim. Os relógios, é claro, continuavam girando. Coisas
aconteciam pelo mundo todo. Mas o pano de fundo estrutural tinha alcançado sua
forma definitiva.
Com a
queda do bloco soviético e do muro de Berlim, os Estados Unidos conquistaram o
estatuto de potência global inconteste. Hollywood vendia as maravilhas da
sociedade de consumo enquanto o dólar garantia a circulação das mercadorias e
seu exército disseminava a democracia. O confronto de visões de mundo, as
utopias revolucionárias e os rompantes autoritários eram apenas iguarias
exóticas de povos distantes que rendiam vilões fantásticos para as sessões da
tarde.
Do
início dos anos 1990 até 2008, um espectro rondou o Ocidente – o espectro da
estabilidade. Ou da estabilização, como no caso do Terceiro Mundo, que passou a
atender pelo nome de “países em desenvolvimento”.
No
Brasil, a constituição cidadã atualizou a dominação de classes, prometendo
concretizar demandas democráticas defendidas pela esquerda durante a ditadura.
A abertura do mercado e estabilização da moeda contribuíram com a
plausibilidade da crença de que o progresso garantiria nosso lugar no bonde do
fim da história, ainda que como sócios-menores.
Ao
subir a rampa do Palácio do Planalto e receber a faixa de um orgulhoso
intelectual herdeiro de militares, Luís Inácio Lula da Silva inaugurou o novo
milênio.
Era a
vez de um líder sindical metalúrgico e seu partido de trabalhadores
mostrarem-se capazes de governar habilmente o país e guiá-lo por uma fase de
avanços significativos, convertendo a estabilidade econômica em ampliação do
acesso ao consumo, à educação, à saúde e, aparentemente, à cidadania. A eleição
da primeira mulher à presidência pareceu ser a prova final de que suas
conquistas tinham vindo para ficar.
Mas um
aroma azedo começou a se disseminar pela atmosfera global. O crash estadunidense
de 2008 realizou a ambição dos atentados do onze de setembro de sete anos
antes: vulnerabilizar a grande potência. Conforme os efeitos da crise econômica
abalavam os pilares de uma ordem too big to fail, diversas luzes de
emergência foram se acendendo, indicando que nos porões da suposta estabilidade
estava escondido um caldeirão de crises estruturais sobrepostas e
retroalimentadas. Crise econômica, crise política e crise ambiental, para
mencionar algumas.
Por
aqui tudo ainda parecia correr bem. O epicentro do terremoto foi
suficientemente ao norte para apenas uma marolinha atingir nosso litoral. Mas a
confiança durou pouco. Não muito tempo depois, manifestações contra o aumento
do valor das passagens de ônibus lançaram uma faísca que se alimentou do
combustível fornecido por uma reação policial desmedida, incendiando o país
inteiro.
Em
2013, um pouco atrasado, nosso gigante acordou. Bandeiras, discursos,
lideranças e movimentos defendendo valores que pareciam ter sido superados eram
vistos por todos os lados disputando a energia difusa que marchava pelas ruas.
A
votação do impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Donald
Trump fizeram a balança política escorregar significativamente para a direita
em 2016. Dois anos mais tarde, ela tombou de vez. A história estava de volta,
inclusive nas terras tupiniquins. Quem carregava a bandeira, porém, não era a
musa de Delacroix, mas Jair Bolsonaro. Uma palavra que muitos acreditavam estar
relegada aos livros de história insistia em retornar ao léxico das análises
conjunturais: fascismo.
Se há
uma sequência de imagens capaz de capturar o choque que a nova situação
representou para a intelectualidade acadêmica, esta é a da realização do evento
“Construindo a resistência, com André Singer, Vladimir Safatle e Marilena
Chauí”, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, no começo
da noite do primeiro de novembro de 2018 – quatro dias após a eleição de Jair
Bolsonaro. O pequeno auditório habitual rapidamente se mostrou insuficiente.
