Precisamos
de uma mudança estrutural que vá além da gestão da violência de gênero
A
violência de gênero é um problema estrutural profundamente enraizado em nossa
sociedade, que continua a ceifar vidas e a deixar cicatrizes invisíveis em
milhares de mulheres. No entanto, o debate político e social em torno da
violência de gênero permanece focado principalmente na gestão do problema, em
vez de abordar suas causas profundas. Em vez de desafiar as estruturas que
sustentam o sexismo, nos encontramos presos em um ciclo de soluções paliativas
e medidas preventivas, sem enfrentar a causa principal da violência de gênero:
um sistema que subordina as mulheres econômica, política e culturalmente,
transformando-as em objetos de violência.
É
impossível abordar a violência de gênero sem reconhecer a dura e devastadora
realidade em que ela está inserida. Diariamente, as estatísticas nos
bombardeiam com números alarmantes de mulheres assassinadas, relatos de
violência de gênero e situações de abuso e exploração sexual. Mesmo assim, a
resposta política, em muitos casos, é minimizar a gravidade da situação.
Políticos de partidos como o PP ou o VOX continuam a questionar a magnitude do
problema: minimizam os feminicídios, eliminam recursos de apoio para mulheres
que sofrem violência de gênero, negam o sexismo e, em última instância, servem
de instrumento para normalizá-lo.
Mas
elas não são as únicas. A violência de gênero também está se normalizando no
debate público devido à ascensão de discursos que negam a existência do
sexismo, alegando que "homens também sofrem abusos" ou deslegitimando
mulheres vítimas de violência. Esses discursos, com fortes conotações
fascistas, vêm ganhando terreno nos últimos anos, principalmente por meio da
mídia e das redes sociais. Essa distorção da realidade tem um efeito direto na
sociedade, permitindo que o sexismo se normalize.
Simultaneamente,
as instituições responsáveis pelo combate à violência de gênero enfrentam um
sistema estruturalmente deficiente, incapaz de fornecer respostas eficazes,
apesar das reformas legislativas promovidas em matéria de gênero. Os recursos
disponíveis para as vítimas são insuficientes e cada vez mais escassos em
momentos de crise, enquanto persistem barreiras burocráticas e sociais: muitas
mulheres têm suas palavras questionadas em delegacias, são tratadas com
indiferença pela administração pública e enfrentam intermináveis listas de
espera para acessar qualquer serviço público.
Apesar
disso, partidos de esquerda e certos setores do feminismo continuam a propor
soluções dentro da estrutura capitalista. Embora o feminismo tenha alcançado
uma presença hegemônica no discurso social durante o ciclo político anterior,
também revelou as limitações de sua proposta política, especialmente ao
institucionalizar a luta dentro das estruturas do Estado burguês. As políticas
feministas impulsionadas pelo Estado têm se voltado principalmente para a
classe média, negligenciando as necessidades das mulheres mais vulneráveis e,
em última análise, reforçando a estrutura estatal em vez de desafiá-la.
Esse
processo de institucionalização da luta, aliado ao abandono de um arcabouço
político revolucionário, levou certos setores do feminismo a enfrentarem hoje
uma alarmante desorientação ideológica e política. Por um lado, a ascensão de
posições reacionárias é interpretada como resultado dos avanços feministas, sem
qualquer autocrítica das limitações demonstradas pela proposta feminista. De
fato, esse mesmo vácuo revelado pela proposta social-democrata foi explorado
pela direita, que ganhou terreno canalizando as frustrações populares. Por
outro lado, essa interpretação levou a que confundissem seu inimigo, chegando
ao ponto de rotular setores marxistas dentro da "reação" como
"reacionários" por criticarem a proposta reformista do feminismo,
negando, assim, sua própria linha revolucionária como uma possibilidade
emancipadora para as mulheres trabalhadoras.
Em
contraste, essa reação deriva de uma cultura, ideologia e visão política
nascidas da destruição das condições de vida de certos setores privilegiados
durante períodos de crise capitalista. Trata-se de uma resposta autoritária do
capitalismo e de uma forma cultural que propõe um retorno ao nacionalismo, aos
valores tradicionais e ao classismo mais selvagem. Essa mudança significa que a
opressão e a violência contra as mulheres só podem piorar, tornando ainda mais
urgente a necessidade de uma perspectiva verdadeiramente transformadora.
