terça-feira, 2 de dezembro de 2025

“O mundo requer uma união dos meios de comunicação do Sul Global”, diz Patricia Villegas

A presidenta da Telesur, Patricia Villegas Marín, enviou um vídeo ao seminário promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em Salvador, dedicado ao debate sobre integração midiática do Sul Global. Patricia afirma que a Venezuela vive um processo de transformação social e política que tem sido sistematicamente distorcido pelos grandes conglomerados de mídia. “Tem-se dito tanto e ao mesmo tempo não se disse nada sobre sua verdadeira realidade”, afirmou. Ela descreve o país como estratégico devido às riquezas minerais, à posição geográfica entre o Caribe, a Colômbia e o Brasil e ao papel regional que exerce.

Segundo a presidenta da Telesur, a crise vivida pela Venezuela nos últimos anos foi resultado de uma ofensiva múltipla contra sua economia. “Houve um ataque direto a toda a estrutura de produção e distribuição do país, que acarretou uma enorme crise que impactou diretamente grandes camadas da população”, disse. Ela destaca que, durante esse período, o país também enfrentou invasões de mercenários, tentativas de assassinato contra o presidente Nicolás Maduro e pressões externas coordenadas pelo governo dos Estados Unidos.

Patricia afirma que, apesar disso, a Venezuela recompôs seu aparato produtivo, revitalizou a indústria petrolífera e viu o retorno de parte dos migrantes que haviam deixado o país durante o período de maior vulnerabilidade econômica.

<><> Trump e a nova escalada militar no Caribe

Em sua análise, Patricia denuncia a escalada militar promovida pelos EUA no Caribe. “Levamos já três meses desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou ataques a embarcações que transportariam drogas desde o Caribe para seu país”, afirmou.

Ela contesta a justificativa usada por Washington e lembra que organismos internacionais, como a ONU, apontam que as principais rotas do narcotráfico na região passam pelo oceano Pacífico, e não pelo Caribe. Apesar das pressões simultâneas sobre México, Colômbia e Brasil, Patricia sublinha que apenas a Venezuela foi alvo de acusações que envolvem diretamente a figura de seu chefe de Estado.

<><> Cotidiano sob ameaça e mobilização popular

Mesmo diante do intenso deslocamento militar dos EUA na região, a jornalista diz que a vida cotidiana segue seu curso, ao passo que o país se prepara para possíveis agressões. Segundo ela, as Forças Armadas organizam patrulhas e planos de resposta enquanto parte da população se alista como voluntária. Ao mesmo tempo, a presença militar norte-americana no Caribe aumentou, acompanhada de visitas oficiais de autoridades dos EUA ao entorno do território venezuelano.

<><> A guerra comunicacional e a batalha pela verdade

Patricia dedica parte central de sua fala ao tema da comunicação. Ela afirma que a disputa geopolítica contra a Venezuela é acompanhada por uma intensa guerra cognitiva, que constrói visões distorcidas sobre o país e sobre Maduro. “Resulta muito pouco eficiente que hoje alguns meios do Ocidente tenham uma mínima quota de rigor diante de fatos que ameaçam a paz não de um país, mas de toda uma região do mundo”, disse.

Segundo ela, o debate dentro dos próprios EUA, marcado por divergências entre republicanos sobre novas guerras, abre brechas para que a versão venezuelana ganhe espaço.

Patricia descreve ainda o modelo comunicacional adotado no país — “ruas, redes, meios, paredes e rádio-bodega”, traduzido como comunicação direta, popular e territorial — que se tornou fundamental para disputar narrativas fora dos grandes conglomerados.

<><> Telesur e as alianças internacionais do Sul Global

A presidenta da Telesur destaca que a disputa comunicacional exige cooperação entre meios alternativos e públicos de diferentes países. “O mundo requer uma união comunicacional do Sul Global que defenda a humanidade”, afirmou.

Como exemplo, cita a cobertura da Telesur em Gaza: “Com três e até quatro equipes simultâneas, demos cobertura a esta fase do genocídio e nos tornamos uma voz replicada pela imprensa pública e alternativa do Sul Global.”