Tentou-se,
então, deslocar o evento para uma sala maior, sem sucesso. Os debatedores
terminaram por discursar em uma mesa improvisada diante do lotado vão do prédio
da História e Geografia daquela Faculdade. A espontaneidade da multidão era a
formulação em ato de uma pergunta entalada na garganta de todos ali presentes:
o que está acontecendo?
Não
levou muito tempo para que o tema da extrema direita sobrecarregasse comissões
editoriais e produzisse um amplo debate em torno da palavra maldita. Armando
Boito destacou-se como um importante defensor dela. Para o cientista político,
em 2020 o Brasil tinha “um governo predominantemente neofascista, baseado num
movimento neofascista”, embora o regime político ainda fosse o de uma
democracia deteriorada.
Sua
proposta estabelecia uma ruptura necessária com posições contrárias ao uso do
conceito de fascismo por razões historicistas. Bem-informado e captando
corretamente a atmosfera geral, Armando Boito argumentou que não fazia sentido
restringir o uso desta palavra para se referir apenas à Itália ou à Alemanha de
1919 a 1945. Dada a existência de noções como democracia, ditadura, monarquia e
república, nada impediria uma generalização semelhante ao se tratar do
fascismo.
Para
ele, esta seria a forma de se referir a “um movimento político reacionário das
camadas intermediárias da sociedade capitalista e um tipo específico de
ditadura burguesa”. Libertando o conceito de um descritivismo historicista
improdutivo, Armando Boito mostrou que ele tinha um lugar ativo no repertório
da luta de classes.
Marilena
Chaui abordou o problema de forma distinta. A filósofa reconhecia aspectos
característicos do fascismo histórico na extrema direita contemporânea, mas era
contrária ao emprego do termo. Defendeu, em seu lugar, o nome de
“neoliberalismo totalitário”. Sua abordagem enfatizava um outro aspecto
importante, a reificação. Segundo ela, falar em totalitarismo significa, dentre
outras coisas, apontar para o enfraquecimento das especificidades das
instituições políticas e para uma reconfiguração do Estado.
Ambos
eram vítimas de um processo mais amplo que esmaga a heterogeneidade social, a
existência das classes e de todas as pluralidades, impondo o modelo de gestão
neoliberal. Marilena Chaui nos mostrou como o avanço da extrema direita estava
ligado à capacidade do capital de moldar não apenas a luta política, mas também
as instituições e a cultura, atualizando suas formas de dominação de acordo com
seu estágio mais recente.
André
Singer, por sua vez, propôs um meio-de-campo com relação ao fascismo. O
cientista político também recusou seu uso como caracterização geral, mas não
jogou o conceito fora completamente, apontando para um viés fascista em Jair
Bolsonaro. André Singer apoiou-se em aspectos da obra de Max Horkheimer e
Theodor Adorno que, ao temperarem seu marxismo com ideias da psicanálise,
notaram que “a capacidade nazista de mobilizar desde baixo relacionava-se com a
ativação de camadas inconscientes dos indivíduos, o que transcendia as classes,
embora de modo algum as eliminasse”.
O
componente fascista da extrema-direita contemporânea estaria no uso de técnicas
específicas de mobilização que visam aspectos psicológicos mais profundos. Essa
tática, em solo brasileiro, estava sendo utilizada para se implementar um tipo
específico de regime, a autocracia. Em sua contribuição, André Singer
incorporou, ainda que de forma muito discreta, um outro elemento fundamental.
Ele percebeu que há algo na extrema direita que responde a aspectos
constitutivos da experiência subjetiva em nossa sociedade.
Por
fim, Vladimir Safatle argumentou que estaríamos entrando em uma nova fase que
ressoa com o fascismo em sua tônica, a violência. Para o filósofo, os
brasileiros viviam um experimento de tecnologia social que envolve o destino de
seus corpos – a implementação do que Paul Virilio chamou de Estado suicidário,
“um novo estágio nos modelos de gestão imanentes ao neoliberalismo”.