Quando
falamos de violência de gênero, a visão política deve estar voltada para o
desmantelamento dos alicerces que sustentam o sexismo. Nossas ações, portanto,
devem ser estruturadas dentro dessa perspectiva a partir de hoje. Essa é a base
para abordar outros debates dentro desse mesmo campo de maneira apropriada e
transformadora.
Nesse
sentido, uma das tarefas mais urgentes é construir organizações políticas
fortes que atuem independentemente do sistema parlamentar e coloquem a luta das
mulheres trabalhadoras em primeiro plano, tornando-as um sujeito político
incontornável.
Isso
implica, por um lado, responder com firmeza a cada caso de violência de gênero,
para deixar claro para a sociedade como um todo que tais atos são completamente
inaceitáveis. Por meio dessas respostas, devemos educar a classe trabalhadora
em uma nova ética baseada no respeito e no bem-estar de todas as pessoas, na
qual a violência de gênero não tem lugar. Da mesma forma, essa luta deve criar
condições que incentivem cada vez mais mulheres a se unirem a essa causa.
Por
outro lado, a luta contra a violência de gênero deve se concentrar nas
estruturas que sustentam e perpetuam o sexismo na sociedade. Não se trata
apenas de confrontar os atos de violência, mas também de atacar os alicerces
que permitem que essas agressões continuem.
Dentre
essas estruturas, destaca-se a indústria cultural, que não só normaliza, como
também transforma a violência masculina em espetáculo; a persistente divisão
sexual do trabalho, que continua relegando as mulheres a papéis de cuidadoras ,
criando uma forma de dependência econômica e social que nos mantém em uma
posição de vulnerabilidade permanente; o modelo familiar burguês, que permanece
um mecanismo que condena inúmeras mulheres ao isolamento no lar; assim como a
prostituição e a indústria do sexo que
continuam nos reduzindo a objetos sexuais e fontes de prazer, reforçando a
ideia de que somos cidadãs de segunda classe. Desmantelar essas estruturas é
uma tarefa fundamental se realmente quisermos erradicar a violência masculina e
transformar a sociedade em uma sociedade genuinamente igualitária.
Portanto,
o debate deve se concentrar na criação de um novo poder, que não se baseie na
rentabilidade econômica e que não tenha como necessidade estrutural a opressão
de certos setores da classe trabalhadora, mas sim no bem-estar coletivo e na
igualdade real de todos os indivíduos.
Diante
da ascensão do fascismo e da normalização do sexismo, nunca foi tão urgente
levar essa luta a sério e abordá-la a partir de uma perspectiva verdadeiramente
transformadora. O avanço de ideologias que negam ou minimizam a violência de
gênero deve ser interrompido com uma resposta política forte e radical que
desafie as estruturas que permitem a persistência do sexismo. Não podemos
permitir nem um passo para trás.
• Mais de 70% das agressões contra
mulheres têm testemunhas, diz estudo
Cerca
de 3,7 milhões de mulheres brasileiras viveram um ou mais episódios de
violência doméstica nos últimos 12 meses, segundo pesquisa de abrangência
nacional.
Destas,
cerca de 71% foram agredidas na presença de outras pessoas, e em 70% destes
casos de agressão com testemunhas havia criança no ambiente, correspondendo a
1,94 milhões de agressões testemunhadas por menores. A pesquisa aferiu que, em
40% das situações com testemunhas, a vítima não recebeu ajuda.
Os
dados atualizam o Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo
Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) do Senado Federal, pelo
Instituto Natura e pela organização Gênero e Número, que integra dados e
análises sobre o tema para fomentar políticas públicas de enfrentamento às
diferentes formas de violência de gênero.
“Essa
foi a primeira vez em que a pesquisa investigou a presença de outras pessoas no
momento da agressão. O fato de 71% das mulheres serem agredidas na frente de
outras pessoas, e, dentre esses casos, 7 em cada 10 serem presenciados por,
pelo menos, uma criança, mostra que o ciclo de violência afeta muitas outras
pessoas além da mulher agredida”, diz Marcos Ruben de Oliveira, coordenador do
Instituto de Pesquisa DataSenado, um dos realizadores do estudo.
A
pesquisa também contou com a experiência da empresa Nexus e ouviu 21.641
mulheres, de todos os estados e do Distrito Federal, por telefone.