Para Patricia, o fortalecimento das alianças e a permanência nas grandes histórias ignoradas pela mídia hegemônica são essenciais para enfrentar o poder das corporações de comunicação e construir uma visão crítica e plural do mundo.

Ela conclui dizendo que a comunicação é uma prática humana essencial e que, organizada, se converte em força política real: “Diante da constatação da mensagem com a realidade, não há fake ou etiqueta que possa destruí-la.”

¨      Jornalistas debatem comunicação e integração para promover a paz e soberania do Sul Global

Fundador do Brasil 247, o jornalista Leonardo Attuch afirmou que a integração das mídias do Sul Global se tornou central em sua trajetória. Relatou ter se impressionado com o modelo chinês de comunicação, público, profissional e voltado à construção de consensos, diferente da lógica de polarização ocidental, após visitas ao país. A 2° edição do Seminário Internacional de Comunicação para a Integração começou na sexta-feira (28), no Ginásio dos Bancários da Bahia, em Salvador. O tema de abertura foi “Comunicação para impulsionar a integração, a soberania e a paz na região”.

Felipe Bianchi, jornalista do Barão de Itararé, organização promotora do evento, abriu a programação defendendo a soberania e integração latino-americana contra o poder do capital e das Big Techs. Ressaltou também a comunicação como campo central de disputa, destacando, inclusive, a importância da cooperação entre as mídias independentes.

Em seguida, Adelmo Andrade, diretor de comunicação do Sindicato dos Bancários da Bahia, parceiro do evento, enfatizou o desafio da entidade sindical, reforçando a importância dos sindicatos na defesa do trabalhador. O diretor também aproveitou a oportunidade para parabenizar o jornal diário O Bancário, que nesta segunda-feira (01/12), completa 36 anos ininterruptos.

Para finalizar a cerimônia de abertura, Renata Mielli, coordenadora do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), reforçou falas anteriores e citou o controle das grandes empresas na circulação de informações, que promovem desinformação e influenciam processos políticos.

<><> Comunicação e cooperação no Sul Global

“Comunicação e cooperação no Sul Global” foi o tema do primeiro debate. A mesa de discussão foi composta por Patrícia Villegas, presidente da teleSUR; Isabela Shi Xiaomiao, jornalista da CGTN Português; Bruno Lima Rocha, jornalista da Hispan TV; Leonardo Attuch, fundador do Brasil 247 e Michele de Mello, jornalista da RT en Español.

Patrícia Villegas abriu a mesa e trouxe à conversa a situação venezuelana e afirmou que se trata também de uma “guerra comunicacional construída para distorcer a imagem de seus líderes”. Segundo ela, as narrativas divulgadas pelos meios ocidentais são distorcidas e moldadas de forma que influenciam diretamente percepções e agressões políticas e militares. Citou o exemplo da TeleSUR, mostrando que estar presente e narrar é fundamental para vencer a batalha comunicacional.

Na sequência, Isabela Shi Xiaomiao, jornalista chinesa da CGTN Português, destacou que a estrutura global de comunicação permanece desequilibrada, colocando o Sul Global diante do desafio de romper uma “narrativa pobre” e afirmou acreditar que a cooperação entre mídias são fundamentais para formar consenso sobre desenvolvimento, compartilhar experiências como redução da pobreza e modernização nacional e transformar esse conhecimento em força de mudança.

Ainda no debate, Michele de Mello, jornalista da RT en Español, citou a preocupação com a divulgação de informações por pessoas mal-intencionadas “difundindo matrizes de opinião para ganho político e econômico”, enquanto jornalistas disputam o mesmo meio no intuito de repassar notícias. Enfatizou que a comunicação sempre teve dimensão estratégica, mas agora ganha ainda mais importância na disputa sobre modelos de sociedade.

Logo depois, para finalizar a conversa, Bruno Lima Rocha, da Hispan TV, afirmou ser difícil dividir como a mídia hegemônica trata a opinião internacional, sempre focando em centros de poder Europa subalterna e norte-americanas, apesar de o mundo ser mais complexo.