Segundo
Vladimir Safatle, ele vai além do necroestado habitual ao se tornar “o ator
contínuo de sua própria catástrofe”, de modo que a “Nova República terminará em
um macabro ritual de emergência de uma nova forma de violência estatal e de
rituais periódicos de destruição de corpos”. Estaria em jogo, portanto, uma
atualização do uso da violência na gestão de uma sociedade em crise e
desagregação.
Diante
de um debate tão rico como este, qual seria o interesse de se propor um
conceito crítico de fascismo? Não se trata, neste momento, de comentar cada uma
dessas proposições, muito menos de fornecer uma explicação alternativa a elas.
Notemos, em vez disso, como elas estão atravessadas pela tentativa de suturar
uma ferida que a explosão reacionária fez questão de cutucar.
A
despeito das ilusões remanescentes, o fascismo e seus fenômenos correlatos
nunca deixaram de ser um aspecto constitutivo de nossa sociedade. A eleição de
Bolsonaro teve ao menos a vantagem de chacoalhar aqueles confortavelmente
instalados na posição institucionalista-progressivo-democrática do fim da
história que era mais-ou-menos hegemônica até mesmo em campos ditos “críticos”
do debate intelectual.
Sendo
inevitável ter de dar conta deste fato, acredito que um conceito de fascismo
inspirado na obra da primeira geração da Escola de Frankfurt, principalmente de
Theodor Adorno e Max Horkheimer, é um excelente fundamento para o que
poderíamos chamar, apoiados nas palavras de André Singer, de “um verdadeiro
esquema interpretativo” que “terá que ser obra coletiva”. Ele consistiria,
sobretudo, na compreensão de que o fascismo se transformou e apesar disso
permaneceu idêntico a si mesmo, sendo capaz de explicá-lo como parte
constitutiva do desenvolvimento do capitalismo em suas condições objetivas.
Seu
ponto de partida é o fato de que este tipo de sociedade tem na economia, isto
é, na posse dos meios e mecanismos de produção e espoliação, o fundamento de
seus dispositivos de dominação. É um conceito de inspiração marxista, portanto.
Só que um conceito marxista de fascismo não deve considerar apenas a luta de
classes e suas formas políticas, como propõe Armando Boito.
É
necessário levar igualmente em conta o que poderíamos chamar de uma teoria
aprofundada da reificação, que Theodor Adorno e Max Horkheimer nos fornecem,
principalmente, em sua incontornável Dialética do esclarecimento e
que, embora passe pela tendência totalitária do capital apontada por Marilena
Chauí, vai muito além dela.
Isso
significa dizer que, junto ao conflito de classes, a modernidade também é
caracterizada por uma cisão alienadora entre as leis que regem a totalidade ou
a estrutura social e os indivíduos, instados a agir por conta própria num
contexto em que os antigos suportes da tradição e da religião não operam mais.
Significa dizer que o capital, que coloniza as instituições, a cultura e as
formas de subjetividade, é apenas uma das figuras de uma razão habitada por uma
contradição fundamental: ser, ao mesmo tempo, motor de liberdade e germe das
mais bárbaras formas de dominação e destruição.
Resultado
de tendências históricas de longa data, o fascismo tomou sua forma mais
bem-acabada numa Europa arrasada por uma crise estrutural. Especialmente após o
choque de 1929, o status quo se viu ameaçado tanto pela
incapacidade do liberalismo de promover saídas para a crise quanto pelo
fortalecimento de uma classe trabalhadora que demandava uma sociedade mais
racional e igualitária, apoiada pelo sucesso da Revolução Russa.
Numa
situação complicada, as classes dominantes precisavam implementar uma série de
dispositivos econômicos severos para recuperar a economia e garantir sua
posição social. Seu grande desafio era encontrar os meios políticos de impô-los
à maioria num momento em que o capitalismo estava em baixa. Enquanto uma das
ferramentas políticas que permitiram a realização de tais reformas, o fascismo
foi um dos modos mais bárbaros de dominação que a humanidade já produziu.