A
situação de violência é, para 58% das entrevistadas, recorrente, ocorrendo há
mais de um ano, o que indica, segundo a análise dos dados, “a persistência do
ciclo de agressões e a dificuldade de rompimento desses vínculos”, causadas ou
agravadas pela dependência econômica e pela ausência de redes de apoio.
“Cada
situação de violência deixa marcas que ultrapassam o momento da agressão. A
pesquisa evidencia que a violência de gênero não é um problema isolado, mas uma
questão estrutural que afeta famílias e comunidades e exige uma resposta
coletiva, coordenada e permanente, capaz de contribuir para o desenvolvimento
do país”, avalia Maria Teresa Mauro, coordenadora do OMV.
A
escuta e o acolhimento dessas mulheres também recebeu atenção na pesquisa. Após
as situações de violência, 58% das mulheres ouvidas buscaram apoio na família,
53% recorreram à igreja e 52% contaram com amigos.
Após
procurar um ou mais destes espaços de acolhimento, apenas 28% registraram
denúncia em Delegacias da Mulher e 11% acionaram o Ligue 180, central de
atendimento à mulher. Em uma análise considerando o tipo de congregação entre
as entrevistadas que afirmavam ter alguma fé, 70% das evangélicas procuraram
amparo religioso, enquanto 59% das católicas recorreram a familiares.
“Os
números são uma fotografia da realidade do país, em que a maior parte dos casos
de violência doméstica ainda é tratado na esfera privada. É essencial que quem
acolhe, seja um familiar, uma liderança religiosa ou uma amiga, saiba orientar
com clareza sobre os caminhos e órgãos responsáveis pelo atendimento,
garantindo que essa mulher se sinta segura para buscar proteção e exercer seus
direitos”, afirmou em nota Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas
Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres, do Instituto Natura.
Lei
Maria da Penha
Outro
recorte da pesquisa é o conhecimento prévio das mulheres sobre instituições e
mecanismos de proteção. Foi possível perceber que 67% das brasileiras conhecem
pouco a Lei Maria da Penha e 11% desconhecem completamente seu conteúdo.
Segundo a nota da pesquisa, o desconhecimento é maior entre aquelas com menor
renda e escolaridade.
O
percentual de quem não conhece a lei é maior entre brasileiras analfabetas
(30%) e que têm apenas o ensino fundamental incompleto (20%) do que entre as
mulheres com ensino superior completo (3%) ou incompleto (4%).
Entre
as mulheres com renda familiar de até 2 salários mínimos, são 13% as que
desconhecem totalmente a lei, mais que o dobro das brasileiras que ganham de 2
a 6 salários mínimos (6%), e 4 vezes mais do que aquelas com renda familiar
maior que 6 salários mínimos (3%).
A
questão geracional também é relevante: mulheres mais velhas conhecem menos essa
Lei e, por extensão, outras ferramentas de proteção. Entre as ouvidas, 18% das
brasileiras com mais de 60 anos disseram não saber do que se trata a Lei Maria
da Penha.
Entre
as mulheres de 50 a 59 anos o número cai para 14% e para 8% entre aquelas na
faixa de 40 a 49 anos. Em seguida vêm as brasileiras de 30 a 39 anos (7%) e as
mais novas, de 16 a 29 anos (6%).
Apesar
de ainda ser relevante o desconhecimento sobre a Lei Maria da Penha, 3 em cada
4 brasileiras (75%) acreditam que a lei protege totalmente (27%) ou em partes
(48%) as mulheres contra a violência de gênero.
Outras
23% acham que não protege e 2% não quiseram ou souberam opinar. As mulheres com
menor escolaridade também acreditam menos na proteção legislativa: são 33% das
brasileiras não alfabetizadas e 30% das que não completaram o ensino médio que
não concordam com a eficácia da lei, contra 15% daquelas com ensino superior
completo.
Foi
investigado, ainda, o conhecimento das pesquisadas sobre outras instituições e
seu papel no apoio às vítimas. O equipamento mais conhecido e citado são as
Delegacias da Mulher, reconhecidas por 93% das entrevistadas como um
equipamento de proteção às vítimas de violência.
O
segundo mais citado foram as Defensorias Públicas (87%), seguidas pelos Centro
de Referência de Assistência Social (Cras) ou Centro de Referência
Especializado de Assistência Social (Creas) (81%), pelo serviço Ligue 180
(76%), pela Casa Abrigo (56%), pela Casa da Mulher Brasileira (38%) e por
outros serviços (5%).
Fonte:
El Salto

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