Destacou que existe mídia iraniana em língua portuguesa, profissional e feita por trabalhadores. Citou exemplos: Honduras, onde denunciaram sabotagem eleitoral e acusações de “narcoterrorismo”; Equador, onde divulgaram denúncias contra o presidente; Chile, onde acompanham eleições lendo portais alternativos; Paraguai, onde denunciaram sanções dos EUA ao Banco Basa, ligado ao ex-presidente Horacio Cartes.

A primeira mesa contou com informações e experiências diversas focadas na integração e colaboração da comunicação para combater a mídia hegemônica e formar frentes que possam enfrentar as grandes empresas de tecnologias. O evento conta com apoio do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), através do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), além do Sindicato dos Bancários da Bahia.

¨      Como a "Unit" dos BRICS+ pode salvar o comércio global. Por Pepe Ecobar

Em seu livro escrito em colaboração com o economista Sergey Bodrunov, Regulations of the Noonomy (Regulações da Noonomia) (edição internacional publicada no corrente ano pela Sandro Teti Editore de Rome), um dos principais economistas russos, Sergey Glazyev, enfatiza a necessidade de “assegurar uma total guinada para as moedas nacionais em comércio e investimentos mútuos internamente à União Econômica Euroasiática (EAEU) e à Commonwealth de Estados Independentes (CIS) e, mais adiante, aos BRICS e à Organização de Cooperação de Xangai (OCX), o afastamento das instituições de desenvolvimento da zona do dólar, o desenvolvimento de seus próprios sistemas independentes de pagamento e de troca de informações entre instituições bancárias”.

No que se trata de inovação financeira – comparada à atual estrutura do sistema financeiro internacional - a Unit é inigualável.

A Unit é, essencialmenteum token benchmark – ou um index tokenum pós-stablecoin, um instrumento monetário digital, totalmente descentralizado e com valor intrínseco ancorado em bens reais: ouro e moedas soberanas.

A Unit pode ser usada ou como parte de uma nova infraestrutura digital – aquilo a que a maior parte do Sul Global vem tentando alcançar, ou como parte de um esquema bancário tradicional.

Quando se trata de cumprir as funções monetárias tradicionais, a Unit – perdoem-me o trocadilho – vale ouro. Ela pretende ser usada como um meio de troca bastante conveniente em comércio e investimentos transfronteiras – uma plataforma importante da diversificação ativamente buscada pelos BRICS+.

Ela deve também ser vista como uma medida independente e confiável para a determinação de valores e preços, bem como uma reserva de valor melhor que as moedas fiduciárias.

A Unit é academicamente validada pelo próprio Glazyev, inclusive – e devidamente controlada pelo IRIAS (Instituto Internacional de Pesquisas em Sistemas Avançados), criado em 1976 em conformidade com o estatuto da ONU.

E, o que é crucial nesse próximo passo, a Unit será lançada em inícios do próximo ano no blockchain Cardano, que usa a moeda digital Ada.

A Ada tem uma história fascinante – ela foi batizada em homenagem a Ada Lovelace, uma matemática do século XIX, filha de ninguém menos que Lord Byron, e reconhecida como a primeira programadora de computadores da história.

Qualquer um, em qualquer lugar, pode usar a Ada como um meio seguro de trocas de valores e, o que é muito importante, sem necessidade de mediação por terceiros.

O que significa que todas as transações em Ada são permanentemente garantidas e registradas no blockchain Cardano. O que implica que todos os usuários da Ada têm participação acionária na rede Cardano.

A Cardano existe há cerca de dez anos – e é um blockchain de grande aceitação pública. Ela é lastreada por algumas empresas de capital de risco importantes, como a IOHK, a Emurgo e a Fundação Cardano. Essencialmente, a Cardano é uma excelente opção para pagamentos regulares porque as transações são baratas e rápidas.

<><> Nem cripto nem stablecoin

Entra em cena a Unit.

A Unit não é nem uma criptomoeda nem um stablecoin – como demonstrado aqui.