Podemos,
então, propor uma conceituação inicial a partir da seguinte afirmação: “como
uma rebelião contra a civilização, o fascismo não é simplesmente a reocorrência
do arcaico, mas sua reprodução na e pela própria civilização”. Com essa
frase, Theodor Adorno estava nos dizendo que o fascismo consiste na apropriação
pela política de elementos anticivilizatórios continuamente reproduzidos pela
própria civilização. Ele se distingue das outras modalidades de dominação por
capturar e dar um destino reacionário ao que Freud definiu como o mal-estar na
civilização.
Trata-se,
essencialmente, de um conflito instaurado entre os indivíduos e a totalidade
social e, ao mesmo tempo, pulsões e repressões no interior das estruturas
psíquicas. Somos animais cindidos pela entrada na linguagem e moldados pela
socialização e pelo trabalho. Por tal razão, as nossas pulsões não podem nem
conseguem correr soltas. É necessário dar-lhes destinos e impor limites.
A Kultur,
amparada pelas necessidades materiais e de sobrevivência, mas, por fim,
dirigida pelos interesses de dominação, fica encarregada fornecer tais destinos
e limites. A partir dos choques que nos levam a internalizar os ditames da
sociedade produz-se uma propensão à agressividade e à destrutividade que se
mantém sob a superfície, pronta para eclodir. São das feridas inconscientes que
este processo produz nos indivíduos que figuras de viés fascista se aproveitam,
como quis apontar André Singer.
Nos
momentos de crise da reprodução capitalista, este conflito tem ainda mais
dificuldades de encontrar alívio e é reforçado pelo sofrimento imposto pelas
condições declinantes de vida. Os elementos reativos mais profundos resultantes
do processo de individuação e integração fortalecem-se e passam a borbulhar na
superfície. Ficam, assim, postas as condições para o trabalho dos demagogos,
que consiste na reativação direcionada deste potencial para propósitos
políticos.
O
fascismo, portanto, é um dos dispositivos do repositório da luta de classes
caracterizado pela operacionalização das tendências irracionais e destrutivas
que resultam do conflito ético-pulsional constitutivo da vida civilizada. A
partir da mobilização destas tendências, ele produz formas de vínculo social
capazes de funcionar em uma ordem igualmente irracional e destrutiva – um
modelo de gestão social como o do Estado suicidário de Paul Virilio que
Vladimir Safatle nos indicou.
Temo
que este seja o tipo de socialização que melhor corresponde às condições
econômicas, políticas e culturais do atual estágio do capitalismo – e que ainda
não encontrou um oponente à altura. Por isso que o fascismo e seus fenômenos
correlatos têm gozado de um impulso tão irrefreável. Podemos verificar os
efeitos disso para além da política, por exemplo, no crescimento de um discurso
religioso evangélico e militarizado ou então nos redpills e
suas comunidades, duas formas de produzir vínculo ao fornecer destinos ao
conflito ético-pulsional de nosso tempo.
Dito
isso, insisto que tais disposições psicológicas não são a causa do fascismo,
mas o efeito de uma escolha mais profunda. Quando uma pessoa adere ao ticket fascista,
especialmente quando se trata de um indivíduo não pertencente às camadas
dominantes ou a seus grupos de agitadores de ocasião, isso acontece não por
ressentimento, ignorância, ou predomínio de alguma pulsão de morte fisiológica.
Estamos diante de alguém que age de acordo com um cálculo de otimização de
ganhos, como todo bom empreendedor.
As
pessoas sabem muito bem que terão mais chances identificando-se com o existente
do que o combatendo política ou subjetivamente. Mesmo que esse jogo as esteja
levando ao abismo, vale mais a pena aceitar suas regras e brigar por uma melhor
posição dentro dele. Neste sentido, a adesão ao fascismo pode ser considerada
fruto de uma escolha racional.
Seus
líderes propõem, e praticam, ideias que respondem muito bem ao
sobrevivencialismo necessário em contextos de desagregação e ameaça existencial
generalizada como o atual. Os aspectos mais “progressistas” da civilização,
como o respeito à igualdade nas diferenças, a defesa de direitos dos mais
vulneráveis e a ação comunicativa racional e pacífica tornam-se meros custos de
oportunidade.
Dada a
opção por uma sobrevivência imediata possível, a melhor forma de se identificar
politicamente com o existente é através dos discursos irracionais e dos
comportamentos agressivos que encontramos nos agrupamentos onde opera o vínculo
social de tipo fascista. Isso leva, em última instância, à eleição de seus
representantes.
Mais
ainda, numa sociedade em que todos os âmbitos foram colonizados pelo capital,
proporcionando subjetividades e formas de socialização precárias, o espetáculo
violento da barbárie se torna uma poderosa via de gozo – afinal, é isso que
Hollywood nos ensinou a chamar de entretenimento.
Para um
sujeito condenado ao narcisismo na luta por sobrevivência em um mundo em
colapso, preso a um contexto cultural que visa a todo momento bloquear sua
capacidade de pensar, agir e ter prazer para além de imagens imediatas, a
adesão ao fascismo se torna o caminho mais natural. Ele desconfia, com boa dose
de razão, de promessas emancipatórias dentro da ordem.
Aqueles
que tendem a adotar perspectivas de caráter fascista entenderam, antes de
muitos intelectuais, que capitalismo e democracia são incompatíveis e que seus
eventuais arranjos parciais são sempre temporários. No final de cada ciclo,
sabem que caberá a eles pagar a conta. Sim, precisamos ser mais cautelosos em
nos perguntar quem são os verdadeiros negacionistas.
Quando
Theodor Adorno nos alertou, em sua famosa conferência de 1967 sobre os aspectos
do radicalismo de direita, que os pressupostos sociais do fascismo continuavam
presentes, ele estava nos dizendo que enquanto houver uma sociedade de classes
movida por uma lei irracional de ambição universalizante, a lei do valor, ainda
teremos motivos para temer seu retorno.
Ele
ainda insistiu em um elemento crucial: a ameaça de desemprego tecnológico.
Adorno previu que a consagração da tendência de inutilização de parcelas
crescentes da mão de obra pelos avanços da técnica, acompanhada de uma nova
crise de reprodução do capital, tornaria a mistura bombástica.
Apoiados
em um conceito crítico de fascismo de inspiração frankfurtiana conseguimos
entender que não estamos diante de nada novo ou regressivo, mas de algo
constitutivo de nossa ordem social que não foi tratado com o devido respeito.
Invocado neste momento, este conceito não visa fazer desta mais uma categoria
no escaninho do conhecimento geral, no qual apenas vão-se empilhando
determinações oriundas da investigação empírica e de teorizações discretas.
Diferentemente
de mais uma categoria sociológica alienada, ele é a palavra que nos permite
iluminar as condições que muitos de nós tinham deixado de lado. Ele nos permite
ver no novo a repetição do igual, isto é, da dominação estamental, do fracasso
da realização das potencialidades humanas – e de sua tendência a dar as caras
em explosões de barbárie mortífera.
Cabe a
nós, agora, atuar criticamente levando em conta, de forma articulada, os
diversos âmbitos da vida em sociedade: economia, política, cultura, psicologia
etc. Neste sentido, como uma espécie de fato social total, o fascismo é um
objeto que se constitui a partir da articulação necessária de todos estes
campos.
Para
abordá-lo, é preciso que reflitamos sobre o atual estado da acumulação
capitalista e da luta de classes, sobre os conflitos geopolíticos e o
comportamento do eleitorado, mas também sobre a cultura e como todos estes
elementos são mediados pelas práticas discursivas hegemônicas e seus efeitos
nas estruturas subjetivas individuais, produzindo formas de conflito
ético-pulsional e de sofrimento psíquico.
Apenas
um esforço crítico conjunto e verdadeiramente interdisciplinar, porque
fundamentado na primazia de seu objeto, e não nos métodos nem nos campos
alienados da ciência administrada, dará conta da tarefa intelectual e
humanitária de nossa geração. É a isso que se propõe um conceito crítico de
fascismo.
Fonte:
Por Daniel Pavan, em A Terra é Redonda

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