Uma definição concisa da Unit seria uma reserva de valor resiliente – lastreada por uma estrutura de 60% ouro e 40% de diversas moedas dos BRICS+.

A grande vantagem para o Sul Global é que essa singular mistura oferece estabilidade e proteção contra a inflação, principalmente na atual paisagem das finanças globais de macroeconomias cambaleantes e incerteza generalizada.

Usando a Cardano, a Unit se tornará acessível a todos, por meio de uma combinação de trocas centralizadas e descentralizadas.

Para entrar nesse novo mercado, portanto, indivíduos e empresas poderão adquirir a Unit diretamente com moeda fiduciária através de parceiros bancários regulamentados. Isso significa uma ponte entre as finanças tradicionais e os novos ecossistemas descentralizados – em favor da liquidez, acessibilidade e confiabilidade, abrindo caminho para sua plena adoção pelo Sul Global.

A Unit pode até mesmo evoluir para uma nova forma de dinheiro digital para as economias emergentes.

Seguindo exatamente o mesmo caminho delineado pelos BRICS mesmo antes do divisor de águas que foi a cúpula anula de Kazan, em 2024, a Unit talvez seja a melhor solução atualmente disponível para pagamentos transfronteiras: uma nova forma de moeda internacional, emitida de modo descentralizado, e em seguida reconhecida e regulamentada em nível nacional.

O que nos leva ao principal ponto forte conceitual da Unit: ela acaba com a dependência direta na moeda de outros países, e oferece ao Sul Global/Maioria Global uma nova forma de dinheiro apolítico e não-censurado.

E melhor ainda: dinheiro apolítico trazendo um enorme potencial para ancorar o comércio justo e múltiplos investimentos.

<><> O que o Sul Global realmente precisa

Um bom próximo passo para a Unit seria também a criação de um Conselho Consultivo, unindo figuras de padrão mundial como os Professores Michael Hudson, Jeffrey Sachs e Yannis Varoufakis, bem como o co-fundador do NDB, Paulo Nogueira Batista Jr. (aqui, no Fórum Acadêmico do Sul Global em Xangai) .

No tocante à desdolarização enfatizada pelos BRICS – executada com grande grau de sofisticação, sem explicitação direta – a Unit também será da maior importância. Também é relevante o fato de a Unit não ser uma criptomoeda.

Os mastodontes da Wall Street – em especial a BlackRock – são fortes em criptomoedas, um esquema enormemente instável que prejudica os acionistas individuais em favor dos grandes atores institucionais. Por exemplo, é a BlackRock que, essencialmente, dita as regras do mercado de bitcoins.

As stablecoins dos Estados Unidos, em essência, perpetuam o domínio do dólar americano – voltando seu poder de fogo diretamente contra futuras moedas digitais oferecidas pelos BRICS+.

A Unit é o exato oposto, oferecendo um instrumento monetário digital confiável para o rápido avanço do Mundo Multipolar. Ela é, em si, uma evolução, construindo uma ponte entre os mundos fiduciário e cripto. E por último, mas não menos importante, ela representa uma fundação sólida para o surgimento de uma economia pós Bretton Woods.

É claro que os desafios que a Unit encontrará pela frente são imensos – e ela será atacada com unhas e dentes pelos suspeitos de sempre como um novo conceito que oferece ao Sul Global/Maioria Global resiliência financeira independente de fronteiras.

E aqui temos o que talvez seja a principal conclusão: a única maneira de os BRICS+, como também a Maioria Global, saírem fortalecidos é o desenvolvimento de vínculos geoeconômicos e financeiros cada vez mais estreitos. Para tal, o poder tóxico do capital especulativo do Ocidente tem que ser contido – em benefício de mais comércio de commodities interno ao Sul Global e mais capital investível no desenvolvimento produtivo e sustentável.

O potencial é ilimitado. A Unit talvez seja capaz de desencadeá-lo. Até mesmo a JP Morgan admitiu que ela “talvez seja a mais sólida das propostas de desdolarização existentes no espaço das transações transfronteiras para os BRICS+.”

E não existe um plano de eficácia semelhante em lugar algum do mundo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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